Uneven Odds
17 Capítulo 16 - Realidade - Parte 1
Notas iniciais
Bella POV
Fui pontual, assim como Edward. Sentia meu coração bater como uma bateria de banda de rock.
Anthony veio correndo me abraçar e parecia esfuziante com nossa saída juntos. Enquanto minha mãe nos olhava com um sorriso nada discreto, Edward me cumprimentou apenas segurando minha mão. Ele estava lindo, usando uma calça jeans escura, sapato e uma blusa bege de crochê. Sua expressão estava tranquila e relaxada, bem diferente do que havia visto pela manhã. Essa era a nossa chance de deixar o que tinha acontecido de lado e aproveitar a noite.
Nos despedimos de minha mãe e saímos de casa. Acabei sorrindo ao ver o mesmo carro que Edward usou naquele dia como Alec. Querendo ou não, eu guardava boas lembranças daquele momento. Nosso primeiro encontro.
Edward abriu a porta para mim e eu o olhei um pouco chocada. Não era um gesto que se via com muita frequência e se era assim dez anos atrás, podia imaginar que hoje em dia seria ainda pior. Isso só provava que eu havia me casado com um cavaleiro. Sorri e entrei no carro. Verifiquei Anthony que havia entrado sozinho e já colocado seu cinto. Nosso menino mantinha um sorriso enorme no rosto e não parava de conversar. Foi isso que manteve o ambiente mais confortável, já que eu e Edward mal trocávamos uma palavra com o outro. Certa tensão ainda nos rondava, mas eu percebia que não era algo necessariamente ruim.
Chegamos no restaurante e um Vallet veio pegar o carro. Saí do carro e observei o local. Era rústico, ainda assim mantinha certa sofisticação. Não lembrava em nada as pizzarias que eu costumava frequentar. Segurei a mão de Anthony e entramos. Por dentro o ambiente seguia a mesma decoração. Como uma casa de inverno, das mais chiques. Era difícil imaginar como o ambiente ideal para uma criança. Tiraram meu casaco enquanto Edward conversava com o Maître. Em seguida, ele nos acompanhou até nossa mesa conforme conversava animadamente com Anthony. Aparentemente éramos clientes assíduos do local. O Maître, Charles, pediu licença avisando que ia chamar um garçom para nos atender e saiu, voltando para a porta do restaurante. Edward puxou minha cadeira e depois foi ajudar Anthony subir na sua.
Eu ainda me sentia um pouco incomodada com o local. Já havia percebido — pelos locais que havíamos ido juntos — que o gosto de Edward era requintado, por isso mesmo, havia me vestido um pouco melhor, mas não esperava tudo isso em uma pizzaria. Estava aliviada por ter tirado a calça jeans desbotada e tênis e colocado uma calça de couro e uma bota.
– Boa noite — um rapaz alto e loiro nos cumprimentou. — Meu nome é Gabriel e serei seu garçom hoje — se apresentou entregando o cardápio. — Desejam algo para entrada?
– Não, obrigado — Edward respondeu, ele acenou e saiu, nos deixando a sós.
Peguei o cardápio e mais uma vez parecia que aquele era outro mundo. Um, que a pizza custava uma fortuna e era vendida por fatias. Fiz uma careta.
– Tudo bem, Isabella? — olhei para Edward, que me encarava preocupado. Era a primeira vez que me dirigia a palavra diretamente.
– Ah, tudo sim — disfarcei, mas não pareceu surtir efeito, já que ele apenas arqueou a sobrancelha. Suspirei. — Só um pouco surpresa com o local. Tinha em mente um tipo diferente de pizzaria, mais popular, eu acho — dei de ombros, Edward me encarou um pouco surpreso.
– A pizza daqui é a melhor, mamãe — Anthony defendeu. Sorri.
– Tenho certeza disso, filho — por esse preço era bom que fosse mesmo.– Qual sua preferida? — decidi esquecer um pouco minha implicância com o local e seus preços, e apenas aproveitar essa noite.
– A que tem muito queijo e umas folhas verdes em cima... Hum... — passou a língua nos lábios. — É muuuuito boa.
– E você, Isabella. O que vai pedir? — Edward perguntou, atraindo minha atenção.
– Achei que você soubesse qual seria a minha pizza preferida — provoquei, ele arriscou um sorriso. O primeiro da noite. Finalmente!
– Eu sei a pizza que a mamãe gosta — Anthony interrompeu, olhando para mim.
– Temos que deixar a mamãe escolher, Tony. Ela pode preferir outro sabor hoje, muitas coisas podem mudar — sua resposta me deixou intrigada. Do que ele estava falando?– Então, qual você gostaria de pedir? — voltou a perguntar.
– Calabresa — disse, esperando ver alguma reação dele a essa minha simples resposta, mas não houve nada, apenas um breve sorriso. Ele fez sinal para o garçom. Não resisti a curiosidade e questionei:
– Era o que eu costumava pedir? — Edward olhou de relance para mim e seu sorriso característico estava lá, colado em seu rosto. O mesmo que me irritou quando me deu carona como Alec.
– Não, não era — respondeu.
– Era de brócolis — Anthony completou fazendo uma careta de nojo.
Brócolis? Eu comia pizza de brócolis? Eu odiava brócolis. Ainda curtindo minha cara de choque, Edward fez os pedidos para o garçom.
– E para beber? — Gabriel perguntou. Olhei perdida para Edward.
Sabia que Anthony não bebia refrigerante após as quatro da tarde, por causa do excesso de açúcar, mas confesso que comer pizza com suco não estava nos meus planos.
– Vamos querer um suco de laranja, um de carambola e uma taça de Salton Classic Cabernet Sauvignon — minha testa franziu.
Não sabia o que me incomodava mais: ele beber, sabendo que estava dirigindo ou me pedir um suco de carambola.
Assim que o garçom saiu com os pedidos, disparei:
– Você não pode beber, além do mais, eu odeio carambola — reclamei em um sussurro.
– A carambola é para mim, o vinho é seu — explicou com calma. — Imaginei que não iria querer suco com pizza, mas se quiser podemos chamar o garçom e mudar o pedido.
O vinho era para mim? Ele estava louco?
– Edward, eu não posso beber, só tenho dezess... — então a ficha caiu.
Eu não era mais menor de idade. Podia beber. Beber vinho e comer pizza de brócolis...
– Com licença — pedi, levantando de repente. Edward repetiu meu movimento, parecendo preocupado.
– Tudo bem?
– Sim, só preciso de um minuto — olhei para Anthony, que imitava a expressão do pai. — Já volto — disse, tentando em vão tranquilizá-lo.
Entrei no banheiro como um furacão assustando a mulher que terminava de lavar as mãos. Ela saiu me olhando como se eu fosse uma louca. Encostei as mãos na pia.
Inspira. Expira. Inspira. Expira.
Nunca imaginei que sair para comer uma pizza com meu marido e filho podia ser tão difícil. Devia ter aproveitado melhor o tempo que fiquei com Anthony e perguntado coisas úteis como qual era meu tipo de pizza preferido, mas ao invés disso, eu sempre evitei falar sobre como eu era.
Todo esse tempo eu vivi em uma redoma de vidro.
E a pior parte de tudo isso era perceber como minha mãe sabia pouca coisa sobre mim. Sobre quem eu havia me tornado. Por isso eu nunca percebia qualquer diferença, para ela eu era a mesma, só que isso não era verdade. Ficar ao lado de Edward e Alice mostrava claramente isso. Era como receber um soco da realidade.
– Isabella? — Edward chamou, batendo de leve na porta.
Afastei da pia e fui até a porta, abrindo. Ele parecia apreensivo e isso me fez sentir um pouco culpada. Estava estragando a noite.
– Desculpa — disse, antes que pudesse falar qualquer coisa. Sua expressão ficou confusa.
– Por que está se desculpando?
– Estou acabando com nossa noite em família com bobagens.
– Não são bobagens — respondeu sério. — É a sua vida, sua memória — ele encostou na parede. — Talvez eu tenha apressado as coisas com esse convite. Devíamos ter conversado antes. Ir com mais calma. Se alguém deve desculpas sou eu.
– Nisso eu concordo — disse séria. Seu olhar entristeceu. — Deve muitas desculpas por me deixar comer pizza de brócolis — Edward balançou a cabeça, aliviado com minha resposta e riu. Ele aproveitou minha distração e me puxou para mais perto, senti meu coração bater na garganta. — Anthony? — procurei saber.
– Encontrei um casal de amigos, ele está com eles — seus dedos acariciaram meu rosto. — Prometo te salvar das pizzas de brócolis a partir de agora. Ok? — sorri, mais relaxada. Edward sorriu de lado e seu polegar passou pelos meus lábios. Fechei os olhos, esperando, querendo mais uma vez sua boca na minha. — Melhor voltarmos para nossa mesa — sussurrou no meu ouvido.
Abri os olhos decepcionada, mas logo fiquei sem graça ao encontrar algumas pessoas cochichando ao passar por nós para usar o banheiro. Realmente ali não era o melhor lugar para um beijo. Encarei Edward e ele parecia achar graça da situação. Bati no peito dele e ele riu, se fazendo de coitado.
Voltamos para o salão principal e vi Anthony em outra mesa com um casal e uma menina, que parecia ser um pouco mais velha que ele. Edward segurou minha mão.
– Se quiser, não precisa falar com eles — ofereceu. — Eles sabem da situação e entendem — olhei para Edward e neguei. Essa noite era a prova concreta que estava mais do que na hora de parar de me esconder.
– Eu tenho que fazer isso, não posso fugir para sempre — ele acenou, concordando. Apertei sua mão na minha. Ele sorriu e seguimos até a mesa.
– Mamãe, olha o que o tio Emm fez para mim — Anthony mostrou um pássaro feito de papel. Soltei a mão de Edward e o peguei.
– É lindo, filho.
– Ele vai me ensinar, não é, tio? — o homem moreno e alto bagunçou o cabelo de Anthony.
– Claro que sim. Vou fazer você encher a casa de animais de papel — arqueei minha sobrancelha.
– Não sei se gosto muito dessa ideia — o tal de Emm riu.
– Essa parece a mesma Isabella de sempre. Tem certeza que perdeu a memória?
– Emmett! — a mulher loira ao lado dele ralhou enquanto Edward olhava para o alto como se pedisse paciência. — Desculpe, meu marido. Acho que ele não teve a educação necessária em casa — explicou, fuzilando ele com o olhar.
– Vou contar para mamãe que você disse isso — respondeu com um sorriso maldoso, ela apenas estreitou os olhos para ele e depois voltou sua atenção para mim.
– Mais uma vez, sinto muito. Meu nome é Rosalie Wright, esse sem graça é meu marido, Emmett Wright.
– Assim você me ofende, amor — se fez de coitado. — Não quero que Isabella tenha uma má impressão de mim mais uma vez.
– Basta, Emmett! — dessa vez quem ralhou foi Edward. — Por favor — pediu e dessa vez pareceu ter o efeito desejado, já que ele parece entender que a situação não era a melhor.
– Desculpe, Isabella. Eu passo um pouco do limite quando são brincadeiras, mas juro que não é com má intenção — justificou-se sem jeito.
– Tudo bem, Emmett. É um prazer conhecê-los — nos cumprimentamos. — E essa menina linda, quem é? — olhei para a garota ao lado de Anthony, parecia puxar os traços nórdicos da mãe e a postura e altura do pai. Agachei na sua altura. — Qual seu nome?
– Melissa, tia Isabella — levantei de súbito. Mais uma pessoa que devia saber mais de mim do que eu mesma.
– Melhor voltarmos para nossa mesa, a pizza chegou — Edward avisou, passando a mão na minha cintura. — Foi um prazer encontrá-los e obrigado por cuidar de Anthony — agradeceu.
Rosalie sorriu e Emmett disparou, malicioso:
– Imagina, Edward. Estaremos aqui para você sempre que precisar dar uma rapidinha no banheiro com sua esposa — arregalei os olhos e senti meu rosto queimar de vergonha.
– Emmett!
**
Voltamos para nossa mesa e eu ainda não sabia onde enfiar a cara e muito menos olhar para Edward. Rosalie ainda parecia discutir com o marido.
– Papai, por que a tia Rose estava brigando com o tio? E por que a mamãe ficou vermelha? — e se essas perguntas já não eram ruins, a última quase me fez entrar debaixo da mesa. — O que é uma rapidinha? — Edward fingiu tossir.
– Depois eu explico Anthony, agora vamos comer — disse, fugindo do assunto. Fiquei pensando o que Edward diria para ele mais tarde. O garçom nos serviu e saiu, deixando o silêncio desconfortável na mesa ainda pior.
Ajudei Anthony a cortar sua pizza e depois tentei aproveitar a minha. O vinho casava muito bem com o sabor. Nem podia acreditar que estava bebendo bebida alcoólica em um local público. As únicas vezes que bebi foram nas festas do colégio e era muito pouco. Nunca gostei do gosto de álcool.
– Como está o vinho? — Edward perguntou, quebrando o gelo.
– Muito bom — elogiei, sem olhá-lo.
– Já tinha tomado? — levantei a cabeça e encarei Edward intrigada, ele apenas sorriu. Céus! Como eu podia gostar e odiar aquele sorriso ao mesmo tempo?
– Acredito que você deva saber melhor do que eu — respondi um tanto seca. Seu sorriso não diminuiu. Como se gostasse de me ver irritada.
– Eu quero saber por você. Nunca bebeu nada alcoólico antes? — voltou a perguntar, colocando um pedaço de pizza na boca.
Só então me dei conta que ele estava interessado em saber sobre minha adolescência e no que eu lembrava e não me provocando. Como se quisesse me conhecer de novo. Resolvi baixar a guarda, afinal a culpa de me sentir mal não era dele e sim do seu amigo inconveniente.
– Em algumas festas do colégio, mas só tinha cerveja e eu não gostava muito do sabor.
– É ruim? — Anthony perguntou, atraindo minha atenção.
– Horrível. Amarga — respondi e fiz um careta, ele espelhou minha expressão.
– Eca — disse mostrando a língua.
– Ótimo, continue pensando assim — Edward comentou e eu ri. Já esquecendo a vergonha que Emmett havia me feito passar.
– Quero mais suco — Anthony pediu. Edward chamou o garçom e fez o pedido, aproveitei e pedi mais uma taça de vinho.
– Eu disse que estava bom — rebati quando me encarou. Ele sorriu. — Como sabia que ficaria tão bom com a pizza? — quis saber. Edward olhou seu prato e só então eu vi a pizza que havia pedido. Calabresa.
– Quando saímos com o motorista sempre peço esse vinho, é o que eu mais gosto e o que melhor harmoniza com esse tipo de pizza — estreitei meus olhos.
– Você quer dizer que quando saíamos você pedia essa pizza deliciosa e eu ficava com a de brócolis? Confesso que me sinto um pouco ofendida agora — reclamei, mas sem conseguir segurar o sorriso provocador. Ele sacudiu a cabeça, rindo, Anthony acabou rindo também, por certo, sem entender do que raios estávamos falando.
– Não tenho culpa se você adorava sua pizza de brócolis, Süsse — disparou sem pensar, mas assim que percebeu, congelou. Eu também. Aquele apelido parecia algo tão intimo, pessoal.
– Pai, quero ir no banheiro — Anthony pediu, sem perceber o clima que havia ficado na mesa. Sua intervenção foi um alivio. Edward levantou e o acompanhou.
Fiquei na mesa perdida em pensamentos. Ele já havia escapado esse nome antes, quando ainda era Alec.
Isso queria dizer alguma coisa?
Não. Acho que a única coisa que significava era que Edward estava mais a vontade na minha presença, assim como acontecia comigo. Era como se tivéssemos dando a chance que o outro queria. Abrindo as portas. E ao mesmo tempo que era isso que eu estava buscando, isso me assustava. Eu nunca havia me sentido desse modo por ninguém. Tão vulnerável.
– Isabella? — virei e dei de cara com Emmett, que coçava a cabeça, um pouco sem graça. — Olha, eu queria me desculpar novamente pelo meu comportamento, foi completamente inapropriado. Não é desculpa, mas eu bebi um pouco e quando eu vi você com Edward, achei que tivesse, você sabe... — deixou a frase no ar. Sabia muito bem. Me ver com Edward era o mesmo que achar que tivesse recuperado a memória.
– Não se preocupe com isso, Emmett. Não é fácil para ninguém, mas eu agradeço por vir conversar comigo. Significa muito — ele acenou concordando.
– Você fez muita falta, especialmente para esses dois — apontou as cadeiras vazias. — É muito bom vê-los juntos — sorri.
– Eu também acho.
– Tio Emm! — Anthony veio correndo e pulou nos braços dele. — Quando vai me ensinar a fazer os outros animais de papel?
– Quando quiser, garoto. É só pedir para seu pai — Edward se aproximou com o cenho franzido, provavelmente ainda estava irritado pelas brincadeiras do amigo.
– Já vai, Emmett?
– Sim, as meninas estão me esperando na porta. Só vim conversar um pouco com Isabella — colocou Anthony no chão e cumprimentou o amigo. — Nos vemos amanhã na empresa? — Edward assentiu. — E você, se comporte — disse para Tony, que acenou, concordando. — Até mais Isabella — se despediu e foi embora.
– Vocês trabalham juntos? — perguntei conforme voltávamos a nos sentar.
– Sim, é um grande amigo, só exagera às vezes — disse colocando Anthony na cadeira. Sorri, percebendo que era a mais pura verdade.
O resto do jantar correu tranquilamente, mas o melhor ficou para o final. A sobremesa. Edward pediu seis tipos diferentes e me explicou a brincadeira que gostavam de fazer. Anthony parecia se divertir ao dar o doce com o garfo na minha boca e eu fazer isso com o pai dele. Pedíamos para o outro fechar os olhos e tentar adivinhar qual era a sobremesa. Ríamos e nos divertíamos como uma verdadeira família.
Sem amnésia. Sem problemas. Apenas nós.
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