Uninviting
3 Capítulo 2
Notas iniciais

Sento em meu lugar habitual. Uma das cadeiras bem em frente do quadro negro. Um lugar totalmente visível, porém ao mesmo tempo totalmente isolado de todos os outros já que todos preferem as cadeiras do fundo. Fingindo que pertencem a algum grupo achando que não são percebidos por todos ao seu redor.
O professor de história finalmente chega e entra na sala com a mesma cara de sempre. Um velho de cabelo ralo e grisalho com barba mal aparada e rosto gordo de bochechas rosadas. Já acostumado com o tom morto de cansaço de dar aula que começou depois da primeira semana de aula.
Toda classe começou a conversar assim que ele começou a divagar sobre a segunda guerra mundial. Observei as pessoas presentes na classe atentamente e depois olhei para Carol. Com ela não era diferente. Todos os seus ‘’amigos’’ riam de algo que ela falava. Provavelmente uma piada envolvendo o professor e a sua falta de ânimo para lecionar. Tive uma decisão que provavelmente eu não a tomaria se fosse antigamente.
Levantei-me na metade da explicação do professor que estava vermelho de tanto falar respirando pouco. Olhei para trás e fui em direção a Carol e seus seguidores. Sentei-me entre uma das cadeiras vazias ao seu lado esquerdo. Todos me encaravam como se eu fosse um intruso desconhecido em seu formigueiro. Carol apenas me olhava e dava um sorriso de orelha a orelha, quase malicioso e disse:
–Olhe só quem está aqui!
E continuou suas piadas sem pé nem cabeça que por hora me faziam rir.
Apenas encarei-a naquele momento. Não fazia ideia do que falar ou ao menos reagir as sua frase sem saber se ela estava sendo sarcástica ou não. Eu não fazia a menor ideia. Só sei que só por me deixar ficar lá ela já estava fazendo a parte dela. O que eu queria era ter dado tempo ao tempo e não ter brigado com ela por pelo menos sete meses e meio. Sete meses e meio que podiam ser utilizados em minha vida para eu ser feliz, ou pelo menos quase isso. Apenas um choque emocional forte poderia me fazer sair da matriz de meus sonhos em busca de algo real. A verdade, é que meu irmão morreu esse mês em um acidente de carro. Depois de duas semanas em coma. Sempre fico pensando se ele disse algo quando morreu físico e psiquicamente. Carol era a representação da morta para mim. Algo que nunca iria nem ira morrer em mim. Provavelmente, em meus devaneios de velho. Quando eu tiver mais de setenta. Ela aparecerá em meus sonhos e em meus flashbacks de vida de jovem e diria com aquele tom brincalhão e com o mesmo sorriso malicioso no rosto dizendo “quando você ficou tão chato?”.
Eu sabia que a aula iria acabar em pouco tempo. Mas havia tempos que perdi meu relógio. A escola havia retirado todos os relógios das salas há um ano e meio a trás para trocar o horário e até hoje não havia reposto. O único jeito de saber se a aula haveria acabado era o sinal barulhento que habitualmente tocava, mas dessa vez ele não tocou. Fiquei pensando quando o professor falou para nos retirarmos eu não tivesse ouvido, mas na verdade ele estava nos expulsando da sala. Na verdade expulsando apenas a mim por ter saído de meu lugar no meio de sua importante explicação que cairia na prova. Carol se levantou. Eu estava paralisado enfim, com o jeito como ela lidava com as coisas tão calmamente. E eu recomecei a pensar que se eu fosse amigo dela, nada me abateria e eu seria tão calmo e confiante quanto ela. Enquanto eu ficava encarando os dois como se não percebesse ou a menos entendesse o que estava acontecendo ela disse calmamente só que dessa vez seu lindo sorriso não estava em seu rosto e ela falava olhando para baixo:
–Se Alexander vai, eu também vou, ele se levantou por minha causa.
A verdade é que nem eu nem mesmo o próprio professor estávamos esperando por isso. Para ser sincero acho que o professor só a tirou também porque quanto menos gente atrapalhando talvez uma ou duas pessoas prestasse atenção e iriam bem às provas e trabalhos.
Eu e ela nós retiramos, ela com passos longos e eu com curtos encolhidos ela abrindo um sorriso a partir do momento em que ela saiu da sala e eu apenas a encarando tentando entender o seu complexo de pessoa sério-honesto — engraçada-desleixada. Eu não compreendia e duvido que um dia a compreenderia o seu jeito de ver um mundo que vai apenas a seus desejos e fetiches. Ela se sentou no banco de concreto com sua mecha de cabelo castanho caído em seu olho esquerdo e os olhos fechados parecendo tentar meditar. Fiquei olhando para ela, sem conseguir falar nada, as palavras sufocadas. Presas no vácuo de meus pulmões que me dificultava cada vez mais de respirar.
Em um momento ela abriu os olhos e se espreguiçou e eu vi que ela me encarava e disse algo como “por que este tão quieto?” e tentou puxar assunto eu a olhava, encarava, olhava para baixo de novo e não conseguia falar. Ela cansou em algum momento. Também e disse “me segue”, quase de pronto me levantei e fui atrás dela. Já sabia aonde iríamos. Obviamente no local aonde todos iam para cabular aula. Ela abriu o portão semiaberto a e tomando cuidado para não faze-lo ranger, quando entrei ela o fechou, puxou uma caixa de cigarros de alguns de seus bolsos junto com um isqueiro e perguntou se eu queria um. Aquele era meu primeiro cigarro, talvez devesse ter falado não, mas naquele momento eu só tinha forças para dizer sim. Ela acendeu dois um ela colocou na boca e outra ela me deu, eu hesitei por um momento e o coloquei na boca. Eu nunca tossi tanto na minha vida, faltava mais ar ainda em meus pulmões e eu desesperadamente tentava parar de respirar. Ela apenas ria e me perguntou se esse era o meu primeiro. Quando assenti ela riu mais ainda. Até hoje não entendi aquele momento e porque ela riu tanto e de repente, com tudo girando eu também ri até perder o ar de meus pulmões de novo e de novo sem perceber o tempo passar.
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