Unidos na Noite
1 Prólogo – Angeliny (+ de 150 anos atrás)
Notas iniciais
Prólogo – Angeliny (150 anos atrás)
Eu morri quando os soldados invadiram impiedosamente minha casa, tingindo o chão e paredes de vermelho com o sangue brutalmente derramado de meus pais.
Aquele era um tempo cruel em que o povo estava mergulhado em miséria, jovens eram arrancados de suas vidas para servir nas guerras. No entanto, muitos desses soldados, tomados pelo poder que exerciam, abusavam de suas autoridades e não hesitavam em eliminar qualquer um que desafiasse seu comando, especialmente os traidores.
Meu pai, forçado a trabalhar para o exército durante longos anos, nunca se confirmou com as atrocidades cometidos por seus companheiros de exército contra o povo. A gota d’agua foi quando ele soube do último acontecimento horrível que eles haviam cometido. Numa manhã fatídica, os soldados massacravam uma pequena vila inteira, incluindo mulheres e crianças, incluindo inocentes bebes. A crueldade se tornou insuportável para o meu pai, e ele não hesitou em denunciar os horrores aos seus superiores.
No entanto, essa corajosa ação selou os nossos destinos. Ele foi traído por alguém que revelou a denúncia dele e ele acabou se tornando um alvo da vingança dos soldados, mas eles não se contentaram em punir apenas o meu pai, eles queriam toda a família.
Era uma noite fria, quando o terror invadiu nossa casa sem aviso, soldados cruéis romperam as portas, batendo em mim e em meus pais, nos jogando contra o chão frio, o barulho ensurdecedor de um tiro ecoou no ar antes de minha mãe tombar com um tiro fatal na cabeça bem diante dos meus olhos. Meus gritos se uniram as lagrimas que inundaram meu rosto.
A próxima vítima seria eu, no entanto quando o momento derradeiro se aproximava, meu pai em um ato desesperado se lançou contra o homem que estava prestes a me matar. Ele lutou e desesperado gritava para eu fugir.
Mesmo relutante, meu corpo obedeceu ao apelo de meu pai e eu me lancei em uma corrida frenética. Atravessando a porta dos fundos, escutei o barulho de tiro que ecoou pelo ar, enviando um arrepio gélido pela minha espinha. Eu sabia, sem olhar para trás, que naquele momento meu pai havia sido abatido.
Os soldados, querendo terminar sua vingança me perseguiram implacavelmente, balas cortando o ar em minha direção. A adrenalina impulsionou meu corpo além de seus limites, cada passo mais longe para a minha sobrevivência. Mas então, me deparei com um dos soldados que deveria ter ficado para trás ou estava atrasado.
Ele apontou a arma na minha direção e puxou o gatilho, um instante depois a bala acertou minha barriga. A dor era agonizante, mas minha determinação em sobreviver me incentivou, mesmo quando tudo estava perdido. Com uma obstinação feroz segui em direção ao caminho oposto.
Morávamos muito próximos a temida Floresta Escura, era temida porque muitos que entraram nela, nunca mais foram vistos, era também conhecida como a Floresta da Morte. Consciente disso, decidi seguir em direção aquele lugar tão temido, pois sabia que seria o ultimo lugar onde algum deles me procuraria. Mesmo que alguns me seguissem, poucos ousariam enfrentar os possíveis perigos da floresta. Entretanto, também estava ciente de que, ao me embrenhar ali, não haveria ninguém capaz de me socorrer. No entanto, se eu permanecesse onde eu estava, estaria fadada a morte certa.
Não havia mais nada a fazer, tudo o que eu tinha havia perdido naquela noite, então decidir me arriscar.
Aparentemente os soldados não se atreveram a me perseguir, e passei a noite encostada em uma grande arvore, sentindo o frio penetrando em meus ossos e o meu sangue escorrer para fora do meu corpo. Faltava em torno de uma hora para o amanhecer, o momento que eu mais apreciava, quando eu podia ver o sol surgindo no horizonte.
A dor do ferimento me impedia de adormecer, e o medo de que se eu dormisse não acordaria novamente. Chorei durante toda a noite, não apenas pela agonizante dor física, mas também pela brutal e trágica morte de meus pais.
Eu estava à beira da morte, com os olhos fechados quando senti o gélido toque em meu rosto. Tentei desesperadamente abrir os meus olhos, mas falhei miseravelmente. Minha respirava estava ofegante, diminuindo mais a cada instante, e o sangue apesar de mais lento ainda se esvaia do meu corpo. Percebi que não havia salvação pra mim, a morte era iminente. Foi nesse momento que a voz do homem que me tocara ecoou em meus ouvidos.
“Vai doer um pouco no começo, mas se sobreviver quando tudo terminar eu estarei aqui por você” Disse ele, com uma voz que parecia uma melodia envolvente.
Logo em seguida, senti sua respiração próxima ao meu rosto, e não demorou para que uma dor perfurasse meu pescoço. A dor inicial foi forte, mas em seguida um desejo ardente surgiu em mim, ansiando que ele continuasse com o que estava fazendo. Porém, abruptamente, assim como começou, terminou, ele então forçou a minha boca aberta, derramando algum liquido pela minha garganta. O sabor metálico de sangue invadiu minha boca, e apesar das minhas tentativas em me afastar, eu estava fraca demais para combate-lo.
O estranho me forçou a beber e a agonia tomou conta de mim em um instante. A dor do tiro que me acertou anteriormente não era nada comparada aquela que eu experimentava naquele momento.
Ondas de dor percorriam o meu corpo, me fazendo contorcer no chão frio. Eu tentava gritar, mas minha voz havia sumido e em breve nem mesmo a força para me mover restava. Era se algo terrível estivesse me consumindo internamente, uma sensação insuportável que me deixava impotente.
Após o que pareciam horas intermináveis de agonia, senti alguém erguendo o meu corpo e me carregando para algum lugar desconhecido. O tempo parecia distorcido, sem que eu pudesse calcular quanto tempo levou para chegarmos até o nosso destino. Fui colocada em uma cama, e seu toque suave acariciou o meu rosto antes que ele se afastasse, deixando-me entregue a minha dor.
A angustia persistia, sem dar trégua. Eu me perguntava porque aquele estranho homem não fazia nada para aliviar o meu sofrimento, para cessar aquela dor que me dilacerava por dentro.
Pareceram dias intermináveis ate que, finalmente, a dor começou a diminuir. Quando finalmente pude abrir meus olhos, senti o meu corpo transformado, estranho. E foi nesse momento que me deparei com o rosto de um homem jovem e deslumbrante. Seus olhos eram de um azul tão profundo e impressionantes que pareciam irreais. Sua pele pálida contrastava com os seus cabelos negros, e seu corpo, embora magro, exibia uma força. Aparentava ter em torno de 25 anos, e era a personificação da beleza.
Seus olhos azuis penetrantes me fitavam com uma intensidade, me envolvendo em um misto de fascínio e receio. Permaneci ali, em silencio, observando-o enquanto tentava encontrar palavras para expressar a avalanche de sensações que se apossavam de mim.
Ele estendeu a mão, tocando o meu rosto com gentileza. A dor agonizante que antes consumia cada fibra do meu ser dava lugar a uma sensação estranha, mas não desagradável. Era como se uma nova força percorresse minhas veias, revitalizando cada célula do meu corpo com uma energia desconhecida.
Aquele homem, parecia carregar com ele as respostas para as minhas perguntas silenciosas. Quem era ele? O que havia acontecido comigo? Minha mente ansiava por respostas. Eu sabia que não era mais a mesma, que minha existência havia sido alterada. Naquele instante, soube que minha vida nunca mais seria normal.
Notas finais
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