Uneven Odds

9 Capítulo 8 - Carona


Notas iniciais
Boa tarde!! Como acabei o capítulo um pouco mais cedo, decidi postar hoje ao invés de amanhã :) Recebi dúvidas sobre a quantidade de capítulos e bem, depois de pensar, acho que é possível que a fic tenha entre 15 a 20 capítulos. Caso seja maior ou menor do que isso, avisarei ;) Bom capítulo!

Bella POV

A noite com Jacob começou bem. No caminho até o restaurante, conversamos e rimos da nossa adolescência. Para ele soava como algo nostálgico, para mim, no entanto, era como se tivesse acontecido ontem. Minhas lembranças se confundiam. Por vezes, eu dizia frases, palavras, completamente fora do vocabulário comum de uma adolescente de dezesseis anos. Elas vinham sem que eu precisasse pensar. Assim como a experiência de ser mãe. Ficava imaginando se isso se estenderia ao resto da minha vida. Meu trabalho. Meu marido.

– Então, foi ver o Matthew? — a pergunta de Jacob me trouxe de volta à realidade. Tirei meus olhos do cardápio por um momento e o encarei.

– Sim, já faz algumas semanas, duas eu acho. Vou todos os dias agora. Ele cresceu tanto, não vejo a hora de levá-lo para casa — disse animada. Jacob acenou, sem demonstrar qualquer emoção. — Chegou a vê-lo? — questionei interessada. Ele colocou o cardápio que segurava sobre a mesa e parou para pensar.

– Hum... Acho que quando fui ao hospital visitá-la, não sei. Sabe que eu não tenho muito jeito com crianças, bebês e afins — deu de ombros. — Confesso que fiquei intrigado quando Alice comentou que você tinha aceitado seu filho. Você odiava crianças tanto quanto eu — me senti incomodada com seu comentário.

– Eu não odiava crianças — afirmei. Ele arqueou a sobrancelha, me desafiando. — Só as achava irritantes e sem graça.

– Lembro de você dizer que odiava — insistiu.

– Que seja, Jacob. De qualquer forma, eu cresci, sou mãe e amo meus filhos — sua testa vincou.

– Filhos? Que eu saiba você só tem um, Matthew — atestou, tomando um gole de água.

– Anthony também é meu filho.

– Você sabe que não — falou enojado, como se eu fosse idiota por pensar desse modo. Estava com vontade de pegar alguma coisa e esfregar na cara dele. Imbecil.

– Pode não ser biológico, mas para mim é como se fosse meu filho e...

– Tudo bem, não vamos discutir por causa disso — fez um movimento com a mão, para que eu parasse de falar. Respirei fundo. — Eu queria conversar com você.

– Sobre o quê? — perguntei intrigada e segurando minha irritação. Como pode passar de uma companhia agradável para isso?

– Nós — franzi o cenho.

– Como assim?

– Eu sempre fui apaixonado por você, Isabella. Desde antes de ficarmos juntos e agora essa é a nossa chance. Podemos recomeçar juntos. Eu e você.

– Jacob, do que você está falando? — indaguei pasma com sua ideia descabida.

– De nós, eu sei que você tinha uma queda por mim na adolescência. Tanto que fui seu primeiro homem — segurei a vontade rir, a situação já estava estranha o bastante para ter que lembrá-lo como foi ruim.

– Foi sexo, Jacob. Só isso. Eu nunca quis mais e nem você. Além do que, eu sou casada.

– Você nem lembra dele, Isabella. É só pedir o divórcio. Não vai perder grande coisa. Aquele homem já a fez sofrer demais, é um... — levantei a mão, para que parasse.

– Você prometeu que não falaríamos sobre nada disso, Jacob.

– Eu sei, Isabella. Só que não tem como fugir. Você está presa naquela casa, sob a influência constante da sua mãe, que devo alertar, é um fantoche nas mãos daquele canalha.

– Basta! — minha voz saiu um pouco mais alto do que eu gostaria, atraindo olhares curiosos na nossa direção. Peguei minha bolsa e levantei. — Quero ir embora. Agora — exigi, seguindo em direção da saída, deixando um atordoado Jacob para trás.

Como ele ousava falar mal do meu marido? Justo quando havíamos combinado que não falaríamos sobre isso.

– Desculpe, Bella — ouvi sua voz, antes de chegar até a porta. — Vem, vamos voltar. Juro não digo mais nada — pediu, segurando meu braço, mas para mim, a noite já tinha acabado.

– Eu vou embora, Jacob, com ou sem você. Não importa — declarei, voltando a caminhar.

– Ok, só vou acertar a conta e nós vamos — concordei e sentei em um dos bancos da entrada. Só queria sair dali e esquecer tudo o que tinha acontecido.

Jacob, apaixonado por mim? Isso não fazia sentido! Será que foi por isso que o afastei da minha vida?

– Pronto. Vamos? — perguntou, se aproximando. Levantei e o segui até o lado de fora. Apertei meus braços ao redor do meu corpo. Estava muito frio. Jacob tentou me abraçar, mas me afastei.

Felizmente o manobrista não demorou com o carro. Jacob abriu a porta para mim e entrei. Aliviada por sair daquele frio cortante. Ele deu a volta no carro e entrou, dando partida logo em seguida.

O silêncio predominou no ambiente.

Não ia me esforçar para falar nada, só queria ir para casa e me condenar por essa ideia imbecil. Suspirei. Sentia tanta falta de conversar com alguém da minha idade. Alguém que não fosse um completo estranho. Mas pelo visto isso não seria possível, já que Alice estava me ignorando e Jacob agindo como um asno.

O carro parou e olhei pela janela. Não era minha casa. Que lugar era esse?

– Onde estamos? — perguntei virando para Jacob.

– Eu só quero conversar, Bella. Por favor, cinco minutos — cruzei os braços contra o peito.

– Se for para dizer qualquer sobre meu marido e filhos, pode esquecer — disse decidida.

Jacob socou o volante com tanta força que dei um pulo de susto. De repente minha raiva se transformou em medo.

– Eu sou a única pessoa sensata que você tem ao seu lado, Isabella! O único que quer realmente o seu bem! Você acha que seu marido é um máximo pelo que sua mãe diz, mas é bom que você saiba que ele não é tudo isso! Você sofreu aquele acidente por culpa dele! — fiquei estática.

– Do que você está falando? — perguntei assustada.

– Vocês tiveram uma briga feia e ele te expulsou de casa. Você saiu tão desnorteada que nem viu o carro na sua frente — O quê? Isso poderia ser verdade?
Jacob aproveitou meu choque e me abraçou.

– Eu vou cuidar de você — disse, querendo me confortar. Não! Eu não podia me deixar levar pelo que estava dizendo. Coloquei minha mão em seu peito e o afastei.

– Não acredito nisso, Jacob — ele fechou a cara.

– Não acredita no seu amigo?

– Como você quer que eu acredite? Você sempre foi contra meu marido. E há poucos minutos se declarou para mim — apontei o óbvio.

– Eu amo você, Bella.

– Eu não sinto o mesmo, Jacob. Nem quando éramos adolescentes e muito menos agora — rebati já sem paciência com o assunto.

– Você vai ficar com ele, então? É isso? — perguntou com raiva. Ergui meu queixo e enchi a boca para responder.

– Sim, vou ficar com Edward. É meu marido e pai dos meus filhos.

– Você sabe o que vai acontecer, não é? Ele vai te magoar, eu sei.

– Sou eu que tenho que decidir isso, não você!

– Você está fazendo de novo — murmurou irritado, puxando seu cabelo para trás. Fiquei confusa.

– O que estou fazendo de novo?

– Ignorando o que estou dizendo. Eu te avisei antes que ele iria te magoar, você não se importou e eu estava certo. Você tem que se afastar dele! — se aproximou e agarrou minhas mãos na sua. — Aproveita que se esqueceu dele e comece de novo, comigo — parou e acariciou meu rosto. Tentei desviar, mas ele segurou meu queixo com força.

– Me solta, Jacob!

– Por favor, me dê uma chance. Eu te amo, Isabella. E sei que você sente o mesmo por mim. Eu senti isso quando nós transamos, até hoje lembro do sabor do seu beijo — queria me soltar, mas ele me apertava cada vez mais.

Conforme seu rosto se aproximava do meu, meu pânico aumentava. Lutei contra ele, só que Jacob era maior e muito mais forte. Ia abrir a boca para gritar quando senti seus lábios contra os meus. Forçando uma passagem, invadindo sem permissão. Sentia as lágrimas molharem meu rosto. E sem pensar mais nem um segundo, mordi seu lábio com força, até sentir o gosto sangue na minha língua.

Assim que me soltou, dei um tapa nele. Minha mão ardeu. Virei para tentar abrir a porta, mas estava travada.

– Abre já essa porta! — gritei.

– Bells, desculpa. Não sei o que me deu — disse se desculpando. — Eu não podia deixar essa chance escapar, eu te amo. Muito mais que ele.

– Não importa, Jacob. Você tinha que me respeitar, respeitar meu estado de saúde e mais do que isso, a minha vontade!

– Eu não posso deixar você voltar com ele quando não se lembra de nada. Eu sou muito melhor para você, te conheço muito mais — alegou se aproximando novamente. Ergui minha mão dolorida. Ele parou.

– Se realmente me conhecesse e se importasse comigo, não teria me beijado contra minha vontade, não teria tentado me colocar contra a minha família. Por mais difícil que fosse, você teria me ajudado e não criado um monte de mentiras para se aproveitar de mim! — gritei, jogando tudo o que sentia na sua cara. Ele suspirou. — Isso só fez com que eu me decepcionasse com você — seu rosto desmoronou.

– Bella, por favor, uma chance, é só o que eu peço — implorou vindo na minha direção mais uma vez, me encolhi contra o carro.

– Não tenho mais nada para falar com você, Jacob. Abra agora essa porta! — exigi. Ele bufou com raiva, mas fez o que eu pedi.

– Pronto. Vai fazer o que agora? Ir embora nessa escuridão. É perigoso!

– É muito mais se ficar aqui com você — seus olhos arregalaram ligeiramente.

– Eu nunca faria nada contra você, Isabella — respondeu ofendido.

– Não é o que pareceu — acusei, enxugando meu rosto.

– Ok, eu perdi a cabeça. Mas você tem que entender que eu sou o melhor para você.

– Você está perturbado, Jacob. Somos amigos, ou melhor, éramos! A amizade que um dia tivemos acaba aqui. Adeus, Jacob — disparei saindo do carro. Ele me olhou chocado.

– Bella, você não pode fazer isso — pediu.

– Eu já estou fazendo. Vá. Embora — exigi com os braços cruzados.

– Não vou deixar você aqui sozinha.

– Vai sim. Pego um táxi, qualquer coisa, só não posso mais ficar na sua presença.

– Isabella, entra no carro.

– Não! — disse, já caminhando.

– Ah, é? Vai ser assim? Então, ótimo! Fique aí! — ele ligou o carro e disparou pela estrada.

Parei de andar e olhei ao redor. Assim que seu carro sumiu na estrada, percebi como o lugar era escuro e ermo. Para onde o desgraçado me trouxe? Não podia acreditar nisso. Era uma idiota por ter tentado confiar na amizade dele. Burra! Peguei meu celular na bolsa e suspirei quando vi que não tinha sinal.

– Era só o que faltava! — apertei meu casaco. Merda! Estava muito frio.

Voltei a caminhar pela rua, até que uma forte luz iluminou toda a estrada.

Um carro vinha na minha direção.

Droga! O que eu deveria fazer? E se fosse um tarado ou um assassino? Virei de costas e continuei a caminhar, talvez nem me visse aqui. Apertei minha bolsa contra o peito e segui andando.

Para meu azar, senti o carro desacelerar conforme se aproximava de mim.

– Hey, moça! Está perdida? — ouvi uma voz gentil perguntar. Mas não podia me deixar enganar.

– Não, estou bem, obrigada. Pode ir embora.

– E deixar uma mulher sozinha nesse lugar? Nem pensar. Eu te dou uma carona. Juro que não farei nada contra você — alegou. Como se isso fosse garantir alguma segurança. Resolvi ficar quieta. Quem sabe assim ele não se tocava e ia embora. Só que não foi o que aconteceu. Seu carro continuou ao meu lado.

– Não vai embora? — acabei tendo que perguntar.

– Não até que esteja em um local seguro — sua resposta me surpreendeu.

Parei de andar e virei para olhar o carro. Estava escuro, mas pude perceber que era um carro de marca, não que isso significasse grande coisa, ele poderia muito bem ter roubado. Abaixei um pouco mais e encarei o motorista. A luz interna estava ligada e pude vê-lo claramente. Usava uma touca de frio e óculos escuros. Parecia um bandido. Quem usaria óculos escuros à noite?

– Você roubou esse carro? — perguntei e ele riu. Uma risada alta e gostosa. Cruzei meus braços e ele pigarreou, tentando ficar sério.

– Não, mas se quiser, posso mostrar os documentos para verificar — ofereceu.

Voltei a encarar a estrada escura. É, minhas chances não eram boas. Ou era roubada, molestada e assassinada por um louco na rua ou pegava carona com esse estranho e corria o risco de ser roubada, molestada e assassinada por ele. Isso se não morresse de frio antes. Não tinha muito o que pensar. Pelo menos a segunda opção era aquecida. Aproximei do carro e entrei. Estava deliciosamente quente dentro.

– Obrigada — ele sorriu. Um belo e amplo sorriso.

– Sem problema, hoje era meu dia de salvar mocinhas das estradas — sacudi a cabeça, segurando a vontade de rir. Será que ele não pensou que eu também poderia ser um risco para ele? – Qual seu nome? — perguntou dando partida no carro.

– Não acho que seja uma informação pertinente — respondi secamente. Ele voltou a sorrir.

– Uau, você é durona, hein?

– Só não vejo necessidade de intimidade. Assim que chegar na avenida pode me deixar que eu pego um táxi.

– Ficaria mais tranquilo se a deixasse em casa — respondeu com o semblante mais sério.

– E eu se me deixasse onde eu falei — aquele sorriso pretensioso voltava a surgir em seu rosto.

– Eu adoraria tomar um café, conheço um lugar ótimo aqui perto. Não quer me acompanhar?

– Não, prefiro ir para casa.

– Ora, vamos lá. Não vai levar nem dez minutos. Preciso me manter acordado — pulei no banco.

– O quê? Como assim? Andou bebendo? Que tipo de ser irresponsável pega um carro assim? — esbravejei.

– Hey, calma. Eu estou sóbrio, só tive uma longa noite. É rápido — olhei desconfiada para ele, mas só fiquei tranquila quando percebi que seu hálito não tinha cheiro de bebida e ele dirigia com atenção.

– Nesse lugar tem como chamar um táxi?

– Poxa, vai me abandonar assim? — perguntou ofendido. Revirei os olhos.

– Eu agradeço a carona, mas essa cantada furada não vai rolar comigo — o sorriso divertido não saía do seu rosto. Parecia colado ali. Pretensioso.

– Não estou te cantando, só procurando uma boa companhia para um café. Se eu a estivesse cantando, você saberia — completou com a voz rouca. Senti meu corpo arrepiar. Fechei os olhos. Concentração, Isabella!

– Ok, uma parada rápida. Também estou com fome — afinal não havia comido nada naquele jantar. Ele pareceu satisfeito. Era só um café e depois ir para casa.
Chegamos em um local bem tranquilo e aconchegante. Sentamos em uma das mesas ao lado da janela e pedimos dois cafés com bolo. Abri minha bolsa e peguei meu celular. Tinha sinal.

– Com licença. Vou ligar para casa e já volto — expliquei, sem saber o porquê. Levantei e fui até um canto. Liguei para minha mãe e avisei que logo chegaria em casa, sem revelar o que o canalha do Jacob havia aprontado. Retornei para a mesa enquanto serviam nosso café com bolo. Senti água na boca.

– Você está bem? — o estranho perguntou com certa preocupação. Naquele instante gostaria de poder ver seus olhos, saber o que veria neles.

– Ótima, por quê? — ele ergueu a mão na minha direção, mas parou no meio do caminho, colocando-a sobre a mesa.

– Eu não tinha percebido antes, mas seus olhos estão inchados, como se tivesse chorado — apontou.

– Não foi nada — desconversei, pegando a xicara de café e tomando o liquido quente. Ah, era muito bom.

– E o que fazia em uma estrada perigosa como aquela sozinha? — olhei diretamente para ele. O óculos escuro ainda cobrindo seus olhos. Queria perguntar como enxergava com aquilo à noite, mas me segurei. Ele tinha dirigido com cuidado e muito bem. Era isso que importava. Sem contar, que tinha conseguido até observar que eu havia chorado.

– Eu quis ficar ali — respondi simplesmente. — E você não deveria dar carona a qualquer pessoa. É perigoso. Não dá para confiar em ninguém hoje em dia — recriminei. Sua atitude foi altruísta, e salvou minha vida, mas também foi arriscada.

– Ainda assim, você veio comigo. Por quê? — voltei minha atenção ao bolo, evitando sua pergunta. Era arriscar ou morrer. Não tinha muita escolha. — À propósito, meu nome é Alec Stout — disse, do nada. Continuei ignorando, o bolo estava bom demais para perder tempo conversando. Comi dois pedaços com gosto. Entretanto, a falta de movimento do outro lado da mesa chamou minha atenção. Levantei a cabeça e encontrei o tal Alec olhando para mim com um sorriso. Ao menos era o que parecia. Não via quase nada através do seu óculos.

– Você alguma vez tira esse sorriso idiota da cara? — perguntei, fazendo com que seu sorriso aumentasse ainda mais. Revirei os olhos. Homem irritante. Em um reflexo me vi observando suas mãos, e ali, em seu longo dedo anelar tinha uma grossa aliança de ouro branco.

– Você é casado? — a pergunta pareceu meio acusatória, ele olhou para a própria mão.

– Separado, na verdade — ouvi ele dizer em um sussurro. Olhei desconfiada para ele. Deveria acreditar? — Eu simplesmente não consigo tirar — confessou com tristeza. Percebi que parecia sincero, já que, pela primeira vez, não sorriu.

– O que aconteceu? — perguntei sem pensar. Por que estava querendo saber?

– Ela deixou de amar — deu de ombros. — Infelizmente, pode acontecer nas melhores relações.

– Você ainda a ama? — ele desviou o rosto para a janela.

– Ela é a minha vida — mesmo que não pudesse ver seus olhos, a veemência e sinceridade em suas palavras me deixaram boquiaberta.

Sua atenção se voltou para mim novamente.

– Acho que agora está na sua hora. Vamos lá. Diga algo sobre você. Qualquer coisa — cutuquei o bolo com o garfo.

– Por que está usando óculos escuro? — ele sorriu.

– Deveria ser algo sobre você. Já falei demais.

– Responda e direi algo sobre mim — negociei. Ele suspirou e assentiu.

– Eu perdi minhas lentes de contato e esse era o único óculos com grau que eu achei — sacudi a cabeça e acabei sorrindo. Lembrei do meu pai. Ele também era desorganizado.

– Consegue enxergar com ele?

– Ele se adapta ao ambiente, pelo menos é melhor do que não enxergar nada — brincou. — Agora, sua vez — pleiteou. Respirei fundo.

– Eu perdi dez anos da minha vida — sua testa franziu. Acho que não era o que imaginava ouvir. — Tive um acidente e perdi a memória — completei. Ainda sem entender porque havia dito aquilo para um completo estranho. Era um risco tão grande. Ainda assim, senti que precisava exteriorizar aquilo.

– Eu sinto muito.

– É, eu também — comi mais um pedaço do bolo.

– Como é? — encarei ele confusa.

– Desculpe, não entendi.

– Qual é a sensação? — precisei de um minuto para pensar naquilo. Todos perguntavam como eu estava lidando com aquilo, nunca perguntaram como era.

– Eu não sei exatamente. Às vezes sinto que viajei para o futuro e outras que ainda estou no passado. E tem outros momentos que parecem automáticos, como se estivessem guardados em um local especial e só precisassem da chave certa para abrir — ri, balançando a cabeça. — Acho que não faz o menor sentido — ele sorriu para mim, como se pudesse compreender o que eu disse.

– Já encontrou a chave para alguns desses lugares?

– Acho que sim. Sabe, eu tenho dois filhos... — comentei sorrindo. — e eu esqueci de ambos, mas eu não sei, existe algo na minha relação com eles que parece natural. Eu me vi perdida na primeira semana e agora sinto como se fizesse isso a vida inteira. Nunca pensei que ser mãe poderia ser tão bom — respondi sonhadora. Ele olhava para mim com seu sorriso característico.

– E como seu marido está lidando com tudo isso? Isto é, se for casada — sem querer um sorriso surgiu em meus lábios.

– Meu marido é um verdadeiro herói. Eu o admiro muito — olhei para ele e percebi que já havia falado demais. — E você, o que faz? — perguntei mudando de assunto.

– Trabalho com análise e correção de algoritmos lineares e não lineares.

– Você me perdeu depois de correção — Alec riu e me vi fazendo o mesmo.

Ele começou a falar sobre teoria dos números e de probabilidades. Não era um assunto que me interessava nem um pouco, mas o modo como ele falava, com tanta paixão. Era fascinante.

Ficamos horas conversando naquele café, sobre tudo e nada ao mesmo tempo. Não consegui me lembrar de quando conversei com alguém assim. Com tanta naturalidade. Era disso que eu sentia falta. Talvez fosse isso que eu precisasse, alguém que não me conhecia. Que não sabia mais da minha vida do que eu mesma. Era como um sopro de ar fresco.

Quando meu celular tocou, interrompendo nosso assunto sobre a vida e seus acasos, percebi que já havia passado das três da manhã e minha mãe queria me matar.

Alec pegou a chave do carro e me levou para casa. Dessa vez, fui sem reclamar. Dei meu endereço e ele seguiu pelo GPS. Assim que chegamos, estendeu um papel.

– Se quiser conversar — falou, com seu sorriso particular.

Pensei em não aceitar seu telefone, mas não vi nada de mal. Ele era um cara separado, mas ainda completamente apaixonado pela esposa e eu era casada, com dois filhos. Seria apenas duas pessoas ajudando uma a outra. Eu precisava disso e ao que tudo indicava, ele também.

Qual o problema se fôssemos amigos?

Notas finais
Alguém querendo a morte lenta e dolorosa do Jacob o/ Poxa, a Bella só queria alguém para conversar e ele apronta isso? Tsc Tsc Ainda bem que o Alec apareceu. O que acharam dele? Parece um cara bacana e divertido:) Beijos e até semana que vem!