POVS CHAR

Quando acordei essa manhã estava com muito sono e não tinha nenhuma vontade de ir passar o dia todo olhando fixamente para aquela porta a espera de alguém entrar, mas tinha que fazer isso, então tomei banho, comi e fui.

Peguei o livro de ontem e continuei lendo de onde parei. A manhã estava tediosa como a de ontem e cheguei a pensar no porquê de a dona Tamires ter contratado dois funcionários sendo que um resolveria tudo e ainda sobraria tempo, porém à tarde a situação mudou.

Pessoas e mais pessoas entravam naquela livraria e quando tudo acalmou, percebi uma coisa estranha, o sino não batia quando as pessoas saiam, só quando entravam.

Assim que fechamos o lugar, Fernando disse:

– Que diferença, não acha?

– Com certeza. – respondi – Tchau. – Ele acenou e ficou fechando a livraria.

Quando cheguei em casa, o Jonathan já estava lá. Joguei-me no sofá e fiquei olhando pra TV onde passava um filme de um médico que não tinha conseguido salvar a vida de uma paciente e se culpava por isso.

– Como foi no trabalho?

– Melhor que ontem.

– Por quê?

– Sei lá, só foi mais movimentado.

– E isso é bom?

– Quando se está entediada, sim... Qual é a graça desse filme?

– Ele comete suicídio no final... E depois a paciente aparece no velório

– Como assim? – coloquei meus pés em cima do sofá.

– Ela foi paga para se fingir de morta.

– E porque alguém pagaria pra alguém se fingir de morto?

– Por vingança ou ódio, sei lá.

– Você já assistiu a esse filme quantas vezes?

– Umas oito. – falou pensativo

Fui pra cozinha e preparei algo pra comer. Depois sentei-me novamente no sofá e fiquei olhando pra TV, mas pensando em tudo que aconteceu no meu dia, ao mesmo tempo em que comia.

Quando Jonathan foi dormir, eu fiquei na sala olhando sua coleção de DVDs de medicina. Estava cansada, mas não tinha sono.

Acabei dormindo no sofá, sonhei com uma pessoa gritando e dizendo coisas terríveis, depois eu entrei no carro e dirigi por um tempo quando de repente bati na pedra e não vi mais nada. Acordei gritando de novo e o Jona veio correndo, sentou no sofá e me abraçou.

– Calma pequena, o que você sonhou dessa vez?

– Alguém estava discutindo e eu entrei no carro e aí o sonho emendou com o outro e eu acho que foi o resto do sonho daquele dia. – falei rápido

– Você quer uma água com açúcar?

– Trás uma água, mas sem açúcar, por favor.

Ele foi buscar e eu fiquei com aquele sonho na minha cabeça, imaginando o porquê de eu estar sonhando aquelas coisas e acordando nesse estado. Ele voltou e me deu a água.

– Você vai voltar a dormir? Ainda são três horas da manhã.

– Vou tentar.

– Ok, boa noite então. Qualquer coisa me chama. – assenti vendo ele se levantar e ir para o seu quarto.

Por mais que eu tentasse voltar a dormir, não conseguia, havia algo naquele sonho que me angustiava.

[...]

Passei o resto da noite acordada. De manhã quando cheguei na livraria, soube que isso estava muito na cara.

– Por que está assim? Oh não! Por favor, não me diga que foi a uma festa ontem e encheu a cara. A dona Tamires odeia cachaça e vir trabalhar assim é pedir pra perder o emprego. É melhor dizer que você está se sentindo mal e ir embora antes que ela sinta o bafo.

– Eu não bebi. Eu não fui à festas. E eu não estou com bafo. Eu acho. – coloquei os pés em cima da cadeira.

– Então o que houve com você pra estar tão... Com cara de sono.

– Eu tive um pesadelo e depois não consegui dormir. – suspirei.

– Ah. Ei, que tal sairmos hoje? Só nos conhecemos há dois dias, mas somos colegas de trabalho, podemos sair. Chama teu namorado, que eu vou chamar alguns amigos e a gente vai ao cinema ou em algum outro lugar.

– Não vou, não tenho namorado.

– Serio? – perguntou não acreditando

– Sim.

– Mas não importa, chama algum outro amigo e a gente vai.

– Hm, vou chamar o Jonathan, se ele quiser ir, eu te viso.

– Ok, me dá teu numero então.

NARRADORA ON

Sair? Só uma desculpa pra conseguir o numero da garota. Já era oito horas da noite e os jovens já estavam se arrumando para ir ao cinema. Char tinha chamado Jonathan e ele aceitou o convite de imediato.

Depois de toda aquela demora para chegar no cinema, o carro de Jonathan parou e Char viu Fernando junto com uma galera os esperando.

– Boa noite. – os dois falaram e foram respondidos da mesma forma por Fernando e os seus amigos.

– Que bom que chegaram cedo, esses são, Rafael, – passou o braço em volta do pescoço de um dos seus amigos. – Alissa, – apontou para ela –, Wallya e Jeff. Char e...?

– Jonathan.

– Beleza, vamos entrar? – Alisson perguntou.

E então todos entraram para assistir o filme escolhido. Jonathan e Char se sentiam um pouco por fora, afinal a única coisa que sabiam dos outros eram seus nomes, enquanto eles conversavam sobre o dia anterior, a semana anterior e o mês anterior.

[...]

Depois de se despedirem de Fernando e seus amigos, Jonathan e Char se direcionaram ao carro. Ela olhou para a praça em frente ao cinema e viu um homem sentado em um banco encarando-a. Imediatamente ele desviou o olhar, mas ela tinha sentido algo estranho em relação a aquele desconhecido, e, sem nenhum aviso prévio ao amigo, começou a caminhar em direção ao banco. Porém, o que ela não imaginava era que o moço fosse levantar e sair do lugar ao perceber sua intenção de se aproximar.

Ela franziu a testa confusa, olhando para o banco vazio, e voltou para o carro.

– O que aconteceu? – Jona perguntou assim que ela se sentou no banco do carona.

– Aquele homem. – colocou o cabelo atrás da orelha. – Ele estava me olhando, e quando eu fui em sua direção, ele simplesmente se levantou e saiu.

– Mas por que você foi falar com ele? Qualquer um poderia te encarar. Às vezes eu encaro as pessoas na rua ou no hospital e nem sei que estou encarando.

– Eu sei, foi uma bobagem, só achei que o conhecia. – e se fez um silencio no carro, mas não nos pensamentos de Char.