Un(forget)table.
4 CAPÍTULO DOIS: Lembranças quebradas.
Notas iniciais
Mas estou aqui novamente pra vocês, seus nindos.
Eu sei que esse capítulo não é tão grande, eu tentei fazê-lo maior, mas pensei que tiraria a essência dele. Sim, o capítulo é POV da Sam.
Espero que gostem, e que não tenham me abandonado.
xx, Phants.
CAPÍTULO DOIS
"Lembranças quebradas."
Sam's POV.
Um pedaço de mim, inexplicavelmente se despedaçou ao ver o garoto passando pela porta. Eu não entendia porquê, ele era nada mais que um novo-estranho, mas era tão estranho vê-lo me deixar ali, mesmo que eu tenha ordenado tal ato.
Suspirei, existiam tantas coisas que eu simplesmente não entendia, não me entravam na cabeça. Eu sabia que existiam memórias em minha mente, eu sentia o peso delas, mas era como se faltasse algum cabo para ligá-las. E eu tinha que descobrir como fazer isso.
Engoli em seco, deixando que a última frase impactante que ele proferiu antes de sair, enchesse minha mente. Uma melhor amiga, morta? Não poderia ser, eu me lembraria dela também. Existem coisas que não se esquecem. Como o primeiro beijo, como o primeiro namorado, o noivo, e a melhor amiga. E mesmo que eu não consiga lembrar de tais coisas, não admito ter esquecido-as.
Meu coração apertou, e minha lembrança fora para minha mãe. Pam estava comigo desde quando abri meus olhos, eu dei de cara com os dela, e soube, que de alguma forma eu estava protegida. Tão cuidadosa, era tão estranho vê-la assim, mesmo que tenha me contado que sempre fora uma mãe coruja. Era quase como se algo não se encaixasse. E sim, eu sei que existem muitas coisas agora que não se encaixam. E eu queria tanto colocá-las no lugar. Ter minha vida de volta, seja ela qual for.
Deixei-me perder em devaneios, até ouvir passos até meu quarto. Pam abriu a porta, e adentrou logo atrás com o Doutor.
– Samantha, está acordada, isso é ótimo. — O atencioso médico de cabelos grisalhos proferiu, vindo até mim com um sorriso nos lábios. — Como está se sentindo?
Engoli toda conversa com o Freddie, e então respondi:
– Estou bem, Doutor. — Forcei um tom animado, como se estivesse pronta para enfrentar todos esses dragões que viriam.
– O Doutor tem boas notícias! — A voz da mamãe saiu quase como um gritinho eufórico, o que fez o médico alargar o sorriso e então, concordar.
– Sim. Você terá alta, não é maravilhoso?
Levantei cedo, nem mesmo eram oito horas quando terminei de me arrumar. Pam cuidou dos documentos o mais rápido que pôde, e nove e cinquenta deixei minha última assinatura confirmando estar em condições de sair. Eu estava satisfeita com a decisão, afinal, um hospital não seria nada familiar pra mim. Porém, minha mãe demonstrava uma feição preocupante, como se tivesse medo do que o 'familiar' pudesse me causar. Eu não estava pronta para tudo o que viria pela frente, mas não tinha tempo pra perder a vida em um leito de hospital.
O doutor explicou que eu passaria por terapias para exercitar minha memória. E que se desse tudo certo, em menos de seis meses eu já começaria a lembrar de algumas coisas, e que claro, eu estava sujeita a me traumatizar com determinadas lembranças, por isso, também estarei sujeita a um psiquiatra em breve. O medo de ser taxada de louca me percorre a mente, mas a vontade de retomar minha vida vence qualquer receio.
Me despedi da equipe que cuidou de mim por esses poucos dias, e então saí. Com uma maleta na mão, e um coração cheio de expectativas. O táxi passava lentamente pelas paisagens de Seattle, e eu tentava guardar tudo em mente, como uma fila de cartões postais em meu cérebro, que serviriam como um lembrete. E a cada rua que eu passava, me obrigada em pensamento: “Vamos, Samantha, se lembre!”
Saltei do carro, Pam desceu logo atrás, segurando as coisas nos braços. Meus olhos se perderam a um condomínio residencial bonitinho, sua fachada era salmão, e dizia: “Residencial Seattle's eye.”
Pam explicou que eu me mudei para cá faz um ano e meio, por vontade e independência minha. Demorei horas para conseguir extorquir isso dela, e depois ainda tive que ouvi-la insistir para ficar em sua casa. Mas consegui convencê-la de ficar em casa, desde que atenda todas as ligações feitas por ela – e eu estava ciente de que seriam muitas.
O porteiro me cumprimentou receoso, mas simpático. Eu retribuí com um sorriso e um agradecimento tímido pelo seu desejo de melhoras. Caminhei todo o percurso ouvindo os passos da minha mãe com suas preces silenciosas. Logo me indicou o número 108, caminhei até lá, e parando em frente à porta, enquanto minha mãe a abria.
A adentrei lentamente, ela cheirava a Lavanda e algum perfume que eu tinha certeza conhecer de algum lugar. Meus olhos percorreram o Hall de entrada, perfeitamente arrumado e aconchegante. Um belo convite para explorar o resto da casa.
– Eu arrumei algumas coisas na sua casa, tudo bem?
Assenti.
– Você tem certeza de que ficará bem? — Ela perguntou, tocando meu ombro. Assenti novamente, caminhando casa à dentro.
– Vou ficar bem, eu prometo.
Vi que ela me seguiria, mas meu tom lhe deu a indireta que precisava. Eu queria privacidade para comigo e minhas lembranças quebradas.
Passei por todos os cômodos, todos bem decorados e arrumados. Mas tudo o que eu conseguia era perceber era que não havia nada que pudesse me lembrar de algo, nem um porta-retratos sequer. O que me fez perguntar se minha mãe tinha algo a ver com isso.
Por fim, cheguei ao meu quarto. Também da mesma forma, sem nenhuma presente lembrança. Passei a mão pela colcha, como se obrigasse meu cérebro a lembrar da textura dela e das vezes que ali deitei. Nada.
Me senti oca, por estar dentro de casa e não recordar de nada. Era exatamente como visitar a casa de um estranho. Bem que eu, nesse momento, não era nada mais do que isso. Uma estranha, para mim mesma.
Uma cômoda no fim do quarto chamou minha atenção, era de madeira antiga, com umas flores desenhadas com tons de rosa. Era linda e familiar, e fez-me aproximar dela. Nada demais nas gavetas, só roupas dobradas, também não quis bagunçá-la e tirar esse sentimento que me proporcionava. Mas algo em cima dela me chamou atenção. Algo brilhante me fez esticar os braços para pegar, buscando um objeto pequeno. Um anel de noivado.
Engoli em seco, lembrando das palavras de Freddie no hospital. Ele parecia sofrer com aquilo, com o meu não lembrar. E confesso que me senti estranha ao olhar esse anel, como se eu também o conhecia. Segurei-o firme na mão e fechei meus olhos.
– Lembra, lembra, por favor! — Falei sozinha em um sussurro.
Nada.
E eu estava cansada do nada. Do vazio. Dizem que ele não causa nada, mas no meu caso, me causa dor. Um desconforto agoniante, eu queria sair gritando, à procura das minhas lembranças. Eu as queria.
Abri meus olhos e eles encontraram, ainda na cômoda um post-it branco, estendi a mão e o desgrudei da cômoda. Nele, não tinha nada mais que alguns simples dizeres: Carlotta Shay.
No mesmo momento, minha mãe entrou no quarto.
– O que foi, Sam?
– Quem é Carlotta Shay, mãe? — Perguntei.
– Não sei do que você está falando.
Me virei, e mostrei o post-it pra ela. Seus olhos se arregalaram.
– Onde você achou isso?
– Na cômoda.
– Mas como?
– Eu não sei, estava grudado.
– Isso não era pra estar aí, eu, eu olhei tudo. Chequei antes de sair.
– Checou o que? Se tinha levado tudo o que pudesse me fazer lembrar de algo?
Pam abaixou o olhar, eu estava certa.
– Eu tenho medo, minha filha, do que pode acontecer se você lembrar. — Lamentou.
– Por que não me contou que eu era noiva? E quem é Carlotta?
Ela suspirou, e estendeu as mãos, abrindo a minha e retirando o anel de dentro.
– Como você conseguiu isso? — Ela perguntou e seu tom quase me pareceu assustado.
– Estava na cômoda. Por que?
– Você estava usando isso no acidente, foi perdido durante o mesmo. Não tem como estar aqui. – Ela parecia incrédula.
Eu não entendia, poderia ser possível alguém ter achado. Não?
– E quem é Carlotta? — Eu estava cheia de perguntas na minha cabeça, e eu não sabia como respondê-las.
– Sua melhor amiga. — Vi Pam exitar, e me olhar com doçura.
– Ela morreu, não é?
A loira assentiu.
E eu me senti um monstro. Então era verdade, eu tinha esquecido da minha melhor amiga. Daquela que deveria ter me puxado pra cima milhares de vezes. E eu simplesmente esqueci. Como se esquece de pegar o guarda-chuva em um dia nublado, ou de recolher a roupa no final da tarde.
– Está sendo enterrada hoje. — Disse em um quase gemido de dor.
– E por que você não disse isso? — Falei, e senti meus lábios tremerem. Eu não lembrava dela, mas se foi minha melhor amiga, eu não poderia deixá-la ir embora sem uma despedida.
– Porque eu não achei que te faria bem.
– Ah, claro, o que me faz bem é esconder a minha vida inteira de mim.
– Filha...
– Não vem com essa de filha, eu agradeço sua preocupação e seu jeito protetor. Mas esconder o enterro da minha melhor amiga é horrível. Me esconder um noivado também. — Disse tão rápido que quase que meus lábios não acompanham meu cérebro, e então passei por ela, segurando o anel nas mãos e o bilhete.
– Aonde você vai?
– Ir ao enterro.– Respondi. — Quando sair, deixa a chave na portaria. E por favor, me devolva minhas lembranças, sejam elas de que forma forem e seja lá onde você as tenha escondido.
O porteiro me ajudou a conseguir o endereço do enterro, mesmo que por protesto. Ele disse que também apareceria por lá mais tarde pra demonstrar seus sentimentos e então me traria pra casa. Com o endereço nas mãos, e um dinheiro emprestado também do porteiro, peguei o primeiro táxi e corri para lá.
Eu não sabia o porquê desse sentimento, eu não deveria me lembrar dela e nem do Freddie. E bem, eu realmente não me lembrava, mas algo, aqui dentro, me dizia que eu já amei tanto esses dois que não poderia abandoná-los desse jeito. Eu fui estúpida com o Freddie, eu estava nervosa, e mesmo não o conhecendo, me senti mal. Não deveria ser só consciência pesada.
Agradeci silenciosamente ao taxista assim que paguei, e abri o portão cujo tinha em seu topo as palavras: “Cemitério de Seattle: Anjos sem asas”. Me arrepiei, o cemitério tinha um ar sombrio, saía uma neblina espessa que parecia ser do chão, e eu quase podia me imaginar saindo correndo de um monte de mortos-vivos. Respirei fundo e pus-me a caminhar.
– Posso ajudar? — Um coveiro sinistro me perguntou, e eu assenti, educadamente. Tentando disfarçar o susto que tomei.
– É, pode.. Enterro de Carlotta Shay é aqui?
– Sim. Segue reto, que logo você acha, moça. — Ele disse e sorriu, como se visse enterros todos os dias. E eu sei que via, antes que zoem a minha cor de cabelo.
Agradeci e segui seus comandos, logo avistei um grupo de pessoas, logo imaginei serem eles. Exitei por dar mais um passo, afinal, quanto mais eu adentrava-o, mais sentia um arrepio medroso. Isso me fez pensar que talvez eu tenha um grande medo de cemitérios. Agradeci mentalmente por ser um pouco mais de 13h.
A atmosfera do cemitério era triste, todos de preto, com a minha exceção, que vestia um jeans comum e um casaco de lã roxo. Meus passos eram marcados por folhas secas, e não demorou muito para que me vissem. Seus olhares marejados se arregalaram de surpresa, eu nada disse, somente me aproximei da única pessoa que eu reconhecia: Freddie.
– Oi. — Proferi, e notei o peso que minha voz saiu. Eu me sentia triste, de verdade. E não entendia da onde aquele sentimento surgira.
– Você veio. — Sua voz embargada de emoção se dirigiu pra mim, e um pequeno sorriso abriu-lhe nos lábios. — Carly ficaria feliz.
Eu assenti.
– Espera.. Como você soube da Carly? — Me perguntou num sussurro, enquanto um padre falava algumas coisas que nem me dei o trabalho de tentar entender.
Estendi o papel, mostrando o nome dela escrito no post-it. Mas guardei o anel comigo, não queria tocar nesse assunto agora.
– Essa letra... é dela. — O moreno disse, e uma lágrima caiu. Um impulso de enxugá-la me veio, mas me contive.
– Então acho que ela não queria que eu a esquecesse. — Disse, e foi a minha vez de sentir uma lágrima rolar por meu rosto.
Eu estava chorando por uma melhor amiga esquecida, e minha dor, era real. Corri o olho pelo caixão, que agora descia lentamente pelo buraco de exatos sete palmos. Então era o fim para aquela jovem, e eu quase podia tatear a vontade de todos de correr para o caixão e chacoalhá-la até ser trazida de volta a vida. Mas em vez disso, o silêncio reinou, e todos lamentavam a perda. Inclusive eu. Queria lembrar dos momentos que eu passei ao lado dela, dos segredos que compartilhamos, dos sorrisos, das brigas, dos choros. Eu queria lembrar do quanto eu amava sua companhia, e do quanto eu a xingava. Queria lembrar dela, queria tanto, mas eu me deparava com uma parede, impedindo de acessar tais lembranças. E eu me sentia superficial, mesmo que as minhas lágrimas, que rolavam agora, fossem tão sinceras que chegavam a arder. Como começar uma nova vida sem uma parte da antiga? Eu precisava dessa menina, antes calorosa, agora gélida.
Senti meu corpo ser envolvido em um abraço, e seu cheiro familiar me fez chorar ainda mais. Freddie apenas me aconchegou em seus braços, depositou um beijo no topo da minha testa, mas não proferiu nada. Todos nós ali, compartilhávamos um silêncio cortante, e um desespero interno. E eterno.
Notas finais
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