Uneven Odds
26 Capítulo 19 - Recomeço - Parte 1
Notas iniciais
Bella POV
Acordei animada, ansiosa e nervosa. Tudo ao mesmo tempo.
Animada por enfim ter a minha família reunida em casa.
Ansiosa por não saber ao certo como tratar Edward agora. Apesar da nossa crescente evolução, sua vinda para cá significava algo muito maior e por mais que estivesse feliz com isso, era uma novidade. Queria ele no mesmo quarto, só que ao mesmo tempo, sentia certa apreensão com tamanha proximidade. Ao menos ele parecia entender isso, tanto que pediu para Irina arrumar o quarto de hóspedes, sem que eu dissesse nada.
E por fim, estava nervosa porque iria passar por mais uma série de exames pela manhã. Meu consolo era que ao voltar, traríamos nosso pequeno Matthew para casa.
Minha vida estava entrando nos trilhos, e por mais que ainda tivesse muito o que ser resolvido e conversado sobre o passado, o mais importante era que estávamos todos juntos.
O café da manhã já era uma prova desse recomeço. Anthony não escondia a alegria por estar em casa, assim como Edward, que estava relaxado e completamente a vontade enquanto conversava com minha mãe e Anthony. Tomei minha xicara de chá, sem esconder a satisfação pelo que via na minha frente. Ume verdadeira família. Edward percebeu que os observava e piscou para mim. Sorri e devolvi o gesto. Ele voltou a atenção ao que Anthony falava, sem parar de sorrir.
Aliás, nosso filho, não parou de falar um só segundo desde que acordou, nunca tinha visto ele tão elétrico. No caminho para a escola, contava sobre os colegas e o que iriam fazer naquele dia. Sua animação só pareceu decair quando nos despedimos.
– Vocês estão indo no hospital? — perguntou reticente.
– Sim, filho. Vamos buscar seu irmão — Edward respondeu. Anthony assentiu e olhou para mim preocupado.
– Mamãe, você vai ficar lá de novo? — sorri, afagando seu rosto.
– Não, meu bem. Estarei em casa junto com o Matt esperando por você. Agora me dá um super beijo — ele sorriu e me deu um beijo estalado. Edward fez cara de coitado e Anthony riu, beijando o pai também.
Precisávamos aproveitar muito esses momentos, já que não ia demorar para ele sentir vergonha desses gestos de carinho.
Anthony desceu do carro, acenou e correu para dentro da escola. Edward e eu ainda ficamos alguns segundos ali. Não era a primeira vez que o levava para a escola, mas era a primeira que estava com Edward e isso tinha um significado a mais.
– Ele ainda não está muito feliz com a chegada do irmão — Edward comentou em um suspiro, virei para encará-lo. Ele tinha o braço estendido sobre o volante e o olhar perdido no horizonte.
– Mas acho que é normal, Anthony está naquela idade de ter ciúmes de tudo — sorri tentando tranquilizá-lo, o que pareceu não funcionar.
– Eu sei, só que antes ele estava animado, sabe? Conversava com sua barriga, dizia tudo o que faria quando o irmão nascesse — contou me olhando. — Eu acho que eu não soube dividir direito meu tempo enquanto você e Matt ficaram no hospital e acabei deixando ele muito sozinho. É como se ele estivesse com medo que eu o deixasse na casa dos avós, que o abandonasse — refletiu.
E ele não estava errado, recordei a conversa que tive com Anthony e esse era exatamente seu medo, que ele não ficasse conosco. Pensei em contar para Edward, mas desisti. Não queria que ele se torturasse ainda mais com o assunto.
– Você fez o melhor que pode, Edward. Não quero que fique se culpando. Eu fiz isso durante muito tempo, e você mesmo me disse que não vale a pena — segurei sua mão que estava sobre sua coxa e a apertei. — O que podemos e vamos fazer agora, é mostrar ao Anthony o quanto o amamos e que a chegada de Matt não vai mudar nada em relação a isso — assegurei.
Edward sorriu, um leve brilho brincando em seus olhos. Levou minha mão aos lábios e a beijou.
– Você tem razão, como sempre — corei levemente com o modo como me encarou, tão intenso e... — Melhor irmos. Ainda precisamos passar no hotel — avisou soltando minha mão e ligando o carro.
Levei a mão para meu pescoço, querendo disfarçar o meu nervoso.
As sensações que esse homem despertava em mim...
Tentei pensar em outra coisa, algo que acalmasse meus batimentos cardíacos e clareasse minha mente.
– Você já sabe o que vai fazer em relação ao seu pai? — perguntei pouco depois, queria continuar conversando, mas focar em um assunto neutro. Edward negou.
– Eu já tentei de tudo, não sei mais o que fazer — confessou derrotado.
Queria poder dar algum conselho, só que eu não fazia ideia da profundidade dos problemas que os dois enfrentavam. Era enervante isso! Nem podia manter uma conversa normal com meu marido.
– Está tudo bem? — perguntou preocupado. Edward dividia sua atenção entre mim e a rua. Devia ter percebido meu aborrecimento.
– Estou, é só que as vezes essa falta de memória incomoda mais do que outras — ele arqueou a sobrancelha, intrigado. Suspirei, decidindo contar o que estava sentindo. — Eu queria poder conversar com você, discutir certos assuntos, mas não dá. Como posso ajudá-lo com seu pai se nem faço ideia de como é a relação de vocês? Eu sequer o conheço — disparei aborrecida. Edward assentiu pensativo.
Podia ver que o mesmo estava passando pela cabeça dele.
A empolgação de voltar para casa ia dando espaço a realidade do que seria conviver com uma pessoa que não sabia nada da sua vida, que não lembrava nada do que haviam passado juntos. Era como se eu fosse uma pessoa diferente, com a mesma aparência. Sentia meu couro cabeludo pinicar. Não era só pedir para Edward voltar para casa que tudo estaria resolvido, tinha muito mais por trás de tudo isso. E agora eu via que Edward também não tinha pensado nisso. No quanto estava perdendo com minha amnésia.
Sem dizer nada sobre meu desabafo, ele estacionou em frente a um hotel e desceu do carro. Veio para o meu lado e segurou minha mão, quando abri a porta. Toda minha animação ia aos poucos se dissipando.
Nosso casamento suportaria tudo isso ou eu precisaria recordar do meu passado para então voltar a ter uma vida plena?
– Não vamos pensar demais, Süsse. Por favor — pediu conforme caminhávamos até o elevador. Isso não me tranquilizou, ao contrário, só me deixou mais nervosa.
– E se eu nunca mais lembrar, Edward? Se só sobrarem breves flashes do meu passado. O que faremos? — disse quase em desespero.
Edward virou e segurou meu rosto entre as mãos.
– O que combinamos desde o inicio. Recomeçamos. Eu vou contar tudo o que você precisa saber — sacudi a cabeça.
– Não é a mesma coisa e você sabe disso — rebati.
– O que você quer que eu faça então? — devolveu impaciente.
Olhei para ele sem saber o que responder, sem saber o que eu queria ouvir. Edward relaxou e segurou minhas mãos.
– Não vamos apressar nada, Isabella. Um dia de cada vez. Ok? — propôs com calma. Assenti, sem dizer nada.
À essa altura não sabia o que pensar e só sentia vontade de chorar. Era desesperador.
**
Um passo para frente, três para trás.
Era exatamente assim que minha vida parecia seguir.
Edward e eu pouco falamos enquanto ele pegava suas coisas no hotel e isso não mudou à caminho do hospital. Ele até que tentou, mas eu não estava colaborando. Depois de um tempo, ele desistiu e não falou mais nada.
Como um dia que estava começando tão bem podia caminhar dessa forma?
Parecia um replay do dia anterior, quando levantei alegre e animada e tudo aquilo aconteceu... Sentia um arrepio só de lembrar.
Hoje, que achei que seria muito melhor, estava decaindo a cada segundo. Ao menos não precisava lidar com nenhuma memória traumática. Fechei os olhos e me neguei a pensar no meu aborto. Não era hora de lidar com essa dor. Talvez nunca fosse.
Enquanto eu seguia para a sala de exames, Edward foi acertar algumas coisas do hospital e sobre a alta de Matthew. Antes de ir, no entanto, ele me beijou. Foi breve, mas o bastante para arrepiar minha pele e me fazer esquecer tudo. Pena que esse efeito tinha duração, e assim que Edward sumiu pelo corredor, minha mente voltou a trabalhar e me infernizar. Queria que fosse fácil parar de racionalizar, só que não era. Inspirei e expirei, a fim de me acalmar.
Um dia de cada vez.
Pensando nisso, virei e entrei na sala de exames.
**
Nada anormal foi encontrado nos exames preliminares e nem na ressonância. Pelo menos uma boa notícia. Antes de ser liberada, tive uma consulta com o psicólogo que estava me acompanhando desde o inicio. Desabafei com ele sobre tudo o que tinha acontecido desde a última semana e que estava sendo difícil lidar com tanta coisa. Ele me aconselhou a ir devagar e tentar não forçar nenhuma lembrança, que isso só seria pior.
É. Não adiantava nada me desesperar. Não ia ajudar em nada. Precisava aprender a deixar as coisas acontecerem, mesmo que parecesse impossível.
Saí do consultório e fui até o berçário, encontrar com Edward e Matthew. Pegar meu pequeno no colo, talvez melhorasse meu humor e ânimo...
Parei no meio do caminho ao me deparar com uma cena que fez meu sangue ferver e não de um modo bom.
Uma das enfermeiras, ou melhor, uma oferecida praticamente se jogava sobre meu marido enquanto segurava nosso filho nos braços. Apressei o passo e antes que me vissem, ouvi a vadia dizer:
– Eu adoraria cuidar dele por mais tempo, Edward. Se ainda quiser, posso ser sua enfermeira particular — ofertou sedutora e de forma ambígua. Claramente a descarada não estava se referindo ao bebê.
Sobre o meu cadáver aquela mulher entraria em casa!
– Nosso filho já tem quem cuide dele, não precisa se preocupar — declarei me fazendo presente. A talzinha empalideceu. — Pode me dar meu filho agora? — perguntei rude estendendo os braços. Ela pareceu um pouco perdida, mas logo se recuperou.
– A senhora precisa se higienizar antes de pegar o bebê — afirmou com autoridade.
Estreitei meus olhos com vontade de pular no seu pescoço magrelo e... Espera um pouco! Era essa mulher que me irritou uma vez, falando do meu marido sem parar. Olhei para Edward com raiva, ele parecia confuso com minha reação. Ia ver só quando chegássemos em casa.
– Eu estou higienizada, de modo algum colocaria meu filho em risco. Pode me passar ele ou vou ter que chamar seu chefe? — desafiei arqueando minha sobrancelha. Ela apertou os lábios, desgostosa, mas dessa vez fez o que pedi. Matthew dormia enrolado em um cobertor amarelo. Parecia completamente alheio ao que ocorria ao seu redor. Toquei seu rostinho e sorri. Era tão lindo. Edward passou a mão pela minha cintura e me puxou para si.
– Vamos? — assenti, mas antes precisava dar um aviso para aquela abusada.
– Ah, querida — falei, antes que ela se virasse. — Da próxima vez tenta disfarçar seu interesse pelo pai dos seus pacientes, imagino que nem todas as mamães vão ser tão educadas como eu — pisquei, abrindo um sorriso vencedor e lhe dei as costas, enquanto ela me fuzilava com o olhar. Passei por Edward, que estava parado sem acreditar no que via.
– O que foi aquilo? — perguntou entre o choque e a surpresa ao me alcançar no fim do corredor.
– Eu que deveria perguntar, que história é essa dela se oferecer para ser a enfermeira do nosso filho? Eu não vou aceitar isso, Edward! — disse apontando o dedo na sua cara. — Não vou! — dei-lhe as costas e continuei andando.
Edward não disse mais nada, parecia chocado demais para responder qualquer coisa. Me ajudou a colocar Matt no carro e ficou perdido em pensamentos. Só esperava que não fosse na senhorita oferecida.
Maldita! Será que ele a achou atraente? Ou pior, será que já tiveram alguma coisa?
Edward sequer perguntou como foram meus exames. Nem devia estar preocupado comigo, já que estava conversando com ela.
Era só o que me faltava... Além do problema de memória, agora teria que me preocupar com essa vadia sondando meu marido. Senti um gosto amargo na boca e uma tristeza e raiva absurda.
Sentei ao lado de Matt, fechei a porta, coloquei o cinto e fiquei olhando para ele. Só assim para parar de pensar em besteiras.
– Ele está seguro, Isabella. Pode sentar aqui na frente — Edward disse ao entrar no carro.
– Não, vou ficar aqui com ele — respondi secamente. Ele não respondeu, deu a partida no carro e seguiu para casa.
**
– Ah! Meu lindo finalmente chegou — minha mãe exclamou assim que atravessamos a porta.
– Mãe, ele está dormindo — adverti, ela pediu desculpas e ficou babando no netinho.
Edward foi para a cozinha levar o leite que tinha comprado na farmácia a pedido do médico. Sentia-me péssima por não poder amamentar meu bebê.
– Ele parece tão confortável — minha mãe comentou chamando minha atenção. Sorri.
– Vou tirar esse cobertor e colocar ele no berço. É melhor, não acha? — perguntei um pouco perdida ainda. Não fazia ideia de como cuidar de um bebê. Havia lido inúmeros livros, mas a prática era algo bem diferente.
– Claro, é bom que ele vá se acostumando com a caminha dele. Não é, pitchuco? — fiz uma careta. Pitchuco? Revirei os olhos. Só minha mãe mesmo para dar um apelido desses para meu filho.
– Vamos subir, quero aproveitar para tomar um banho antes dele acordar — falei, ajeitando ele no meu colo e subindo as escadas até seu quarto.
Tirei a manta em que ele estava embrulhado, verifiquei se a fralda estava suja e o coloquei no berço. Minha mãe me deu um beijo e saiu, me deixando a sós com Matt. Apoiei minha cabeça sobre os braços na grade e fiquei admirando meu bebê. Estendi minha mão, acariciando sua mãozinha, quando ele se mexeu e segurou meu dedo. Meu coração disparou e senti uma emoção descomunal. Era algo único. Enxuguei o rosto, sem tirar meus olhos dele, dos seus dedinhos apertando o máximo que podia o meu indicador.
Existiria sensação mais plena do que essa?
– Eu ainda não acredito que ele está aqui — levei um susto ao sentir Edward ao meu lado. Inclinei para trás e o encarei. Ele sorriu e quando ia tocar meu rosto, me afastei. Sua testa franziu. — Isabella... — sacudi a cabeça.
– Não quero conversar na frente dele — falei indicando nosso filho. Edward pegou a babá eletrônica, ligou e me puxou para o meu quarto, fechando a porta.
– E agora? — questionou com a mandíbula tensa, tentando esconder sem sucesso sua irritação.
– Vou tomar banho para cuidar do Matt — expliquei, virando de costas, mas não cheguei a dar dois passos e o senti segurando o meu braço e me fazendo encará-lo.
– Antes precisamos conversar — afirmou seriamente. — O que foi aquilo no hospital? — exigiu saber.
– O que exatamente? — explodi sarcástica. — Você e aquela oferecida conversando ou o fato dela estar se candidatando para um emprego na sua cama? Eu já disse e repito, Edward. Não quero aquela mulher na nossa casa e muito menos perto de você! — seus olhos arregalaram.
– Você está com ciúmes? — perguntou aturdido, como se aquilo não fizesse sentido. E não fazia mesmo.
– Não... Claro que não — neguei sem muito segurança. Ele abriu um daqueles sorrisos que eu amava e odiava. Seu corpo cobriu o meu, me prensando contra a parede que dividia o quarto do closet. Sentia meu coração bater na garganta e um frio na boca do estômago.
– Pois eu acho que está morrendo de ciúmes — provocou, chegando mais perto.
– Você teve alguma coisa com ela? — disparei sem pensar. Seus olhos esfriaram e ele se afastou como se tivesse levado um tapa. — Eu fiquei semanas em coma e depois não queria vê-lo... — comecei a explicar, mas ele me interrompeu.
– Você acha que eu estava com cabeça para ter um caso?! — sua voz se exaltou alguns tons e eu me encolhi. Nem ontem ao me encontrar com Michael ele estava tão enfurecido, pior do que isso, parecia realmente magoado. Ficou de costas e colocou uma mão na cintura e a outra passou pelos cabelos. — Você realmente não me conhece... — sussurrou com a cabeça abaixada.
– Digo o mesmo — devolvi na mesma moeda.
Edward se virou e me encarou, parecíamos dois inimigos medindo forças. Ia dizer algo, mas uma batida na porta me interrompeu. Edward a abriu, e encontramos uma Irina tensa e preocupada, segurando o telefone na mão. Senti um arrepio na nuca. Isso não parecia bom.
– Senhor, senhora, é da escola do Anthony, parece urgente...
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