Unfeeling
20 XIX. Part of me
Notas iniciais
Se remexeu levemente na cama, esticando os músculos, despertando aos poucos. Os poucos raios de sol que entravam pela brecha da janela acariciavam o tronco nu da morena. O cheiro gostoso ainda estava embrenhado nas cobertas, fazendo com que ela quisesse permanecer assim. Tudo contribuía para que jamais levantasse, mas ao esticar a mão e sentir o colchão frio ao seu lado, seus olhos se abriram automaticamente.
As pérolas analisaram os lençóis devidamente arrumados. Não parecia que algo havia acontecido. Estava tudo em seu devido lugar. A única coisa que dizia o contrário era o cheiro. Estava tão forte como na noite passada.
Hinata suspirou, se levantando e escolhendo uma roupa confortável para sair. Precisava pensar. Tomou um banho relaxante, fechando os olhos em baixo da água. Só em acariciar o corpo com o sabonete, lembranças a invadiam. As mãos dele sobre o corpo dela ainda pareciam estar ali, marcadas para sempre em sua pele.
Depois de estar vestida e pronta para sair, procurou a chave da moto, a encontrando na cômoda ao lado da cama. Ao lado dela havia um colar. Com a chave no bolso, observou o colar atentamente. Ele era bem simples. A corrente era preta e lisa. No meio havia uma pedra azul, a cor era bem intensa como os olhos dele, e de cada lado da pedra um sino prateado.
Tentou entender o que aquilo significava. Não demorou muito a descobrir, sorrindo divertida ao lembrar. O colar era de Naruto. Agora se lembrava de já ter visto ele usar. Parecia ser importante para ele, o que a deixava mais confusa por ele ter o deixado ali. Colocou no pescoço, e se olhou no espelho.
Era estranha a sensação de prazer ao se ver usando isso. Hinata se sentia em paz, não como a que tinha ao lado dele, mas igualmente boa. Precisava urgentemente pensar. Sua cabeça latejava.
Caminhou pela casa, brincando com o colar com uma das mãos. Ao abrir a porta da garagem deu de cara com Sasuke, que a olhava sorrindo, mas ela sabia identificar a pitada de malícia ali contida.
– Bom dia Hinata.
– Bom dia.
Ela reparou o olhar dele para o colar, e viu a gargalhada divertida que ele soltou quando voltou a olhar para o rosto dela.
– Agora entendo o motivo da fuga rápida e envergonhada mais cedo.
A morena somente sorriu debochada, indo em direção a sua moto. Antes de sair, ouviu o grito do Uchiha para ela.
– Dê meus parabéns ao Naruto!
Sasuke ouviu o ronco do motor, mas podia jurar ter ouvido a gargalhada dela antes de acelerar.
~
Colocou mais uma caixa na pilha de doações. Seu quarto estava tecnicamente vazio. Duas pilhas de caixas de cada lado dele. Uma para a viagem, e outra para doações. Sua mãe conhecia um ótimo orfanato da cidade, e deixaria por conta dela esse assunto.
Ainda se lembrava das perguntas da mãe, assim que chegou pela manhã.
"Onde esteve?", "O que aconteceu com suas roupas?, estão todas amarrotadas!", "Porque tem marcas de chupão no seu pescoço?!", "Você e Sasuke não fizeram nenhuma besteira né?"...
Suspirou. Tsunade parecia uma matraca quando estava preocupada. O loiro não respondeu nenhuma das perguntas dela, alegando que precisava de um banho e depois conversariam.
Tocou a parte do pescoço onde ficava o colar. Não sabia se Hinata iria perceber. Queria tanto vê-la novamente. Fechou os olhos, se sentindo ruborizar ao lembrar da noite maravilhosa que tiveram.
Ainda se sentia quente. Lembrar do toque dela lhe causava arrepios. A textura da pele dela, de cada parte daquele corpo maravilhoso, ainda estava em suas mãos. Podia sentir tudo, tão vivo. Fora tremendamente difícil se afastar dela quando acordou. Ficar longe de Hinata doía.
Corou mais ainda ao lembrar do rosto questionador de Sasuke. Quando estava saindo da casa ele o viu. Naruto não respondeu as perguntas dele também, somente saiu rapidamente, totalmente ruborizado.
Ouviu batidas na porta, o tirando dos pensamentos. Sabia que era sua mãe, louca para descobrir o que havia acontecido. Abriu a porta, encontrando o sorriso caloroso dela.
– O café está pronto.
Desceram juntos, cada um com seus pensamentos. Só se ouvia o barulho dos talheres, e Naruto se sentia tenso, esperando o momento da abordagem.
– Então, pode começar.
Ele suspirou, tentando pensar em uma maneira de enrolar um pouco mais.
– Começar o que?
– Não me enrole Uzumaki Naruto. Sabe muito bem do que estou falando.
O loiro riu, achando graça do tom forçadamente sério da mãe.
– Entendi – limpou a garganta, já sentindo as bochechas quentes – Estava na casa da Hinata. Eu d-dormi lá...
O olhar de Tsunade era sério, não demonstrava nada demais.
– Dormiu lá. Com Sasuke?
Naruto mordeu os lábios, sentindo a testa suada.
– N-Não... C-Com a Hi-Hinata.
Fechou os olhos, esperando a explosão. Imaginava que a mãe ficaria furiosa com essa situação. Os dois nem ao menos estavam juntos, o que sempre o deixava triste, e sua mãe não gostava dessas coisas de 'somente uma noite'. O silêncio o deixava ainda mais tenso, por isso se atreveu a olhar para ela. Tsunade tinha um olhar terno, do tipo que lhe direcionava quando fazia algo compreensível.
– Está tudo bem Naruto. Não vou questioná-lo sobre isso.
O Uzumaki apenas olhou para ela, agradecendo com os olhos.
– Obrigado mãe.
Ela pegou as mãos dele, que estavam sobre a mesa, apertando as duas com as suas.
– Imagino como deve estar se sentindo. Apesar de lhe deixar triste, te dá uma sensação maravilhosa ao mesmo tempo. Só quero que saiba que estarei torcendo para tudo dar certo no final. Espero que se resolvam logo.
Naruto sorriu emocionado, dando a volta na mesa e abraçando a mãe. Sentia como se um peso saísse do seu corpo, somente por ter o apoio dela.
– Eu também espero mãe.
[...]
Com tudo devidamente organizado em seu quarto, ele resolveu tomar um longo banho e quem sabe tirar um cochilo. A vontade de ver Hinata apertava seu peito, mas a falta de coragem o induzia a permanecer em casa.
Suspirou em baixo do chuveiro, pensando no que faria quando partisse. Era sufocante o desespero e a dor ao se imaginar longe de Hinata. Longe dos sorrisos maliciosos e provocativos. Do olhar misterioso e indecifrável na maior parte do tempo. Dos toques macios e experientes dela.
Tudo em Hinata o atraia. Desde o maldito momento em que começou a interagir com ela. Porque fora se apaixonar logo por ela? Não que desprezasse o sentimento que pulsava em seu peito. Era só que, amar Hinata, doía. Pensar nisso lhe trouxe uma lembrança meio embaçada, como um sonho.
"Eu te amo, Hinata..."
Não poderia ser, poderia?, pensou desesperado. Não acreditava que tinha soltado essas palavras, inconscientemente. Enfiou a cabeça de baixo da água, querendo morrer afogado ali mesmo. Como iria encará-la agora?
Kami, o que havia feito?!
Se enrolou na toalha, indo procurar algo para vestir. Uma rápida olhada para o céu lhe constatou o óbvio, iria chover. Se vestiu no automático, se afundando em um poço de vergonha e desespero. Olhar no espelho e ver as marcas em seu pescoço não ajudavam em nada, o deixando mais inquieto. Mas nada poderia fazer agora. Pelo menos havia deixado claro antes de partir. E sabia que isso não mudaria nada.
Levou um susto ao ouvir batidas na porta, quase deixando o pente cair. Não adiantava organizar o cabelo, sempre ficava com os fios meio rebeldes. Com um resmungo irritado, escancarou a porta, dando de cara com o rosto surpreso e misterioso de sua mãe.
– Aconteceu algo? – a voz dela tinha uma pitada de diversão, e o loiro se sentiu confuso.
– Não. Porque a pergunta?
– Só curiosidade – deu uma risadinha baixa, mas que pode ser ouvida por Naruto – Tenho um compromisso agora, voltarei somente de noite. Então se for sair, tranque a casa. Estou com a chave.
Só agora o Uzumaki pode observar a mãe melhor. Sorriu divertido ao se ligar do que se tratava o 'compromisso'.
– Tudo bem mãe. Pode ficar tranquila – ela sorriu, dando um beijo em cada bochecha do filho. Antes que ela saísse, resolveu brincar com ela – Tenha um bom divertimento com aquele pervertido!
Tsunade olhou para ele corada, e resmungou algo como "Sendo alvo de brincadeiras pelo meu próprio filho!".
Naruto riu com o constrangimento dela. Fechando a porta e se jogando na cama. Ficar sem nada para fazer o deixava nervoso. Não queria pensar muito. Mas também não queria esquecer de nenhuma parte da noite. Com toda certeza se lembraria disso para o resto de sua vida.
O toque do celular, indicando uma mensagem o desligou dos pensamentos. Tinha tanto tempo que não tocava nesse celular. A ultima vez que mexeu nele, foi para visualizar aquela mensagem do amigo da morena, Gaara. Parecia ter sido a tantos anos, se fosse analisar o quanto as coisas haviam mudado de lá pra cá.
Com um suspiro, destravou a tela e abriu a pasta de mensagens recebidas. O número era desconhecido, o que o fez pensar ser o ruivo novamente.
"Que tal um passeio loirinho? Passo na sua casa daqui a 5 minutos.
HH."
Naruto não soube dizer quantas vezes leu a pequena mensagem. Suas mãos suavam, fazendo o celular escorregar diversas vezes de sua mão. Quando escutou duas buzinas na rua, quase desmaiou de tanto nervoso. Se encaminhou, trêmulo, até a janela. A visão que teve era a coisa mais linda. Hinata tirava o capacete enquanto descia da moto, a desligando e se escorando nela. Parecia muito irreal a visão da morena, em frente a sua casa, esperando por ele.
Quando realmente se convenceu disso, desceu correndo do quarto. O nervosismo era tanto, que até se atrapalhou quando foi trancar a casa. O rosto divertido de Hinata, e o sorriso malicioso estampado nele, foram as primeiras coisas que observou. Como conseguia sempre aquecer seu coração de uma forma nova, e ainda mais intensa?, pensou.
– Boa tarde.
O tom sensual com que ela falou, olhando para ele com as pérolas quentes, arrepiou cada pelo de seu corpo. Apesar de estar com o rosto pegando fogo, Naruto adorou o fato de que ela havia voltado a provocá-lo. Ao lado dela, se sentia realmente completo, apesar de tudo.
– B-Boa tarde, Hinata.
Ele sentiu seu coração pulsar ao vê-la usando seu colar. Parecia ser feito para ela, o que o fez sorrir, evidentemente feliz por ter dado a ela. Hinata percebeu o olhar dele, e inclinou a cabeça levemente para o lado, o examinando com as pérolas. Ele teve que se controlar para não agarrá-la devido ao rostinho maravilhoso que ela havia feito, apertando as mãos fortemente para conter o impulso.
– Você o esqueceu lá em casa – ela girava o colar com os dedos, olhando nos olhos do loiro.
– N-Não... É-É um pre-presente...
Hinata observou o rubor cobrindo o rosto dele, dando o mesmo sorriso que ela havia lhe dado no colégio, no dia que o agradeceu. O sorriso simples, mas verdadeiro. Os olhos de Naruto brilharam ao ver, totalmente encantado.
Como conseguia ficar ainda mais fascinado por ela?
– Tudo bem. Obrigada pelo presente.
Ele somente corou, assentindo levemente para ela. Ficaram em silêncio por um momento, apenas ouvindo o barulho do vento. Definitivamente iria chover.
– Que tal uma volta? Essa chuva não vai demorar a cair – Hinata falou, enquanto subia na moto e colocava o capacete, esticando o outro para Naruto.
Ele se aproximou, subindo na moto e ajeitando o capacete na cabeça. Ouviu um "Se segure!" abafado dela, e com muita vergonha, colocou os braços ao redor da cintura da morena. O choque que atingiu seu corpo, ao tocar nela, o fez suspirar. Era bom demais sentir o calor do corpo dela, totalmente sublime.
Não prestou muita atenção no caminho que percorriam. Somente sentindo a sensação de liberdade e paz, que lhe eram proporcionadas pelo vento e a presença dela. Para o loiro, quando Hinata está ao seu lado, o mundo deixa de existir.
A chuva não demorou a cair, deixando os dois molhados, antes de pararem em uma pequena cobertura. Hinata guardou os capacetes e colocou a moto em baixo da cobertura, e ambos se encostaram nela. O silêncio era de certa forma tranquilizante para os dois. Eles não sentiam necessidade de preenche-lo com algo. Somente observavam a forte chuva, ouvindo o barulho que ela fazia ao cair no telhado, e sentindo o cheiro maravilhoso de terra molhada.
Naruto desviou os olhos da chuva, admirando a morena por um momento. Os cabelos úmidos e meio desgrenhados. O rosto sério, com um olhar misterioso, como sempre. Ela parecia estar em outro mundo, a julgar pela expressão que tinha ao olhar a chuva. O Uzumaki imaginava que poderia estar se lembrando de algo, e por isso resolveu não incomodá-la.
– Eu costumava gostar da chuva.
Ele se assustou, saindo do transe que estava por observá-la. A voz dela ao pronunciar a frase, parecia perdida. O coração de Naruto se comprimiu, ao pensar nela triste. Porém, não sabia o que falar no momento. Observou ela respirar fundo, fechando os olhos, enquanto algumas gotas caiam sobre seu rosto. Ainda que a achasse linda nesse momento, Naruto não pode evitar se sentir triste, ao ver o olhar dela quando o encarou.
– Hinata...
– Estava chovendo quando perdi meu pai. Desde então, a chuva se tornou uma das minhas piores lembranças. Apesar de ser um de nossos passatempos preferidos. Sentávamos na varanda, observando a chuva por um longo tempo.
Ela desviou os olhos novamente para a rua, observando em silêncio um grupo de crianças correndo no parque a frente. O loiro não sabia definir o que sentia no momento. Parecia impossível não se sentir feliz por ela ter compartilhado algo com ele. Mas também não conseguia evitar a tristeza ao vê-la desse jeito. Perdida.
Fora tão rápido, que ele não soube dizer se pensou nas consequências. Mas, quando parou para pensar se ela gostaria ou não, já havia pego na mão dela. É claro que corou drasticamente ao ter os olhos pérolas em sua direção. No fundo, valia a pena o constrangimento. A mão de Hinata tão delicada junto a sua, fazia seu coração bater acelerado como sempre.
Impossível não se sentir quente, ao lembrar das mãos dela o acariciando intimamente. Mãos que faziam seu corpo tremer, o deixando ainda mais louco por ela. Mordeu os lábios, fechando os olhos para tentar pensar com clareza. Hinata ainda o encarava curiosa, deixando que Naruto entrelaçasse as mãos.
– A-Acho que não deveria pensar assim Hinata... – a morena o olhava atentamente, prestando atenção em suas palavras – Seu pai não se sentiria feliz se soubesse que deixou de gostar de algo que compartilhavam juntos. Deveria ficar feliz por observar a chuva, lembrando dos momentos que passaram juntos, ao invés de algo tão triste.
Hinata olhou em seus olhos, sentindo todo o carinho nas palavras dele. A sensação de ser reconfortada por Naruto, era deveras ótima. Seu coração pulsava, ao ver o leve sorriso tímido nos lábios dele. Como conseguia fazer com que ela se sentisse tão bem de uma hora para outra? Respirou fundo, sentindo o estômago se revirar com essas sensações desconhecidas.
– Obrigada – sorriu divertida ao ver a surpresa do loiro, desviando os olhos para o céu – Realmente vale a pena relembrar das coisas boas.
Naruto sorriu feliz, encantado com a postura relaxada que a morena adquiriu. Era um alívio saber que a expressão triste não voltaria. Queria sempre vê-la assim. Olhou paras as mãos ainda unidas, ruborizando intensamente. Na verdade, em seu intimo, sentia vontade de sempre segurar as mãos dela. No entanto, sabia que Hinata não gostava disso, e mesmo que se sentisse mal e triste, soltou a mão dela. De cabeça baixa, ele não reparou no olhar confuso que a morena lhe direcionou.
A chuva se tornou um chuvisco fraco, enquanto a tarde dava lugar para a noite.
– Quero te mostrar algo.
Ele olhou para ela, assentindo levemente, ainda que um pouco desanimado. Colocaram os capacetes, e logo disparavam pelas ruas. Durante todo o caminho, os dois ficaram perdidos em pensamentos. Ele se perguntava sobre o futuro, especificamente se Hinata estaria nele. Ela tentava entender o que estava acontecendo com ela, o porque de querer a presença constante do loiro.
Pararam em frente a um pequeno galpão, devidamente trancado. Naruto ficou confuso, mas preferiu ficar calado. Olhou de esguelha para Hinata, percebendo um leve sorriso nos lábios dela. Ela olhava para o galpão como se fosse algo muito importante para ela. Observou ela retirar uma chave do bolso, apertando em um botão. O portão se abriu rapidamente, não revelando nada devido a escuridão.
– Por aqui.
Se guiou por ela, tentando enxergar algo a sua volta. Depois de andarem um pouco, ele ouviu um 'clic' a sua frente. A luz forte quase o cegou, fazendo com que ficasse de olhos fechados por um momento. Ao abri-los, focou os olhos em Hinata, que estava parada perto de um quadro. Surpreso, se aproximou um pouco mais, prestando atenção nos detalhes da pintura a sua frente.
Um céu incrivelmente azul pintava a tela. Algumas nuvens claras davam um toque a mais a paisagem. Era uma pintura muito simples, mas algo nela o encantava. Era como se estivesse conectado ao quadro. Olhou para o canto, onde normalmente iam as assinaturas dos artistas, e arfou ao ler o nome.
Hyuuga Hinata.
– O-O q-que...
Hinata tinha um sorriso divertido ao observar a reação dele. Já imaginava algo do tipo.
– Foi o primeiro quadro que pintei.
Naruto desviou os olhos para ela, tentando entender o que se passava em sua mente. Será que era isso que ela queria fazer? Estava tão curioso.
– E-Então, é i-isso que q-quer fazer? P-Por isso n-não quer assumir a e-empresa?
A morena apenas encarou o quadro, parecendo pensar na resposta. O modo que os olhos dela ficavam ao ver a pintura, fascinava ainda mais o loiro. Era tão diferente de tudo que já havia visto. Não sabia dizer o que significava. Queria muito saber o porque do brilho misterioso que as pérolas mostravam nesse momento.
– Nunca senti vontade de assumir a empresa. Apesar de ser algo que já foi do meu pai – desviou os olhos da pintura, olhando para Naruto – Quanto ao o que eu quero... Quem sabe seja isso.
Sorriu de lado, piscando para o Uzumaki. Ele corou, sentindo a pulsação forte. Vê-la tão a vontade em sua presença, compartilhando coisas que nunca imaginou com ele, era perfeitamente bom. Com toda certeza, até agora, era mais um dos melhores momentos que já havia passado com ela.
Havia outros quadros no galpão. Hinata participava de um pequeno grupo de artistas, que pintavam somente por diversão. A morena havia começado a pouco tempo, e já tinha feito três quadros. Os outros dois eram mais elaborados. Um era uma paisagem de um campo florido, onde podia ver a silhueta de um homem e uma menina. Naruto rapidamente soube que se tratava da Hyuuga e do pai, e se perguntou se era uma lembrança dela.
O outro era um pouco melancólico, na opinião de Naruto. Uma jovem olhava o céu escuro e estrelado, os cabelos balançando ao vento. Parecia muito solitária. Era o único quadro com título.
"À espera do céu azul"
O que poderia significar?, pensou. Apesar de estar curioso, ele se sentia envergonhado para perguntar. E imaginava que talvez não fosse nada demais, já que Hinata não tinha o mesmo brilho que havia visto antes, enquanto encarava o quadro. Talvez fosse uma representação da falta que sentia do pai. Somente o título que o intrigava. Resolveu afogar a curiosidade, se contentando em apenas ouvir quando ela quisesse falar.
– Esse foi o último que pintei. Foi hoje de manhã.
Somente disse isso, encarando o quadro sem demonstrar nenhuma emoção. Parecia ser o menos importante para ela. Observou ela cobrir os quadros, e logo apagando as luzes. Enquanto caminhavam de volta para a moto, Naruto se perguntava se ainda teria a oportunidade de ver mais quadros dela. Realmente ela sabia pintar muito bem.
O caminho até a casa dele fora silencioso. O vento frio deixava as partes expostas do corpo arrepiadas. E assim que Hinata parou a moto em frente a sua porta, ele se deu conta de que agora faltava somente dois dias para ir embora. Era assustador pensar em quanto tempo passaria sem vê-la.
E como se para dificultar ainda mais as coisas, ela havia ficado mais sociável justamente nos seus últimos dias na cidade. Era tão injusto que talvez nunca mais pudessem ter esses momentos no futuro. Porque não poderia tê-la para sempre ao seu lado?, se questionou com angustia. Queria tanto não ter que acordar desse sonho.
– Está entregue – olhou para ele, analisando o comportamento retraído que adquiriu.
– M-Muito o-obrigado pelo d-dia i-incrível Hinata... E-Eu realmente a-adorei – pigarreou para disfarçar a voz levemente embargada, não queria chorar na frente dela – T-Tenho que e-entrar a-agora. Até d-depois e-então!
Praticamente correu para casa, abrindo a porta as pressas. Não reparou se sua mãe já havia chegado, somente subiu para o quarto, se jogando na cama após bater a porta com força. As lágrimas já o cegavam, e os soluços cortavam o silêncio do ambiente. Realmente já havia se tornado um hábito tudo isso. Já devia ter se conformado a muito tempo. Mas era realmente difícil enfrentar a triste realidade.
No entanto, tinha que ser forte. Precisava se esforçar para o seu futuro. Mesmo que doesse emocionalmente e fisicamente ficar longe dela. Guardaria na memória e no coração todos os momentos que passaram juntos, e sabia que isso lhe daria forças quando fraquejasse.
Porque apesar de não ficar ao lado dela, ela sempre seria parte dele. E tempo nenhum mudaria isso.
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