Unintended

42 Capítulo 41 - O Fim


Notas iniciais
Olá de novo!!! Eu tentei o melhor que pude pra terminar esse capítulo antes de Outubro acabar mas... Acabou não rolando. Felizmente, ainda tinha um tempinho antes de entrar em provas e, era agora ou nunca, se eu não postasse agora, só ia sair no final do mês. Então, de certa forma, to orgulhosa por ter conseguido ficar mais ou menos da deadline! To muito feliz com esse capítulo, é o mais longo de todos, espero que vocês gostem :) A propósito, eu queria dedicar esse capítulo pra minha querida leitora Smitchkoff, que eu fiquei sabendo que faz aniversário em algum dia desse mês de novembro e não sei qual. Queria te dar de presente o capítulo final de Unintended, em troca de todos os comentários maravilhosos, mensagens e recomendação. Você é maravilhosa e eu sou infinitamente grata por todo o carinho. Então parabéns atrasado, ou certeiro, ou adiantado! haha Até lá embaixo!

A lua ainda estava distante do ápice quando o casal começou a avistar as muralhas do castelo que prometiam lhes devolver a sensação de conforto e de segurança que apenas um lar era capaz.

Era uma distância considerável a percorrer desde a caverna que servira de esconderijo durante a batalha até ali, de forma que Rin ficou extremamente feliz ao averiguar que Ah-Un permanecera no mesmo lugar onde ela o havia deixado naquela manhã, o que a poupava de ter que ser um incômodo para Sesshomaru e fazê-lo ter que carregá-la. Por mais que ele não deixasse transparecer, ela sabia só de olhar para ele que o dia havia sido especialmente exaustivo para o general inu.

Rin montou Ah-Un durante todo o percurso e, embora eles pudessem ter acelerado o trajeto se tivessem escolhido ir voando, acabaram preferindo a familiaridade de uma boa caminhada, como nos velhos tempos.

Mesmo com tudo o que havia acontecido, a humana sentia-se estranhamente renovada, nenhum músculo em seu corpo demonstrava qualquer sinal de cansaço. De fato, ela não conseguia se lembrar da última vez em que se sentira tão... Viva.

Seu estado energizado contribuiu para alimentar mais do que o normal a necessidade de manter uma conversa enquanto andavam pelas florestas escuras do Oeste, mas, só agora que começavam a se aproximar de casa, ela percebeu que estivera praticamente falando sozinha em um diálogo unilateral. Sesshomaru apenas andava ao seu lado, a cabeça voltada para frente, os lábios cerrados em sua usual expressão enigmática.

Ela corou, envergonhada com o comportamento inconveniente. Era óbvio que o youkai estava cansado demais para dar ouvidos às suas baboseiras agora e ali estava ela, perturbando-o por todo aquele tempo. Rapidamente, ela tratou de se calar, deixando que Ah-Un seguisse o resto do caminho para o castelo de acordo com a própria memória, com as rédeas afrouxadas.

— Está com sono? — Sesshomaru perguntou de repente, sobressaltando-a. — Estamos quase chegando.

Era a primeira vez que ele dizia algo em um bom tempo, justamente quando ela havia decidido deixá-lo em paz.

— Estou bem. — Respondeu com honestidade.

— Você ficou quieta, de repente.

Ela riu, sem graça, com a observação. Tinha quase certeza de que ele nem a estava ouvindo mais àquela altura.

— Perdão, eu não queria incomodá-lo.

Sesshomaru continuou andando, ainda com toda a atenção focada no caminho à frente, enquanto ponderava a ironia do que ela dizia. Se ao menos ela soubesse o quanto havia sido perturbador pensar que nunca mais ouviria aquela voz alegre de novo...

— Continue. — Ele pediu, sem conseguir evitar. — É agradável te ouvir falar.

O sorriso de Rin aumentou com aquela declaração, o coração se aquecendo um pouco mais. Estava prestes a atender ao pedido de seu senhor e continuar o tópico anterior — o que será que serviriam para o jantar quando eles chegassem em casa? -, quando a postura de Sesshomaru mudou repentinamente, fazendo com que as palavras dela acabassem presas na garganta.

O inuyoukai parou, os ombros se erguendo, o queixo levantado como um cão que acaba de detectar alguma coisa. Rin quase fechou os olhos, rezando para que não tivessem mais problemas naquela noite. Depois de tudo o que haviam passado, não seria pedir demais.

Mas, para o alívio da humana, a figura que se revelou por entre os galhos retorcidos dos arbustos foi um desajeitado meio-youkai, que quase caiu para trás quando seus expressivos olhos dourados se conectaram com os igualmente surpresos dela.

— Inuyasha! Que susto que você me deu! — Ela protestou, imediatamente repousando uma mão sobre o peito em uma tentativa de acalmar o coração acelerado.

A expressão dele conseguiu ficar ainda mais chocada diante daquela fala, quase indignada.

Eu?! Você é uma morta-viva e eu que te assustei? — Inuyasha revidou, antes de balançar a cabeça para organizar os próprios pensamentos caóticos. — Aliás, o que diabos aconteceu com você?

Rin soltou um suspiro pesado, já prevendo quantas vezes teria que contar a mesma história naquela noite. Felizmente, o marido intercedeu para poupá-la.

— Isso não te interessa, Inuyasha. — Cortou ele, rispidamente, em seguida adicionando a própria pergunta. — O que você está fazendo aqui fora?

— Ué, não é óbvio? Eu senti o cheiro da Rin e tive que vir ver o que estava acontecendo aqui.

— Sempre metendo seu focinho onde não é chamado.

Antes que os dois irmãos pudessem engajar em mais uma de suas famosas discussões desnecessárias, Rin tratou de se colocar entre eles, saltando da montaria e apoiando a palma da mão gentilmente sobre o peito de Sesshomaru.

— Inuyasha, — Ela disse, voltando-se para o cunhado e lhe lançando um sorriso. — Eu estou de volta agora. É só isso que importa.

O hanyou estava prestes a argumentar, quase se deixando levar pela curiosidade de saber como aquilo podia ser possível quando ele tinha visto o cadáver dela com os próprios olhos apenas algumas horas atrás. Mas apenas aquela mera lembrança trágica foi o suficiente para fazê-lo deixar de lado os detalhes sórdidos e apenas puxar a humana desavisada para um abraço abrupto, mas extremamente acolhedor.

— Mas que droga Rin, que maldito susto que você me deu. — Ele murmurou, enquanto ela ria.

— Me desculpe... — Foi tudo que ela conseguiu sussurrar, deveras tocada com o gesto de carinho tão inesperado. Definitivamente não era típico de Inuyasha demonstrar preocupação tão abertamente — ele e o irmão tinham isso em comum, embora ela jamais fosse ousar compará-los em voz alta -, e Rin estava realmente honrada de ser alvo dessa pequena situação tão atípica.

— Rin, — A voz grave de Sesshomaru quebrou a atmosfera quando ele a chamou, já alguns passos na frente, com as rédeas de Ah-Un na mão. — Vamos.

Rapidamente, ela tratou de desfazer o abraço, se apressando para não ficar para trás, convidando Inuyasha com um gesto da cabeça em direção à silhueta do castelo na escuridão da noite.

Rin não sabia bem o que estivera esperando ao finalmente atravessar os portões gigantescos que davam acesso ao amplo pátio do castelo do Oeste. Mas, de alguma forma, ela não esperara o silêncio constrangedor que encontrara, com todos os olhares possíveis a encarando fixamente como se estivessem vendo nada mais, nada menos, que um fantasma.

O pátio estava tão silencioso que ela duvidava que até mesmo Sesshomaru pudesse ouvir alguma coisa, mesmo vindo de dentro das paredes. Parecia que não havia absolutamente alguém sequer respirando ali.

Não tinha muita certeza sobre o quanto as notícias sobre sua morte haviam se espalhado àquela altura, mas sabia que, no mínimo, os guerreiros estavam não só cientes, como muitos deles testemunharam o momento exato em que o seu coração havia parado de bater.

E agora não tinha a menor ideia de como iria explicar para toda aquela gente o que realmente havia acontecido. Se é que deveria.

O silêncio era tão constrangedor que ela quase considerou simplesmente passar direto por todos eles e se esconder no castelo o mais rápido possível.

Entretanto, antes que pudesse tomar essa decisão, alguém finalmente se pronunciou, com um sonoro anúncio que podia ser ouvido mesmo à distância, tanto que Rin sequer conseguia ver quem havia falado.

— Ela está viva!

E foi apenas o que bastou para que o pátio inteiro se derramasse em caos, as vozes se misturando em berros similares tanto em conteúdo quanto em euforia. Por todos os lados, só se podia ouvir anúncios exaltados de sua ressurreição.

Ela sorriu com a recepção emocionada, mais do que nunca feliz de estar em casa. Porém, honestamente, ficaria mais feliz ainda se pudesse tomar um bom banho e ver sua filha.

Tendo esse objetivo em mente, tratou de avançar pela multidão, com a ajuda de Sesshomaru e Inuyasha que vinham logo ao seu lado, escoltando-a até os portões de entrada do castelo, onde os outros servos curiosos com todo o barulho já tentavam ter um vislumbre do que estava acontecendo ali.

Logo uma criada em especial abria caminho por entre as outras figuras, os olhos negros da youkai lontra nunca pareceram tão enormes e brilhantes do que no momento em que viu a imagem da ama ali de pé.

— Senhora Rin! — Ela exclamou em choque, a voz quase não saindo. — Mas a senhora… Me disseram que a senhora…

Os sussurros se seguiam ininterruptos, com comentários repassados de um servente para outro:

— Sim, os soldados disseram que foi apunhalada-

— Foi bem na barriga. Eles viram tudo-

— Morreu lá no campo de batalha mesmo-

Aquele zumbido todo já estava deixando Rin um pouco zonza, até que Sesshomaru finalmente intercedeu em seu favor, sua voz poderosa infalível em restaurar a ordem no salão de entrada.

— Façam silêncio e voltem ao trabalho. — Comandou, antes de acrescentar uma ordem especial para Asai que ainda permanecia congelada pela descrença. — Você, ajude Rin com o que ela precisar.

— Eu acho que deveríamos ter uma comemoração. — Rin se viu sugerindo impulsivamente, o que lhe rendeu um olhar repreensivo do marido.

Sesshomaru realmente gostaria de dar aquele dia por encerrado o quanto antes. Mas, ao encará-la e ver seus brilhantes olhos castanhos tão animados com a ideia, a relutância recuou gradualmente até que ele se voltou aos servos que o olhavam com expectativa, esperando uma resposta à proposta com uma certa ansiedade.

— Vocês a ouviram. — Disse ele, finalmente. — Preparem os festejos.

A humana lhe lançou um sorriso radiante antes de sair arrastando Asai pelos corredores.

O que Rin não podia comprar com aqueles sorrisos, afinal?

xXx

Rin fechou os olhos ao sentir a água morna banhar sua pele, deixando escapar um suave suspiro de satisfação com os movimentos circulares da esponja que Asai passava em suas costas. Estavam em seu antigo quarto, que havia sido mantido com parte de seus pertences para os dias em que preferisse dormir sozinha — o que nunca acontecera até então — e, aos poucos tornava-se o quarto do bebê, embora não houvesse sinal de Miyuki ali no momento.

— Eu ainda não entendo, Rin. — A criada insistiu, interrompendo o relaxamento da senhora. — Todo mundo pensou que você tivesse morrido na batalha.

— Um monte de coisas aconteceram na batalha. — Ela disse, fazendo pouco caso, em uma tentativa de evitar explicações mais complexas. — E eu não fui a única a se salvar da morte.

Ela ainda ficava maravilhada ao lembrar do cenário mágico que havia sido Sesshomaru usando a Tenseiga para reviver seu exército após o ataque surpresa. Depois do que os guerreiros haviam visto naquele dia, não deveriam realmente estar surpresos com a ressurreição da senhora do Oeste.

Antes que Asai pudesse pressioná-la com mais perguntas, a porta se abriu com um estrondo, sobressaltando as duas fêmeas no cômodo. A humana rapidamente tentou cobrir o corpo nu com as mãos por instinto, mas relaxou ao ver que era apenas Kagome.

A sacerdotisa, por outro lado, não parecia nem um pouco calma, enquanto se apressava para a banheira, tentando afastar Asai do caminho com uma mão e abrindo uma sacola de pano com a outra.

— Com licença, ela precisa de cuidados urgentes! — Kagome disse, usando sua voz autoritária para tentar manter a situação sob controle, embora ela mesma estivesse uma pilha de nervos. — Rin, você está bem? Fique calma, vou fazer um curativo agora mesmo!

A mais nova tratou de contê-la quando Kagome tentou erguê-la da água para ter acesso aos seus supostos ferimentos.

— Kagome! Eu estou bem! — Afirmou. — Não precisa de curativo.

Kagome a olhou como se não tivesse entendido uma palavra do que a menina havia acabado de dizer, os olhos azuis ainda assustados. Mas, ao analisar melhor a paciente, verificou que, realmente, por baixo da água levemente turva com resíduos do banho, Rin exibia um abdômen impecável.

De fato, se a miko não soubesse, seria impossível dizer até mesmo que aquela mulher havia dado à luz uma criança apenas alguns dias atrás, não fosse pelos seios inchados de leite no lugar do que antes costumava ser um busto bastante moderado.

— Eu sei que parece impossível, mas está tudo bem. — A voz de Rin agora era tranquilizante e suave. — Os danos foram apagados.

Aquilo apenas pareceu deixar a sacerdotisa ainda mais confusa, mas aos poucos ela foi se aquietando, permitindo que o coração voltasse ao ritmo normal.

No momento em que ficara sabendo que Rin havia de alguma forma sobrevivido, soube que precisava imediatamente cuidar dos ferimentos gravíssimos da amiga, ou ela acabaria não resistindo. Aparentemente, os cuidados não seriam necessários.

— Mas… Como…?

— Não importa agora. — Rin respondeu, a felicidade óbvia estampada em seu rosto. Ela se levantou da banheira, dando-se por satisfeita com o banho. Asai rapidamente se moveu para colocar uma toalha limpa e macia sobre os ombros da jovem humana. — Vamos ter uma festa e eu não quero falar desses assuntos melancólicos.

— Uma festa?

Kagome não havia sido informada daquele evento em sua afobação com as notícias mais urgentes.

— O que planeja vestir, Rin? — Asai perguntou, pretendendo começar a deixar sua senhora apresentável para a comemoração.

— Algo alegre. — Respondeu, determinada.

— Hmm, eu não acho que tenha trazido roupas apropriadas… — Lamentou a sacerdotisa, facilmente aderindo ao tópico festivo.

— Pode pegar meus quimonos emprestados. — Rin ofereceu, antes de refrasear rapidamente. — Não, melhor. Me faça um favor e leve alguns de presente. Eu tenho mais do que conseguirei usar para o resto da vida e eles continuam acumulando.

Kagome riu com aquilo, imaginando onde ela usaria um quimono como aqueles que Asai já estava trazendo como opções de possíveis escolhas. Não era todo dia em que era convidada para uma festa em um castelo de um senhor youkai.

Rin só conseguia pensar em como até poderia precisar de todas aquelas roupas agora que tinha toda a eternidade pela frente para usá-las, mas sabia que mesmo assim o fluxo em que eram entregues novas peças no castelo toda semana ainda era demais para uma única mulher. Mesmo que essa mulher fosse a senhora do castelo.

Asai se ocupou de aprontar ambas as humanas, demorando um pouco mais do que de costume devido ao trabalho dobrado. Por outro lado, as conversas bem humoradas e fluidas entre as três ajudou a tornar tudo bem mais agradável.

Os tópicos abordados eram leves e familiares, e Rin não demorou a questionar a sacerdotisa a respeito do paradeiro de sua filha, descobrindo, para seu alívio, que a recém-nascida encontrava-se perfeitamente adormecida, em um futon no quarto de hóspedes que Kagome e Inuyasha estavam ocupando durante sua estadia ali.

Com a consciência tranquila de que Miyuki estava devidamente vigiada pelas empregadas que Kagome deixara com ela antes de sair correndo para socorrer a amiga que pensara estar correndo perigo de vida, Rin pode finalmente seguir para o pátio, a fim de se juntar a todos para uma noite de comemorações em nome da vitória do Oeste.

A lua era alta no céu lá fora, cintilante sobre o cenário festivo que se estendia por todo o grandioso castelo abaixo. Um leve nevoeiro começava a se formar com a baixa temperatura madrugada adentro, o que concedia às luzes acesas no pátio uma aura difusa que se espalhava pelas partículas suspensas no ar.

Era como andar nas nuvens, Rin pensou, quando caminhava com seus pesados quimonos desaparecendo por baixo da camada rasteira de névoa branca que rodopiava preguiçosamente pelos ares com cada movimento de seus pés.

Seus olhos varreram o espaço, passando por cada rosto que lhe sorria em saudação, procurando por aquele único que certamente não estaria sorrindo. E os olhos dourados sérios que se cruzaram com o dela no meio daquela inspeção eram, sem sombra de dúvidas, mais belos do que qualquer sorriso que pudesse receber. O simples gesto a fez sentir um pouco mais quente, mais acolhida. Mais amada.

Não podia deixar passar despercebido, como era claro, que toda a figura estonteantemente majestosa e deslumbrante de seu senhor Sesshomaru era, facilmente, a coisa mais bela em todo aquele castelo decorado. Ele estava como ela o reconhecia agora, elegantemente vestido e impecável.

Sem hesitar, caminhou até o gracioso daiyoukai que a esperava pacientemente do outro lado do pátio. As pessoas ao longo do percurso ainda tinham os olhos grudados nela e enchiam a atmosfera com perguntas sussurradas que eram ao mesmo tempo intrigadas e maravilhadas. Mas a humana só tinha foco para um único ponto e, quando seus dedos finalmente chegaram perto o suficiente para se entrelaçarem nos dele, ela quase deixou escapar um suspiro apaixonado.

Mas uma necessidade mais urgente fez com que a atenção de Rin saltasse abruptamente para um outro tópico, de forma que a primeira coisa que ela disse ao parceiro foi:

— Quando vamos comer? Estou morrendo de fome!

Sesshomaru ergueu uma sobrancelha perfeitamente desenhada, questionando a escolha de palavras dela. Rin havia sido educada bem o suficiente para começar com, no mínimo, um “boa noite” para os comandantes que estavam ali bem ao seu lado e ela sequer parecia ter visto.

A humana apenas continuou o observando com grandes olhos ansiosos, realmente esperando uma resposta para sua pergunta.

Ele simplesmente ergueu a mão dela e a apoiou em seu antebraço, em seguida conduzindo-a elegantemente até a mesa posta. Desde o casamento dos dois, Rin havia feito um hábito que os jantares fossem oferecidos ao ar livre, embora a temporada de chuvas e de neve tenha obrigado o novo costume a cessar por algum tempo.

Havia ainda muitas mesas periféricas à principal, em um esforço de acolher quaisquer dos habitantes do Oeste que decidisse juntar-se a eles para o banquete, mesmo aqueles cujo status nunca foi permitido tal regalia antes do governo de Rin.

A senhora do Oeste sentou-se em seu lugar usual, à direita do parceiro, convidando todos os outros ocupantes a mesa a tomarem os seus lugares também após a tradicional reverência de saudação.

Ela lembrava-se com certa nostalgia da primeira vez em que havia participado de um daqueles jantares, logo que chegou. Como havia ficado nervosa. Naquela noite recebera mais olhares hostis do que em toda a sua vida. Todos a odiavam apenas por ser quem ela era e nada mais e, até hoje, ela se assustava com a capacidade que as pessoas tinham de sentirem-se dessa forma.

Mas agora, enquanto os primeiros pratos não eram servidos, a humana não via mais do que olhares amigáveis e respeitosos em sua direção. Normalmente não a encaravam tão diretamente assim — não mais -, mas parecia que naquela noite ninguém conseguia evitar.

— No dia de hoje, — Sesshomaru começou repentinamente, de imediato atraindo a atenção de todos para a sua direção, na cabeceira da mesa. — Conquistamos a derrota de um inimigo que há muito tinha contas a acertar com o Oeste. Hoje, a escória dos nossos opositores pagou por cada uma de suas transgressões. Pelo assassinato de minha mãe; assim como o de Hayashi e muitos outros guerreiros; por invadirem nosso território e; também, por atentarem contra a vida de minha esposa, Rin. Por essa vitória, hoje nós celebramos, não somente pela vingança, mas também pelo privilégio de podermos continuar a desfrutar da companhia daquela que veio a se tornar um símbolo de orgulho para essas terras.

Rin vergonhosamente enrubesceu quando ele gesticulou em sua direção após a última fala, reprimindo o primeiro impulso de se encolher em seu assento e, em vez disso, ajustando sua postura para algo mais apropriado para alguém em sua posição. Estava prestes a fazer um agradecimento que certamente sairia desajeitado, mas os ruídos de comemoração dos presentes acabaram por abafar sua oportunidade de fala.

Ela se contentou em permitir que a euforia se espalhasse à vontade enquanto os pratos eram trazidos, sendo igualmente dominada por aquele sentimento que aquecia o seu coração de formas que não podia explicar. Todos começaram a trocar parabenizações entre si, a respeito dos desempenhos na batalha, até que um dos guerreiros se dirigiu ao general inu:

— Senhor, eu sabia que a salvaria com aquela magnífica espada. — Disse ele, com um tom de orgulho e alegria. — Centenas de mortos voltaram à vida em plena batalha, por que não faria o mesmo pela nossa senhora?

Exclamações admiradas soaram diante daquela revelação, os comentários se espalhando à medida que as pessoas começavam a achar que estavam entendendo melhor o que havia acontecido, afinal.

— Seus tolos, não é nada disso! — Jaken interrompeu, sua voz característica facilmente atraindo atenção para a pequena figura que apresentava uma pose superior de quem detém toda a sabedoria do mundo. — Saibam que o senhor Sesshomaru já usou a espada Tenseiga para salvar a senhora Rin muitos anos atrás, tanto que pouco depois ela voltou a falecer e a espada já não funcionava mais. E foi sua honorável mãe quem salvou a vida dela então.

Ambos os anfitriões encararam o pequeno servo com olhares insatisfeitos, sem ter muita certeza se a divulgação daquelas informações era deveras necessária. Kagome e Inuyasha, que já haviam ouvido aquela mesma história da boca da própria Rin há tempos, eram os únicos que não estavam absolutamente surpresos, muito embora ainda parecessem realmente intrigados em saber como a ressurreição mais recente havia se desenrolado, no fim das contas.

De imediato as teorias começavam a ser discutidas livremente, com mais vozes se sobrepondo umas às outras em calorosos debates que se estendiam por todas as mesas.

— Mas como? Morta três vezes?

— Será que é mesmo apenas uma humana?

— Uma desafiadora da própria morte…

— Incrível!

— Eu nunca vi nada parecido…

Rin não conseguia evitar sentir-se um pouco constrangida com a situação caótica. Justamente quando pensara que havia deixado de ser motivo de escândalo naquele castelo, lá ia ela de novo se tornar o centro de todas as atenções da forma mais inusitada possível.

Sesshomaru não deixou de reparar no desconforto da parceira e, ele mesmo não sendo o maior apreciador de falatórios, rapidamente tratou de abafar as discussões.

— Já basta de comentários. — Declarou, irredutível. — A humana diante da qual vocês se encontram agora é mais do que vocês conseguem ver, ou sequer compreender. Não há sentido em especulações.

Prontamente, o silêncio se instalou por todo o ambiente, sendo logo substituído por apenas o suave som de inúmeros hashi contra a louça, enquanto os convidados comiam calmamente. Mas, embora não ousassem mais verbalizar sua curiosidade, os convidados ainda olhavam para a humana com inquestionável admiração.

Certamente, em suas mentes, todos ainda se perguntavam o que era aquela fantástica criatura.

A noite progrediu, serena, e logo o jantar estava terminado, mesmo com toda a fartura, pela qual Rin era mais do que grata. Não se lembrava da última vez em que havia comido tanto.

Aos poucos as pessoas voltaram a se espalhar desordenadamente pelo salão, conversando entre elas amigavelmente, dessa vez sobre assuntos mais cotidianos que não envolvessem as polêmicas sobre Rin.

Sesshomaru fazia o mesmo, casualmente discutindo com seus homens a respeito das despesas com as batalhas. Ele mantinha a humana bem ao seu lado, muito embora ela não parecesse nem um pouco interessada nos assuntos debatidos.

Logo, ele também começava a perder o interesse, à medida que sentia uma das mãos dela discretamente subir por seu braço, os dedos delicados passando por baixo dos tecidos de suas vestimentas, percorrendo por sua pele gentilmente.

O daiyoukai a encarou de soslaio, questionando a distração que passou despercebida pelos outros. Ela apenas lhe sorriu, o que provocou um efeito muito mais significativo do que o supostamente inocente toque dela.

Aquela festa já havia durado o suficiente, na opinião dele. O dia já havia durado o suficiente.

Era hora de encerrar a noite. E ele pretendia fazê-lo da melhor forma possível.

— Continuamos a tratar disso amanhã. — Informou ele, abruptamente cortando o que um dos homens estava dizendo.

— Anh, é claro. — Um deles respondeu, enquanto todos se curvavam à retirada dos soberanos. — Tenham uma boa noite, senhor, senhora.

Sesshomaru não ofereceu resposta, conduzindo Rin para dentro antes que pudessem dizer mais alguma coisa.

Com a concentração dos habitantes no pátio, o interior do castelo encontrava-se incomumente vazio, silencioso e escuro.

O frio que passava pelas paredes finas apenas intensificava a sensação que calor que o corpo de Sesshomaru emanava enquanto Rin andava abraçada a um dos braços dele, seu rosto pressionando-se no tecido que lhe cobria o bíceps.

O casal não era dado a demonstrações físicas de afeto fora da privacidade de seus aposentos, mas, com a oportuna ausência de quaisquer espectadores nos corredores desocupados, o youkai se permitiu envolvê-la pela cintura a fim de mantê-la ainda mais próxima.

A humana suspirou em contentamento com a proximidade que apenas aumentou a transferência de calor entre os dois corpos. Ela o olhou de lado, uma provocação clara ardendo em seus olhos amendoados que foi o suficiente para que Sesshomaru a empurrasse contra a parede mais próxima e cessasse de uma vez por todas qualquer espaço que pudesse ainda restar entre eles.

Sem pestanejar, ele a beijou com ardor e intensidade, sentindo a maciez característica dos lábios dela como a mais nobre das sedas. O calor do corpo dela, o som do sangue acelerado correndo pelas veias, a cor apetitosa se espalhando pela pele dela… Tudo aquilo fazia parte de um conjunto que provava, se ainda houvesse qualquer sombra de dúvidas, que a mulher que detinha seu coração estava viva bem ao seu lado. E ele não tinha planos de deixá-la escapar de suas garras mais uma vez.

Antes que Rin pudesse se recuperar da surpresa o suficiente para tirar algum proveito da situação, ele rompeu o beijo, embora o restante dos corpos permanecesse colado. Sesshomaru repousou a testa sobre a dela, sua respiração agitando levemente os finos fios de cabelos negros que adornavam o rosto feminino. Ela mordeu o lábio inferior em expectativa por mais contato, uma mão se erguendo para brincar com a abertura do haori interno que ele vestia.

— Continue com isso e nós não chegaremos ao nosso quarto. — Avisou ele em uma voz baixa que saia quase como um sopro.

— Isso seria um problema, senhor? — Rin questionou, provocativa, ainda ofegando com a euforia do beijo recente. — Tem tantos quartos desocupados nesse castelo…

O youkai ergueu uma garra solitária, pousando-a levemente sobre a bochecha dela e, em seguida, traçando um lento percurso descendente pela lateral do pescoço.

— Eu estava pensando nesse corredor mesmo. — Disse ele, deixando os lábios pairando sobre os dela, de forma que Rin pudesse sentir cada palavra que ele pronunciava como carícias em seu rosto.

A humana sorriu, em parte constrangida com a proposta ousada — tinha certeza que seu rubor descia pelo pescoço até o colo naquele momento — e, em parte, impossivelmente excitada. Ela podia sentir agora as cinco garras do parceiro se apertarem ao redor de sua cintura, ao mesmo tempo em que contribuíam para mantê-la ainda mais encurralada entre a parede e o corpo de seu senhor.

Sesshomaru estava prestes a tomar os lábios rosados dela em mais um beijo, mas Rin sabia que se deixasse que ele fizesse o que queria, não seria capaz de resistir e impedir que aquele sombrio corredor acabasse mesmo por se tornar cenário de suas paixões naquela noite.

Além disso, havia ainda uma última coisa que gostaria de fazer antes de entregar-se de uma vez por todas aos braços do amado.

Gentilmente, ela o afastou com a palma da mão, empurrando-o o peito.

— Devíamos ir dizer boa noite à Miyuki primeiro. — Explicou, antes que ele pudesse questionar o motivo da interrupção.

Aquilo pareceu chamar a atenção do youkai, que a olhou com um certo humor superior contido por trás da expressão tipicamente séria.

— Então você finalmente está deixando que as babás façam o trabalho pelo qual elas são pagas, para variar um pouco?

Rin o olhou com indignação, mas a expressão só durou por um curto instante antes de se dissolver em mais um de seus calorosos sorrisos.

— Só hoje. — Prometeu, como uma criança que pede por apenas um doce antes do jantar.

O daiyoukai recolheu as mãos, finalmente libertando-a da prisão que havia criado. E Rin escapou como um pássaro em liberdade, rapidamente saltitando corredor adentro, a mão do parceiro firmemente entrelaçada à sua enquanto ela o guiava até o paradeiro de Miyuki.

Havia requisitado que a criança fosse movida para o próprio quarto, a fim de dar à Kagome o merecido sossego depois de ter abusado tanto da boa vontade da sacerdotisa.

O casal deslizou a porta o mais silenciosamente possível quando alcançaram o destino, a cabeça de Rin entrando pela estreita fresta para espiar o interior confortavelmente escuro do cômodo.

Em um canto, sentada sobre uma almofada, uma criada, chamada Maiko, dobrava os lençóis limpos do enxoval da recém nascida.

No esforço de manter o silêncio necessário para o descanso de uma criatura com audição tão bem desenvolvida, a criada apenas se curvou em cumprimento ao senhor e senhora do Oeste.

Sesshomaru e Rin finalmente entraram, a humana tomando a frente e seguindo até o centro do quarto, onde o elegante cesto de Miyuki era disposto, seguramente posicionado sobre um felpudo tapete e cercado pelas mais macias almofadas protetoras, mesmo que a criança adormecida ainda fosse nova demais para correr o risco de cair.

Rin sorriu docemente ao observar seu bebê no mais profundo e tranquilo dos sonos, o corpo quase completamente invisível pelos mantos que a envolviam, deixando de fora somente o rosto com as bochechas gordinhas e rosadas.

— Sono pesado. — Sesshomaru comentou, mantendo a voz baixa, reconhecendo que qualquer filhote de inu teria despertado, mesmo que parcialmente, ao ouvir ou farejar pessoas novas por perto.

A humana o olhou por cima do ombro, já que ele se debruçava sobre ela para ver o conteúdo do berço. Quase havia esquecido que, com toda a loucura de organizar as batalhas com tanta pressa, o marido mal havia passado um dia inteiro com a filha. Ele nem ao menos sabia que a atividade favorita de Miyuki era mesmo dormir como se não houvesse mais o que se fazer naquela vida.

Era triste que ele tivesse sido privado daqueles primeiros dias mágicos de descoberta, devido à sua obrigação hierárquica como general dos inuyoukai. Mas, por outro lado, Rin estava feliz de tê-lo ali agora, juntos, como uma verdadeira família deve ser. Os obstáculos estavam no passado, e agora a pequena Miyuki podia dormir em paz, sem temer por seu futuro.

E Rin podia ter o esperado tempo a sós com o seu amado, como já não podia mais esperar.

— Vamos indo, senhor Sesshomaru. — Ela disse, em um sussurro. — Eu já disse à Maiko para me chamar se o bebê acordar. Então, a menos que queira correr o risco de sermos interrompidos, eu sugiro-

— Vamos. — Ele comandou no mesmo instante, abominando a ideia de não conseguir o que pretendia naquela noite apenas porque sua teimosa esposa não conseguia abdicar completamente, por um único dia que fosse, de suas tarefas maternas.

Rin obedeceu de imediato, apenas parando para um cordial aceno de boa noite à Maiko, antes de desaparecer pela porta e corredor afora, ao lado do parceiro.

Naquela madrugada sem fim, parecia que eles estavam o tempo inteiro fugindo de alguém, em busca da companhia somente um do outro. Logo, foi um alívio tremendo para ambos quando, por fim, eles se viram fechando quase que desesperadamente a porta de seus aposentos matrimoniais.

De imediato, estavam novamente nos braços um do outro, a atração tão inevitável quanto a primavera antes do verão. Braços envolviam corpos, mãos tocavam peles, vozes sussurravam nomes e, no fim, lábios beijavam lábios.

Receber mais um beijo de Sesshomaru, para Rin, era quase como receber novamente o sopro da vida. Invadia seus pulmões, acelerava seu coração, enchia-a de energia que se dissipava por cada uma de suas terminações nervosas, até terminar nas pontas do dedos que apenas ansiavam por tocar cada centímetro da pele perfeita dele.

E ela procurou logo colocar os planos em ação, tratando de usar suas mãos ansiosas para despi-lo do elegante haori de inverno e, enquanto ela se ocupava das múltiplas roupas que o cobriam, o inu avançava sobre seu pescoço, a língua umedecendo sua pele era brasa em forma de carícia.

Rin não conseguiu evitar o som de prazer que escapou por sua garganta enquanto ele a beijava ali, sobre o ponto de pulsação que fazia seu sangue ferver até que suas roupas de inverno se tornassem insuportáveis.

Em um movimento abrupto, ela o livrou das última camada de tecido que ainda escondia a pele alva de sua vista faminta e, uma vez revelada a nudez do peitoral masculino, suas mãos não perderam tempo em seguir tateando como se ainda houvesse mais que pudesse arrancar.

Sesshomaru rosnou contra a pele dela, em resposta aos toques ousados que se espalhavam por seu corpo. Ele fechou os olhos, sentindo a unhas inofensivas dela desenharem as delineações de seus músculos abdominais com a ferocidade de um artista no ápice da inspiração.

Não podia deixar de pensar em como acreditara que não mais teria a oportunidade de senti-la contra si daquele jeito novamente e, naquele momento, ainda era difícil absorver a realidade de que teriam todo o tempo do mundo para explorarem um ao outro. No entanto, naquele instante, naquela noite nublada de fim de inverno, não parecia tempo o suficiente.

Ele voltou a tomar posse dos lábios dela, ambas as mãos segurando-a pela nuca para garantir que não pudesse escapar. Não que ela estivesse tentando.

A humana apenas correspondeu com a mesma avidez, a mesma sede insaciável, incessante. Suas mãos apressadas continuavam a se aventurar pelo abdomen do parceiro, apenas descendo em uma viagem cega até encontrarem um dos laços que prendiam a peças inferiores que ele vestia.

Os dedos desfizeram os nós rapidamente e Sesshomaru se viu perguntando-se quando sua inocente Rin havia se tornado tão ousada. Em apenas um instante, o daiyoukai encontrava-se perfeitamente nu na escuridão do cômodo.

Aquela garota ainda seria o seu fim, ele sabia. Mas, naquele momento, não se importava. Naquele momento, ele queria ser o fim dela.

Rin evadiu os seus lábios, tomando um fôlego com dificuldade enquanto olhava nos olhos dele com um olhar flamejante de um amante necessitado. Não sabia o que havia dado nela, mas não podia ignorar essa necessidade de beijá-lo por inteiro, de provar cada parte dele.

O poderoso youkai não perdeu tempo em despir a esposa, nem um pouco satisfeito com a situação presente em que o corpo dele era o único em estado de nudez naquele cômodo.

Ele desavergonhadamente apelou para suas habilidades sobrenaturais e, antes que a humana pudesse perceber, estava nua e estirada sobre o futon do casal, de barriga para baixo.

Rin tentou brevemente erguer a cabeça para que pudesse ver o parceiro atrás de si, mas sua tentativa foi rapidamente frustrada quando o mesmo a restringiu, a mão forte voltando a pressionar a lateral de seu rosto contra o travesseiro macio.

De um ângulo que a pobre visão periférica da fêmea não conseguia alcançar, Sesshomaru debruçou-se sobre ela, os lábios tocando a orelha dela por trás, a voz grave e séria pronunciando um aviso que soava digno de ser dirigido a um inimigo em batalha:

— Não mova um músculo sequer.

Partindo dali mesmo, ele desceu pela nuca da humana desamparada, deixando o peso de seu corpo depositar-se sobre ela apenas o suficiente para que ela se sentisse pressionada, garantindo que seus quadris se postassem exatamente no ângulo certo para que ela pudesse perceber com clareza o estado em que o deixara.

Ele lhe mordeu a pele ao alcançar a junção do pescoço com o ombro e Rin inevitavelmente tremeu em alarme, uma mão instintivamente se erguendo para tocar o local atingido e, em seguida, sendo rigidamente posicionada de volta sobre os lençóis por um punho firme que lhe envolvia o pulso.

— Você não escutou o que eu disse? — Sesshomaru questionou, ameaçador.

— Ouvi, senhor. — Ela sussurrou em resposta, a voz difícil de sair ao senti-lo tão enlouquecedoramente perto. Ele voltou a pressionar levemente a pele dela entre os dentes perigosamente afiados, como uma segunda chance para que se comportasse, e Rin não pode evitar o som de deleite que deixou escapar por entre seus lábios firmemente apertados. — Me desculpe.

O daiyoukai assentiu em aprovação, prosseguindo com sua jornada, descendo por entre as omoplatas proeminentes e seguindo fielmente o caminho definido pela coluna vertebral. Uma vez satisfeito com a umidade que seus beijos deixaram para trás, ele se ergueu, cedendo espaço para que agora fossem seus dedos a fazerem o percurso.

Os olhos dourados a observavam com atenção exclusiva, procurando por qualquer sinal de que ela fosse perder o controle de suas reações novamente. A humana respirava impossivelmente rápido, mas, fora isso, permanecia perfeitamente imóvel enquanto o dedo indicador do inu encontrava o objetivo final entre as pernas dela.

E, no instante em que ele a tocou ali, todo o cuidadoso momento de restrição se desfez em mil pedaços, quando a humana sentiu todo o corpo chacoalhar com o choque de sensações que se espalhava por todos os seus sentidos.

Sesshomaru quase deixou escapar um sorriso vitorioso ao ver sua fêmea tão vergonhosamente perdendo o pequeno jogo que estavam fazendo. Apesar de ter sido ele a ditar as regras que ela agora falhava em cumprir, isso apenas lhe dava uma desculpa para continuar a torturá-la como retaliação.

E foi o que fez, ao intensificar o ritmo com o qual manipulava o corpo dela, trazendo à tona todo o calor que havia no interior, fazendo-o brotar pela pele, se espalhar pela voz dela quando ela chamava seu nome em desesperadora aflição.

O efeito que eles tinham um sobre o outro não seguia nada que não fossem as regras da natureza mais primitiva e indomada e, na natureza, após o calor intenso sempre vinha o frescor da chuva. E com Rin não era diferente.

Ela se derramou nas mãos dele, o prazer parecendo lhe transbordar por todos os poros, evaporando por sua respiração entrecortada.

Finalmente, o youkai permitiu que ela se virasse, o que ela rapidamente fez, buscando todo o oxigênio que seus pulmões pudessem alcançar. Ele apenas a observou por um instante enquanto deixava que ela se recuperasse, os olhos hipnotizados pelo corpo sedutor que o fazia salivar.

Delicadamente, ele acariciou o ventre que subia e descia com frequência acelerada enquanto ela respirava. Aquele ventre havia gerado uma vida apenas dias atrás, sido covardemente aberto com uma lâmina apenas horas atrás e, ainda assim, permanecia ali em perfeitas condições, como todo o resto da mulher que desafiara tantas vezes as regras mais básicas da mortalidade.

Sesshomaru se questionava se um dia deixaria de ficar maravilhado com o milagre que ela era, cada pedaço da existência dela. As chances eram boas, já que tinha muito tempo pela frente para se acostumar, mas, mesmo assim, algo lhe dizia que todo o tempo do mundo ainda não seria o suficiente.

Rin não estava ainda completamente recuperada do prazer estarrecedor, mas, apenas de sentir as mãos de seu senhor voltarem a acariciá-la, mesmo que fossem apenas toques calmos e aparentemente inocentes, foi o suficiente para trazê-la de volta à urgência de suas necessidades.

Ainda estava longe de satisfeita, ainda não saciara o mais primário de seus desejos, ainda não tivera o suficiente de seu irresistível Sesshomaru.

Determinada, ela se sentou sobre o futon, tomando a mão dele entre ambas as dela e levando-a até os lábios, beijando-a docemente, liberando-a em seguida para que pudesse usar as próprias para tocá-lo mais uma vez. Seria um verdadeiro desperdício ter toda aquela pele perfeita, feita da mais resistente porcelana, exposta ali só para ela e não apreciá-la o máximo que pudesse.

As pontas dos dedos de Rin desenhavam linhas ao longo do peito do parceiro, e ela logo se inclinou para beijar um dos ombros musculosos. As ministrações da humana não falharam em resgatar toda a intensidade da libido masculina que ela atiçava. O youkai estava à beira de perder a cabeça com os sons que ela fazia ao beijá-lo pelo tronco, como se o corpo dele fosse a mais deliciosa sobremesa, o sabor favorito de todos.

Ela alcançou um ponto onde não podia mais avançar a não ser que se colocasse em um nível mais abaixo. E, incapaz de parar a si mesma, foi exatamente o que a humana fez ao curvar-se perante a figura sedutora.

Do ângulo em que se encontrava, encarava diretamente a intimidade máscula de seu senhor, rígida, erguida em toda a sua glória.

Quase suspirou em contemplação, lambendo os lábios em antecipação antes de hesitantemente erguer uma mão, envolvendo-a gentilmente ao redor da bela estrutura alongada do membro ereto.

Os toques suaves quase fizeram o poderoso e imponente youkai estremecer, apesar de ele ter se segurado a tempo de manter a compostura. Entretanto, enquanto ela o presenteava com um beijo quase imperceptível exatamente ao topo de sua região mais sensível, ele deparou-se com seu controle se esvaindo a uma velocidade alarmante.

As mãos dele foram aos cabelos dela, os dedos descuidadamente se embolando nos fios ondulados, arruinando de uma vez por todas o penteado preso elegante que ela usava naquela noite. Removeu os prendedores valiosos, atirando-os ao chão sem se preocupar em danificar os itens caros. Rin não parecia se importar também enquanto obedientemente seguia a liderança de seu senhor, quando ele a guiava para que providenciasse o prazer pelo qual ele tanto almejava.

Sesshomaru não era muito inclinado a demandar os serviços de sua fêmea quando se tratava daquele tipo de atenção unilateral. Estava bastante ciente do poder que detinha sobre ela e, portanto, era sempre cauteloso em não abusar dele — não demais, pelo menos. Qualquer pedido que viesse de sua boca seria, sem dúvidas, interpretado como uma ordem aos ouvidos dela, ele sabia, mesmo que lhe oferecesse a escolha de recusar.

Rin era leal demais, tão disposta a agradar… Era fácil para ela deixar-se levar pelas expectativas que ele colocava sobre ela e esquecer-se dos próprios limites pessoais.

Mas, já que ela tão solidariamente se oferecia por conta própria naquela noite… Sesshomaru gananciosamente tomou a oportunidade.

Seus olhos estavam fechados, a boca levemente aberta, as mãos segurando firmemente mechas do cabelo negro dela. Os músculos se tensionavam com cada minúscula sensação que a boca dela lhe proporcionava, cada movimento dela sendo imensuravelmente amplificado pelo calor e umidade que o envolviam por completo, estimulando todo o seu comprimento, aplicando a quantidade exatamente certa de pressão e maciez para providenciar alívio e, ao mesmo tempo, angústia.

Antes que pudesse sentir-se completamente saciado, Sesshomaru logo tratou de afastá-la de si, apenas para erguê-la novamente ao alcance de seus lábios. Ainda tinha planos para beneficiar a ambos naquela noite, e não ia deixar que Rin os arruinasse tão facilmente.

Ela o havia feito esperar a noite inteira, com aquela maldita festa, e ele não a deixaria escapar ilesa agora que finalmente a tinha só para si.

O inu a puxou para perto, fazendo-a sentar-se em seu colo. Os dois troncos se encostaram, nenhum espaço restando entre os corpos nus.

As garras dele se pressionavam contra as coxas macias da humana, que prendiam seus quadris entre elas.

Rin arfou em um suspiro trêmulo diante dos toques afiados em sua frágil pele. Era exatamente como tomar um banho em água extremamente quente. Queimava ao ponto de fazer sua pele tornar-se vermelha, mas, ao mesmo tempo, fazia-a relaxar ao ponto de nunca mais querer sair dali.

Naquela posição perfeitamente propícia, o corpo masculino facilmente encontrava o caminho para dentro do outro, permitindo que ambos se perdessem nas incoerências do prazer. Se moviam em perfeita sincronia, como se tivessem os tempos perfeitamente calculados, os ângulos e encaixes certeiros com uma precisão quase matemática.

Já era dia quando finalmente se deram por satisfeitos, o sol claro e sutil da manhã começando a se erguer acima das planícies do leste, iluminando o quarto dos amantes que permaneciam firmemente abraçados ao fim de suas atividades.

Os dois sabiam bem qual era a sensação que dominava o ambiente, eles não precisavam de tradução. Quando se beijavam preguiçosamente ao raiar de um novo dia, eles sabiam o gosto que sentiam. Um amor interminável, que permanecia presente em seus paladares mesmo quando se separavam. E eles sabiam, naquele singelo pedaço da eternidade, que duraria para todo o sempre.

Rin finalmente via sua energia se esgotar, deixando seu corpo exausto repousar sobre o resistente youkai que a aninhava com delicadeza. Seus olhos castanhos aos poucos começavam a se fechar, se rendendo ao cansaço, até que uma suave batida na porta a forçou a desistir dos planos.

Resmungando, ela puxou os lençóis para cobrir as intimidades, escondendo-se entre o resto das cobertas e almofadas, deixando apenas os olhos de fora para que pudesse usá-los como um método de persuasão para o marido.

Revirando os olhos para aquela expressão adorável, ele pôs-se de pé, caçando algumas peças de suas roupas descartadas pelo chão e vestindo-as até que estivesse minimamente apresentável para atender a porta, o que ele só fez por saber exatamente quem era.

— Oh, bom dia, senhor. — Maiko, a babá, saudou nervosamente ao vê-lo. Aparentemente, estivera esperando lidar apenas com a amigável humana. — Desculpe-me se o acordei, mas a senhora Rin havia me pedido que-

Ele apenas ergueu uma mão para impedir que ela continuasse falando. Estendendo a outra mão, ele alcançou o embrulho que a mulher trazia, tomando o filhote desperto em seus próprios braços.

Sem uma palavra sequer, ele voltou a fechar a porta, dispensando a companhia desnecessária da criada, que parecia mais do que aliviada de não ter que interagir com o temido senhor do Oeste.

Cuidadosamente, o daiyoukai levou a cria até o futon, onde Rin já saía do esconderijo, ansiosa por finalmente poder retomar os cuidados da pequena para si.

Mal havia segurado a recém-nascida contra o peito e ela já estava prontamente encontrando um dos mamilos expostos da mãe para enfim saciar a fome após uma longa noite bem dormida. Rin alegremente a deixou esvaziar seu estoque, já que seus seios sensíveis estavam começando a incomodar, de tão cheios.

Sesshomaru as deixou em seu momento de reconexão, enquanto seguia para a casa de banho, a fim de preparar-se para mais um longo dia à sua frente. O dia seguinte a uma grande batalha era quase tão cansativo e ocupado quanto a própria batalha em si e o grande Senhor sabia que, se havia decidido negligenciar uma noite inteira de descanso por preferir o calor do corpo de sua fêmea, era um problema somente dele mesmo, que não lhe serviria como desculpa para adiar suas outras tarefas.

Uma vez que ele deu por concluída sua higienização e retornou ao quarto, deparou-se com a pequena Miyuki ainda alimentando-se vigorosamente, uma de suas minúsculas mãos se enrolando confortavelmente em uma mecha de cabelo de Rin, quase como uma suave carícia. A mãe, por outro lado, tinha a cabeça pendendo para um lado, descansando sobre o ombro. As pálpebras estavam fechadas, os lábios semi-abertos liberavam uma respiração contínua e tranquila, que fazia seu peito subir e descer calmamente, o que parecia agradar o filhote em seus braços.

Sem conseguir resistir, o youkai caminhou até elas a passos leves, inclinando-se para depositar um gentil beijo na testa da humana adormecida, que despertou só o suficiente para inclinar a cabeça no ângulo adequado para lhe beijar os lábios delicadamente, cedendo novamente ao sono logo em seguida.

Antes de sair do quarto para encarar a rotina que lhe esperava lá fora, ele as observou mais uma última vez, se permitindo o descuido de deixar um minúsculo e praticamente imperceptível sorriso aparecer em seus lábios.

Afinal de contas, ninguém estava olhando mesmo.

xXx

Foi apenas no meio da tarde que as coisas começaram a se assentar o suficiente para que Sesshomaru pudesse fazer uma pausa. Já havia falado com todos os capitães, feito longas reuniões, escrito cartas, mais documentos de contabilidade e registros diversos.

Deixando que o olfato o guiasse, ele rapidamente encontrou Rin, confortavelmente aproveitando o sol vespertino brando, sentada à varanda com vista para o jardim, aparentemente tentando manter uma conversa com o confuso filhote em seu colo, que apenas a olhava, sem entender uma palavra. Entretanto, Miyuki parecia bastante atenta, talvez porque simplesmente gostasse do som da voz dela e, quanto a isso, Sesshomaru podia se identificar perfeitamente com a filha.

Porém, parecia que ele não era o único a estar procurando pela senhora do Oeste, já que mais duas figuras a alcançavam, ao mesmo tempo que ele.

— Kagome, Inuyasha! — Rin saudou alegremente os recém-chegados, abrindo um de seus espetaculares sorrisos. — Boa tarde.

Após um olhar mais cuidadoso, a expressão dela mudou para uma mais séria. Só agora notava que ambos os amigos traziam consigo suas coisas, parecendo preparados para seguir viagem.

— Rin, Sesshomaru. — Kagome respondeu, e só à menção do nome dele é que Rin se virou para ver que o parceiro se encontrava de pé, bem atrás dela. — Nós viemos nos despedir.

— É, já tá na hora de dar o fora desse lugar repugnante. — Inuyasha completou, com sua característica delicadeza, o que lhe rendeu um olhar reprovativo da esposa e uma risada da humana mais nova.

Rin ajeitou a filha no colo e se levantou, tentando esconder a emoção em sua expressão.

— Bom, mesmo que seja um lugar repugnante, sintam-se à vontade para voltar sempre que sentirem saudades.

— Ou podem apenas mandar uma carta… — Sesshomaru completou, procurando diminuir a liberdade no convite de Rin.

As duas humanas balançaram a cabeça em resignação. Aqueles dois não tinham jeito mesmo.

Ignorando a hostilidade dos irmãos, as duas amigas sorriram uma à outra, e a sacerdotisa rapidamente avançou para um abraço, sendo cuidadosa com a criança que Rin segurava.

— Muito obrigada, Kagome. Por tudo. — A mais nova agradeceu. Apesar de não ter conseguido ajudá-la com o parto de Miyuki, como havia sido o objetivo inicial, a presença do casal ali havia sido indispensável para que tudo desse certo no fim das contas. E Rin seria eternamente grata.

Dizer adeus era sempre difícil, mas, naquele momento, parecia ter um gosto um pouco mais amargo quando pensava que, mesmo que tivesse a eternidade inteira para ser grata pela amizade incondicional de Kagome, não a teria por perto por tanto tempo assim. A noção de que viveria além de todos os humanos que conhecia e amava era dolorosa por si só, mas seu coração se apertou um pouco mais ao olhar para Inuyasha ao lado da mulher que ele verdadeiramente amava, e imaginá-lo um dia sem ela para colocar um pouco de juízo naquela cabeça dura.

Rin sobressaltou-se ao sentir o braço de seu senhor envolver sua cintura, arrancando-a de seus pensamentos. Ela procurou dispersar as energias negativas, deixando-se apoiar sobre ele, e tratou de retomar o seu sorriso ao acenar em despedida ao casal que se virava para seguir seu caminho. O ciclo da vida podia ser curto e injusto aos humanos, mas não devia haver sorte maior naquela vida do que a de ter a chance de, entre todas as pessoas erradas do mundo, encontrar exatamente aquela pessoa certa que daria sentido a toda a sua existência. E, quanto a isso, tanto ela quanto Kagome não tinham do que reclamar.

A pequena família permaneceu ali, na varanda, por mais algum tempo, observando o sol esconder-se por trás das montanhas enquanto Sesshomaru a atualizava a respeito do que vinha fazendo a manhã toda e quais seriam os próximos passos esperados não só dele, mas dela também.

Parecia que apenas falar sobre os compromissos os traziam de volta, já que logo o momento de descanso e privacidade do casal foi interrompido pelo apressado assistente Jaken, que carregava uma pilha de pergaminhos maior do que ele mesmo em seus curtos braços.

— Senhor Sesshomaru! Esses papéis precisam da sua atenção!

O inu-youkai revirou os olhos em tédio só de olhar para a papelada. Mal haviam terminado uma batalha e ele já se via ansioso pela próxima, para que não tivesse tempo para perder com aquelas baboseiras.

— Ai, ai, senhor Jaken. Eu sinto falta de quando seu único serviço era tomar conta de mim quando o senhor Sesshomaru tinha que se ausentar. — Rin lembrou, também decepcionada que seu tempo a sós com a filha e o marido tivesse sido interrompido mais uma vez.

— Ah sua menina inso… Digo, senhora Rin. — O temeroso youkai se conteve antes de ofender a humana como costumava fazer antes de ela se tornar esposa de seu senhor. Sabia que Rin não se importava, mas Sesshomaru era outra história. — Eu sempre fui muito útil para o senhor Sesshomaru, mesmo antes de você aparecer!

Rin riu, divertindo-se com o quão fácil era provocá-lo, mesmo depois de tantos anos de convivência.

— Talvez tenhamos arrumado mais alguém que você possa cuidar agora… — Ela sugeriu, fitando o bebê em seus braços com um sorriso.

— Pois saiba que seria uma honra ser responsável pela guarda da honorável primogênita do senhor Sesshomaru! — Rebateu ele, para a surpresa da humana. — Com certeza, sendo prole do grande senhor Sesshomaru, ela se comportaria muito melhor do que você.

Rin apenas riu mais alto com aquela suposição, não deixando de ver sentido nela, ao observar a calma e tranquilidade da filha. Talvez ele estivesse certo, mas talvez…

— Não esqueça, senhor Jaken, que ela tem o meu sangue também.

O pequeno youkai a olhou, horrorizado, como se tivesse esquecido completamente daquele fato.

Sesshomaru bufou em irritação com a discussão, embora não pudesse negar que parte dele se divertia com aqueles embates sem sentido entre seus antigos companheiros de viagem.

Era peculiar observar que, mesmo com todas as inesperadas novidades e com a passagem do tempo, a coisas mais essenciais em sua vida nunca pareciam mudar. Essa percepção trazia consigo uma bem-vinda sensação de conforto e familiaridade.

Rin podia não se lembrar daqueles que a haviam gerado e ele, muitas vezes, preferia esquecer.

Mas aquela ali era realmente a sensação… de finalmente ter uma família.

xXx 1 ano depois xXx

A senhora do Oeste andava com dificuldades pelos corredores desconhecidos da mansão. Seus quimonos volumosos e coloridos se espalhavam pelo chão aos seus pés, mas a criança que carregava no braço era o que mais restringia seus movimentos, além da outra que segurava pela mão, cujos pequenos passos eram lentos e desajeitados.

Um guarda se curvou ao vê-la passar, imediatamente tentando ser prestativo ao ver a humana completamente perdida e enrolada.

— Minha senhora, seja bem-vinda. — Disse ele, educadamente. — Permita-me levá-la até nosso senhor.

Rin apenas negou com a cabeça, sorrindo em agradecimento.

— Não precisa se incomodar. Nós daremos nosso jeito.

E assim ela prosseguiu, até alcançar a primeira bifurcação no corredor, que a forçava a escolher entre esquerda ou direita. A humana se voltou para baixo, para que pudesse olhar a criança que andava ao seu lado.

— E então, Miyuki, para que lado está o seu pai?

O vocabulário da pequena ainda era bastante limitado, mas ela se virava bem com as poucas palavras-chave que conhecia, e “pai” havia sido uma das primeiras que ela aprendera. Seus grandes e expressivos olhos dourados fitavam a mãe por um instante enquanto ela tentava compreender exatamente o que estavam lhe pedindo, mas logo seu rosto voltou-se para frente, o queixo se erguendo levemente para permitir que seu olfato viajasse pelos diferentes cheiros que pairavam no ar e, sem a menor dificuldade, encontrou aquele que era um dos mais familiares e inconfundíveis para ela. Um dos primeiros cheiros que havia sentido na vida.

A pequena menina simplesmente tirou a mão livre da boca — uma mania que Rin ainda vinha tentando desencorajar — e estendeu o braço em uma linha reta, um minúsculo e delicado dedo indicador apontando na direção correta. Direita.

Com o olfato infalível de Miyuki, o trio não demorou até encontrar seu destino, quando a porta de uma das salas se abriu para exibir a figura alta e elegante do general dos inu-youkai e — agora — também pai de dois filhotes.

Rin imediatamente abriu o maior dos sorrisos ao vê-lo, já que fazia um certo tempo desde a última vez. A criança mais velha não falhou em copiar a expressão da mãe, mostrando orgulhosamente seu brilhante par de caninos de leite.

A humana liberou a mão da filha, a fim de usar seu braço livre para envolver o pescoço do marido antes de beijá-lo apaixonadamente.

— Eu senti saudades, senhor Sesshomaru. — Ela murmurou alegremente, beijando-o mais uma vez e ainda outra.

— E não foi a única, pelo visto. — Ele comentou, ao sentir o tecido de sua hakama ser repetidamente puxado por pequenas, mas fortes, mãos. Ao olhar para baixo, os olhos dourados de Miyuki brilhavam com a atenção recebida depois de seu esforço.

Ela prontamente se deixou cair sentada no chão, como se quisesse enfatizar que havia se cansado de andar tanto, e ergueu os dois braços acima da cabeça, convidando-o a pegá-la do chão.

Ele ainda não conseguia acreditar em como ela se parecia com Rin quando o olhava daquele jeito para lhe pedir alguma coisa, mas precisava reconhecer que era incapaz de resistir a qualquer uma das duas e, portanto, a levantou em seu colo sem hesitar.

— E então, o que achou? — Perguntou, enquanto Miyuki testava as novas presas na armadura dele.

Rin olhou ao redor, para a elegante sala e para o cenário além das janelas. Não era tão enorme e luxuoso quanto o castelo do Oeste, mas a estrutura mais compacta de alguma forma fazia mais o seu estilo.

— Esse lugar é lindo.

O território mais a leste havia sido recentemente anexado ao domínio do Oeste e Sesshomaru passara meses ali, tentando reorganizar tudo para a nova gestão. Mas sempre voltava para casa, a fim de ver sua família. Rin o havia ajudado com toda a parte diplomática dos acordos, o que era um papel com a qual ela estava mais do que familiarizada, mas, quando a segunda gravidez começou a avançar, ele a tirou de cenário completamente.

Só agora, que o novo filhote havia completado três meses de vida, é que ela finalmente estava vendo o resultado da conquista. O primeiro passo para o almejado império de seu senhor.

— E ele, tem se comportado? — Sesshomaru perguntou, se referindo ao pequeno filhote macho que Rin trazia.

Ela sorriu para o bebê, a imagem perfeita do pai, com os finos cabelos prateados.

— Na medida do possível. — Revelou. Seu príncipe era bem mais exigente do que a irmã havia sido na idade dele, e dificilmente deixava qualquer um em paz até ter o que precisava.

Rin não havia tido muita certeza sobre quais mudanças seu corpo sofrera após a ocasião em que se tornara a Guardiã do Inferno. Por algum tempo, teve medo de, por ser uma criatura que não mais pertencia a esse mundo, seu corpo tivesse se tornado incapaz de gerar uma nova vida.

Esse medo havia cessado logo, assim que seu sangramento retornou novamente. E logo ficou claro que sua alma imortal em nada afetava a humanidade de seu corpo, apenas o mantinha sustentado naquele plano dos vivos indefinidamente. E, não muito tempo depois, ela havia alegremente dado à luz o filhote macho que estava devendo ao seu senhor.

— Está na hora de apresentá-lo a alguém… — Ela lembrou, vendo que agora que as coisas estavam resolvidas, podiam fazer aquilo com mais calma. Seria a primeira vez de Miyuki também.

Sesshomaru apenas assentiu, puxando sua pelagem para longe das mãozinhas curiosas da filha, que estava prestes a enfiar um tufo de pelos na boca.

Rin sorriu em expectativa, passando o bebê de colo para o outro braço de Sesshomaru, para que pudesse usar as duas mãos. Segurando firmemente o pingente que trazia no pescoço, ela o ergueu na altura de seu rosto, voltando a pedra negra para um espaço vazio da sala e facilmente invocando um portal para o submundo.

O lugar lhe era estranhamente familiar àquela altura, não exatamente reconfortante, mas confortável. Havia estado lá apenas uma semana atrás, não querendo enfurecer as entidades do submundo por deixar seu trabalho acumular demais. Mas, agora, não estava ali a trabalho e o anfitrião que a recebia sabia bem disso, pois os esperava bem ali, pacientemente.

Hayashi sorriu para o casal ao vê-los, tendo estado esperando por um bom tempo por essa reunião. Teria deixado que Rin o levasse naquela primeira vez, quando ela organizara toda a bagunça que costumava ser aquele lugar, mas a convenceu a deixá-lo ficar por mais um ano e um pouco mais. Ainda tinha alguém que ele gostaria de conhecer e, agora, finalmente tinha a chance de fazê-lo.

— Hayashi, conheça nossa querida Miyuki. — Ela apresentou finalmente, enquanto Sesshomaru colocava a menina no chão.

Timidamente, ela permaneceu agarrada à perna do pai, olhando o estranho com desconfiança.

Hayashi não se deixou afetar. Já ouvira Rin falar dela tantas e tantas vezes que sentia que a conhecia e, considerando seu sobrenatural conhecimento a respeito das coisas, ele realmente podia dizer que era esse o caso. Mesmo assim, a experiência de vê-la em pessoa era algo que ele não dispensaria.

— Eu devia adivinhar o nome desse? — Ele perguntou sarcasticamente, não querendo pressionar a menina assustada e apontando para o irmão dela em vez disso.

— Você podia pelo menos fingir surpresa. — Rin sugeriu, revirando os olhos enquanto ele bancava o sabe-tudo.

— Tudo bem, vou fazer meu melhor. — Prometeu, mudando a expressão para seriedade.

Sesshomaru silenciosamente andou até o velho amigo, ainda mantendo seu rosto ilegível como sempre e, delicadamente, lhe ofereceu o embrulho com o minúsculo hanyou.

— Este é Hayashi. — Anunciou, enquanto o outro pegava o bebê cuidadosamente.

O inu havia prometido fingir surpresa, mas, no fim das contas, sua expressão pareceu realmente genuína quando ele abriu um grande sorriso, todas as emoções possíveis passando por sua face em um curto espaço de tempo, até que, por fim, ele apenas olhava o jovem príncipe do Oeste da forma mais abobalhada possível.

Saber do futuro e realmente vivenciá-lo eram duas coisas extremamente diferentes, ele começava a perceber. E, segurar em seus próprios braços o futuro herdeiro das terras às quais havia servido a vida toda — e pelas quais havia dado a vida -, sabendo que trazia o seu próprio nome, era uma honra maior do que se achava merecedor.

Era um reconhecimento além de qualquer um dado a um guerreiro de classe inferior à nobreza.

Ele sabia que precisava ficar ali até que chegasse o dia em que receberia tamanha honra e, agora que esse dia finalmente havia chegado, uma maravilhosa sensação de realização o preenchia e ele soube que a hora havia chegado.

— Obrigado, meu senhor. — Agradeceu, com toda a formalidade que o daiyoukai tinha direito e ele raramente lhe concedera. Hesitantemente, voltou a devolver o filhote ao pai e, quando este o pegou em segurança, dirigiu-se até a chorosa senhora do Oeste. — Rin, você me acompanha?

Rin apenas balançou a cabeça em negativa, lágrimas abundantes escorrendo por seus olhos castanhos, a boca oculta por trás da volumosa manga de seu quimono. Miyuki, que agora se escondia atrás dela, franziu o nariz com o cheiro salgado das lágrimas, as orelhas se abaixando em sua cabeça enquanto, inevitavelmente, começava a se sentir triste também por aquele homem estranho aparentemente estar indo embora.

— Você não tem que ir, Hayashi. — Sesshomaru disse, lembrando-o de que estavam diante da Guardiã do Inferno, a única que podia decidir o destino dos mortos e que, felizmente, estava mais do que disposta a deixá-lo ficar.

— Mas eu quero. — Afirmou ele, com convicção. — Está tudo bem, Rin, de verdade. Já está na hora.

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Ela finalmente levantou os olhos, mas olhava na direção de Sesshomaru, que apenas lhe assentiu em reafirmação. E ela sabia bem ler aquele simples gesto dele, estava lhe dizendo para ser forte e madura, para fazer o que tinha que fazer.

— Vá com o seu pai, querida. — Ela sussurrou para a criança agarrada na cauda de seu quimono. — Nos vemos mais tarde.

— Tchau, princesa Miyuki. — Hayashi disse amigavelmente, acenando com uma mão, tentando deixá-la mais confortável com a situação melancólica. A menina lentamente ergueu a mão que estava novamente na boca, e repetiu o gesto, acenando de volta.

Sesshomaru aproveitou para segurar a mão dela, virando-a para o novo portal que automaticamente se abria à sua frente através das mãos trêmulas de Rin ao redor da pedra.

Ele olhou para trás uma última vez antes de sair.

— Adeus, Hayashi.

xXx

Era noite sobre a mansão, e a lua era cheia e levemente dourada, como ouro. Refletia belamente sobre as águas calmas e planas do grande lago que ocupava a frente do extenso terreno.

Sesshomaru e Rin observavam aquele magnífico espetáculo da natureza do andar mais alto da construção, deixando que o vento suave da noite os embalasse. Miyuki já havia caído no sono em seu novo quarto, como a boa dorminhoca que ela era, mas o pequeno Hayashi permanecia perfeitamente desperto nos braços da mãe, aproveitando o clima agradável.

Havia sido um dia que não esqueceriam e, apesar de tudo, estavam felizes. Era um sentimento bom, daqueles que acalmavam a alma e a preenchiam com tranquilidade.

Sesshomaru havia passado várias noites ali, admirando seu novo território, mas aquela era a primeira oportunidade que tinha de fazê-lo com aquela sem a qual ele não o teria conseguido. Pelo menos não sem derramar o triplo de sangue.

Aquela era a primeira evidência de que seus planos estavam indo pelo caminho certo, pois ele sabia bem que muitos bons estrategistas desenvolviam planos que apenas faziam sentido na teoria e, uma vez colocados em prática, tornavam-se um grande desastre. Havia sido um risco que ele sabia que corria ao escolher se unir àquela humana que o acompanhava, um risco que podia ter acabado de uma forma muito mais trágica, não fosse por ela ter se mostrado uma criatura tão especial no fim das contas.

Mais do que apenas simpatizar com ela, as pessoas a respeitavam. Os boatos sobre o Lírio do Oeste corriam além das fronteiras daquelas terras, a misteriosa humana que não podia ser morta. Para a frustração de seu orgulho, Sesshomaru não demorou a perceber que ela havia se tornado uma peça muito mais central do que ele mesmo quando se tratava de suas conquistas, como se ele fosse apenas um poderoso cão de guarda para a humana que o havia domado.

Afinal de contas, ele era o daiyoukai mais temido daquelas bandas, mas, não seria aquela que o possui nas mãos um ser mais temível ainda?

Ele não se incomodava mais com as opiniões alheias àquela altura, já que seu orgulho era grandioso o suficiente para ser compartilhado com ela. De fato, sentia-se privilegiado de tê-la ao seu lado, apoiando suas decisões e ajudando-o a executá-las sempre da forma mais eficiente possível.

E, aquela genial combinação e cooperação entre eles lhes rendeu o cenário que observavam agora, algo pelo qual Sesshomaru almejara desde que o pai partira e deixara para trás o seu legado lendário.

— Hayashi, quando crescer, tudo isso será seu. — Ele declarou solenemente, já tendo planos de deixar aquele pedaço sob comando de seu herdeiro uma vez que este se tornasse um guerreiro digno.

O bebê apenas olhava para a mãe, que lhe sorria.

— O senhor já está pensando em dar-lhe responsabilidades. — Rin criticou a precipitação do marido, embora não parecesse uma crítica verdadeira quando ela sorria daquela forma.

— Eu reconheço potencial quando eu vejo. — Ele disse, agora olhando-a diretamente nos olhos. — Como vi em você.

O sorriso dela se derreteu em um olhar amoroso e terno, o coração acelerando no peito como nunca falhava em fazer quando o tinha por perto, mesmo depois de todo o tempo em que estiveram juntos.

Inclinando-se sobre ela, Sesshomaru a beijou, os dois olhos se fechando enquanto os corações se abriam sem medos ou hesitações, buscando conforto na familiaridade do toque um do outro.

Eles dois, uma união completamente improvável de ser bem-sucedida, eram a prova de que o destino podia sair do controle do previsível muitas vezes e, mesmo assim, trazer consigo coisas muito mais grandiosas do que o que eles pensaram querer no início.

O inu-youkai a liberou, apenas para deslizar a ponta da língua pela bochecha macia dela, fazendo-a rir enquanto ela erguia uma mão para acariá-lo pela lateral do rosto de forma similar.

Os dois olharam mais uma vez para o lago tranquilo, o vento fazendo a água tremer em pequeninas ondas frisadas que causavam um efeito ainda mais belo na luz refletida.

E eles sabiam, aquele era apenas mais um começo dentre muitos outros que viriam.

Pois sabiam também que jamais teria um fim.

Fim.

(Sim, comecei a fanart antes de lembrar que o baby Hayashi estava na cena rs)

Notas finais
AAAAAAAH MEU DEUS EU CHEGUEI NO ÚLTIMO CAPÍTULO AAAAAAAAA To surtando muito aqui, é uma sensação triste e feliz ao mesmo tempo, eu não sei o que pensar! Me digam aí o que vocês pensam! No fim das contas temos a Rin dona da por** toda, mas ainda é um amorzinho de pessoa. Tivemos a última aparição do Hayashi que foi o momento mais agridoce na minha opinião, já que é triste que ele vá embora mas ao mesmo tempo ele precisava descansar depois de tudo que ele fez pelo nosso casal. Sesshomaru é o melhor paizão que você respeita e agora tem DOIS FILHOTINEEOSSSS! E, claro, não podia deixar de homenagear nosso Hayashi com o nome do bebezinho :3 Muita gente pensou que a Miyuki ia ser menino, então a Rin tava devendo um machinho não só pro Sessh, mas pra todos nós né! Tá aí a redenção! Eu queria muito muito mesmo agradecer a cada um de vocês que comentou nessa história, favoritou, acompanhou, recomendou, só leu de relance. Se você gastou um segundo sequer da sua atenção pra ler uma palavra sequer do que eu escrevi aqui, eu quero te agradecer do fundo do coração. Pra você que tá aqui desde o começo, que ficou só por um tempinho, que chegou só agora, meu mais sincero muito obrigada. Escrever essa fic foi uma das melhores experiências que eu tive nos últimos anos em que trabalhei nela, e eu to louca pra começar tudo de novo com outro enredo qualquer dia desses HISHEIHS Peço desculpas a quem eu decepcionei de alguma forma, mas espero que tenha agradado mais no fim das contas. Não estou marcando a história como concluída por enquanto, porque estou pretendendo escrever alguns capítulos extras com mais cenas da vida em família do nosso casal favorito. Pude colocar algumas aqui nesse capítulo, mas ainda não foi o bastante. Então, pra você que se deu por satisfeito com a conclusão final do plot, nos despedimos por aqui. Para aqueles que quiserem ler mais alguns pedacinhos aleatórios desse universo mais pra frente, nos vemos nos próximos updates por aí. Muito obrigada a todos. Vocês são incríveis! Beijão e até a próxima história. :)