Capitulo 6

Os irmãos

Eu estava me debatendo, o Pablo não tinha percebido. Joguei minha cabeça para traz que bateu com força em quem estava me segurando, ele soltou a mão da minha boca por um segundo.

— Pablo corre! – Ele se virou para mim, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa outro homem apareceu e girou com força o braço dele. Ele urrou de dor.

— Essa daqui é das boas. – O homem que estava me segurando falou. – Vamos conseguir um bom dinheiro com ela.

— Deixe-a em paz seu idiota! – Pablo gritou, mas logo em seguida o segundo homem lhe deu um soco na barriga que o fez cair de joelhos no chão.

— Pablo! – O homem me virou de frente. Ele era alto e largo tinha o cabelo preso em coque por uma fita.

— Você não vai querer ver ele apanhar vai? – Ele falou sorrindo zombeteiro. Eu o encarei com raiva.

A culpa era minha toda minha, eu que coloquei o pentagrama na rocha, eu que dei uma de garota indefesa na floresta e também naquela noite. O Pablo não tinha nada a ver com tudo o que estava acontecendo.

As suas mãos não estavam pesadas no meu ombro, ele não achava que eu fosse fazer qualquer coisa contra ele, mas assim que ele desviou o olhar para o segundo homem eu o soquei e pulei para longe dele.

Provavelmente o segundo homem se distraiu, pois logo em seguida Pablo estava do meu lado e já me puxava para dentro da floresta.

Por um segundo as cenas do meu outro sonho passou em minha cabeça, mãos me pegando em plena corrida na floresta, a floresta era uma má opção, mas no meu sonho o Pablo não estava comigo; Só havia duas explicações ou ele consegue fugir ou ele é pego antes de mim.

Eu estava torcendo pela segunda opção, quando o Pablo parou de repente.

— Continua correndo, eu ganho tempo para você. – Ele falou arfante.

— O que? – Falei olhando incrédula para ele. – Temos que continuar correndo!

— Vai logo! – Ele falou serio.

— Não, eu não vou! – Falei seria. – Não posso te deixar aqui depois de tudo isso!

— Pode e vai. – Ele falou pegando nos meus ombros me fazendo olhá-lo cara a cara. – Por favor, vou ficar melhor sabendo que você está bem.

— Eu não vou ficar bem! Você não entende... – Ele colocou o dedo em minha boca.

— Sei que vai. – ele falou sorrindo. – Sei que vai conseguir se virar.

E então houve o som de folhas e galhos secos sendo quebrados por pés rápidos. Ficamos paralisados por um segundo olhando para a direção em que veio o ruído.

— Vá! – Ele sussurrou. E então jogou a cabeça para traz e sorriu. – Eu vou ficar bem.

Olhei para ele uma ultima vez, mas não consegui sorrir de volta. Me virei e comecei a correr, como ele podia estar sorrindo numa situação dessas? E porque eu estava correndo? Sabia que ia ser pega de um jeito ou de outro.

Então era isso. No fim todo esse esforço não ia servir de nada. Seria bem mais fácil se ele me escutasse e nos nós rendêssemos. Enquanto eu corria aquele medalhão batia em meu peito, a culpa era toda minha.

Não queria realizar seus sonhos? Ir para um mundo desconhecido? Uma voz irritante falava em minha cabeça. Sim eu queria, mas nunca pensei que teria que levar o Pablo comigo e que logo que chegássemos aqui seriamos atacados. Isso não diminui a sua culpa.

Balancei a cabeça já ofegante. Por mais que eu tentasse escutar á floresta eu só podia ouvir a minha respiração irregular. Mas o que eu queria ouvir? Sabia muito bem que o Pablo não conseguiria se livrar daqueles dois sozinho.

Então porque o deixou sozinho? Sabia que era loucura mas talvez as mãos que me agarraram poderiam ser de uma outra pessoa uma que me ajudasse; Ou talvez aquele sonho fosse somente um sonho e eu conseguisse sair da floresta e encontrar alguém que pudesse me ajudar e ajudar o Pablo.

Era o que eu tinha que fazer sair da floresta! E como no sonho braços me pegaram me puxaram para longe da trilha em que eu estava. Minha boca estava coberta por uma das mãos dele.

Eu o encarei meio que assustada e ofegante. Mas para a minha surpresa não era nenhum daqueles dois caras. Ele parecia bem mais novo, e seu cabelo estava preso em uma trança por vários laços que caia em seu ombro.

Ele colocou o dedo na boca, para que eu fizesse silencio. Eu assenti e só então ele tirou a mão de minha boca. Ele estava agachado ao lado de uma arvore e parecia muito concentrado na trilha em que havia me puxado.

— Fique aqui. – Ele sussurrou. E então com um salto ele estava na trilha. De onde eu estava dava para ver uma boa parte da trilha mas por causa das moitas era difícil me ver sentada ali.

— Saia da frente! – Ouvi a voz do segundo homem. – Eu sei que ela foi por ai! Vocês não vão estragar tudo dessa vez!

— Eu não diria isso se fosse você Ruffls. – O garoto falou calmamente.

Porque aquele garoto estava me ajudando? “Vocês”? Porque ele estava usando o plural?

Os dois começaram um combate corpo a corpo, o garoto era bem rápido e era difícil vê-lo ele era como um borrão. Deveria ser o mesmo para aquele cara, ele parecia mais desnorteado do que eu.

Em fim a luta terminou com o Ruffls caído no chão. Pulei para fora do meu esconderijo. Fiquei por um segundo encarando aquele garoto, ele nem mesmo estava suado, muito menos parecia machucado.

Mas eu ainda tinha que ajudar o Pablo.

— Temos que ajudar o... – Comecei a falar, mas ele me pegou pela cintura e me jogou por cima do ombro. – Eiii!

— Não se preocupe, minha irmã está com ele.- Ele falou e começou a correr. – Assim chegaremos mais rápido.

Em menos de um minuto ele estava fora da floresta onde fomos atacados. A posição em que eu estava me dava enjôo fiquei aliviada quando ele me colocou no chão.

Não demorei em encontrar Pablo sentado em baixo de uma arvore.

— Pablo! – Falei e me ajoelhei ao lado dele.

— Thalia! – Ele falou e depois olhou por cima do meu ombro. – Obrigado.
Olhei para o garoto que apenas fez um aceno de cabeça. Olhei novamente para o Pablo foi então que eu percebi ele tinha a mão pressionada na barriga, mas isso não impedia de algumas gotas de sangue escorregassem por entre os dedos dele.

— Pablo o que aconteceu!? – Perguntei chegando mais perto dele.

— Nada de mais. Eu estou bem. – Ele falou e tentou sorrir, mas logo em seguida fez uma careta de dor.

— Você mente muito mal. – Falei.

— Não precisa se preocupar. – O garoto falou atrás de mim. – Tenho certeza que minha irmã vai curá-lo.

— Claro que vou! – A voz veio de cima da arvore, olhei para cima a tempo de ver uma garota saltar para a grama logo ao lado do Pablo.
Ela vestia um vestido branco curto e com mangas enormes que cobriam seus braços por inteiro

– Eu sempre consigo! Só preciso de um tempinho.

Ela se sentou na grama de pernas cruzadas e estendeu um pequeno pano, puxou as mangas do vestido, sem sucesso e então puxou o que parecia ser uma bolsa e começou a tirar coisas de dentro dela.

Primeiro uma pequena vasilha, depois um pequeno saco de pano e outras trez vasilhas; Uma tinha o liquido transparente a outra tinha um liquido tão azul quanto o céu e a terceira vasilha tinha um liquido tão vermelho quanto o sangue que escorria pelos dedos do Pablo.

Ela misturou o liquido azul e algumas folhas que tinha, dentro do saquinho de pano e a mistura começou a borbulhar como se estivesse fervendo, eu olhei para o Pablo, ele parecia tão impressionado quanto eu; Mas o garoto parecia entediado como se quisesse que aquilo tudo acabasse logo.

Voltei a olhar a garota agora ela colocava o liquido vermelho o que fez o borbulhar cessar, então ela tornou a mexer na bolsa e tirar uma tira de pano.

Ela pegou a vasilha com o liquido transparente e a tira e se ajoelhou ao lado do Pablo.

— Isso vai arder um pouquinho. – Ela falou e então sorriu de orelha a orelha. Ele tentou retribuir o sorriso, mas quando ela derramou o liquido no local ferido ele fez uma careta de dor.

Ela limpou a ferida e alem disso o liquido que ela jogou pareceu fazer com que o ferimento parasse de sangrar, então ela pegou a mistura e derramou em cima da ferida, que criou uma camada esverdeada em cima da ferida, a garota simplesmente passou um pano por cima do verde sem cuidado algum e embaixo da camada verde onde deveria estar o corte só tinha uma cicatriz.

— Eu devo ter feito algo errado. – A garota disse assim que viu a cicatriz. – Não deveria ter ficado assim!

— Pablo como você se sente? – Mas eu não precisei de uma resposta ele já estava se levantando.

— Estou ótimo. – Ele falou. E então se virou para á garota – Como você fez isso?

— Haa isso não é nada! – Ela falou passando a mão no cabelo e sorrindo. — Poções de cura são uma das minhas especialidades.

— Que precisam ser melhoradas, não acha? – O outro garoto disse.

— Aii mano porque você é sempre tão frio? – Ela falou fazendo um biquinho.

— Espera ai... Poções? – Falei.

— Sim poções. – Ela falou. – Da onde vocês vieram não haviam poções de cura?

— Não... – Olhei para Pablo por um segundo.

— Como vocês se curavam? – Ela perguntou atônita. – Não me digam que esperavam por vários dias até ele sarar naturalmente.

— Mais ou menos isso. – Pablo falou. – Obrigado por nos salvar.

— Preferimos agradecimento em dinheiro. – O Garoto falou.

— Dinheiro? – Dissemos eu e Pablo ao mesmo tempo.

— Isso mesmo dinheiro. – O garoto falou. – Não vão me dizer que não têm nada.

— Mano deixe de ser tão frio. – A garota falou se aproximando de mim. – Olha para ela magrinha não deve comer quase nada e além de tudo esse vestido não parece ser daqui, nunca vi ninguém vestida assim.

Ela pulou para perto do Pablo sorridente como sempre, e fez uma careta.

— Olha esse garoto mano! – Ela falou fazendo bico. – Ele ta sem camisa! Eles não devem ser daqui...

— Mas nós realmente não somos daqui. –Pablo falou. – E de dinheiro eu só tenho isso.

Ele estendeu uma nota de dez reais bem amassada.

— Que tipo de dinheiro é esse? – O Garoto falou pegando a nota da mão de Pablo.

— È uma nota de dez reais. – Pablo falou.

— De que cidade você veio? – O garoto falou devolvendo os dez reais. – Aqui esse pedaço de papel não vale nada, usamos moedas de ouro prata e bronze.

— Nós não viemos de cidade nenhuma, pelo menos não desse mundo. – Falei.

oo0oo

— Então você quer dizer que existe um outro mundo? – O garoto falou chegando perto da Thalia. – E como vocês chegaram aqui?

— Não sei explicar direito, mas foi depois que encontramos um medalhão dentro daquela caverna. – A Thalia falou.

— Se é assim onde estão os medalhões agora? – Ele falou levantando as sobrancelhas para ela.

Então a Thalia mostrou a estrela pendurada em seu pescoço.

— Os medalhões se separaram depois que o colocamos na rocha sem querer. – Falei e também mostrei a circunferência que estava em mim.

— Eu disse que era verdade mano, mas você nunca acredita em mim. – A menina falou fazendo uma careta. – A caverna é um portal, e eles não parecem demônios.

— Como assim? – Perguntei.

— Essa caverna é conhecida como a caverna do inferno, ninguém nunca se atreveu a entrar lá. – A menina falou, e correu para perto de mim. – Eu sou Luiza, e aquele é meu irmão o Yan.

— Eu sou o Pablo e aquela é a Thalia. – Falei meio que sem graça.

— Então realmente existe magia dentro dessa caverna. – O Yan falou.

— Aqui nessa região o pentagrama significa algo? – A Thalia perguntou meio pensativa.

— Nada de mais, só um símbolo de poder e magia. – Yan respondeu. – Mas esse tipo de coisa é melhor você falar com a Luiza, ela sabe mais que eu sobre magia e poder.

— O que mais você quer saber? – Luiza falou olhando a Thalia.

— Viemos parar aqui depois que eu encaixei os dois medalhões que formam um pentagrama, numa rocha que tinha o mesmo formato. Mas quando chegamos aqui os pentagramas estavam em nós e não conseguimos tira-los. Toda vez que eu o toco é como uma descarga elétrica. – Thalia falou, e olhou para mim, na verdade para meu medalhão.

— Incrível! – Luiza falou e se virou para mim. – E você consegue tirar o medalhão?

— Não, quando tento sinto uma falta de ar. – Falei. – Se não conseguirmos tirar os medalhões não iremos conseguir voltar...

— Não sei mas talvez haja algum tipo de inscrição que possa ajudar vocês. – Luiza falou sorrindo. – Mas enquanto não sabem como voltar, querem ficar com agente?

Yan a olhou serio e balançou a cabeça como quem diz: “Tanto faz”.

— Já vai escurecer. – Ele falou. – Vou buscar os cavalos.

Yan se levantou e sumiu entre as arvores Luiza esta muito ocupada olhando para o céu tingido de vermelho e rosa. Me encostei numa arvore ao lado da Thalia que observava o sol desaparecendo atrás do castelo e das montanhas. O castelo parecia tomar um tom vermelho sangue.

Olhei de novo para a Thalia, ela parecia pensativa. Não é todo o dia que seus sonhos e pesadelos se realizam. Estar ali era um sonho ou um pesadelo para ela? Ela olhou para mim, e eu encarei seus olhos, o castanho escuro tinha ganhado um tom dourado e claro que logo sumiu assim como o sol atrás do castelo que agora, era de um cinza escuro.

— Vamos? – O Yan estava parado ao lado da Luiza com dois cavalos.