Uneven Odds
8 Capítulo 7 - Decisão
Notas iniciais
Edward POV
Socava furiosamente o saco de boxe. Era a única forma que eu tinha para extravasar o que sentia. Toda raiva. Todo ódio. Todo o ciúmes. Toda saudade.
– Porra! — gritei esmurrando mais uma vez.
– Ei, vamos com calma — virei e dei de cara com meu irmão parado ao lado da porta. — Aconteceu alguma coisa? — perguntou preocupado ao ver meu estado. Minha respiração estava acelerada, assim como meu coração, que parecia que ia sair do peito.
– Aconteceu que eu estou puto! — respondi, tirando minhas luvas e passando a toalha pelo rosto, tentando enxugar o excesso de suor. Ele colocou as mãos no bolso e me olhou confuso.
– Por quê? — coloquei as luvas para lavar e sentei em um canto, retirando as faixas que cobriam minhas mãos. Foquei na tarefa que tinha como um modo de fuga, procurando fugir da perguntar. — Edward? — Jasper insistiu. Soltei o ar devagar.
– Reneé acabou de me ligar e disse que o chefe de Isabella encontrou uma forma de ajudá-la a voltar ao trabalho, se ela quisesse — contei, jogando a faixa enrolada no cesto.
– Isso é bom, não é? — questionou casualmente.
– Seria, se Aro não tivesse escolhido Michael para auxiliar Isabella — Jasper virou para mim com os olhos arregalados.
– Aquele Michael? — engoli em seco.
– Sim. Aquele mesmo. E agora o imbecil vai conseguir se infiltrar na NOSSA casa com a desculpa que vai ajudá-la, cercando-a e se aproveitando do fato dela não lembrar de mim! — deitei minha cabeça sobre as mãos. Completamente perdido.
– Você avisou Reneé sobre isso?
– Tentei, mas ela nem quis me ouvir, assim como vetou a contratação de seguranças. Disse que preciso confiar nela para cuidar da própria filha e que Michael parecia uma rapaz “legal” — bufei. — E eu que achava que ela estava do meu lado — murmurei insatisfeito.
– E se não for nada do que está pensando, Edward? Você mesmo disse o quanto se arrependeu pelo modo como tratou Isabella antes do acidente. Que exagerou no ciúmes — argumentou com certa razão.
– É diferente — rebati, contrariado.
– Como?
– Eu perdi a cabeça aquele dia, disse coisas que irão me assombrar para sempre, mas sabia que ela seria incapaz de me trair, que me amava. Agora... — deixei a frase morrer.
– Isabella perdeu a memória, isso não quer dizer que seus valores também foram perdidos. Ela sabe que é casada — ergui o rosto e o encarei.
– Traição vai muito além do ato físico, Jasper. E se ela se apaixonar? — deixei meu maior medo vir a tona.
– Você acredita nisso? De verdade? — fiquei em silêncio. Tinha receio da minha própria resposta. — Pois eu duvido. Isabella sempre foi uma mulher difícil, o único que realmente conseguiu conquistá-la está aqui agora, se escondendo ao invés de fazer alguma coisa — acusou. Franzi meu cenho.
– E o que você propõe que eu faça? Hein? Fala, porque eu já não sei mais nada! — exclamei, exasperado.
– Eu acho que já passou da hora de você se impor — sugeriu. Sacudi a cabeça, negando.
– Eu não posso fazer isso.
– Por que não?
– Você diz que eu a conquistei, mas sabe muito bem como foi complicado. Como ambos sofremos. Eu não quero repetir tudo aquilo.
– E se não for assim, Edward? Ela tem se dado tão bem com Anthony. Quem garante que não será o mesmo com você? — praticamente repetiu as palavras de nossa mãe. — Por que tem que pensar no pior?
– Porque eu preciso estar preparado para o pior! — esbravejei. Jasper chegou a recuar com meu grito. Virei o rosto, observando a neve caindo do lado de fora. — Quando nos conhecemos, Isabella me odiou — afirmei, sentindo-me tão perdido quanto naquele época. — Eu insisti tanto que quase a perdi. Não quero que isso se repita — confessei.
– Isso é tão fodido — Jasper deixou escapar. Acabei sorrindo, era raro vê-lo dizendo um palavrão.
– Eu que o diga — levantei e coloquei meu agasalho.
– Por que não saímos hoje? Talvez seja bom para você espairecer — ofertou, solicito.
– Hoje não vai dar. Anthony está vindo para casa e quero acampar com ele — Jasper olhou para fora e de volta para mim. — Vamos acampar na sala, se é o que está pensando — respondi com um sorriso. — Quero distrai-lo um pouco de tudo o que está acontecendo. Passaremos a noite comendo marshmallow e contando histórias.
– Como ele está lidando com tudo isso?
– No geral tem sido compreensivo. Do jeito dele, entende o que está acontecendo, só que ainda assim nunca deixa de pedir que eu volte para casa ou de perguntar se vai ser assim para sempre. Se a mãe dele nunca vai se lembrar.
– O que você diz?
– Estou seguindo o conselho da psicóloga dele. Responder as perguntas do modo mais honesto, só que de uma forma que ele entenda. Confesso que não é nada fácil, mas parece estar funcionando.
– Ele é um garoto muito inteligente — sorri orgulhoso.
– É, sim — respondi, lembrando que logo Jasper também seria pai. — E como vai Alice com a gravidez? — perguntei, mudando de assunto. Focando nele, para variar.
– Bem, só excessivamente teimosa. Acredita que ela não quer se encontrar com Isabella?
– Ainda está chateada por causa do tempo que Bella pediu? — Jasper assentiu. — Vou conversar com ela — disse decidido.
– Edward, não sei se é uma boa ideia, com a gravidez e tudo. Não quero que ela se estresse — pediu preocupado.
– Não se preocupe, manterei a calma. Só que ela simplesmente não pode ficar com essa atitude. Isso não ajuda em nada a situação de Isabella — ele acenou, concordando. Peguei minhas coisas e saímos da casa da piscina em direção a casa principal. Entramos na sala e ele estendeu a mão, se despedindo.
– Vou precisar ir, tenho alguns relatórios para avaliar até segunda e ainda preciso dar atenção para minha baixinha — Jasper comentou com um sorriso, seguindo até a porta. — À propósito, é ótimo ter você ajudando no escritório novamente, principalmente por você e nosso pai terem feito as pazes.
– É, já estava na hora — respondi simplesmente, subindo a escada até meu quarto.
– Edward? — Jasper chamou, parei no meio do caminho e virei. — Não fica pensando demais nesse tal de Michael. Talvez essa seja a chance que você precisava para deixar isso para trás — aconselhou. Acenei, sem saber exatamente o que responder.
Mesmo depois que foi embora, eu continuei ali parado, refletindo em suas palavras. Querendo acreditar nelas. Fechei os olhos por um momento. Pedindo por um milagre. Algo que trouxesse minha mulher de volta para mim. Algo que evitasse que eu fizesse uma loucura.
Bella POV
Após passar quinze dias com Anthony aos meus cuidados — sob o olhar atento de Reneé — percebi claramente dois lados opostos daquela situação.
Primeiro, que ser mãe não era nada fácil. Perdi a conta de quantas vezes esqueci o horário de comer, dormir ou tomar banho. Não sabia discernir ainda como dar uma bronca eficaz, eu sempre acabava rindo e recebendo um sermão da minha própria mãe. E já nos primeiros dias, tive a pior experiência que uma mãe poderia ter. Anthony desapareceu enquanto fazíamos compras. Todos os tipos de cenários passaram pela minha mente. Eu achei que fosse enlouquecer. Saí desesperada atrás dele e quando o encontrei, junto a um segurança do shopping, quase o sufoquei de tanto abraçá-lo, implorando que nunca mais sumisse daquele jeito.
Entretanto, nada disso realmente importava quando eu descobria, dia após dia, o quão gratificante era esse papel na minha vida. O quanto eu queria ser mãe. Depois de cerca de uma semana, passei a notar que, mesmo não lembrando, muitas das coisas que fazia por Anthony já saíam de forma automática. Como as histórias que contava para ele antes de dormir. Preparar seu mingal favorito sem queimar. Saber todos seus horários e programas favoritos. Aos poucos eu ia reaprendendo o meu papel de mãe. E amando cada momento.
– Eu não quero ir — ouvi o resmungo de Anthony enquanto terminava de arrumar sua mochila para passar a semana com o pai.
Edward havia sido extremamente compreensivo e corajoso em deixar que nosso filho ficasse tanto tempo com alguém que ainda estava aprendendo a própria vida. Sua confiança em mim me deixava fascinada. Sentia minha divida com ele aumentar a cada segundo, assim como minha gratidão.
– Filho, já falamos sobre isso. Seu pai também sente sua falta — esclareci mais uma vez, fechando sua mochila.
– E por que ele não pode voltar a morar aqui? — cruzou os braços fazendo um bico. Agachei na sua frente. Por mais que tentasse fugir, essa pergunta sempre aparecia para me assombrar.
– Você sabe o porquê, eu já expliquei — disse com calma.
– Você também não lembrava de mim, mesmo assim disse que me ama. É mentira? — olhava para ele sem reação. Anthony sempre conseguia me deixar desarmada. Pensei em uma forma segura de responder a isso, lembrando dos conselhos da sua psicóloga e também do meu.
– É diferente, meu bem. A relação entre uma mãe e seu filho é algo único — seu rostinho ficou ainda mais triste. — O que foi?
– Se você não ficar com o papai ainda vou ser seu filho? — perguntou baixinho.
– É claro que sim. Por que está perguntando isso?
– Porque eu sou só do papai — murmurou. Só então entendi o que ele estava querendo dizer.
– Você é meu também — ele balançou a cabeça.
– Eu não saí da sua barriga, como o Matt. Saí da barriga da Tanya — disse chateado. Segurei seu rosto.
– Eu te amo da mesma forma — respondi com segurança. Tentando aplacar qualquer temor que estivesse sentindo. — Você é meu filho e eu sempre serei sua mãe — um sorriso tímido começou a surgiu em seus lábios.
– Promete? — encarei seus belos olhos verdes e passei a mão pelo seu cabelo, retirando alguns fios da testa.
– Eu prometo — afirmei e ele pulou nos meus braços. Abracei-o apertado. — Agora, vamos, pequeno. — avisei, antes que ligasse para Esme e dissesse que ele não iria mais. — Tem que se trocar, sua avó estará aqui em pouco minutos.
Quando me afastei, Anthony parecia mais animado e tinha um belo sorriso no rosto. Era bom saber que era capaz de acalmá-lo. Fui até seu armário e peguei uma calça jeans e uma camiseta de manga comprida do homem aranha, seu personagem preferido.
– Mãe? — chamou conforme eu o ajudava a colocar a roupa.
– Fala, querido.
– Você vai sair com o tio Jacob hoje? — fiquei parada em choque. Como ele sabia?
– Onde você ouviu isso? — ele ficou envergonhado. — Anthony?
– Escutei você e a vovó falando.
– Não é educado ouvir a conversa dos outros, Anthony. Entendeu? — ele assentiu, mas não foi o bastante para sanar suas dúvidas.
– É verdade? — insistiu.
– É, filho. Ele é um amigo da mamãe. Você não tem muitos amigos na escola?
– Tenho.
– Então, Jacob é meu amigo desde que eu era um pouco mais velha que você.
– Sério? — quis saber, curioso. Assenti. — Você lembra dele?
– Lembro, assim como lembro da tia Alice — ele pareceu pensativo.
– Eu gosto da tia Alice, mas não gosto do tio Jacob — encarei-o curiosa.
– Por que não?
– Ele é muito bobo — respondeu com uma careta. Sorri.
– Tem razão, ele é mesmo muito bobo — concordei em um sussurro, como se fosse um segredo nosso. Anthony riu. Terminei de colocar sua calça e fui pegar o casaco no armário.
– Você e o papai também eram amigos? — voltou com as perguntas.
– Eu não sei, filho. Não lembro.
– Ah, verdade.
A porta do quarto abriu e minha mãe entrou.
– Esme acabou de chegar, está pronto, Tony? — ele acenou com um sorriso enorme. Peguei sua mochila e descemos de mãos dadas as escadas.
– Vovó! — exclamou descendo os últimos degraus correndo e pulando nos braços da avó.
– Anthony! Sem correr! — repreendi.
– Desculpa, mamãe — sussurrou com a voz baixa. Sacudi a cabeça e acabei sorrindo.
– Não quero que se machuque, só isso — ele concordou. — Olá, Esme — cumprimentei-a cordialmente.
– Como vai, filha? — perguntou carinhosa enquanto me abraçava.
– Bem, obrigada — respondi um pouco sem jeito. Era estranho pensar que essa mulher era minha sogra. Passei a mochila de Anthony para ela. — Sei que ele tem de tudo na sua casa, mas compramos algumas coisas essa semana e ele quis levar para mostrar ao pai.
– É, vó. Minha mãe comprou uma laterna suuuper legal. Ela ajuda a espantar os monstros que tem debaixo da cama. Ontem nós pegamos um grande dinossauro, não é, mãe? — dizia com entusiasmo.
– É sim, era enorme — minha sogra nos observava com um sorriso no rosto.
– Isso é ótimo. Vai ajudar você hoje à noite quando for acampar com seu pai — os olhos de Anthony brilharam. Olhei pela janela e ainda nevava. Onde eles iam acampar? Ia fazer a pergunta, quando Anthony se adiantou.
– Onde vamos acampar? — questionou todo animado.
– Na sala, seu pai já preparou uma barraca e vai ter muito marshmallow com chocolate e bolacha.
– Oba! — exclamou pulando no chão. — Mamãe, vem também! Vai ser divertido! — pediu com o olhar pidão. Era preciso muita força de vontade para negar qualquer coisa para ele. Abaixei até que estivesse na sua altura.
– Quem sabe outra hora. Ok? — Anthony encostou a cabeça contra o corpo de Esme. A expressão contrariada. — Se cuida e não exagera no doce — adverti, levantando e ele assentiu amuado. Esme deu um beijo no meu rosto e se despediu de nós. Senti um aperto no peito ao ver meu garoto indo embora.
– Eu odeio quando ele faz aquela careta para mim — comentei e minha mãe riu, indo para a cozinha.
– Ainda é recente, vai acabar se acostumando com as caretas dos seus filhos. E se puxar para a mãe, se prepare, terá que aguentar muitas — sorri, mas foi breve. Seu comentário trouxe a tona minha conversa com Anthony em seu quarto.
– Anthony disse que estava com medo que eu não fosse mais sua mãe se me separasse de Edward — minha mãe parou de mexer na panela, que exalava um aroma adocicado.
– Ele disse isso? — assenti, pegando um copo de água na geladeira.
– Disse, ele acha que, como não saiu da minha barriga, não é meu filho — ela sorriu.
– Esse menino está cada dia mais esperto.
– É, está mesmo — respondi automaticamente, sentando à frente da ilha, que ficava no meio da cozinha, onde ela cozinhava.
– O que foi? — perguntou, percebendo que estava pensativa.
– Eu tenho medo do que essa confusão toda pode fazer na cabecinha dele, mãe. As vezes acho que o mais fácil seria aceitar que Edward viesse para cá e pronto. Todos os problemas acabariam — ela me observou, atenta.
– É isso que você quer?
– Eu não sei — tapei meu rosto com as mãos. — Só estou pensando nos nossos filhos. Não é justo que os faça sofrer por um problema meu.
– E acha justo dar esperança ao Edward, quando na verdade só estará fazendo isso pelos seus filhos.
– E o que eu deveria fazer? Uma hora eu tenho que conhecê-lo. Talvez não seja tão ruim, eu já o admiro e posso apostar que é um pai fenomenal. É um começo.
– Filha, não me entenda mal, eu quero que vocês se encontrem. Quero mesmo. Só não sei se está fazendo isso pelos motivos certos. Olha para mim e responda: se não fosse pelos seus filhos, você iria querer conhecê-lo agora? — suspirei derrotada. Talvez a razão não fosse a melhor, mas não via outra saída.
– Acontece que não existe o condicional: “se não fosse meus filhos”. Eu simplesmente não posso deixar de pensar neles. Matthew receberá alta em uma semana e o melhor seria que sua família estivesse completa. Eu quero que ele tenha contato com o pai. Não posso privar meu filho disso — ela pareceu ponderar minhas palavras.
– Então, está decidido? Você vai encontrá-lo? — perguntou interessada.
– Vou, só preciso dessa semana para me organizar com as coisas do treinamento que farei com Michael, mas antes que Matt saia do hospital, irei falar com Edward — disse determinada. Minha mãe deu a volta na ilha e me abraçou.
– Estou orgulhosa de você, querida. Sei que nada disso tem sido fácil e está tomando a decisão certa, só quero que tenha certeza de que não está apressando nada. Pelo seu bem e o de Edward.
– Está na hora, mãe. Não posso mais adiar.
– Ainda assim vai sair com Jacob hoje? — questionou com a sobrancelha arqueada, não escondendo sua preocupação latente.
– Sim, preciso sair para conversar, me distrair um pouco. Alice está grávida e não quer falar comigo desde que pedi um tempo sozinha. Jacob é a única saída — dei de ombros.
– Só tenha cuidado, filha. Eu não sei a razão pela qual você o afastou, mas se o fez é porque ele aprontou alguma coisa.
– Terei cuidado. As últimas vezes que conversamos pelo telefone ele parecia mais tranquilo e nem tocava tanto no assunto do meu casamento ou no nome de Edward. Lembrava bem mais o Jake que conheci na adolescência.
– Acho que minha bronca surtiu efeito — respondeu com um sorriso.
– Eu posso dizer que suas broncas são plenamente eficazes — disse concordando. Ela riu, e foi até a geladeira, pegando dois pedaços grandes de abóbora. Hum. Teríamos sua famosa torta.
– Se importa de me ajudar a cortar? — sacudi a cabeça e peguei a faca que me estendeu. — Tem algo que queria falar com você.
– Sobre o quê?
– O que achou do rapaz que vai te ajudar no treinamento, o tal Michael?
– Normal, simpático — respondi sem precisar pensar demais. Ele parecia bem solicito e amigável, mas sem nada que o destacasse, pelo menos para mim.
– Só? — olhei desconfiada para ela.
– Só. Por que, eu deveria achar mais alguma coisa? — perguntei bem humorada.
– Não, é que ele muito bonito — fiz uma careta. Michael era loiro, tinha um belo porte atlético e grandes olhos azuis.
– Não faz meu tipo — minha mãe me encarou com um sorriso.
– O que foi? — perguntei intrigada. Ela balançou a cabeça.
– Nada — voltei minha atenção as abóboras. Essa conversa me fez pensar mais uma vez sobre Edward e nosso eminente encontro. Como seria conversar com ele? Será que algum dia fomos amigos ou foi mais um lance de paixão platônica? Eu o desejava? O que me fez gostar dele? O que fez ele se apaixonar por mim? Eram tantas perguntas. Por onde começar?
– Acha que eu vou sentir algo quando encontrar com ele? Com meu marido? — completei antes que pensasse que estava falando de outra pessoa.
– Não sei, filha. É complicado. Mas posso garantir que ele fará o impossível para deixá-la a vontade — suspirei. Isso eu podia imaginar. Edward era sem dúvida um cavalheiro, nada do que eu estava acostumada.
– Às vezes eu fico pensando nele e em como eu devo ter mudado depois que o conheci — comentei, melancolicamente. Não sabendo ao certo se isso me deixava feliz ou não. Afinal, desse casamento eu tinha tido Anthony e Matt, e já não podia imaginar minha vida sem eles.
– Na verdade, acho que se apaixonar por ele a trouxe de volta — olhei para minha mãe intrigada.
– Como assim?
– Depois que seu pai morreu, você se fechou, Isabella. A garota meiga e doce que eu conhecia sumiu e só restou a Isabella racional. Tudo o que você fazia tinha um objetivo claro. Não perdia tempo para pensar em mais nada que não fosse em si mesma e nas suas ambições. E então, você o conheceu e, aos poucos, tudo voltou ao seu lugar. Amar não é fácil, filha, e reaprender a amar pode ser um caminho ainda mais difícil e doloroso, só que o risco vale a pena. É só você querer.
Prestei atenção a cada palavra de minha mãe, e por mais que quisesse contrariá-la, eu não poderia. Muito do que disse fazia sentido. Não sabia se meu relacionamento com meus filhos tinha alguma relação com isso, mas eu sentia que podia ver essa parte do meu passado com mais clareza do que jamais pude.
Resolvi ser honesta com ela e colocar para fora tudo o que me assombrava.
– Sabe qual o meu maior medo? — murmurei. Minha mãe me encarou, esperando que eu continuasse. — De não sentir nada por ele. Desse sentimento ter morrido com a minha amnésia. De não conseguir sequer me apaixonar. Tenho a sensação de que entrarei no meio desse relacionamento, completamente perdida. Me jogando sem qualquer paraquedas ou rede de segurança. Eu não sei o que esperar e isso me deixa apavorada — confessei, tentando sem sucesso, resguardar minha emoção.
Minha mãe estendeu sua mão e segurou com firmeza a minha.
– São exatamente esses momentos, esses sentimentos que fazem a vida valer tanto a pena, Isabella. É o que nos faz sentir que estamos vivos — sorri, em meio as lágrimas.
Ela estava certa.
Apesar de tudo o que tinha acontecido desde que acordei daquele coma, eu nunca havia me sentido tão viva. Tão corajosa. Tão preparada.
E naquele breve instante, entre meu passado, presente e futuro, eu senti que a Isabella que havia sofrido aquele acidente, estava de alguma forma voltando para casa.
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