Uneven Odds
16 Capítulo 15 - Descobertas
Notas iniciais
Bella POV
Enquanto seguia para casa, pensava sobre tudo o que tinha acabado de acontecer. Na frieza de Edward quando me viu. Seu jeito rude ao me mandar embora. Nosso beijo.
Toquei meus lábios, ainda os sentindo um pouco dormentes. Seria uma idiota se negasse o quanto gostei desse contato, do seu corpo junto ao meu. Era certo. Só que ao mesmo tempo algo não parecia se encaixar. E eu sabia bem o que era. Edward não lembrava em nada o rapaz gentil que conheci como Alec, muito ao contrário, agora via nele um homem amargurado e sombrio.
Não era difícil definir o momento de sua mudança. Mas como ia saber que estava conversando com meu marido? E ele também era um babaca por acreditar! Devia me conhecer, saber que não seria capaz de algo assim e não acreditar cegamente em alguém que não lembrava dos últimos dez anos de sua vida. Isso me deixava aborrecida e ao mesmo tempo intrigada em relação ao nosso casamento. Tinha alguma coisa errada, mas o quê?
Encostei a cabeça na janela do carro.
Edward afirmou que não o traí, que Michael falou a verdade. Ainda assim, ele me olhava de um modo estranho. Algo havia se quebrado nele depois que falei sobre o caso. Sentia-me culpada pelo estado em que o encontrei, tão bêbado que não conseguia ficar em pé. Mas se não era verdade, porque ele estava assim? Por que queria tanto esquecer o passado? Recomeçar?
Sua proposta me pegou de surpresa e apesar da ideia me agradar, eu não queria deixar o passado para trás. Estava ávida por informações da nossa vida, já Edward parecia querer esquecer. Por quê?
Queria ter questionado, mas surgiu um imprevisto no trabalho dele e ele precisou sair. Prometendo que nós conversaríamos mais tarde. Eu só pude concordar. Seria bom conversar com ele com mais tranquilidade, só nós. Na verdade, estava ansiosa por isso.
**
Cheguei em casa e assim que fechei a porta, minha mãe veio na minha direção. Pude ver de relance que ela não estava sozinha. Para minha surpresa, Alice estava sentada no sofá, sua expressão calma pareceu se alterar quando me viu, ficando um pouco tensa.
– Filha, como foi? — minha mãe perguntou ansiosa.
Havia avisado o motivo de passar a noite fora e ela tinha ficado toda animada. Era uma romântica incurável. Acreditava que tudo era fácil de resolver. Ledo engano.
– Bem, eu acho — disse incerta. Ela estranhou, mas não insistiu, mudando de assunto.
– Viu quem veio te visitar? — comentou, me acompanhando até onde Alice estava. Deixei minha bolsa com as chaves no sofá que ficava perto da porta e fui cumprimentá-la.
– Como vai Alice?
– Estou bem e você?
– Indo — respondi sem esconder certo desânimo.
Meu dia não estava saindo como havia planejado. Ok, sabia que Edward não ia pular de alegria quando aparecesse na sua frente, mas também não estava esperando uma recepção tão fria e distante. Era bom saber que não o havia traído, mas isso era só a ponta do iceberg. Estava cansada, chateada e perdida.
– Vou deixar vocês duas conversarem, qualquer coisa estarei no meu quarto — minha mãe avisou sorrindo, assenti e me sentei ao lado de Alice enquanto ela se retirava.
– Tia Renée comentou que foi tentar conversar com Edward — comentou naturalmente. Suspirei.
– É — respondi simplesmente. Ela se remexeu no lugar. Éramos tão amigas na minha adolescência, agora parecíamos duas estranhas.
– Eu sinto muito, Isabella — olhei para ela com a sobrancelha arqueada. — Eu levei tudo para o lado pessoal. Você só queria tempo para colocar a cabeça em ordem e eu não respeitei isso. Agi como uma criança — condenou-se, acabei sorrindo com sua confissão.
– Então somos duas — concordei, ela devolveu o sorriso, parecendo mais relaxada. — Eu precisava de um tempo, Alice. Estava tão perdida com o que estava acontecendo. Eu pensei que fosse enlouquecer — confessei querendo esquecer os momentos de angústia que passei naquele hospital e nos primeiros dias nessa casa.
– Eu sei, amiga. Jasper e Edward conversaram tanto comigo sobre isso, mas eu não entendia. Na minha cabeça você estava me afastando de novo e eu fiquei com medo de perder sua amizade — franzi minha testa em sinal de confusão.
– Afastar você de novo? Nós sempre fomos inseparáveis, Alice — falei sem compreender. Ela suspirou, maneando levemente a cabeça, negando.
– Nem sempre — arregalei os olhos, surpresa com sua resposta.
– O que quer dizer? — ela parecia tomar coragem antes de continuar.
– Você mudou muito depois da morte de seu pai — começou dizendo. Senti minha garganta apertar, respirei fundo, procurando me controlar, já havia chorado tanto no dia anterior.
– Eu estava de luto, Alice. Acho que é normal passar por algo assim depois de perder alguém importante — justifiquei.
Minha mãe havia comentado que eu havia mudado muito após a morte de meu pai, mas depois de uma grande perda isso era normal, não era?
– Eu sei, Isabella e nós compreendíamos, só que você não saiu do luto. Parecia que um pouco de você morria a cada ano e tudo piorou quando completou dezessete anos. Talvez o excesso de responsabilidades, ter que manter dois empregos e ainda pensar na faculdade. Não sei. Você não era mesma, se tornou uma pessoa fria e distante — não sabia o que pensar. Sempre fui uma pessoa racional, mas distante, fria, nunca. Quem eu me tornei?
– Já fazia três anos da morte de seu pai e achamos que seria bom comemoramos o Natal juntos. Queríamos que fosse especial, era como prestar uma homenagem a ele, que gostava tanto do feriado e tentar trazer a velha Isabella de volta. Sabe, reunir a família, conversar, comer, abrir os presentes. Era tão bom — disse saudosa. Segurei para não chorar, a lembrança ainda estava viva na minha mente.
– O que aconteceu, Alice? — perguntei hesitante, sem saber ao certo se eu queria descobrir. Ela desviou o olhar por um instante, encarando as mãos.
– Estávamos terminando de montar a árvore, quando você chegou do trabalho — voltou a me encarar, visivelmente abalada com a lembrança. — Você entrou e do nada começou a destruir tudo, derrubou a árvore no chão, tirou os enfeites da escada — arregalei os olhos, alarmada. — Ficamos em choque com seu ataque, Jacob tentou fazer você parar, mas nem ele conseguiu segurá-la, tamanha era sua raiva. Você gritou que aquilo era uma farsa, que não queria ninguém ali, que sua família não existia mais, que estava morta — coloquei a mão na boca, para abafar soluço.
Alice me abraçou apertado enquanto eu chorava. Não podia acreditar que havia feito isso. Eu lembrava que sentia falta do meu pai de uma forma absurda, mas não imaginava que podia ter ido tão longe.
– Minha mãe? Eu não podia fazer isso com ela. Ter dito essas coisas — murmurei com a voz embargada pensando no sofrimento que teria causado nela. Alice se afastou e enxugou meu rosto.
– Ela não estava conosco — suspirei aliviada. — Tinha saído para fazer compras. Quando voltou, já tínhamos arrumado grande parte da bagunça. Contamos para ela de forma editada o que aconteceu e ela entendeu sua reação. Desde aquele dia nossa amizade que já estava distante ficou ainda mais, você não era mais a Isabella que eu conhecia. Chegou uma hora que simplesmente deixamos de nos falar. Fomos para faculdades diferentes e nossa única conexão era Jacob, já que vocês ainda mantinham algum contato — assenti, ainda perdida em meio a tantas informações.
– E como voltamos a nos falar? — perguntei interessada, já conseguindo controlar a emoção.
– Eu queria você no meu casamento — ela sorriu e fiz o mesmo. — Era importante para mim. Apesar de tudo, sentia sua falta, falta da sua amizade. Peguei seu telefone com Jacob e liguei. Você ficou surpresa, mas eu fiquei ainda mais quando marcamos de nos encontrar e você pediu desculpas pelo distanciamento, que era teimosa demais para dar o primeiro passo e que também sentia minha falta. Não foi um começo muito fácil, você abominava a minha ideia de casar, achava arcaica, enquanto isso, eu a repreendia por ser tão volúvel em relação aos homens, a cada vez que nos encontrávamos, era um caso novo — ela torceu os lábios e eu acabei rindo. Eu não era de namorar sério no colégio, adorava flertar e provocar os garotos. Pelo visto isso não tinha mudado nada.
– Bom, apesar de tudo isso, das nossas diferenças, algo ainda nos unia, tanto que me ajudou no que pode no meu casamento e até nas brigas que tive com Jasper. E depois que conheceu Edward... — fiquei tensa.
– O que tem? — perguntei interessada.
– Ele trouxe um pouco daquela garota que você costumava ser, mais amorosa, menos fria e focada em resultados e no lado prático de tudo. Foi uma boa mudança — concluiu sorrindo, mas ao perceber minha expressão pensativa, seu sorriso morreu. — Pelo visto a conversa com ele hoje não foi como esperava, não é? — comentou me observando.
– Eu não sei — sussurrei em resposta. Ela pareceu confusa. — É complicado — tentei simplificar.
Alice devia saber de muita coisa sobre minha vida com Edward e essa era a oportunidade perfeita de tirar todas as minhas dúvidas, ou pelo menos, grande parte delas, e mesmo assim não fazia ideia do que dizer.
– Tente — incentivou.
– Até onde você sabe? — perguntei, ela sorriu.
– Basicamente tudo o que ouvi Edward contando para Jasper ontem — aquilo chamou minha atenção.
– O que ele disse? — ela suspirou.
– Que fingiu ser outra pessoa e você contou para ele que teve um caso com Michael — concordei automaticamente.
– Acho que isso resume bem a situação — respondi desanimada.
– Isabella, você sabe que pode contar o que for para mim. O que está afligindo você? — insistiu. Resolvi ser sincera e disparei:
– Tudo — ela se ajeitou no sofá e olhou para mim com o ar desafiante.
– Ok, pode começar — sorri e comecei a falar tudo o que estava preso dentro de mim, desde o dia que saí do hospital.
Toda a confusão que sentia em vir morar em uma casa nova e ser dependente de alguém que não conhecia. O fato da minha mãe saber tão pouco da minha vida depois que vim para Seattle. Como foi receber a notícia sobre meus filhos. Minha relação com Anthony. A primeira vez que vi Matthew e claro, tudo o que sentia por Edward.
Primeiro, aquele ódio irracional, depois admiração e por fim, raiva, confusão, compaixão, saudade e desejo. Esses cinco sentimentos refletiam muito bem o que eu senti desde o momento que descobri que ele e Alec eram a mesma pessoa.
Tentei ser o mais sucinta que pude. Ainda falando rapidamente sobre meu encontro com Michael e tudo o que Jacob havia aprontado, tanto sua aparição no dia anterior quando estava com Alec, quanto ao me deixar sozinha na rua. Alice ficou sem palavras quando disse que ele tentou me agarrar a força.
– Não posso acreditar que meu irmão foi capaz de fazer isso. Se Edward soubesse, ele não teria apenas surrado Jacob, o teria matado — disse aturdida e distraída. Como se tivesse se lembrado de algo.
– Você acha? — questionei espantada, lembrando da conversa que tive com Edward sobre a briga e ele confessando que ficou com medo de cometer uma loucura.
– Não, foi um exagero, mas acho que ele chegaria perto — sacudi a cabeça. Preferia nem pensar nisso. Senti a mão de Alice na minha.
– Não fique preocupada com isso, Jacob não vai mais causar problemas — seu comentário chamou minha atenção.
– Como pode ter tanta certeza? — questionei intrigada. Ela passou a mão pelo cabelo, ajeitando sua franja.
– Ele foi em casa ontem, disse um monte de absurdos, que estava cansado de lutar por você e que não aguentava mais ficar perto, que precisava sumir por uns tempos — deu de ombros. — E foi o que fez. Pegou um voo hoje para Austrália, o deixei no aeroporto antes de vir para cá — explicou com calma. Jacob sempre foi assim. Impulsivo. Sua atitude não me surpreendia em nada. Em pensar que éramos tão amigos.
– Não queria que as coisas fossem assim, mas depois de tudo o que ele aprontou, acho que foi melhor — Alice assentiu, concordando.
– Eu também — respondeu aérea, como se algo a incomodasse sobre o assunto. — Só espero que essa viagem o ajude a colocar a cabeça no lugar, meu irmão precisa disso. Sempre foi muito mimado pela nossa mãe e isso só o deixou achando que podia fazer o que quisesse sem consequências. Nosso pai falou que não vai bancá-lo por mais do que seis meses.
Eu duvidava e muito que essa ajuda tivesse data de validade. Pelo jeito, ele havia crescido, mas ainda era tratado como um adolescente. Ele nunca ia amadurecer assim.
– Alice, posso fazer uma pergunta? — questionei, querendo mudar de assunto.
– Claro que sim. O que quiser — ofereceu solicita.
– Como era meu casamento com Edward, quer dizer, antes do acidente? — perguntei, torcendo meus dedos sobre meu colo. Alice pareceu ponderar minhas palavras.
– Não acha melhor esperar e conversar isso com ele? — aconselhou. — Ele pediu que recomeçassem, é um boa ideia.
– Eu sei, mas a impressão que eu tenho é que ele quer deixar o passado para trás e eu não quero isso. Preciso saber o que tinha de errado no nosso casamento, para poder fazer algo. Odeio ficar no escuro — argumentei.
– Não tinha nada de errado, Isabella. O problema foi a chegada do Michael, ele desequilibrou tudo o que você tinha com Edward — sua resposta me deixou em estado de alerta.
– Como assim? Nós tivemos algum coisa? — perguntei assustada. Alice negou, para meu alivio.
– Não, nada disso — descartou. — Edward tinha muito ciúmes dele e você provocava ainda mais, chegou uma hora que isso passou do limite e você já não sabia o que fazer para remediar a situação. Edward estava paranoico e você sem paciência — franzi o cenho.
– O que me deu na cabeça em querer provocá-lo? — ela deu de ombros, à guisa de uma resposta.
– Não sei, atenção, talvez. Você confessou para mim que adorava fazer as pazes com Edward e para fazer as pazes, bem, vocês precisavam brigar — fiz uma careta.
– Isso é tão... egoísta — disparei chateada. Não gostando nada da pessoa que havia me tornado. — Não posso acreditar que seria capaz de fazer ele sentir ciúmes apenas pelo prazer de uma reconciliação — reclamei enojada com minha atitude.
– Eu sei, também achava estranho — suspirei derrotada.
– Agora eu entendo a reação dele depois que “confessei” um caso com Michael — bufei. — Não é a toa que Edward pareça tão estranho. Tudo culpa minha — condenei-me aborrecida.
– Isabella, não faça isso. Ok, você errou, mas não foi a única. Edward também exagerou. Isso acontece. É casamento, não é perfeito. O melhor agora é focar no presente. Vocês se amam tanto, não podem deixar isso morrer — afirmou com convicção.
Não sabia dizer se ela estava certa. Eu sentia muitas coisas por Edward, no entanto, não achava que amor era uma delas. Pelo menos, ainda não. Amor era algo que levava tempo, eu gostava dele, da sua presença, já era alguma coisa. Agora, em relação a ele, eu não podia garantir, ainda mais depois de toda confusão que causei.
– Você realmente acredita que temos chance de reconstruir essa relação? Eu esqueci de tudo e ele... — suspirei. — Bem, Edward está tão distante — murmurei abatida.
– Ele está perdido, Isabella — explicou e parou, me olhando de modo especulativo. — Não sei se deveria dizer, mas acho melhor que saiba — seu tom preocupado me deixou em alerta. — Ontem, quando ele procurou Jasper, Edward estava pensando no divórcio — meu corpo inteiro congelou. — Estava magoado com a suposta traição, por achar que você lembrava do tal Michael. Tudo. Segundo ele, seria o melhor, já que claramente você não queria o casamento e não ia forçá-la a aceitar — sentia minha garganta queimar, enquanto tentava segurar a vontade de chorar.
Mesmo machucado, Edward ainda pensava em mim. No que eu queria. No meu medo de encontrá-lo. Nas nossas conversas, deve ter entendido que eu me sentia obrigada a aceitar algo que não queria. E ele não estava totalmente errado.
– Edward estava certo, Alice — confessei. — Eu não queria o casamento. Eu até mesmo pensei no divórcio. Mas quando estava no hospital, completamente fragilizada e fora de mim. Agora, não. Eu quero minha família. Eu os quero. Anthony, Matthew e Edward. Como faço para ele entender isso? Como eu arrumo esta bagunça? — perguntei, beirando ao desespero. Alice segurou minhas mãos.
– Você não tem que arrumar nada, Isabella — me confortou. — Pare de analisar cada detalhe. Apenas deixe acontecer. Edward quer recomeçar, você também. Pronto. É só isso que você precisa. Se jogue, amiga. Não pense. Você já fez isso por tempo demais na sua vida. Aprenda com seus erros e siga em frente.
Suas palavras me pegaram em cheio. Estava totalmente certa. Precisava parar de tentar examinar e entender cada minúscula particularidade do que me cercava. Meu pai sempre dizia que a vida já era difícil o suficiente para que nós a levássemos tão a sério. Agora eu percebia que estava certo. Talvez o que eu precisasse fosse de certa leveza. Eu podia fazer isso, mais do que isso, eu queria.
– Obrigada — agradeci abraçando Alice, que riu.
– Não tem o que me agradecer, Bella — respondeu sem graça, me abraçando com mais força. — Eu senti sua falta — murmurou com a voz embargada. Sorri.
– Eu também, amiga. Eu também — respondi. Ela se afastou em um pulo e me olhou alarmada. — O que foi? — perguntei preocupada, mas ela sorriu.
– Aqui — pegou minha mão e estendeu sobre seu ventre levemente dilatado. Só então me lembrei da sua gravidez. Senti um chute e encarei sua barriga admirada. — Seu sobrinho já está chutando — disse sonhadora.
– Com quantos meses está? — analisando pelo tamanho da sua barriga não devia fazer muito tempo.
– Estou entrando no quinto mês — arregalei os olhos.
– Não parece — ela riu.
– Pois é, até o quarto mês eu quase não tinha barriga e estava enlouquecendo por isso, mas o médico explicou que era normal pelo meu tipo físico e que o bebê não é tão grande. Não vejo a hora de entrar no sétimo e oitavo mês. Quero exibir minha barrigona por aí — disse sorrindo.
Continuei afagando seu ventre. Tentando recordar da minha gravidez, só que nada vinha a minha mente.
– Queria me lembrar dessa sensação — comentei distraída.
– É algo único — Alice admitiu, assenti e me afastei. Talvez eu nunca soubesse como era.
O telefone na sala tocou e me levantei para atender. Foi uma interrupção bem vinda. O tema gravidez ainda me deixava um pouco sem jeito.
– Alô?
– Isabella? — chamou, mas não reconheci a voz.
– Sim. Quem fala?
– É o Michael — senti meu corpo petrificar no lugar.
– Ah, oi. Tudo bem? — respondi sem saber o que dizer.
O que ele queria? Alice se levantou e foi até a cozinha, por certo para me dar privacidade. Agradeci mentalmente por isso.
– Tudo. Liguei para saber como você está — suspirei.
Michael não parecia ser uma má pessoa. Isso só me deixava ainda pior ao pensar que o usei para fazer ciúmes em Edward.
– Estou bem, Michael — na medida do possível.
– Que bom. Alguma lembrança? — perguntou interessado.
– Nada ainda.
– Uma hora vai acontecer, não se preocupe.
– É o que eu espero — respondi, não muito confortável com essa conversa. — Você ligou para...
– Ah, claro. Desculpe. É que o pessoal do trabalho estava perguntando sobre você. Queriam te ver — deixou a proposta no ar. Sentei no braço do sofá. Tudo o que eu menos precisava agora era isso.
– Eu acho que ainda não estou pronta para encontrar tantas pessoas. Peça desculpas a todos por mim, por favor.
– Claro, sem problema. Todo mundo aqui entende, só sentem sua falta — aquilo me surpreendeu.
– Mesmo?
– Sim, inclusive eu — seu tom de voz mudou. Merda! Ele estava flertando comigo? — Ainda não me acostumei em vir trabalhar e não encontrá-la — É. Definitivamente, estava flertando.
– Talvez seja melhor se acostumar, Michael — disse diretamente. Estava na hora de cortar qualquer relação com ele.
– O que quer dizer? — perguntou urgente.
– Eu posso não recuperar a memória, não tem como trabalhar assim — expliquei o obvio.
– Não pense assim. Você é muito inteligente, Isabella e eu vou te ajudar, mesmo que não se lembre, tenho certeza que vai conseguir exercer sua antiga profissão. Só precisamos tentar.
Sua fé em mim era comovente, mas eu não conseguia acreditar nisso. Além do mais, eu não me sentia completamente a vontade na sua presença. Ele era simpático e tudo, mas aquele incomodo ainda existia. Fazer esse treinamento havia sido um erro. De todas as formas.
– Michael, eu vou conversar melhor com Aro, mas eu não quero mais fazer esse treinamento — preferi ir direto ao assunto. Ficar enrolando não ia adiantar de nada.
– Foi ele, não é? Edward exigiu isso — acusou com seriedade. Não gostei nada do tom que usou para falar no nome de Edward. Quem ele pensava que era?
– Não, não foi meu marido — respondi secamente. — Fui eu que decidi. Eu errei em querer abraçar o mundo, ainda não estou pronta, Michael. Sábado eu senti que nada daquilo fazia sentido, foi uma sensação horrível — fui sincera.
– Foi o primeiro dia, não pode desistir assim — pleiteou com veemência.
– Não estou desistindo, só preciso de algum tempo. Vou conversar com Aro, achar a melhor solução para ambos os lados. Quero ficar com minha família agora — expliquei.
– Sua família? — desdenhou. — Quer saber? Faça o que achar melhor, Isabella — respondeu irritado e desligou na minha cara.
Não me senti mal por isso. Ao contrário, me senti muito bem. Michael precisava entender que eu tinha prioridades, e ele não era uma delas. Aproveitei que estava ao telefone e peguei a agenda sobre a mesinha, encontrei o telefone de Aro, meu chefe, e liguei. Queria resolver esse assunto já.
Conversamos por vários minutos. Ele compreendeu minhas necessidades melhor do que eu poderia esperar. Combinamos que iriamos esperar minha licença maternidade acabar e então veríamos o que faríamos. Foi um erro achar que poderia conciliar tudo. Desliguei o telefone bem mais tranquila. Fui para a cozinha e encontrei Alice comendo um bolo e conversando com Irina.
– Você demorou — reclamou com a boca cheia. Ri e fui me juntar a ela.
Passamos o restante da tarde conversando. Contei para ela minha decisão sobre o trabalho e ela concordou comigo, assim como minha mãe, que se juntou a nós na cozinha.
Depois voltamos para a sala e fiz inúmeras perguntas sobre sua vida nesses últimos dez anos. E ela foi contando, começou falando sobre sua profissão como analista de sistemas e como adorava poder trabalhar em casa, sobre seus amigos, que segundo ela, eram meus também, como conheceu Jasper, como foi seu casamento, comentou até das brigas por causa do excesso de trabalho dele e como nós, Edward e eu, os ajudamos nessa fase difícil.
Eu só ouvia, até que, começamos a falar sobre nossa infância e adolescência. Ríamos das nossas loucuras e de tudo o que aprontávamos.
No fim da tarde ela precisou ir embora, ainda tinha alguns projetos para revisar e enviar para o chefe. Nos despedimos e mais uma vez agradeci por ter vindo. Foi uma tarde cheia de emoções, e que havia dado uma nova visão na minha vida. Saber detalhes do meu passado com Edward me ajudava a entender mais nossa relação e me deixava mais segura sobre o que fazer agora.
– Gostou da visita dela? — minha mãe perguntou, me abraçando pelos ombros.
– Muito, foi bom conversar com ela. Alice sabe tanto sobre minha vida. Foi esclarecedor — ela sorriu.
– Você parece melhor.
– É, eu me sinto melhor — olhei para ela. — Acho que Edward virá mais tarde — comentei, minha mãe não conseguiu esconder sua animação.
– Para conversar? — assenti com um sorriso.
– Ele disse que ia ligar antes, então tenho que esperar — respondi um pouco incerta de sua vinda.
– Ele vem. Tenho certeza — afirmou determinada. Ri.
– Você adora mesmo ele, não é? — brinquei, ela sorriu.
– Ele cuidou do que eu tenho de mais valioso no mundo e ainda a fez feliz. O que mais uma mãe poderia querer? — desafiou, abri um sorriso enorme e a abracei apertado.
– Eu te amo, mãe — declarei. — Sei que não digo o suficiente, mas eu a amo. Muito — afirmei. Ao me afastar, observei que estava quase chorando. — Obrigada por estar aqui comigo — ela sacudi a cabeça e afagou meu rosto.
– Não diga bobagens, onde mais eu estaria? — sorri enquanto ela me dava um beijo na testa. — Agora vai. Toma um banho e descansa um pouco, parece que não dormiu nada essa noite — repreendeu. Não pude fazer outra coisa, senão concordar e subir para meu quarto.
Ignorei o banheiro e fui direto para a cama.
Minha mãe estava certa, não havia dormido nada.
Esme ofereceu para que eu ficasse no quarto de hóspedes, mas eu preferi ficar com Edward e dormir naquela poltrona dura. Ele havia bebido tanto, tinha medo que passasse mal durante a noite. Engano meu. Ele dormiu a noite inteira, até mesmo chegou a roncar. Ri sozinha, ao me lembrar. Olhei para nossa cama e suspirei.
Será que ele sempre roncava? Dormíamos abraçados ou cada um de um lado? Fazíamos sexo antes?
Fechei os olhos e senti meu corpo aquecer ao recordar de nosso beijo. Seu torso nu e tão deliciosamente convidativo. Suas mãos no meu corpo. Deixei minha imaginação fluir e fingi que minhas mãos era as suas, me tocando. Aqueles lábios sobre minha pele... meu pescoço... meus seios... minha barriga... hum
– Isabella! — pulei da cama com o coração a mil.
– Já vou — gritei um pouco desnorteada.
Levantei sentindo minhas pernas um pouco trêmulas, não sabia se era pelo susto ou o prazer que estava sentindo com minha brincadeira. Sacudi a cabeça e saí do quarto, encontrei minha mãe subindo as escadas com meu celular na mão. Meu coração acelerou. Ela sorriu para mim e estendeu o aparelho.
– Ele ligou — disfarcei um sorriso.
– Vou retornar — disse pegando o celular e voltando para meu quarto. Fechei a porta e deitei na cama.
Vai, Isabella. Você consegue.
Cliquei na tela e respirei fundo.
Não entendia porque conversar com ele me deixava tão nervosa.
– Isabella?
– O...oi — pigarreei. Merda! Porque estava gaguejando? Atitude, mulher!– Você ligou? — perguntei tentando soar indiferente.
– É, quer dizer — ele tossiu, pelo jeito eu não era a única nervosa ali. Isso me ajudou a relaxar. — Bem, nós tínhamos combinado conversar hoje. Lembra? — eu podia fingir que esqueci e... Isabella isso não é um jogo! Ele é seu marido!
– Claro, só achei que fosse vir mais tarde — inventei uma desculpa qualquer.
– É por isso que eu liguei, eu... — ah não, ele ia desmarcar? Por quê?
– Não vai pode vir? — interrompi, sem conseguir esconder a decepção.
– Não, não é isso — suspirei aliviada. — É que Anthony queria sair para comer fora e eu... eu queria saber se você gostaria de nos acompanhar e bem, depois podíamos conversar — seu convite me surpreendeu. Ele estava mesmo empenhado no que disse sobre recomeçar.
– Eu vou adorar sair com vocês, Edward — disse animada. — Que horas?
– Que tal às sete? — percebi sua voz menos vacilante e mais confiante.
– Perfeito. Ficarei esperando — respondi sorrindo. — Ah, onde vamos? Só para saber que roupa colocar.
– Uma pizzaria, algo confortável e quente já é o bastante — senti vontade de provocá-lo, mas não sabia ao certo como ele ia reagir. Preferi deixar passar dessa vez.
– Ok. Tenha cuidado ao dirigir, as estradas estão escorregadias — alertei preocupada.
– Pode deixar — não sabia como, mas podia apostar que ele estava sorrindo. — Às sete estaremos aí. Não se atrase — advertiu e sorri.
– O mesmo vale para você. Até mais, Edward.
– Até, Isabella — se despediu.
Desliguei e fiquei encarando o telefone igual uma boba. Sorri e deixei o aparelho no criado-mudo. Ia descer para avisar minha mãe e depois me arrumar.
Não via a hora de sair com meus rapazes.
De recomeçar minha vida.
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