Unintentionally
7 Showing the claws
Notas iniciais

O caminho até o meu apartamento foi silencioso, pois eu não conseguia pensar em nada para falar, apenas lançando algumas espiadas ocasionais para o seu rosto, que também não parava de me observar, provavelmente esperando que eu tomasse alguma atitude. Mas isso não é algo tão simples, ainda mais quando você é alguém como eu.
Eu simplesmente não conseguia encontrar nem um pingo de coragem, nenhuma coisa que pudesse fazer ou falar parecia ser boa o bastante para ela. O medo de fazer algo idiota me dominava, um medo irracional e tenebroso que poderia levar o único relacionamento “amoroso” nos últimos anos para o brejo. Então, decidi ficar quieto até chegar ao apartamento.
Abri a porta e, quando me virei para deixá-la passar, Judy simplesmente pulou em cima de mim e começou a me agarrar, enlaçando as suas pernas e braços ao meu redor. Ela parecia um animal selvagem, e logo começou a tentar me beijar ferozmente, mas como eu sou um belo de um idiota, fiquei sem reação. Afinal de contas, como que uma garota daquelas havia parado no meu apartamento? Logo no meu?
Logo ela perdeu a força e começou a escorregar, e eu acabei largando-a no chão. Com um baque, ela caiu e eu me joguei no sofá, sem forças suficientes para continuar em pé.
— Ei, cara, qual é o seu problema? – Judy irritou-se e se levantou, sentando ao meu lado – Isso foi estranho. Parece até que nunca ficou com ninguém...
Já tinha ficado sim, mas nunca com um animal selvagem.
— Desculpa – foi a única coisa que consegui dizer, tão baixo que nem mesmo eu consegui ouvir direito. Ficamos ali parados por algum tempo, evitando olhares. Ela parecia estar chateada, e com motivo, é claro, mesmo se jogando em cima de mim como um macaco. Porém, de repente, todo esse clima passou, ou pelo menos para ela.
— Ei, Kurt, me desculpa por antes, tá? É que eu estava desesperada, por que... – ela fez uma pausa, se aproximando e encostando a cabeça em meu ombro. Eu senti o meu rosto ficando vermelho, a temperatura subindo – eu estou gostando muito de você, Kurt. É sério, acho que estou apaixonada por você.
Meu Deus. Aquilo não podia estar acontecendo. Eu tive vontade de explodir e gritar, de sair correndo pela rua, de ligar e contar tudo para o Scott, mas sabia que aquele não era o momento certo para essas coisas. Era o momento de tomar alguma atitude e mostrar para aquela garota que eu não era um simples nerd ingênuo.
Porém, como sempre, tive que estragar tudo.
— Eu... Eu acho que também estou... Não, eu... Quero dizer – as palavras não saíam, nada conseguia sair de meu cérebro a não serem esses vestígios de que eu ainda não tinha desmaiado. Eu simplesmente e novamente não sabia o que dizer, não encontrava as palavras certas para responder aquilo. E foi então que saiu a bomba que me fez se auto-odiar o resto da semana inteira– Eu acho que te amo.
Ela parecia estupefata. Ficamos nos encarando por algum tempo, e foi nesse momento em que percebi que não devia ter falado aquilo, que estava claro que não era verdade, pelo menos para mim (pode ser que eu seja um bom ator e a tenha convencido realmente de que a amava). Mas aquela era uma ideia completamente equivocada e inesperada, afinal, nos conheciamos a poucos dias e tinhamos saido apenas uma vez, naquele mesmo dia, e as coisas não estavam indo tão bem assim.
— Kurt, isso... Eu não sei o que dizer – sua voz estava trêmula.
— Nem eu – a minha também.
— Isso... Isso foi muito rápido, Kurt. Nós nem fizemos nada e... Olha, eu estou indo – Judy se levantou e caminhou rapidamente até a porta. Repentinamente, um pingo de coragem apareceu e eu também me levantei. Corri até ela e segurei o seu braço antes de abrir a porta.
— Não, por favor, fica aqui – até eu mesmo me surpreendi com essa atitude.
— Ficar aqui? Para quê? Para nós ficarmos nos olhando sem fazer nada até que você resolva tomar alguma atitude? Ou até eu me cansar e pular em cima de você como antes? Isso cansa, sabia? – seu rosto foi ruborescendo com a raiva, e eu dei um passo para trás, com medo de que ela realmente pulasse em cima de mim, mas para me socar e não para... Você sabe.
— Desculpe-me, Judy. É que eu sou meio tímido, sabe?
— “Meio tímido?” Você só pode estar brincando comigo. Você é completamente tímido, e não é tudo o que eu estava esperando. Na verdade, não passa nem perto disso – sabe como isso doeu no meu coração? Sério, parecia que eu tinha levado um tiro — E esse papo de estar apaixonada? Pode esquecer. Eu não quero nunca mais olhar para a sua cara.
Eu soltei o seu braço e fiquei ali, olhando para baixo. Não consguia olhar para o seu rosto, não conseguia sequer me mover. Pensaria que meu coração havia parado se não o tivesse escutado batendo. Eu a escutei abrindo a porta, mas não a fechando, e vi seus pés se virando.
— Finalmente está mostrando as garrinhas, não é, Judy? Estava pensando em quanto tempo demoraria... – aquela voz sarcástica e espalhafatosa pertencia a alguém com quem eu mais precisava conversar sobre aquilo: Scott. E foi nesse momento que me lembrei do que tinhamos combinado mais cedo, de que ele viria para a minha casa para ajeitarmos as coisas dele para a mudança – É melhor você sair daqui e nunca mais mexer com o meu melhor amigo, senão aquelas fotos que você mandou para o Brad vão aparecer nas redes sociais, e aposto que você não quer que isso aconteça.
Levantei a cabeça a tempo de ver a garota correndo em volta das malas do Scott – que por sinal eram muitas – e indo direto ao elevador que ainda estava aberto, provavelmente por causa dele. Seu rosto estava completamente vermelho agora, e olhava para ele com uma expressão de puro ódio.
— Parece que o seu encontro foi muito legal, cara – disse Scott, entrando rapidamente com duas grandes malas em cada uma das mãos e deixando todas as outras no chão ao lado da porta. Largou-as em cima do sofá e se sentou – Certo, o que diabos aconteceu?
E contei tudo para ele sobre o encontro e o jeito como ela se jogou em cima de mim, e toda a confusão que veio depois disso. Sua expressão foi de risonha para raivosa durante a narrativa.
— Cara, você vacilou falando aquilo que falou, mas ela vacilou muito mais com você. Na verdade, eu já imaginava que isso ia ocorrer, mas estava esperando para ver o que ia acontecer antes de te contar. Na verdade, a Judy... – ele começou depois que terminei de falar, mas eu o interrompi. Já estava cansado de pensar nela por aquele dia inteiro.
— Ei, quer saber? É melhor deixar isso pra lá. Vamos arrumar todas as suas coisas e o seu quarto primeiro e outra hora nós conversamos sobre isso.
— Tudo bem, cara, mas já vou avisando que eu ainda não trouxe nem metade das minhas coisas para cima. Deixei o resto na recepção para podermos pegar depois.
Olhei para a porta que ainda estava aberta e para todas aquelas caixas e malas que entupiam a entrada do meu apartamento, amarrotadas de coisas do Scott. Iríamos ter muito trabalho pela frente, e por isso fiquei desanimado. Eu só queria deitar na minha cama para sempre e nunca mais falar com nenhum ser humano.
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