– Mas hoje é sábado! — Uma voz falou do meu lado. Eu estava no refeitório. Eu tinha que fingir ser uma ótima aluna.

– To estudando. Segunda tem exercício pra nota, esqueceu?

– Eu sei. Mas não é difícil. — Fiz bico.

– Eu não entendo isso. — Isaac parecia achar graça. Ele sentou do meu lado e pegou meu bloquinho de anotações.

– O exercício é em dupla. Você vai fazer comigo porque sou o único calouro que você conhece.

– Não é por causa disso. Você foi o primeiro que eu falei.

– Que honra. Mas tá. Continuo sendo o único. Você não precisa se matar de estudar no primeiro fim de semana depois das aulas. — Deitei a cabeça em cima do caderno. Ele ficou me olhando. Dei um sorrisinho de canto. — Acho que você ficaria melhor morena. — Ri baixo.

– Ainda não formei uma opinião completa sobre isso. — Meu celular começou a tocar. Levantei a cabeça e o peguei, vendo quem era.

– Eu to na frente do seu prédio. Cadê você?

– Colin? — Perguntei pra ter certeza.

– Sou eu. Parece que você tá num estacionamento por causa do eco. — Levantei.

– Eu to na faculdade. — Isaac começou a ver minhas contas, mas eu sabia que ele estava prestando atenção. — Já volto. — Murmurei pra ele e saí do refeitório.

– Desde quando você tá na faculdade, Laura?

– É um disfarce. Eu to morando aqui. — Antes de falar, me certifiquei de que ninguém me ouviria. — Passa aqui pra pegar a chave. Não vou poder dormir em casa hoje.

– Quebro a cara de quem tentar dormir com você. — Revirei os olhos. — Esses caras de faculdade parecem cachorro no cio. E eu não estou exagerando. Conheço muito bem. Até porque eu vou ser um deles. — Ri. — To passando aí.

– Me avisa quando chegar. — Voltei pra perto do Isaac.

– Você tem um namorado? — Ele perguntou parecendo confuso.

– Não. — Falei rindo. — Era meu irmão.

– Achei que fosse só você e o Howard.

– Ele ainda tá no ensino médio. — Preciso avisar o Stevens que ele tem outro irmão. Isaac se rendeu e tentou me ajudar com cálculo. Eu até comecei a entender como chegar ao resultado, mas tinha muita preguiça de fazer contas. Até que meu irmão chegou. Colin estreitou os olhos conforme eu fui me aproximando. Depois, arqueou uma sobrancelha. Eu sabia que ele falaria do meu cabelo.

– Não comenta. — Falei e ele deu uma risadinha. Depois olhou pro Isaac. — Isaac, esse é meu irmão, Colin. Colin, Isaac. Ele é da minha turma.

– Pelo menos ele é bem mais parecido com você do que o Howard. — Isaac comentou. Colin deu um risinho, mas olhou pra mim tipo “wtf?”.

– Bom… Vou pegar a chave do seu apartamento. Espera aqui. — Fui pra república feminina torcendo pro Colin não esquecer que to disfarçada. Quando voltei, eles falavam de esportes. Típico.

– Pensei em almoçarmos juntos. — Colin fez um biquinho.

– Tenho que recolher meus livros lá dentro.

– Eu vou voltar pro meu quarto. Te encontro a noite? — Isaac perguntou pra mim.

– Uhum. — Recolhi meus livros e entrei no carro com o Colin.

– Encontrar a noite pra que?

– Vai ter uma festa dos veteranos e chamaram a gente. — Ele olhou pra mim. — Não sou uma universitária comum. Lembra?

– Quero só ver onde isso vai dar. O que vocês faziam sozinhos lá?

– Para de neura. Ele tava me ajudando com alguns exercícios. Colocaram na minha ficha que eu estudo engenharia. E matemática não é o meu forte. — Colin foi me contando como estavam nossos pais e a vida dele. Logo paramos em um restaurante. Ele estacionou o carro e entramos.

– Não vai se envolver com um universitário.

– Eu to lá a trabalho! — O lembrei.

– E como anda a investigação?

– Lenta. Espero conseguir algo na festa de hoje.

E dez horas lá estava eu saindo da república pra ir pra tal festa. Vários novatos falavam animados como achavam que iria ser, quem seria o menino mais gato, que queriam entrar pra fraternidade e mais um monte de coisas. No meio da multidão em frente ao prédio da fraternidade, encontrei o Stevens e o Isaac. Os dois já estavam com um copo na mão.

– Rápido vocês. — Falei e apontei pros copos.

– Você que tá atrasada. — Isaac me respondeu.

– Já rolou até dancinha em cima de mesa. — Stevens falou rindo. — Olha seu pretendente ali. Parece procurar alguém. — Olhei pro Adam. Assim que ele me viu, me chamou. Fui até lá.

– Quer? — Ele me ofereceu o copo que bebia.

– Agora não. Valeu.

– Achei que não viria.

– Não queria ser a primeira a chegar.

– E conseguiu. Foi uma das últimas. — Dei um sorrisinho sem graça. Ele pareceu achar graça. — Você tá linda.

– Obrigada. — Adam continuou conversando com os amigos. Eu me sentia deslocada ali. Ainda mais quando ele colocou a mão na minha cintura como se a gente tivesse alguma coisa. Amigo, não houve nem troca de saliva ainda.

– Vamos deixar esses babacas sozinhos e ir pra outro lugar? — Murmurei um “uhum” lá fomos nós. O prédio da fraternidade era imenso. Mas, mesmo assim, tinha gente em tudo quanto é lugar. — E agora? Vamos deixar pra amanhã de novo? — Arqueei uma sobrancelha. Aí me toquei que ele falava do beijo.

– Hm... — Ri baixo. A cada segundo que passava, ele chegava mais perto. — Acho que é uma boa hora. — Adam sorriu.

– Somos dois. Eu sei que você queria me beijar ontem. — Hm... Acho que não, hein.

– Não posso ser fácil assim.

– Eu sei que você não é. — Sorri de canto. Adam se aproximou mais e me beijou. E não é que ele beijava bem?! — Fiquei pensando em como seria seu beijo. — Ele falou baixo, mas nem tanto por causa da música. — Confesso que superou minhas expectativas.

– Acho que eu posso dizer o mesmo de você.

– Só que eu acho que tenho que experimentar de novo pra ter certeza. — Ri baixo e nos beijamos novamente. Ficamos nos beijando por um tempo e depois voltamos pra parte do prédio que estava mais cheio.

– Acho que meu irmão tá me chamando. — Falei pro Adam. Eu tinha que procurar evidências por ali.

– Não tá, não. Ele deve tá pegando alguém. Vamos dançar. — Ele tentou me convencer me abraçando por trás.

– Ele tá sim! Olha ele ali! — Acenei pra um lugar aleatório. — Eu já volto. — Dei um selinho nele e fiz ele me perder de vista entrando no meio da multidão. Decidi começar pelos quartos. No caminho, vi o Isaac se agarrando com uma veterana. O cutuquei. Ele abriu o olho ainda com a língua na garganta da menina. — Viu meu irmão?

– Ele deve tá fazendo o mesmo que eu. — Passei pelo casalzinho de 20 minutos e liguei pra ele.

– To no terceiro quarto. Vem pra cá. — Stevens disse e desligou na minha cara. Como sempre. Quando cheguei, ele já tinha vasculhado uma boa parte do quarto.

– Encontrou alguma coisa?

– Nada, ainda.

– Acho que seria muito óbvio se eles guardassem aqui. Viu se tem fundo falso? — Perguntei vasculhando gavetas.

– Sou profissional, Laura. Tão profissional que não fiquei com ninguém. Ao contrário de você.

– O Adam tem que confiar em mim.

– Desculpinha. — Revirei os olhos e continuei vasculhando. Quando passamos pro outro quarto, o movimento no corredor era maior. — Acho que as pessoas começaram a ficar podres de bêbadas.

– Você acha? Eu tenho certeza. — Vasculhamos mais um pouco até que o Stevens grita um “achei!”. — Mas ele é usuário.

– Vê a foto. Se ele for amigo do seu namorado, ele te leva até o fornecedor. — Olhei pra foto em cima da cômoda.

– Acho que ele anda com o Adam, sim. E o Adam não é meu namorado.

– Certo... Pega as amostras e vamos.

– E os outros quartos?

– Hoje não, loirinha. Quero aproveitar um pouco a festa. Você também podia aproveitar um pouco mais. Lembre-se: seja sociável! — Ele recolheu os pacotinhos e desceu. Eu fui logo atrás. Quando cheguei no cômodo principal da festa, Adam beijava outra menina. Que seja. Fui pra cozinha e peguei um copo com bebida.

– Sozinha? — Levantei a cabeça.

– Oi, Isaac. Pensei que ainda estivesse beijando a veterana.

– E eu pensei que você estivesse beijando o cara lá.

– O cara lá tá em outra.

– Ah... Mas acho que ele vai querer te beijar de novo.

– Obrigada, eu acho. — Ficamos em silêncio, bebendo.

– Você não gosta de festas, né? — Olhei pra ele.

– Não muito. Mas... Socializo. — Alguém chamava os calouros pra alguma coisa. Dividiram por cursos. E lá fomos eu e o Isaac juntos.

– Posso concordar em fazer quase qualquer coisa. Menos nadar pelado. — Ele resmungou enquanto íamos com um grupinho atrás de dois veteranos de engenharia. Um deles era o Adam. Ele sorriu pra mim assim que paramos. Acenei.

– Podem ficar tranquilos que não vai ser nada trágico. Eu e os outros membros do conselho conversamos sobre os testes. Nada foi humilhante pra nós e não é justo que seja com vocês. Não quero ninguém aqui aparecendo na seção policial do jornal. — Então, querido, não te garanto nada.

– Pra começar, eu só acho que vocês estão limpinhos demais. — Adam falou com um sorriso maroto nos lábios. Olhei pro Isaac e ele pra mim. A menina da ponta colocou o estômago inteiro pra fora. — Acho que ela não tá tão limpinha assim. — Ouvi uma risada nervosa da fileira de calouros. De repente, a risada foi substituída por gritinhos agudos. Uma chuva de ovos caiu sobre todos nós.

– Mas que porra! — Acabei soltando. Adam riu da minha cara. — Da onde veio isso?

– Lá de cima. — Ele respondeu.

– Primeiro desafio! — O outro veterano falou. — Arrecadar 300 dólares ao todo. Claro que não pegando o dinheiro de vocês. Não quero ninguém falido.

– Vamos fazer como, então? — Um menino perguntou. — Esperar cair do céu?

– Já ouviu falar em pedir dinheiro na rua? — Começou um burburinho.

– Não reclama. — Adam me falou. Quando eu ia perguntar o porquê, uma menina reclamou. Mais dois ovos foram atacados nela. — Vai ter recompensa. Relaxa. E o meu foi pior! — Eles levaram a gente pro lado de fora do campus.

– Pelo menos eles dão alimento. — Isaac estendeu o pacote de salgadinho na minha cara. Estávamos pedindo dinheiro fazia 2 horas, mais ou menos.

– To cansada. — Reclamei.

– 299! — Alguém berrou.

– 300 aqui! — Alguém gritou e eu dei graças a Deus.

– Peguei 50 pra gente. — Isaac falou baixo e eu soltei um risinho. — Nada mais justo.

– Sábado que vem vamos anunciar quem mais arrecadou. Depois, faremos uma social. — Adam falou pra todos. — O dinheiro vai ser usado pra isso.

– Tudo tem uma recompensa, novatos. — O outro falou guardando o dinheiro. As pessoas começaram a se dispersar. Adam veio até mim.

– Acho que você vai se dar bem.

– Se esse foi o primeiro, não quero nem saber dos outros.

– Relaxa. A faculdade tem regras sobre testes de fraternidade. — Ele passou os braços pelos meus ombros. Olhei pro Isaac.

– Você não vai pro campus? — Aí ele resolveu vir atrás de nós dois. Fomos andando até lá. Adam me deixou na república feminina e os dois foram andando para os seus quartos.