Unidos na Noite
2 Capitulo Um - Angeliny
No dia em que fui transformada minha vida mudou completamente. A transformação fez com que minhas habilidades físicas ultrapassassem em muito os limites humanos comuns. Sou capaz de soltar alturas impossíveis e me mover com uma agilidade sobre-humana e minha resistência física aumentou.
Asher, o vampiro que me resgatou da beira da morte a mais de um século atras tornou-se muito mais que o meu salvador, ele se tornou meu criador, meu mentor e uma presença constante em minha vida. Asher me ensinou a controlar e dominar todas as minhas habilidades sobre humanas.
Nossa relação evoluiu de protetor para algo mais complexo. Ele se tornou como um irmão mais velho que eu nunca tive, alguém em quem eu confio plenamente. No entanto, Asher não me vê apenas como uma irmã mais nova, seus sentimentos por mim vão além de fraternos. Em um breve momento, no inicio de nossa jornada nós nos envolvemos romanticamente, mas para mim, nunca pareceu certo, não era dessa forma que eu sentia por ele.
Asher ocasionalmente ainda tentava reacender essa chama romântica entre nós, ele buscava uma conexão mais profunda, uma intimidade que eu não podia oferecer a ele. Minha admiração por Asher é inegável, no entanto, meus sentimentos são diferentes.
Eu o vejo como um guia, um mentor, um amigo leal, mas não consigo corresponder os seus desejos românticos. Meu coração anseia por algo mais profundo e verdadeiro.
Eu e Asher somos como nômades, sempre em movimento, fugindo dos olhos cruéis dos caçadores. Nossa vida é um constante jogo de esconde-esconde, onde cada passo tem que ser cuidadosamente calculado para evitar sermos descobertos. As vezes, tínhamos sorte de podermos ficar mais tempo em um lugar antes de termos que partir.
Mas, dos muitos perigos que nos cercam, os shifters lobos é a ameaça mais temida. São conhecidos também como lobisomens, mas não são como nas lendas, eles não precisam da lua cheia para mudar para suas formas animais. Eles são ágeis, com força sobre-humana e se transformam em lobos enormes, com presas afiadas e garras letais. Encontrar um shifter é raro, eu tive o azar de já ter enfrentado dois deles junto com Asher, a mera lembrança desses encontros arrepiava a minha espinha. São criaturas incrivelmente poderosas.
Enfrentar os caçadores é uma batalha pela nossa sobrevivência, mas encontrar um shifter é uma ameaça existencial. Eles são um lembrete de que os vampiros não são os únicos seres sobrenaturais que percorrem as sombras entre os humanos.
Tentávamos passar o mais despercebido possível, evitando chamar atenção indesejada. No entanto, em um mundo repleto de olhares curiosos, manter um perfil discreto nem sempre é uma tarefa fácil. Havia momentos em que precisávamos usar nossas habilidades sobre-humanas.
Asher sendo um sangue-puro possui uma força formidável, além de uma cura ainda mais rápida que a minha. Sua linhagem pura o torna um líder. Eu sou a primeira e a única que ele criou, o que tornou a responsabilidade dele.
Embora eu valorize e respeite essa proteção, também anseio por uma vida mais estável e normal. Ao longo dos anos, fiz inúmeros apelos a Asher, pedindo que ele considerasse estabelecer raízes em um mesmo local por um período mais longo. Por fim, Asher finalmente concordou, contanto que fosse ele quem escolhesse a cidade.
Depois de muito analisar, Asher finalmente tomou a decisão. Uma pequena cidade chamada Union foi onde ele escolheu. Era um lugar tranquilo, aparentemente pacifico e com uma vasta floresta a cerca, o que nos oferecia lima oportunidade valiosa. Caso não tivéssemos acesso ao sangue no hospital, poderíamos nos abastecer com o sangue dos animais selvagens da região.
A perspectiva de ter um período de normalidade, mesmo que momentâneo, enchia o meu coração de alegria. Era uma oportunidade para vivermos como qualquer pessoa comum, desfrutarmos das pequenas alegrias do cotidiano sem o peso constante da ameaça. Eu confiava plenamente que encontraríamos uma maneira de vivermos em Union, ao mesmo tempo em que protegeríamos o nosso segredo.
Asher estava decidido a me proporcionar uma experiencia mais próxima da vida humana tomou uma ousada decisão: ele me matriculou em uma escola local.
Era hora de experimentar a rotina escolar e mergulhar na forma que o jovens humanos faziam. As aulas seriam a noite, assim me permitindo esconder a minha verdadeira natureza sob um manto de normalidade.
Empenhado em ficar próximo a mim e para garantir a minha segurança, Asher também conseguiu para ele uma vaga na mesma escola como professor de história.
Chegamos a cidade na quarta-feira, sendo que na segunda-feira seguinte seria o inicio das nossas aulas. Ate então, tudo corria tranquilamente, sem indicio de perigo iminente. Durante o dia, nos mantínhamos escondidos do sol em uma casa que Asher havia comprado. Cada um de nós tinha o seu próprio quarto, e Asher se certificou de preparar as janelas para bloquear os raios UV.
Aproveitávamos os dias para arrumar a casa ao nosso gosto. No domingo a noite, estava prevista uma comemoração no centro da cidade. Asher optou por não ir olhar, preferindo sair para caçar e garantir um estoque de sangue para emergência. Eu, por outro lado, decidi dar uma olhada.
Ao chegar lá, deparei-me com uma multidão animada. Uma banda se apresentava no palco e eu me deixei me envolver pela musica, observando os rostos das pessoas ao meu redor. Foi então que notei um homem no meio da multidão cujo o olhar fixo em minha direção despertou a minha curiosidade.
Achei estranho, era como se ele me conhecesse ou estivesse a espera de algo. Sai de perto e continuei a observar os humanos. Havia crianças brincando despreocupadas, casais caminhavam de mãos dadas, mães sorrindo para os seus filhos. Lembrei de um tempo em que eu ainda tinha os meus pais e da forma incondicional que me amaram.
Resolvi então que já estava na hora de ir embora, na hora de me virar pra seguir o meu caminho dei de cara com um homem alto, o mesmo que, pouco minutos antes, me observava de forma intrigante. Ele era facilmente vinte centímetros mais alto que eu. Sem pensar muito, pedi desculpas como qualquer pessoa em uma situação comum faria.
No entanto, ao olhar mais atentamente para o rosto daquele homem, algo em mim estremeceu. Seus olhos cinzentos eram penetrantes, pareciam desvendar cada segredo em minha alma. Seu corpo musculoso irradiava força e sua aparência jovem indicava que ele tinha a mesma idade que eu tinha na época em que fui transformada. Era impossível desviar os olhos, como se uma conexão inexplicável se estabelecesse entre nós.
Aquele home era verdadeiramente impressionante, a perfeição em forma humana. Eu mal conseguia conter o desejo de mergulhar em seus mistérios, de desvendar os segredos que seus olhos cinzentos ocultavam. Sua voz ressoou em meus ouvidos, me arrancando daquele estado de fascínio.
“Não foi nada” Ele respondeu ao meu pedido de desculpa, sua voz profunda ecoando no ar. Seus olhos continuavam fixos nos meus.
Continuei andando, me afastando do desconhecido.
Decidi então ir para casa, afinal a aquela hora Asher já deveria ter retornado. Enquanto seguia tranquilamente a pé, de repente, três ladroes surgiram diante de mim, interrompendo o meu caminho.
“Oi gatinha” Disse o primeiro, usando um casaco vermelho e calça preta, os olhos dele fixos em mim.
“Que tal você entregar todo o seu dinheiro?” Indagou o segundo, vestindo uma jaqueta amarela e calça azul escura, embora parecesse uma pergunta, era na verdade uma ameaça.
Cada um dos três homens segurava uma faca na minha direção, e naquele momento, uma vontade avassaladora de ataca-los tomou conta de mim. No entanto, eu me mantive no controle. Nunca antes havia tirado a vida de um ser humano, e não seria por um mero incidente que eu começaria a faze-lo. Contudo, eu estava determinada a me defender sem recorrer a morte.
“Que tal vocês saírem do meu caminho?” Perguntei com gentileza, tentando manter a calma.
“Desculpe princesa, mas não há espaço pra negociações aqui” Declarou o terceiro homem, vestido com um casaco branco e calça preta, seu tom de voz deixava claro que não pretendia recuar.
“Se não entregar o dinheiro, seremos obrigados a tira-lo a força. E quem sabe, talvez tenhamos que pegar outras coisas também” Ameaçou o homem de jaqueta amarela, mordendo os lábios de forma provocativa enquanto dava um passo em minha direção, me olhando com um desejo perturbador.
Antes que a situação de desenrolasse ainda mais, um quarto homem saiu das sombras de um beco escuro.
“Se eu fosse você não faria isso” O recém chegado disse.
Olhei mais atentamente para ele, era o mesmo sujeito que me observava anteriormente. A aparição inesperada dele interrompeu a ação dos ladrões.
Os assaltantes se mantiveram em silencio, direcionando a atenção para o recém chegado. Eles então avançaram em direção ao homem, mas algo no estranho transmitia uma aura de confiança quando os três investiram contra ele.
Por um breve momento, ´pensei em intervir, em ajudar aquele desconhecido e evitar uma possível violência. Eu não queria que nenhum ser humano, que estava se arriscando por mim se machucasse de alguma forma. No entanto, logo percebi que minha ajuda não seria necessária.
O homem se engajou em uma luta contra os três ladrões, seus movimentos fluidos e precisos. Em questão de segundos, os assaltantes estavam estendidos no chão, derrotados. Era surpreendente presenciar a destreza com que o estranho havia dominado a situação, não tendo suado uma única gota.
Com uma confiança inabalável, o homem falou com os assaltantes, sua voz ecoando com autoridade: ”Vão embora”. Os três homens se levantaram com certa dificuldade e se afastaram o mais rápido que podiam, desaparecendo.
Depois de verificar que os assaltantes haviam desaparecidos, decidi me aproximar do estranho, sentindo curiosidade e gratidão, mas também consciente de que sua presença ali não era mera coincidência, eu tinha a sensação de que ele havia estado me seguindo.
“Eu não precisava de ajuda, mas mesmo assim, agradeço por intervir.” Disse com sinceridade.
“Disso eu não tenho duvidas” Ele concordou comigo “Mas eu optei por não arriscar a vida deles.”
Nesse momento ficou ainda mais evidente de que ele estava ciente da minha verdadeira natureza. Embora eu não tivesse certeza do que exatamente ele era, comecei a suspeitar que se tratava de um caçador, alguém familiarizado com o mundo sobrenatural.
Mesmo sem ter certeza do que ele realmente é, senti um arrepio percorrendo minha espinha enquanto me preparava para o confronto. Senti energia pulsando em minhas veias enquanto minhas presas cresciam, meus olhos ficavam ainda mais azuis e minhas garras ficavam maiores e afiadas, letais e prontas, mas então, algo inesperado aconteceu.
Os olhos do homem transformaram-se em um brilhante amarelo, as garras que ele exibiu eram diferentes das minhas, parecendo capazes de causar um estrago devastador. Um rosnado feroz escapou de sua garganta, e então percebi a verdade, ele não era um mero caçador, ele é um shifter lobo.
Eu me encontrava em uma situação desesperadora. Era evidente que eu não poderia vencer aquele adversário sozinha. Se eu tentasse fugir, com sua velocidade ele conseguiria me alcançar rapidamente. Restava-me apenas uma opção: lutar. Porem, eu sabia que minha chance de sobrevivência era praticamente nula. No entanto, eu não permitira que ele percebesse o medo que me dominava. Mantive uma expressão firme, determinada a enfrenta-lo, mesmo que isso significasse a minha derrota.
O estranho rosnou novamente, o som ameaçante reverberou em meus ouvidos, gelando minha espinha. Ele era um oponente formidável, e estava na hora de combate-lo. Ficamos ali, imóveis, durante um breve momento, nossos olhares se encontrando em uma intensa troca de desafio. Então ele deu o primeiro passo em minha direção e eu reagi instantaneamente recuando um passo para trás. Ele farejou o ar, captando o cheiro do meu medo.
Meus olhos azuis permaneceram fixos nos amarelos dele, era como se houvesse uma força invisível que me atraia em sua direção, desafiando qualquer raciocínio logico.
O shifter lobo deu mais um passo na minha direção, porém, dessa vez, seu movimento parecia menos desafiador, menos agressivo. Em vez de recuar novamente, decidi seguir seu exemplo, avançando lentamente em sua direção.
Nossos olhares se mantinham fixos, uma tensão pairava no ar enquanto nós dois permanecíamos num impasse silencioso. Nenhum de nós se lançava ao ataque, como se estivéssemos a espera de um sinal.
Eu sabia que, a qualquer momento, essa frágil trégua poderia ser rompida, e mergulharíamos em uma batalha feroz. Mas então as palavras dele ecoaram em meus ouvidos, quebrando o silencio tenso que nos cercava.
“Eu não quero machuca-la” Disse ele inesperadamente.
Permaneci olhando-o, processando suas palavras. A ideia de que talvez houvesse uma alternativa a violência despertou uma chama de esperança dentro de mim.
“Não quero lutar” Respondi mantendo meu olhar fixo no dele.
Ainda incerta, porém parecia haver uma mudança, como se ambos estivéssemos dispostos a explorar essa possibilidade. Em um gesto ousado, que poderia colocar a minha vida em risco, decidi arriscar permitindo que os meus olhos, presas e garras voltassem a forma humana, era um ato que me deixaria mais vulnerável a um ataque. Para a minha surpresa ele fez o mesmo.
Mesmo na forma humana o shifter ainda mantinha sua guarda elevada, indicando que ele estava alerta para um possível ataque.
“O que esta fazendo aqui?” Ele me questionou, curiosidade e cautela misturadas em sua expressão.
“Nada que seja do teu interesse” Respondi bruscamente, sem sentir a necessidade de ser gentil ou explicativa.
A testa dele franziu, revelando uma ligeira surpresa diante da minha resposta. Apesar do nosso encontro inusitado e do breve momento de aparente trégua eu não estava disposta a entregar informações pessoais. A desconfiança ainda pairava no ar entre nós e eu preferia manter distancia enquanto tentava entender as intensões do lobo.
Um sorriso sutil brincou nos lábios do shifter lobo, revelando uma ameaça. Seus olhos, agora mais intensos, refletiam a autoridade de um predador territorial.
“É melhor que não ouse se alimentar de qualquer humano nesta região” Proferiu ele com uma voz carregada de promessas sombrias. Os shifters lobos eram conhecidos por sua territorialidade inabalável “A próxima vez que nos encontrarmos, se você ousar machucar alguém, eu não serei tão benevolente quanto estou sendo agora.”
Sua advertência ecoou no ar, era evidente que ele não hesitaria, e eu não iria subestimar ele. Eu tinha minhas próprias habilidades, mas os shifters era adversários formidáveis.
Uma risada irônica ecoou dos meus lábios enquanto eu o respondia.
“Com isso você não precisa se preocupar” Declarei, minha voz ecoando com confiança. “Eu não tenho o habito de me alimentar diretamente dos humanos.”
Apesar da minha tentativa de tranquiliza-lo, seu olhar permanecia cético, revelando que minhas palavras não eram suficientes para dissipar suas suspeitas. Eu entendia suas desconfianças, afinal, os estereótipos sobre vampiros eram difíceis de serem quebrados.
Percebendo que minhas palavras não haviam sido completamente aceitas, decidi acrescentar algo mais. Minha voz assumiu um tom mais grave e persuasivo.
“Eu tenho meus próprios meios de obter o sustento necessário. Você pode duvidar de mim, mas não duvide que eu respeitarei seus limites.
Meus olhos se encontraram com os dele, transmitindo uma determinação sincera. Eu esperava que minhas palavras e meu olhar sincero pudesse, de alguma forma, acalmar sua desconfiança.
No entanto, sei que as palavras por si só não seriam suficientes. Teria que provar minhas palavras por meio de minhas ações, mostrando que eu sou diferente da imagem estereotipada que ele tem de vampiros.
Uma tensão silenciosa pairava entre nós enquanto nos encarávamos. Surpreendentemente, o olhar de raiva do shifter lobo pareceu se dissipar lentamente, dando lugar a uma expressão mais neutra. Talvez houvesse uma faísca de curiosidade e ate mesmo de disposição para me dar uma chance de viver.
“Sou Damon” Ele anunciou, suas palavras carregadas de uma leve vulnerabilidade que eu não esperava encontrar. Era como se ele estivesse abrindo uma pequena brecha na parede que havia construído ao redor de si mesmo.
“Angeliny” Respondi, oferecendo meu nome em resposta. Era um gesto de cortesia mutua, uma forma de reconhecimento entre nós.
Decidi então dar as costas para ele, criando um momento de vulnerabilidade que poderia ser usado contra mim. Era um teste, tanto para ele, quanto para mim. Eu esperava que ele percebesse que eu estava deixando minha guarda baixa, mostrando que eu estou disposta a confiar nele.
“Espera”
Ao ouvir a voz de Damon me chamando parei e me virei lentamente. Seu sorriso encantador iluminou o seu rosto, me atraindo ainda mais para a sua presença magnética. O olhar de raiva que antes dominava seus olhos tinha sido substituído por um brilho de interesse e curiosidade.
“Espero nos vermos novamente” Ele disse com uma voz mais suave.
Um sorriso sincero curvou meus lábios. Eu senti uma conexão estranha com ele, a ideia de vê-lo novamente me alegrava.
“Nos vemos por ai” Respondi.
Com uma velocidade sobrenatural me afastei dele. Damon não me seguiu.
Enquanto eu corria, sentia meu coração acelerado e uma mistura de emoções se agitava dentro de mim. Damon tinha mexido com meus sentimentos, despertando algo que eu pensava estar adormecido.
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