Unidentified
7 E por que quando eu não tive ninguém para me reconhecer, você não apareceu?
POVS CHAR
Tinha acabado de acordar, mais uma vez com a respiração ofegante por conta de um sonho. Esse eu me lembro muito bem.
– O que está fazendo aqui mesmo? Sabia que seria tratada dessa forma enquanto estivesse aqui, deveria ter ficado no Reino Unido.
– Deveria mesmo, teria poupado muito sofrimento. – limpava as lagrimas, a voz demonstrava o quanto aquelas palavras me magoavam e o quanto eu estava abalada.
– Então vai! Volta para a sua casa luxuosa em Homes Chapel. – o homem a minha frente falava aquilo sem nenhum receio de que suas palavras me machucassem.
Saí daquela casa e entrei no carro estacionado em frente a ela, e mais uma vez, dirigi e não parei até que o carro se chocasse contra as pedras.
Agora, sentada em minha cama, eu pensava nas possibilidades. Se aquilo era mesmo reprises do que aconteceu no dia em que me acidentei, eu estava abalada enquanto dirigia.
– Por que ainda está aí? – Jonathan se escorou na porta – Não vai ir trabalhar hoje?
– Vou, só estava refletindo. – meus sonhos estavam sendo tão frequentes, que eu havia começado a dormir de porta trancada e com muitos travesseiros para abafar os meus gritos. Jonathan estava ficando preocupado com a situação, e a ultima coisa que eu queria era preocupar as pessoas, principalmente Jonathan, que já dorme tão pouco, por conta dos seus turnos que variam muito.
Esfreguei os olhos mais uma vez e levantei. Tomei um banho e tomei o café que o Jona tinha preparado, em seguida ele me levou para a livraria e foi para o hospital.
Eram umas dez da manhã, quando um homem, vestido com uma calça jeans, camisa com desenhos de triângulos e um óculos escuro, entrou na livraria, Fernando tinha ido comprar nosso lanche e não tinha mais nenhum outro cliente lá.
Ele me cumprimentou com um bom dia e depois encarou minhas mãos que estavam por cima do balcão. Obvio que eu tinha saído com machucados visíveis, na minha mão esquerda tinha ficado uma cicatriz que eu acreditava que nunca mais fosse sair, recuei um pouco as mãos para debaixo do móvel e ele voltou a deixar a cabeça na altura correta.
O homem perguntou se tínhamos um certo livro, e eu o mostrei, ele pagou e foi embora. Imediatamente, Fernando entrou carregando uma sacola.
Depois disso, o dia seguiu normal, mas dois dias depois, estava fazendo compras quando fui abordada por um jovem. Ele me deu um papel, apontou para um homem sentado em uma mesa e saiu.
Li o recado que consistia em eu ir até sua mesa depois que acabasse de fazer minhas compras. Olhei confusa para o homem, mas paguei o que tinha pego e fui até a mesa em que ele estava.
– Bom dia. –falei ao me aproximar.
– Bom dia. – tirou os óculos, e eu tive a sensação de que conhecia aqueles olhos. – Precisamos conversar. – franzi o cenho e ele deu um suspiro. – Sente-se, por favor.
Como estava muito curiosa para saber o que aquele homem queria comigo – homem tal que foi lá na livraria dois dias antes –, puxei uma cadeira e me sentei.
– Pois não?
– Michael. – e então permanecemos em silencio, minha mente parada, sem lembrar de nada sobre esse nome. – Lembra-se desse nome? – balancei a cabeça negativamente e o vi dar mais um suspiro. – Nos conhecemos antes do acidente.
– E por que quando eu não tive ninguém para me reconhecer, você não apareceu? Eu passei sete anos em coma, as autoridades até hoje não conseguiram descobrir sequer meu nome.
– Eu não podia vir.
– Não podia?
– Você sabe. Não se lembra, mais sabe.
Respirei fundo. – Como é meu nome?
– Soube que agora é Char. – deu um sorriso.
– Digo meu antigo nome.
– Soube também que você resolveu não investigar o seu passado.
– Mas eu quero saber! – reclamei irritada e ele somente abaixou a cabeça me fazendo perceber que ele não diria aquilo, talvez por honra a minha própria promessa, honra essa que eu mesma não estava tendo. – O que você era/é meu?
Ele levantou – Eu preciso ir. – parado ao lado da minha cadeira, me olhou diferente, como se estivesse comparando a Char de agora com a garota de antes, mas seu olhar guardava também muita ternura.
Enterrei minha cabeça entre as minhas mãos após ele sair do mercado.
Voltei para casa, cansada, bem mais do que o normal, vasculhava em minha mente qualquer informação sobre Michael, mas era impossível, as únicas memórias que tinha dele, eram as de horas atrás e da sua ida à livraria.
– Pequena, o que está acontecendo? – desviei meu olhar para a porta.
– Como assim?
– Você está estranha. São os sonhos? Eles voltaram?
– Não, na verdade... Eles não foram embora.
– Como assim? Eu parei de ouvir você gritando de madrugada. – se sentou na cama.
– Eu estava abafando os gritos para que não ouvisse.
– Por que fez isso? – alisou meus cabelos, eu já estava com a voz de choro.
– Não queria continuar te preocupando.
– Ei, você não pode me impedir de me preocupar. – segurou minhas mãos. – Mas não é só isso, é? – balancei a cabeça negativamente. – Então me conte.
– Michael. – ele me olhou atento. – Ele disse que é algum conhecido meu de antes do acidente, mas eu não me lembro dele.
– Como você o encontrou?
– Ele foi lá na livraria dois dias atrás, e hoje, quando estava fazendo compras, um garoto me deu o recado de que o homem sentado em uma mesa um pouco afastada precisava falar comigo. Então eu fui, e ele me contou isso.
– Ele não disse nada sobre você?
– Não. Quando eu perguntei, ele se negou a falar.
Seu olhar ficou fixo na parede, mas de repente ele olhou pra mim e com um sorriso, disse que eu não deveria me preocupar.
– Ok. Mas, ó, to com fome. – disse o fazendo rir.
– Vamos comer, então. – se levantou e ficou de costas pra mim. – Sobe aí. – subi em suas costas e fomos para a cozinha.
“Ele ainda era demasiado jovem para saber que a memória do coração elimina as coisas más e amplia as coisas boas, e que graças a esse artifício conseguimos suportar o peso do passado.”
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