Universo Paralelo
9 Três Dias e Uma noite
Capitulo 9
Três Dias e Uma noite
— Como assim? – Perguntei me virando para a Luiza.
— Eu consegui traduzir as escrituras do medalhão do Pablo...
— Como conseguiu lembrar? – Pablo perguntou. – Você só o pegou uma vez.
— Gravo tudo o que eu vejo. – Ela falou sorrindo.
— Memória fotográfica. – Sussurrei.
— Memo o que? – Ela perguntou.
— Não é nada. – Falei ia demorar um pouco para poder explicar o significado da palavra. – O que tinha escrito no medalhão?
— É um tipo de ritual. – ela falou. – Vou ter que fazer uma pesquisa para saber melhor o que fazer.
— Então ficaremos em casa hoje. – O Yan falou. – Além do mais, não quero que ela apareça com a outra perna ferida. E então Thalia como feriu a perna?
Ele falou num tom desafiador.
— Já disse para deixar ela em paz. – Pablo falou.
— Foi só uma pergunta. – O Yan falou e me encarou.
— Fui mordida por um tigre. – Falei.
— Como conseguiu fugir do tigre? — O Yan perguntou
— Eu consegui subir no cavalo, mas ele nos alcançou e atacou o cavalo, por sorte acabou me mordendo. – Ele ainda achava que eu ainda era uma copia?
— Por sorte? – Pablo falou ironicamente. – Claro que é uma sorte sua perna estar enfaixada agora.
— Se o tigre tivesse atingido o cavalo, talvez nem aqui ela estivesse. – O Yan falou.
— Luiza, por favor, descubra logo como é essa cerimônia, quero voltar logo para meu mundo. – Pablo falou.
Ela assentiu e voltou para casa eu a segui.
— E então quanto tempo acha que ele consegue passar ali? – Perguntei apontando com a cabeça para Pablo.
— Acho que mais três dias. – Ela falou indo para o quarto, deixei o prato na cozinha e fui para o quarto dela. – Então até lá você já vai saber como fazer esse ritual?
— Acho que sim, mas pode ser que demore mais um tempo por causa dos preparativos é bem complicado. – Ela falou pegando o mesmo livro com escrituras e se sentando na cama.
— Melhor deixar você ler. – Falei e sai do quarto. Não sabia o porquê mais saber que ela iria demorar pareceu me alegrar um pouco, algo em mim queria ficar ali.
O sol estava forte e bem onde o Pablo estava, ele suava e seu rosto estava um poço rosado.
— Estamos no verão não é? – Falei e olhei para o Yan.
— Aqui sempre é verão – Ele respondeu com um tom de deboche.
— Como assim sempre? – Perguntei. – Não tem o outono o inverno nem primavera nesse mundo?
— Tem, mas não nessa região. – Ele falou.- Cada região tem um estado temporário, uma sempre verão outra sempre inverno e assim vai.
— Interessante. – Falei.
Passamos o resto do dia calados, estava escurecendo quando minha barriga roncou.
— Ei Thalia. – O Pablo chamou quando eu me levantei. – Você comeu não comeu?
Era isso eu não tinha comido nada o dia inteiro. Mas era tarde as coisas ao meu redor pareciam rodar e minha visão ficou turva.
— Thalia! – Eu ouvi a voz do Pablo, mas quando pensei que estava caindo algo me segurou. Esforcei-me para olhar o que tinha me segurado. O Pablo tinha um braço em minha cintura e o outro segurava a tora de madeira acima de nossas cabeças. – Yan chame a Luiza, por favor.
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Eu estava morrendo de sono e meus braços estavam doendo, eu já não conseguia deixá-los acima da minha cabeça. Era estranho como consegui arranjar forças para segurar a tora de madeira com uma só mão e a Thalia ao mesmo tempo.
— Ela está bem? – Perguntei quando a Luiza se aproximou.
— Está sim, ela só ficou tonta por causa da fome, tirando isso ela esta bem. – Ela falou sorrindo.
— Luiza pode me fazer um favor? — Eu tinha certeza que assim que acordasse a Thalia ia ficar aqui fora então... – Não deixa sair da casa.
— Deixa comigo. – Ela falou e voltou para casa.
Além do lampião que o Yan tinha pego estava tudo escuro, com certeza dali eu poderia ver as estrelas melhor do que no outro mundo.
— Conseguiu se acostumar com o peso em tão pouco tempo. — O Yan falou.
— Como assim? — Perguntei virando um pouco meu rosto para vê-lo.
— Se acostumou com o peso da madeira que conseguiu se mover rápido o suficiente para pega-la antes de cair no chão e além disso com somente uma mão segurando a tora. — Ele explicou.
Ele tinha razão eu não tinha reparado nisso.
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Acordei meio tonta deitada na cama da Luiza, que estava sentada numa poltrona com o livro preto com simbolos e um outro com capa de couro, nunca tinha visto um livro com capa de couro.
— Que bom que acordou. — Ela falou sorrindo, mas sem tirar os olhos do livro. — O Pablo estava pirando lá fora.
— Humm. Ele realmente conseguiu segurar aquela tora e me segurar? — Perguntei, e também ele conseguiu me pegar antes de eu cair e ainda segurando aquela tora de madeira.
— Sim. — Ela falou e fez uma careta. — Mas não sei se isso é bom ou ruim.
— Como assim? — Perguntei.
— Só tem dois dias que ele está lá e ja se acostumou com o peso. — Ela falou. — Ele levou menos tempo que o Yan.
— Haa entendi. — Falei.
Ficamos um tempo em silencio. O Yan teve o mesmo treinamento que ele esta dando ao Pablo, pensei por um segundo quem teria treinado ele, mas desistir de pensar nisso.
— Esse livro é um tipo de tradutor? — Perguntei.
— È foi com ele que eu traduzi os símbolos no medalhão do Pablo. — Ela falou. — Mas ainda tenho que traduzir uns livros para saber o que fazer exatamente e do que precisamos para fazer isso.
— Humm.
— Pode perguntar o que você realmente quer saber. -Ela falou sem me olhar, era estranho alguém me dizer aquilo mais estranho ainda ela saber que não era aquilo que eu queria perguntar.
— O que aconteceu naquela noite? — Perguntei. — Não me lembro direito o que aconteceu.
— Antes de você aparecer a Alexia assumiu sua forma ...
— Como assim minha forma? — Perguntei.
— Ela tinha a mesma aparência sua, como uma copia. — Ela explicou balançando a cabeça.
— Ha, e depois? — Perguntei
— Bom ela conseguiu enganar o Pablo e até mesmo a mim, mas o Yan é desconfiado. — Ela sorriu de lado e revirou os olhos como se lembrando de algo. — Ele sabia que aqueles caras iam se vingar de algum modo.
— Então isso tudo é por vocês terem nos salvado? — Olhei pela janela realmente a culpa de tudo isso estar acontecendo era minha. Além de trazer o Pablo para cá estou dando trabalho para a Luiza e o Yan, se eu não tivesse desobedecido ele e ficado dentro da casa...
— Claro que não! — Ela falou fazendo uma careta. — Aqueles caras nos odeiam dês de sempre. Eles raptam garotas para servirem ao rei.
— E o Príncipe? — perguntei por impulso.
— Não ele não se interessa por mulheres. — Ela falou voltando a olhar o livro. — Fica quase sempre no quartel.
— Príncipes num quartel?
— Não para um Príncipe General. — Ela falou
— E o nome dele? — Perguntei por curiosidade.
— Precisa descobrir sozinha. — Ela sorriu de lado como se estivesse se divertindo com aquilo. — Melhor você comer agora.
E quase que imediatamente um prato e talheres voaram em minha direção. Comi tudo o mais depressa possivel. A Luiza lendo era tão silenciosa que poderia duvidar que ela estava realmente lá.
— Vou falar com o Pablo. — Falei e voeei para a porta, mas assim que a atravessei a porta voltei para dentro do quarto. Parei por um segundo olhando a porta e atravessei de novo mas em vez do corredor eu estava de volta ao quarto.
— Ele pediu para não deixar você sair. — Luiza falou.
— E como ele vai comer...
— Ele vai conseguir, sei disso. — Falou e lançou um olhar pela janela.
Algo me dizia que ela não esta observando o Pablo. Ela parecia meio triste e preocupada. O prato e os talheres que eu tinha deixado em cima da cama tinham desaparecido, me joguei na cama e tentei dormir um pouco, mas todas as posições pareciam incomodas.
Levantei e comecei a andar pelo quarto, e de vez em quando olhava através da janela para ver como o Pablo estava. Eu ja tinha perdido a conta de quantas voltas tinha dado naquele quarto e estava pensando se o feitiço que a Luiza tinha jogado na porta também servia para janelas.
— Se lembra de que eu disse que te ensinaria magia? — Ela falou sem desviar do livro. — Enquanto não posso te ensinar nada na pratica que tal você também ler?
Ler sempre me acalmou, ela me entregou dois livros bem grossos e me entregou. Bom até eu ler os dois livros ia levar um bom tempo. Me deitei na cama e comecei a ler. Era estranho que aquele outro mundo tivesse a mesma língua que eu e o Pablo.
Eu estava tão fascinada com o que lia que nem mesmo percebi que já tinha anoitecido o que me chamou atenção foi uma trovoada seguida de um clarão e logo em seguida veio a chuva. Larguei o livro na cama e olhei pela janela.
Eles estavam debaixo daquela chuva, mas se você prestasse atenção percebia que os dois estavam bem secos.
— È fácil fazer isso é como um escudo. — Ela falou. — Mas se perder a concentração falha.
— E como consegue manter o escudo falando comigo e ainda lendo. — Perguntei.
— Fui treinada para manter o escudo até mesmo dormindo.
— Humm. — Tentei ler mais um pouco mas logo me cansei, acabei dormindo em cima dos livros.
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— Tem sorte pela Luiza e pela Thalia te ajudarem. — Ele falou mas não foi em tom de desafio nem nada parecido era como se estivesse se lembrando de algo que não queria, dava para perceber só de olha-lo. Ele ve virou para mim e percebeu que eu o encarava e seu rosto voltou ao de antes, sem expressões, sem emoções.
Suspirei e olhei pela janela do único quarto em que as luzes estavam acesas não conseguia ver claramente porque além da chuva o que nos protegia da chuva deixava minha visão meio borrada e destorcida, mas podia ver que alguém contra a luz do quarto e eu tinha certeza que era a Thalia.
Ela estava de pé e isso era bom pensei que ela estava pior que eu imaginava e que por isso não tinha vindo atrás de mim, mas parece que os métodos que Luiza usou para mantê-la dentro de casa funcionaram.
Estava cansado, morrendo de fome, meus braços e pernas estavam doendo e o peso que eu carregava parecia ficar mais pesado a cada segundo, mas eu iria aguentar eu tinha que aguentar.
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Quando terminei de ler os dois livros que a Luiza tinha me dado ja tinham se passado três dias e eu estava prestes a enlouquecer, as paredes daquele quarto pareciam me apertar ali dentro como se eu fosse grande demais para caber ali.
Também não conseguia ler nenhum livro, as palavras perdiam o sentido assim que eu começava a pensar em quanto tempo tinha se passado.
— Luiza eu tenho que sair daqui! — Falei.
— Ele disse para não te deixar sair. — Ela falou sem me olhar.
— Eu sei mas preciso ir lá. — Falei. — Juro que volto logo.
— Está bem. — Ela falou e fez um gesto para a porta a imagem do corredor ondulou e voltou ao normal.
Sai correndo pelo corredor e abri a porta e parei de repente. Em frente a porta uma garota de cabelos brancos tão longos que chegavam a tocar a grama, ela sorriu para mim.
— Quem é você? — Perguntei.
— Melhor tomar cuidado com seus sonhos Thalia. — Ela falou e algo pareceu corta-la, mas em vez de sangue ela desapareceu como uma nuvem.
— Sabe o que ela quer dizer? — O Yan falou
Cuidado com meus sonhos? Ela estava falando como se eu pudesse controla-los, mas de que sonho ela estaria se referindo.
— Não — Tecnicamente eu não menti nem mesmo sabia quem era aquela.
— humm. — Ele me olhou meio desconfiado e voltou ao seu lugar de sempre, sentado em baixo daquela arvore.
Andei até o Pablo, ele estava com olheiras e com certeza estava dormindo em pé. Eu estava tão preocupada com a fome que me esqueci que ele também deveria estar morrendo de sono, bom para isso ele arranjou uma solução.
— Des de quando ele está assim? — Perguntei ao Yan.
— Mais ou menos umas três horas. — Ele respondeu.
Me sentei em frente do Pablo, e estava decidida a esperar até ele acordar.
— Fique de olho nele, tenho que falar com a Luiza. — O Yan falou e voltou para a casa.
Com certeza ia falar com ela sobre a garota de cabelos brancos eu nunca fui curiosa, mas queria saber o que eles estavam conversando. Será que aquela garota era a tal Alexia que enganou o Pablo?
— Thalia. — Pablo falou abrindo os olhos.
— Pablo! — Me levantei. — E então como você tá?
— O melhor possível. — Ele falou e sorriu de lado. Eu ainda não entendia porque ele sorria quando eu sabia que nada estava bem. Ele tinha que ser sincero tanto comigo quanto com ele mesmo. — Onde está o Yan?
— Foi falar com a Luiza. — Falei e dei de ombros.
— Sabe o porque? — Ele perguntou olhando para a casa como se tentasse escutar o que estavam conversando.
— Provavelmente sobre aquela garota. — Falei.
— Que garota?! — Ele perguntou atônito.
— Não sei, não conheço. — Falei. — Ela apareceu do nada e quando o Yan a cortou ela desapareceu.
— Como ela era? — Ele perguntou.
— Ela era meio pálida e tinha os cabelos brancos...
— Thalia como nos conhecemos? — Ele perguntou me encarando serio.
— Eu ia ser atropelada e você me salvou. — Respondi. Então aquela era realmente a tal Alexia. — Não se preocupe não sou a Alexia disfarçada.
— Alexia? — Ele perguntou.
— Sim, a garota de cabelos brancos.
— E como a verdadeira Thalia saberia disso? — Ele perguntou ainda desconfiado.
— Passei três dias com a Luiza dentro de um quarto por sua causa. — Respondi já estava ficando com raiva.
— Ela é a verdadeira. — O Yan falou.
— Hummm.- Ele respondeu. — O que a Alexia estava fazendo aqui?
— Bom no máximo, dar um aviso a nossa Thalia. — Ele falou e se virou para mim — A Luiza quer falar com você.
— Daqui a pouco vou falar com ela...
— Como assim um aviso? — Pablo perguntou, podia ver a raiva no seu rosto.
— Depois conversamos. — o Yan falou e se sentou em baixo da arvore.
Me deitei na grama e fiquei observando o sol da tarde, lá parecia que sempre fazia sol.
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Eu estava me esforçando para não cair ali, minhas pernas tremiam e eu estava prestes a completar meu quinto dia de pé ali. Minha boca estava seca, meus músculos doíam e pareciam ter endurecido naquela posição.
A Thalia estava deitada bem entretida com o céu, o que comprova que ali deveríamos ter uma boa visão das estrelas. Era noite mas a lua estava tão brilhante que o Yan nem se seu o trabalho de pegar o lampião.
Minha visão estava ficando turva não ia aguentar muito tempo, e minhas pernas ainda tremiam.
— Cinco dias completos. — Yan anunciou. E então tudo ficou nublado.
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— Pablo! — Gritei quando ele caiu de joelhos.
— Não toque nele! — O Yan gritou.
— Como assim? — Gritei. — Ele acabou de desmaiar.
— Ele ainda está segurando. — Ele falou.
— Que se dane! Vou leva-lo para dentro. — Falei indo na direção dele.
— Disse para não tocar nele! — O Yan falou parando na minha frente
— Você não manda em mim! — Gritei. — Saia logo da frente.
— Sei que quando ele acordar vai querer saber que deu o melhor de si até o fim. — Ele falou.
— Ele deve estar morrendo de fome e sede! -Gritei e o empurrei sem sucesso.
— Você me obriga a fazer coisas que não quero fazer.
Ele falou e me puxou pelo pulso me jogando por cima do ombro, nem mesmo enxerguei aonde ele estava me levando, mas de repente estávamos de volta á mesma arvore onde o Pablo estava e simplesmente me amarrou a arvore.
— Te solto assim que ele largar a tora de madeira, eu sei que ele consegue aguentar.
— O que você sabe sobre ele? — Perguntei gritando. — Nem ao menos o conhece.
— Posso não conhece-lo, mas sei que ele consegue como conseguiu te segurar mesmo com a tora de madeira. — Ele falou e se sentou bem em frente ao Pablo.
Bufei não poderia fazer nada, não poderia fazer nada mesmo que estivesse desamarrada. Agora eu entendia o que o Pablo sentiu naquele dia não poder fazer nada enquanto alguém precisa de você.
Eu queria ter ficado acordada, mas o tempo passava e meus olhos pesavam mais e mais e acabei dormindo. Acordei com uma folha caída na minha testa. Tinha me esquecido que estava amarrada á arvore.
Pablo ainda estava de joelhos na grama, mas ainda segurava a tora de madeira, como ele conseguia? Mesmo inconsciente continuava segurando aquilo. O Yan estava sentado bem em frente ao Pablo esperando até que ele soltasse a tora de madeira.
— Quanto tempo eu dormi? — Perguntei.
— Bastante tempo, já esta quase amanhecendo. — Ele falou.
— O Pablo passou a noite inteira desse jeito? — Quase gritei.
— Sim. — Ele respondeu.
— Pablo! — Gritei, talvez se ele acordasse e soltasse aquilo o Yan me deixaria leva-lo para dentro. — Pablo!
— Meu deus garota vou ter que te amordaçar também? — Ele perguntou mas eu o ignorei.
— Pablo! — Gritei de novo. Tenho certeza que se gritasse no outro mundo do modo que estava gritando ali acordaria todo um quarteirão só com meu folego.
— Thalia? — Pablo sussurrou e abriu os olhos devagar. — O que houve?
— Solta isso Pablo! — Gritei. — Você não aguenta mais.
— O Yan não disse que eu teria que ficar em pé certo? — Ele perguntou e se virou para o Yan que negou com a cabeça. — Então continuarei segurando.
Ele parou por um segundo me olhando novamente, mas dessa vez percebendo algo que não tinha visto antes.
— Porque você está amarrada? — Ele perguntou.
— Ele me amarrou, para eu não te ajudar. — Falei apontando o Yan com a cabeça.
— Nunca pensei que fosse dizer isso depois de tudo, mas obrigado Yan. — Ele falou.
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O Yan soltou a Thalia assim que eu lhe agradeci, ele sabia que ela não tentaria nada depois do que eu tinha dito. Ela ainda mancava um pouco era melhor que ela ficasse dentro de casa.
Eu não sabia se tinha sorte ou não de ter continuado a segurar a tora mesmo inconsciente. Nem mesmo tinha forças para me levantar e as dores pareciam ter duplicado e mesmo tendo ficado inconsciente parecia sentir mais sono que antes.
Eu não ia durar muito tempo.
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Voltei para o quarto da Luiza que me esperava com uma cara emburrada
— Que parte do “volto logo” eu não entendi? – Ela perguntou.
— Desculpe. – Falei me sentando na beira da cama. – Não tinha planejado ficar amarrada a uma arvore a noite inteira.
— O que houve? – Ela perguntou parecendo preocupada. – O Pablo ficou inconsciente, mas ainda estava segurando a maldita tora de madeira e por isso Yan não me deixou ajuda-lo e me amarrou, mas não se preocupe ele já acordou.
— E como ele está? – Ela perguntou.
— Agradecido pelo Yan ter me impedido. – Falei. – Pode me dar outros livros para eu ler?
Já era de tarde e eu não sabia como ainda aguentava ficar naquela posição e segurando todo aquele peso. Eu estava tentando não pensar na dor, mas parecia impossível. Tentei pensar no que eu faria assim que saísse dali: Primeiro ia comer muito mesmo, e dormir um dia inteirinho. Pensar nisso amenizava um pouco mas não o suficiente.
Eu estava encarando a grama quando vi os dois pés em minha frente, fui subindo o olhar de vagar uma cicatriz na perna e o mesmo vestido preto que agora estava em melhores condições que a ultima vez que a vi com ela, não estava ensanguentado nem rasgado. Era estranho, mas segurava numa das mãos uma almofada.
Ela se sentou em minha frente totalmente seria e algo me dizia que ela ainda estava zangada comigo. Ela sentou na grama e colocou a almofada a alguns centímetros dela, e pareceu empurrar o vento.
Eu realmente estava confuso ao que ela estava tentando fazer quando em sua terceira tentativa a almofada vacilou e virou. Parecia que a Luiza também estava ensinando algumas coisas a ela.
Ficamos ali em silencio enquanto ela repetia o mesmo movimentos varias vezes, era estranho, mas com ela por perto eu simplesmente me esquecia da dor como se eu não tivesse passado seis dias de pé segurando aquela tora.
Senti uma pontada no braço direito a tora vacilou em minhas mãos, eu não tinha forças para segura-la com mais força e torci para que não caísse por fim ela se equilibrou.
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Teimoso, ele era muito teimoso. Poderia simplesmente soltar aquilo certamente não iria aguentar mais que seis dias eu tinha certeza.
Já estava anoitecendo, eu já estava cansada de treinar os movimentos que a Luiza me ensinou o máximo que eu tinha conseguido foi 3 voltas num único movimento.
Eu estava deitada com a cabeça na almofada. O sol desaparecia entre as copas das arvores quando eu ouvi um baque surdo. Me levantei num salto e ele caiu em cima de mim, ele tinha solto a madeira que jazia entre nós dois.
— Consegui. – Ouvi ele sussurrar e desmaiou.
O Yan o levou para dentro.
— Deixe ele no quarto em que eu estou dormindo. – Falei.
— Certo. – Ele falou sem expressão.
Yan tinha saído do quarto quando a Luiza entrou.
— Não se preocupe, ele vai ficar bem. – Ela falou. Tinha nas mãos duas garrafas com líquidos de cores diferentes, um verde musgo e outro rosa claro. – Quando ele acordar de um copo dos dois líquidos.
Ela falou colocando as duas garrafas no criado mudo quase no mesmo segundo que um copo voava para dentro do quarto e parava ao lado das garrafas de cabeça para baixo.
— Conseguiu traduzir tudo? – Perguntei antes dela sair do quarto parecia apressada.
— Sim, preciso falar com o Yan. – Falou e saiu do quarto.
Sentei no chão ao lado do criado mudo, queria parar de pensar em tantas coisas ao mesmo tempo. Queria saber o que a Luiza tanto queria falar com o Yan, e o que teríamos de fazer para voltar para nosso mundo, o que com certeza não seria nada fácil.
Mas o que mais me preocupava era que uma parte de mim queria ficar aqui. Eu não sabia o que aconteceria comigo quando voltasse ao outro mundo. Eu não conseguia me imaginar voltando para lá, mas eu não podia pensar só em mim. Olhei o garoto desacordado na cama pensei em como a mãe dele estaria preocupada com o filho que desapareceu na floresta no meio de um passeio, o que pensaria a equipe de procura quando encontrassem a caverna e as nossas coisas?
Sabia que ele queria voltar e essa era minha única razão para voltar, não queria ser egoísta com a única pessoa que se importou comigo. Depois de voltarmos com certeza arranjaria um modo de voltar. Acabei caindo no sono encostada no criado mudo.
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Eu já estava cansado daqueles sonhos malucos, mas em vez de vir seguindo aquele garoto loiro com ar autoritário eu estava dentro do mesmo quarto e a Thalia tinha correntes nos tornozelos e dormia numa poltrona, mas eu também não conseguia me mexer e ela parecia não me ver.
Não demorou para que o garoto entrasse no quarto, ele parou em frente a poltrona a observou por longos segundos e tirou as correntes de seus tornozelos. O que fez ela acordar e com o susto quase caiu da cadeira, mas o rapaz a puxou para ele.
— Quando pretende me dizer quem você é? – Ele falou se afastando um pouco dela. – E porque me chama em seus sonhos?
Então tudo ficou borrado e eu acordei.
Eu estava deitado numa cama, tinha esquecido que soltei a tora de madeira, a Thalia me deixou dormir no quarto dela. Mas onde ela estava? Olhei ao redor ainda deitado, mas não vi ninguém então me levantei e então toda a dor veio atona.
— Fique deitado. – A Thalia estava do meu lado me puxando para a cama. Ela olhou para o criado mudo e vi pelo canto do olho duas garrafas com líquidos coloridos um verde e outro rosa.
Ela encheu um copo com o liquido verde e me fez bebe-lo e logo em seguida o liquido rosa foi quase instantâneo todas as dores desapareceram. Sorri e me sentei na cama olhei a Thalia ela tinha os olhos vidrados e parecia ver através de mim.
— Thalia você está bem? – Perguntei me levantando, ela piscou duas vezes e me olhou por um segundo.
— Sim. – Ela quase sussurrou. – Volte para a cama.
— Não se preocupe eu já me sinto bem melhor. – Falei e ouvi sua barriga roncar. – Só com fome e sede.
Fomos para a cozinha, a casa estava silenciosa parecia que o Yan e a Luiza tinham saído. Na cozinha a mesa de madeira estava repleta de comida para minha sorte. Sentei na mesa e comecei a devorar o que vinha na minha frente, estava no segundo prato quando olhei para a Thalia, ela estava sentada na beirada da janela-porta olhava para a cozinha com um olhar vago.
O mesmo olhar que assistia as aulas na escola. Como se estivesse em pensamentos tão distantes que fosse difícil para ela mesma enxergar o que estava ocorrendo ao redor dela.
— Porque você esta assim? – Perguntei já chegando perto dela.
— Não é nada. – Ela respondeu. – Volte a comer.
Decidi não insistir e voltar a comer, depois que tivesse comido o suficiente falaria com ela. Olhei por cima do seu ombro e vi a Luiza e o Yan caminhando.
— Eles chegaram. – Isso pareceu acorda-la do transe. Desceu da janela-porta e foi em direção a Luiza a segui.
— Porque saíram repentinamente? – Ela perguntou para a Luiza.
— Precisamos de uma coisa para o ritual, que só se encontra no território da região congelada.
— E isso é muito longe daqui? – Perguntei.
— Sim, mas o maior problema é passar pela fronteira. – Ela falou. – E por isso o Yan decidiu ir sozinho. Além de ser rápido conhece a tal erva congelada.
— Estou indo. – O Yan falou para a Luiza. Ele estava com uma parte dum casaco de pele branco caindo para fora da bolsa de pano que estava jogada no ombro, estava com sua adaga na cintura. – Quanto mais cedo eu for mais cedo vou voltar
— Pegou tudo? – Luiza perguntou em quanto seguia ele até o cavalo marrom.
— Sim, não se preocupe comigo. – Ele falou e pela primeira vez vi o Yan sorrir, mas seu sorriso logo desapareceu. – Volto em dois dias.
Seu cavalo rinchou e partiu para a floresta.
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