Undisclosed Desires
14 ReVendida
Notas iniciais

“Eu sei que você sofreu
Mas eu não quero que você esconda...”
“As vezes, alguém te machuca tanto... Que para de doer. Até que alguma coisa te faça sentir bem... E aí volta tudo de novo... Cada palavra.... Cada ferida... Cada momento... Como você poderia entender de onde eu venho? Mesmo se você perguntar... mesmo que você ouvir... você não está realmente aqui, para ver...ou sentir... você não se lembra da minha historia... você nunca andou pelo meu caminho... você não viu o que vi.”*
Seus dedos massageavam com lentidão o couro cabeludo, as mexas negras e macias em que afundavam, cintilavam vivazes. O suspiro de apreciação dele foi audível.
Sakura desceu a mão por seu rosto espalmando a pele levemente dourada sentindo a aspereza da barba que começava a nascer contra a palma.
Mais um sinal.
O homem com quem estava casada nunca demonstrara tal desleixo.
Porém, na ultima semana, depois que voltaram de Hamptons, ele estava em desleixo até com o mundo.
Algo o perturbava, e ela via em seus olhos, negros, incertos, duvidosos, ansiosos, agonizantes, que logo seria a próxima.
Mais alguma coisa seria tirada dela, e mais algum peso colocado, podia sentir. Sasuke a estava sufocando de novo, ele estava se sufocando. Eles estavam ligados, e ele estava matando os dois.
De novo.
E ainda sim, ele não estava satisfeito.
Ele queria ir mais fundo.
Talvez pra ele, fosse um tipo de esporte perigoso. Não podia negar, também sentia adrenalina, sempre que ele cutucava perto.
Sempre que tentava pegar uma resposta solta e descuidada sobre seu passado.
Mas ela só sabia uma coisa.
Que não era importante ele saber.
Nem ela relembrar.
Ele suspirou pesadamente, sua mão cobriu a dela, e quando seus olhos se encontraram, um sussurro em sua mente era a resposta que ela nunca daria a Sasuke.
“Meu passado me define, isso é o que sou, eu sou aquela, que ninguém vê... Ninguém ouve... Ninguém quer. É isso que sou, se é que sou alguma coisa...”*
Sasuke a fitou com aquele olhar ansioso, angustiado. Beijou a palma dela, seus dedos se entrelaçaram.
E como se temesse algo, ele se ergueu bruscamente e beijou-a, tentando se convencer de algo, ela supôs. Seus olhos encontraram os dela, e com um suspiro ele parou de adiar, tragou silenciosamente, o aperto de seus dedos longos intensificou e ela sentiu a aliança ali.
— preciso te levar num lugar.
Sakura inclinou o rosto, roçando os lábios nos dele, a carícia provocou sua boca que buscou a dela.
— você não precisa, você quer.
Sempre quer.
Sasuke engoliu em seco, sugou o lábio inferior dela lentamente, o olhar entrecerrado no dela.
— e você não quer... mas você precisa.
Quando ele buscou sua boca ela se afastou, apertando as pálpebras, se virou e desceu da cama.
Sasuke continuou observando-a. O olhar inseguro, a boca se comprimindo e umedecendo quase num tique nervoso.
Ela preferia o titã cruel.
Por que se ele estava nervoso assim, perdido e assustado.
Ela não podia medir a devastação que causaria nela.
“...Parece a mesma coisa, que me segura em cima, me força para baixo....”*
— eu vou me arrumar.- avisou.
O banho foi longo, mas ele não veio apressa-la, o banho dele também foi. O café da manhã silencioso.
Ela sabia, havia uma batalha dentro de Sasuke. Mas sabia também que ele ainda faria o que iria fazer.
Por que ainda era sobre o que ele queria.
E ele sempre conseguia o que queria.
Enquanto que sobre ela, só havia mais dissertações.
Sem discussões ou debates, nenhuma contra resposta, nenhuma revolta.
Era inútil, então se recolheu dentro de si.
Como sempre.
Narrando sobre si mesma, compondo sobre si mesma. Estudando sobre si mesma, por que o mundo dentro de si, por mais sombrio e torturado que fosse, era mais seguro que o lá fora.
Só se arrependia de ter esquecido, ainda que tão pouco. O bastante para tudo sair do lugar outra vez.
“O mundo virou de cabeça pra baixo, e a ordem desapareceu... Nada é como deveria ser... E uma profunda tristeza preencheu a minha alma.”*
— talvez nunca tenha sido...
Seu sussurro foi capturado por ele, embora não tenha entendido, Sasuke voltou a atenção para a rua.
O carro de motor suave deslizava pelo asfalto.
Aos poucos os prédios não eram mais tão grandiosos, nem luxuosos. Haviam mais residências. Ela não percebera rapidamente, as mudanças que o tempo fizera no bairro.
O Brooklyn estava mais desenvolvido, organizado, habitado e miscigenado.
Talvez menos violento.
Ela só teve um único momento para suplicar que estivesse errada, mas quando o carro fez uma curva, ela viu que estavam entrando no centro, no bairro central, em Bedford-Stuyvesant.
Não sabia exatamente quando seus olhos formaram lágrimas, apenas as sentiu quando apertou os olhos e tragou silenciosamente, elas rolaram.
“Cada vez mais profundo, eu me sentia dentro de mim mesma... E nada conseguia me tirar. Presa nas tragédias de minha vida. Perdida nos lamentos da minha alma... Incapaz de ver a luz. Incapaz de ver o nascer do sol... de sentir... de ter esperança... de sonhar...”.
Sasuke inspirou profundamente, uma dispneia emergiu nos dois, mas ele manteve as mãos firmes no volante. Ele não tinha certeza se podia toca-la agora. Ele não queria provocar uma reação violenta ainda enquanto dirigia. Ele não queria machuca-la fisicamente, já sabia que estava destroçando o psicológico dela mais uma vez.
Sakura se recusava a falar, brigar ou fugir, mas dentro dela, aquele inferno pessoal era o que ele mais temia.
“E talvez você pergunte: ‘Porque?’ A maior parte do tempo, tento não pensar a respeito... E tento passar por isso... Tentando sobreviver... E todas as outras coisas se parecem com nada... se comparadas com o que de mais importante poderia voltar...”*
O carro parou em frente uma das muitas casas de arquitetura igual e cor diferente, como era manhã, haviam apenas crianças indo para a escola, ainda em sua maioria, de origem afro-americana.
O Royals Royce chamou atenção, olhares se voltaram de varias portas e janelas. Sasuke saiu olhando ao redor, respirando o ar, analisando tanto quanto faziam consigo.
Ele contornou o veiculo abrindo a porta, não esperava que ela pegasse mas mesmo assim estendeu-lhe a mão. Ela pegou, esperou um aperto, ser machucado. Ela se apoiou e saiu. O chapéu de abas largas e caídas ocultou sua face dos curiosos, talvez até conhecidos.
Também não precisou guia-la, ela sabia o caminho, cada degrau, a porta de madeira vermelha, o olho magico, a mesma tranca.
Sasuke tocou a campainha, mas mesmo quando a porta abriu e um homem que ele sabia que ela não conhecia apareceu, não viu-a se se surpreender.
Por que ela não esperava ser recebida pelos moradores da casa, tal como não estiveram lá na porta quando ela partira.
— senhor Uchiha.
— Kakashi – ele cumprimentou o detetive apenas com um aceno da cabeça, sua mão segurava o braço de Sakura com delicadeza.
O corredor curto e pouco iluminado logo deu acesso a uma sala de jantar anexada a uma sala com televisão, não haviam janelas abertas e a luz não era forte, amarelada, as paredes gastadas, os sofás pequenos, a TV desligada, poucas fotografias na estante, muitos livros na prateleira.
— senhora Haruno – ele cumprimentou, apenas por cortesia, a mulher do outro lado da sala mau o olhou, os olhos castanhos presos na figura de Sakura, usava uma saia longa, reta, camisa de botões bem posta dentro dela, e os cabelos de um rosado opaco, presos num coque, uma postura autoritária, incisiva, dura.
Seca.
O queixo erguido tal como o olhar.
Ele não viu quando Sakura enxugara as lagrimas, mas ela ergueu o queixo tão alto quanto a mãe.
Mostrando que havia puxado sua postura, pra uma era um ataque, para outra defesa.
No sofá estava sentado um homem bem mais jovem, ainda chegando aos trinta e cinco, mas de corpo esbelto, bem feito, apenas a camisa xadreza aberta sobre uma branca, manchada de molho evidenciava a classe.
No rosto levava traços italianos, loiro de pele dourada e olhos azuis, um azul claríssimo.
Mas nada transparente.
Seu padrasto.
E no outro campo, uma figura baixa também vestida de forma recatada e sem graça, os cabelos bem eram curtos, o rosa não brilhava tanto, não era cuidado com produtos caros, mas tinham um charme natural, os olhos verdes mais claros deixavam a face mais jovem ainda, seu olhar não era de uma gata afiada e astuta. Estava mais para um gatinho nervoso e assustado com os braços em volta de si próprio, ainda sim, olhava com fascínio a filha primogênita, a irmã, como se fosse a coisa mais bonita que já tinha visto em anos.
— continua igualzinha – a mais velha proferiu, um sorriso de escarnio, amargo, se formou na boca enrugada, quase deleitada em confirmar.
Sakura a encarou, seu olhar desceu para o homem, ele estava concentrado, apoiando os cotovelos nos joelhos e o queixo nas mãos entrelaçadas cujos dedos se moviam a todo momento. Estava inquieto.
Ela sorriu com desdém também e moveu os olhos dele para a mulher.
— posso dizer o mesmo. – ironizou.
— você está muito bem, toda bem vestida, com aliança no dedo, não preciso perguntar como conseguiu tal proeza, alguém que nem terminou o colegial como você só poderia recorrer a isto, mas achei que faria bem mais cedo, não achei que hoje em dia as pessoas caíssem nesse tipo de golpe ainda.
— achei que alguém que se considera tão inteligente como você e é velha e acabada tivesse criado vergonha na cara, mas também vejo que não.
A mulher deu um passo em sua direção já rubra de raiva.
— quem é você pra falar de vergonha comigo?! Não passa de uma...
— acho que já podemos terminar os cumprimentos e passar para o que interessa – a voz do tal Kakashi cortou como lamina a tensão na sala, embora não tivesse a extirpado minimamente.
Sakura meneou a cabeça, ainda sorrindo, ainda pensando, ainda relembrando. Nada era como queria que fosse mesmo, nem uma única vezinha.
“Como desejar ver sua mãe sorrir de novo... Ouvi-la cantando sua musica favorita...Aquela que a conforta...quando as coisas estão bagunçadas... ou se não puder tê-la de volta...”*
Seu olhar estava embaçando de novo e ela voltou-o para a estante, pela primeira vez encarando a garota, já não tão garota.
Talvez tivessem e mesma altura agora. E embora muito enervado e assustado, ela ainda tinha o mesmo olhar de seu pai.
Sakura tentou forçar um sorriso comum, estava admirada, tanto quanto ela, mais que ela.
Também tentou falar, mas ainda não dava pra sair algo. Ela só conseguia ver, ver e pensar.
“...Pelo menos poder cuidar da minha irmã mais nova... pois ela sabe que precisa de você...Pois ele vai ficar assustada... e quem vai segurar a mão dela, para lhe dizer que vai ficar tudo bem?”*
— está crescida... Imogen.- murmurou, seus lábios tremiam, as cordas vocais falhavam.
— está bonita...- Imogen tentou ter o cuidado de não ofende-la, ela sabia o quanto machucava. Só ela sabia. Por isso tentava se referir apenas á sua gestação.
Quando viu a foto da moça, Sasuke não podia negar uma certa decepção, Imogem tinha cabelos rosados, olhos verdes grandes e puxados como os de um felino, seu rosto era alvo e limpo, muito limpo, as roupas eram castas mas ele sabia quando haviam boas curvas num lugar mesmo quando escondidas.
Ela tinha todas as caracteristicas de Sakura, porém, não chegava nem perto, não tinha ser ar sedutor e enigmático, seu charme felino, seu olhar hipnotizante. E suas curvas não eram instigantes.
Ela era comum, perto dela, Sakura parecia uma divindade grega. Uma versão melhorada, ou a outra, uma obra inacabada.
Ele mais uma vez passeou com os olhos pela casa, e não conseguiu imaginar uma Sakura, mesmo criança correndo por ali, seus olhos captaram um retrato na parede, um homem de cabelo escuro, e olhos profundamente verdes, estava sentado num gramado, segurando uma garotinha e um recém-nascido. E mesmo em roupas de trabalhador, gastas, ele tinha um sorriso doce, e, um ar que não se encaixava na imagem.
Alguém comum acharia mais fácil crer que ele era um nobre rico brincado de plebeu, seus ombros eram largos seu olhar sim, era felino.
Ele tinha aquela presença.
Aquela presença estava em Sakura, aquela beleza que não era compatível com o Brooklyn estava nela.
Garret Haruno viera para a América ainda rapaz, em meados de 1970, trabalhou num dos muitos bairros habitados pelos irlandeses na época, mas quando conheceu e desposou a esposa Mariah, já tinha quase trinta e sua situação financeira não mudara muito. Mudou-se para o Brooklyn e tentou viver lá em meio uma classe racial diferente da sua, sua primeira filha veio, e para sustenta-la passou a ter dois empregos, a segunda veio com uma diferença de sete anos, e quando Sakura tinha nove, ele morreu durante um assalto ao carro de entregas que dirigia. Não era seu caminhão, era o de um colega, era pra ser seu dia de folga.
Quando ele levou três tiros, devia estar em casa dando amor e atenção a suas filhas, pois tinha pouco tempo de toda forma.
Quando ele levou três tiros, foi porque achava que precisava fazer mais por elas, pelo seu futuro. E acabou perdendo tudo. Perdendo a chance de ver e de cuidar delas.
E elas perderam o futuro que queria para elas. Pelo menos, Sakura perdeu.
Imogen tinha vinte anos, não cursava faculdade, embora tivesse boas notas para tal. Trabalhava como recepcionista num escritório de pequenas causas.
Sua mãe só fora educada para ser dona de casa, submissa ao marido e criar bem e rigorosamente os filhos. Quando o marido morreu passou a viver da pensão, mas o aperto foi sufocante, obrigando-a a procurar um emprego de vendedora em supermercados. Três anos depois, casou de novo, um homem jovem o bastante para ser seu filho, mas que assumiu toda a responsabilidade pela casa. Trabalhava com bicos, e atualmente numa construtora, como eletricista.
Eric Paretti a “salvação das Haruno”. Ao menos para a mãe delas.
Kakashi se sentou comodamente na poltrona abrindo uma pasta, alheio ao jogo de olhares que se fazia, ele e Paretti, que não parecia disposto a qualquer troca de olhares.
Sasuke sabia que ficar perto dela não adiantaria, ele era o causador daquilo e só seria visto como hipócrita se tentasse ficar ao seu lado, segura-la, mantê-la, conforta-la, apoia-la.
Sakura nunca pediu seu apoio emocional.
Ele caminhou pela sala, com as mãos nos bolsos encarando cada detalhe e tentando descobrir traços de sua historia, que jamais poderiam estar num dossiê por mais detalhado que fosse.
— que tal irmos a parte em que invade minha casa e me obriga a ter essa... essa... visão? – Mariah reclamou.
— não tem por que ficar nervosa, ainda senhora Haruno, porque apenas não se senta? – Sasuke comentou, encarando uma estante no canto, cheia de livros sobre musica, cadernos amarelos de partitura, empoeirados, abandonados.
Agora sim ele podia imaginar Sakura nesta casa. Via-a subindo num banco pescando entre os livros, correndo para cima, e tocando o violoncelo da escola. Não era dela, não podia comprar um, mas podia toca-lo lá, foi a escola lhe deu acesso á musica, foi a escola, o fascínio infantil, a curiosidade e determinação que a ensinaram sobre Mozart, Tchaikovsky e Chopin.
Foi lá que ela aprendeu a amar a musica, e a sonhar ser parte de uma grande orquestra. Mas ela não pode estar lá realmente, não o bastante para que se concretizasse esse sonho.
A mulher voltou suas gemas furiosas e preconceituosas para ele. Sasuke sabia bem o que ela via, e não podia negar que até alguns meses era exatamente isso, ainda era em muitas partes. Um homem rico sem moral, que comprava tudo o que queria, que comprou até a filha dela, mesmo que já considerasse assim. Que comprou até seu neto, mesmo que ele não tivesse qualquer desejo de permiti-la ser sua avó.
— você pode ter comprado o mundo lá fora, rapaz, mas não comprou a minha casa – rebateu ela.
Ele esboçou um leve sorriso enquanto puxava um álbum que não era de musica, era escolar. Fitou-a de soslaio com desdém e arrogância.
— se eu quisesse comprar isso aqui, senhora Haruno, suas mudanças estariam lá fora antes mesmo que abrisse a boca para negar.
A boca dela abriu e fechou indignada demais para rebater, mas principalmente dando-se conta de que podia ser um blefe, mas ele tinha sim, poder para tal.
Kakashi folheou o caderno tranquilamente alheio a tudo antes de proferir.
— senhora Haruno, como já me apresentei, sou Kakashi Hatake, ex investigador da policia e também do FBI, atualmente eu faço apenas trabalhos particulares, e basicamente, acho pessoas, e acho tudo sobre elas.
— um xereta – ela comentou, irônica.
— com muito orgulho, e muito competente, o senhor Uchiha me contratou para encontrar a família de sua esposa, e também descobrir como exatamente ela foi parar onde ele a encontrou.
— numa esquina?
— num hotel de luxo – Sakura corrigiu-a com arrogância.
— deve ter trabalhado muito.
— não faz ideia do quanto.
— suspeito que a senhora não tenha feito a mínima ideia de por onde sua filha andara depois de expulsa-la de casa, não é? – o detetive inquiriu.
— você se incomoda de saber onde vai parar seu lixo?
— mãe?! – Imogen exclamou, horrorizada.
Kakashi encarou a mulher fixamente, a cicatriz em um de seus olhos deixava-o menos amigável ainda.
— hoje em dia, senhora, devemos nos preocupar com tudo o que soltamos, até mesmo o lixo, um filho então, a senhora tinha consciência de que poderia ter ido presa na época não é? Deixou um menor em situação de risco, um menor que desapareceu, um menor e ao qual nunca foi procurado por ninguém, nem pela senhora.
— deixei que tomasse seu rumo, aqui não era lugar pra isso.
— estava consciente dos riscos que ela correu? Poderia ter sido morta, poderia ter sido abusada, poderia ter sido sequestrada.
Ela entreabriu a boca para contestar.
— a senhora conhece alguém chamado Yahiko?
— quem?
— Yahiko – ele estendeu-lhe um a foto, era antiga, e mostrava Yahiko fumando em frente um bar.
Ela encarou e devolveu.
— nunca, deste tipo de sujeito eu quero distancia.
— este tipo de sujeito manteve sua filha em cárcere privado por onze anos, senhora Haruno.
— que...
— este tipo de sujeito vinha rondando sua filha a semanas esperando que a senhora a expulsasse de casa, apenas para enfia-la num carro e fazer-lhe o favor de sumir com seu “lixo”.
— pura invenção, a expulsei de casa por que era uma vagabunda, dormindo com os moleques da escola em vez de estudar depois de tudo o que fiz para...
— viver da morte do velho, abrir as pernas pra um cara que tem idade pra ser seu filho, e trazer ele pra dentro de sua casa, como se fosse um familiar, quando era um desconhecido – Sakura disse. – seus esforços são aplaudíveis, Mariah, melhorou muito as coisas.
Sakura bateu palmas sem pressa enquanto se sentava no sofá do lado oposto. Ela voltou o olhar para Paretti e sorriu.
— eu sempre me perguntei, o que você comprou com a grana? De certo que não foi tinta ou roupas descentes, a casa continua e mesma porcaria e você também.
Ele inspirou profundamente e a encarou.
— você esperou muito tempo por isso não é? Você sempre me odiou.
— do contrário, eu te esqueci, e olhe onde você está, dezesseis anos e ainda na mesma merda, sem falar que perdeu todo o charme, não que ao menos pra mim houvesse, e mesmo assim, você ainda insistia em entrar no meu quarto sempre que ela estava fora – indicou a mãe com o queixo rapidamente. – também entrou no da Imogen?
Ele arfou mantendo seu olhar, a face dela se contorceu de raiva, Sasuke largou o álbum e foi até o sofá segurando seus ombros e mantendo-a sentada no exato momento que ela tentou se levantar rosnado de ira.
— Tentou entrar no quarto da minha irmã seu bastardo?! MALDITO CRETINO!
— Sakura, acalme-se, o bebê.
— eu odeio você! Odeio você! A CULPA É SUA!
— ele não tentou nada! – Imogen gritou, já chorando, a fitou desconsolada – ele nunca tentou nada, só tinha olhos pra você... Sempre só tinham olhos pra você... Sakura, sempre a mais bonita, sempre queriam tirar fotos com você, que participasse dos eventos, que ajudasse nas aulas, sempre tão bonita, e por isso sempre todos queriam arrancar algo de você, queriam brilhar com sua luz...sempre, sempre com você...
Sakura parou de tentar se erguer, procurando respirar com calma. Sasuke massageou seus ombros, ele queria beija-la e tira-la dali. Mas ela merecia que a verdade enfim se mostrasse.
Ela tinha esse direito.
— do que estão falando? – Mariah indagou num fio de voz, exigente, piscando e engolindo, procurando assimilar tudo.
Sakura a encarou feroz.
— você nunca via nada, era tão cega que sempre me perguntei se não sabia, velha porca maldita, eu odeio você! Odeio!
— me respeita!
— não merece meu respeito desde que colocou esse lixo no lugar do meu pai!
— não tem direito de falar de seu pai! Ele não é mais seu pai!
— ele é meu pai! Você é que não é minha mãe! Velha papa anjo, sua nojenta! Me chama de vagabunda mas quem estava tão carente que ficou nas nuvens quando um fedelho se animou pra te comer hein?! A única vagabunda é você!
— precisava de um homem pra sustentar você sua cadela!
— precisava ser mulher e cuidar das suas filhas sozinha, sua vaca!
— não tem o direito de...
— AO INVÉS DE COLOCAR UM MALDITO PEDÓFILO NO LUGAR DELE!
Mariah recuou atordoada enquanto Eric saltou do sofá rugindo.
— NÃO ME CHAME DESSE JEITO!
Sakura novamente lutou pra se erguer suas unhas rasgaram o dorso das mãos de Sasuke.
— NOJENTO!
— NÃO TINHA CULPA SE ANDAVA POR AÍ ATRAENTE DEMAIS PRA SE REJEITAR!
— ELA ERA UMA CRIANÇA! – A rugido do Uchiha calou a todos, Kakashi já estava de pé com a mão no quadril sobre a arma que tinha consigo, observando atentamente a postura de Paretti.
Sakura arquejou outra vez e seu corpo inteiro tremia, Imogen se encolheu com as mãos no rosto enquanto sua mãe estava perdida demais assimilando a situação.
— ela tinha o que? Treze anos? Como você ousa chama-la de atraente pra se justificar?
Ele estava se controlando como nunca havia feito, fora mais fácil não gritar todos os dias com a mãe e chama-la de prostituta, foi mais fácil, não xingar o irmão de egoísta, mais fácil aceitar que destruiu a noivado de seu melhor amigo.
Tinha que se controlar por Sakura, e por Ryan pois caso se permitisse agredir aquele homem, não pararia enquanto ele não fosse mais que um corpo frio.
Queria ter trago alguém consigo assim poderia deixar Sakura no carro, mas no começo, não quis intrometer mais ninguém no passado dela.
Eric riu com sarcasmo.
— se visse como ela era com treze anos iria entender do que falo.
— entendo que você é doente, uma criança é uma criança, não importa como pareça, mas você não conseguiu o que queria não é? Então pagou alguém pra ter isso, de forma que pudesse tirar vantagem.
— não sei do que está falando.
— oh não? – Kakashi disse – eu tenho recibos e contas que provam o contrário.
— impossível, isso foi a muito tempo.
— o passado não se esconde para sempre, ainda mais estando registrado, esqueci-me de perguntar – ele abriu a pasta outra vez e mostrou a foto de Yahiko. – conhece esse homem?
— não.
— esta outra foto, não diz isso – Kakashi tirou outra, nela Eric apertava a mão de Yahiko que segurava um pacote dado por ele.
— meu deus...- Imogen sussurrou.
— Eric? Que significa isso? – Mariah indagou, assombrada – como pode estar envolvido com esse tipo de gente?
— “envolvido” é pouco senhora Haruno, a senhora sabia que seu marido nunca trabalhou nos fins de semana?
— como? – Kakashi tirou outra foto, nela Eric jogava poker, com uma jovem vestida vulgarmente em seu colo, mas o que mais a chocou foi ver o quão antiga a foto era, e a data impressa.
— esta foto não foi tirada por mim, mas pelo próprio Yahiko, ele cuidava de saber exatamente que tipo de clientes vinham a sua casa de jogo, na época ele ainda estava começando a trabalhar com prostituição, e por isso mesclava os dois negócios, oferecia, jogo, mulheres, e também drogas, e as fotos eram pra chantagear seus clientes, como por exemplo, o senhor Paretti.
— jogo? Que clichê – Sakura cuspiu, venenosa.
— você ficou devendo muito ao pequeno cassino do Yahiko, eu presumo que, você sempre ocultou de sua esposa e enteadas o que realmente recebia para que pudesse guardar uma parte para os jogos e as prostitutas, mas logo secou suas reservas, e Yahiko mostrou o quanto era perigoso.
— eu pedi tempo a ele, o bastardo pôs uma arma na minha cabeça.
— então você ofereceu sua enteada mais velha como pagamento.
— não ofereci! Ele vinha me rondando, ele a viu, achou-a bonita, e começou a empurrar a ideia pra mim, ele ficou obcecado por essa garota.
— tanto quanto você?
— eu só queria matar a vontade, vez ou outra, mas ele não, ele achava que ela daria bons clientes, mas eu não podia simplesmente joga-la pra ele.
— você não tinha a guarda dela e era obvio que a senhora Haruno chamaria a policia por que acharia que valia a pena ter sua filha de volta, mas, presumo eu, que, você sabia que se fizesse Sakura perder o valor de boa filha, a mãe dela seria orgulhosa e rigorosa o bastante para expulsa-la, e Yahiko estaria lá fora esperando para leva-la e você para encerrar a divida.
Eric se sentou esfregando o rosto.
— mas como fazer isso? – Kakashi se sentou novamente abrindo a pasta – é aí que Nikky Jones entra.
Sakura o fitou ante a menção ao nome.
— Nikky Jones, um dos melhores jogadores do time de basquete, vinha de família boa, o bastante para que fosse um perfeito playboy do colégio, e também envolvido na jogatina do Yahiko, presumo que o tenha conhecido lá.
— você presume muitas coisas...
— e acerto, é isso que te assombra, mas Nikky não estava com a corda no pescoço, era um bom cliente, mas um pouco mais de dinheiro era bem vindo, você tinha um pouco do dinheiro que guardou para pagar Yahiko e apostou no garoto, mandou-o dar em cima de sua enteada, até conseguir dormir com ela, assim ele espalhou pela escola toda, encheu a historia de detalhes sórdidos e do dia para noite, Sakura passou de aluna promissora para promiscua e vulgar, então ele compactou com alunos da turma de jornalismo e todos armaram uma sessão de fotos, tentou levar Sakura para a cama outra vez, dizendo que foi outro colega que espalhou os boatos, e quando ela tirou a roupa os garotos a fotografaram, fabricando as fotos que provariam os boatos.
Sakura baixou a cabeça, ela podia sentir cada flash sobre si, quando julgava ter esquecido, o quarto inteiro de Nikky surgia em sua frente, ele jogando seu corpo sobre o dela forçando posições comprometedoras para que os outros três rapazes a cegassem com as câmeras, e a ensurdecem com suas gargalhadas e xingamentos.
Ela nunca lutou tanto, fisicamente, para se livrar dele como fizera. Naquele dia, ela aprendeu que nunca seria forte o bastante para machucar alguém fisicamente, não importava quanto o ódio fluísse em seu sangue e músculos, a força não era o bastante, ela levou dois tapas seguidos e seu traseiro foi espancando quando ele a forçava a ficar de quatro, para simular “sexo selvagem”.
E o bastardo não saberia encontrar seu clitóris nem com o mapa, um GPS e um cão guia.
Sua primeira vez foi sem graça e dolorosa, ela saiu fisicamente insatisfeita mas julgando ter encontrado seu príncipe. E que os dois ainda teriam noites de amor e prazer de verdade pela frente.
No dia seguinte, as melhores fotos estavam espalhadas pelo colégio inteiro, ela levou um banho de urina das lideres de torcida e mais fotos e cartazes foram enviados para sua casa.
Vagabunda era o nome mais doce escrito nelas.
Vagabunda foi o nome mais doce que sua mãe lhe disse, sem deixa-la se explicar, sem deixa-la recolher suas coisas direito. Levou apenas os poucos documentos que tinha, duas peças de roupa, o lanche da escola, e dez dólares.
Ela não andou nem dois quarteirões antes de Yahiko surgir em sua frente e lhe oferecer carona, ela tentou desviar, dizer que ia pra casa de um parente.
Mas ele não acreditou, ele nem precisava, por que daquele momento em diante, ele e tudo o que ele lhe desse, seria tudo o que ela teria. Quando viu Eric sair do mesmo carro em que fora jogada, ela entendeu que ele a tinha vendido ao cafetão. Mas, fora inocente, em achar que Nikky era uma tragédia à parte.
E no fim esteve tudo relacionado, ela se ao menos ainda sentisse algo, seus braços e pernas, se ergueria e bateria palmas pela genialidade dele.
Sempre o julgou um ignorante, sujo, pervertido e principalmente um perdedor, aquele deve ter sido seu plano de mestre para mostrar que ela sempre o subestimara.
Ela estivera focada demais em relembrar toda a humilhação que vivera na escola pra pensar nele.
Suas amigas vivaram lhe as costas, os professores olhavam com decepção, ainda sim, como se esperassem isso.
Todo mundo esperava, eles ansiavam, como abutres.
Por que ela era linda, mas não quisera se tornar líder de torcida.
Por que ela era inda, e gostava de ler e tocar violoncelo.
Por que ela era linda, e não ia para as festas da turma.
Por que ela era linda, e não saia com nenhum rapaz.
Por que ela era linda e muito recatada.
Esperta mas não usava isso em conjunto com sua beleza para ter poder e favores para eles.
Eles a achavam perfeita, perfeita demais. Mas tudo o que ela queria era agradar a todos, entrar para uma boa faculdade, ela queria ser um bom exemplo pra eles, e pra sua irmãzinha.
E quando o mundo virou, ninguém quis entender seu lado da historia.
E desde então ela desistiu de esperar algo das pessoas. No novo mundo de Yahiko ela só esperava sobreviver, e a cada dia o via matar sua ânsia de sair dele, ele cortou suas asas aos poucos, primeiro as belas penas, então a carne, o tronco, ferindo e sarando com falsas promessas, tantas, até que enfim, a fé dela também fosse cortada pela raiz.
“Já ouvi tanto de promessas... e todas elas soam a mesma coisa... force o bastante... e com o tempo, todas elas se provam vazias...”*
Até que só sobrasse uma ave aleijada mas de canto bonito, até que só sobrasse a sua boneca de luxo preferida.
“Eu sabia que ninguém podia me ajudar... Dependente, desesperada... Mas o que acontece quando as pessoas que você mais precisa... ameaçam sua própria existência?”
Ela só precisava ter uma mãe, só precisava que Mariah a tivesse ouvido, mesmo que não acreditado. Que a tivesse espancado e forçado a passar por um inferno na escola, que a odiasse todos os dias. Ela teria aceitado de bom grado se pudesse ter escolhido.
Por que um dia a escola terminaria, ela não veria mais aqueles rostos todos os dias, e mesmo que durante a faculdade viesse a encontra-los vez ou outra, ela teria esperança outra quando se formasse e achasse um emprego longe de Nova York.
Mariah só precisava tê-la deixado dentro de casa, quem sabe presa.
Só.
Apenas isso.
Mas não o fez.
Jogou-a fora tão rápido quanto a escola. Rotulou-a e mandou-a para a rua.
E era por isso que odiaria aquela mulher até o fim de seus dias.
— eu mesmo encontrei Nikky, ele hoje é advogado, não é muita coisa, leva uma vida bastante honesta, e se arrepende do que fez na época – Ela sentiu o olhar de Kakashi sobre si e riu, erguendo a cabeça.
— é bem mais fácil falar agora não?
— ele até mesmo pediu seu contato...
— devia ter atirado com esta coisa na cabeça dele! Pagar pela cabeça dele numa poça de sangue me parece ótimo! Faça seu preço, vamos!
— não trabalho com isso, madame, da minha parte ele não terá seu contato, voltando ao caso, você pode ter liquidado a dividida, Paretti, mas também ainda ganhou por cima, Yahiko te deu uma boa gratificação, você a vendeu, vendeu um ser humano.
— foi só pra esfregar na minha cara o lixo que eu fui, voltou tudo pra ele...- no segundo seguinte, ele estava se contorcendo no sofá com as mãos na cabeça, Mariah tentou acerta-lo outra vez com uma estatueta, mas Kakashi e Imogen a contiveram.
— monstro.... monstro! O que fez com a minha filha seu monstro?! – descontrolada, ela atingiu a perna dele com o objeto lançando-o. – Monstro! Monstro! Monstrooooo!
Sangue espirrou no estofado e jorrou entre as mãos dele enquanto choramingava atordoado.
Sakura se levantou e seguiu para a saída.
— Sakura...- Sasuke tentou segura-la mas ela se soltou mais rápido.
— conseguiu o que queria, então deixe que se matem.
Ele a segurou outra vez na porta e a virou.
— eu nunca faria isso, se tivesse sido normal se você tivesse escolhido, Sakura, eu juro que não me meteria não importando sob quais circunstancias você tivesse optado por aquela vida, eu juro, juro! Mas quando me disse que ele a tinha o tempo todo, que ele arrancou do seu lar e a pôs naquele caminho, eu tinha que saber, tinha que saber quem foi forçada a deixar pra trás... Tinha que te dar o mesmo que tive aquele dia, quando disse tudo ao Naruto e a minha mãe, quando soltei toda aquela sujeira, não sabe o quanto me senti limpo, eu queria isso pra você também, queria que pudesse recomeçar sem culpas ou rancores....
— chega...chega...!
Ele segurou seus pulsos impedindo-a de atacar a si mesma, os gritos da briga e Kakashi ameaçando com a arma aumentavam cada vez mais lá dentro.
— eu queria conhecer você e sua historia, pelo bem da nossa historia, e eu precisava que você tivesse isso, que tivesse sua voz libertada, que finalmente ouvissem você e o seu lado.
— O MEU LADO NÃO IMPORTA MAIS!
— Claro que importa! Você merece justiça, e aquele doente deveria estar na cadeia! E eu vou ter certeza que ele vai pagar por tudo que te fez, e um dia Yahiko vai vacilar e vai pagar também, seja por minhas mãos ou pelas da policia, esse Paretti, ainda tem contato com ele, talvez Kakashi possa usa-lo para passar informação até pro FBI, e você não vai precisar ter mais medo de nada.
Sakura parou de se debater e o encarou.
— só de você.
Ele deixou as mãos caírem de seus braços, derrotado, e desesperando-se mais aos poucos.
— eu sei que eu menti- respirou fundo — eu destruí sua confiança, mas espero renova-la... Eu quero renova-la...
— estou cansada do seu querer, odeio você, odeio como consegue tudo o que quer, quando não pude ter nem mesmo o que preciso.
— eu quero dar tudo o que precisa, Sakura, o que quer e...
— chega... eu quero ir embora...- ela murmurou. – só isso, ao menos uma vez.
Ele assentiu, tentando engolir o bolo em sua garganta que ansiava subir e soltar mais promessas, e suplicas. Sasuke queria tê-la levando antes, agora, lhe parecia mais seguro ficar e discutir ali, pois temia chegar e a ver ir embora, a ver se separando dele.
A ver o odiando demais pra aguentar ficar ao seu lado.
Sakura deu as costas e seguiu para fora, vizinhos espiavam e até saíram na rua alvoroçados pelos gritos de uma das vizinhas mais antigas da rua, e mais fechadas.
— o que está acontecendo? – uma mulher indagou dos degraus da escada ao lado. Sakura desceu rumo ao carro.
— reunião de família. – desdenhou, entrou no carro, sentando no banco de trás voltado para a calçada.
Sasuke entrou no veiculo, e ligou, antes que desse partida, Imogen saiu correndo da casa, os cabelos na altura do queixo alvoroçados e o desespero e o medo em cada traço de seu rosto. As mãos e a blusa estavam sujas de sangue, e ela se segurou na janela de Sakura o mais rápido que pode.
— não vá embora! Por favor, não vai de novo, quero ver você, posso ver você? Por favor... eu só tinha nove anos, Sakura, eu nunca te odiei, eu amo você, queria procurar você, eu sinto a sua falta... você sempre me entendeu, sempre, sempre esteve comigo.
Sakura se manteve observando cada traço seu com a boca crispada, quando a abriu pra falar, seu lábios tremulavam e seus olhos inundaram-se de novo, ainda sim ela sorriu com presunção, e brincou.
— eu disse que seria a mais bonita...- declarou, Imogen sorriu esperançosa, como se recordasse algo. Se afastou do carro, enxugando o rosto com os pulsos e tentando manter uma pose altiva.
— e eu a mais inteligente...
Sakura assentiu.
— eu vejo... — a moçoila engoliu mais um bocado de choro e continuou.
— estou tentando Arquitetura em Cornell University, quem sabe eu vá para Ithaca ainda no fim deste ano.- disse, tentando se manter orgulhosa, e orgulha-la.
— com eu disse, eu seria a mais bonita.
— e eu a inteligente, teria uma grande carreira e...
— que inveja...- Imogen a fitou, chocada, Sakura sorriu ate a própria confissão, dando á jovem um olhar admirado, fascinado – muita inveja, nossa.... quanta inveja...- ela se voltou para a frente, ainda sorrindo, uma forma de tentar impedir aqueles lábios de tremerem tanto. Ela pegou os óculos escuros na bolsa e os pôs.
Imogen se encolheu um pouco antes de indagar.
— você... não toca mais?
— hah, você é inocente demais pra saber o que toco...continue assim... por muito tempo, o quanto for preciso...- ela deu-lhe um ultimo olhar sob as lentes, Sasuke viu quando Mariah saiu pela porta, descabelada e suja de sangue, e deu partida — le do thoil... – Sakura proferiu, antes de acionar a janela escura, subindo-a e se voltar a para frente.
— Sea, is breá liom fós agat.- respondeu a jovem, o carro começou a andar e ela começou a segui-lo falando mais alto — Is breá liom tú! Is breá liom tú!
O veiculo ganhou velocidade até finalmente dobrar na esquina.
Sakura observou as casas por onde passou, fazendo o mesmo caminho que fizera onze anos atrás, antes de Yahiko pega-la.
Ela havia dado a Sasuke uma chance, mesmo tendo negado a si mesma, havia tentando aceitar aquela realidade, torcendo pra que não se dissolvesse.
“...Devagarinho, tentando confiar nesta nova vida...”*
E agora sua mascara havia finalmente caído.
Tudo o que ela desejava esconder, e uma dia ansiara ter, havia se revelado.
“...Eu gostaria que alguém me dissesse que vai ficar tudo bem... que algum dia, alguém talvez... Eu vou me sentir normal... que nem sempre serei sozinha...”*
O que havia... Nem ela poderia definir mais. Talvez só um objeto sendo passado de mão em mão.
Ainda sim, ainda haviam aquelas palavras, ela quis se agarrar firmemente nelas. Quis acreditar, e cada vez que as lembrava, e de quem lhe falou elas, essa esperança ficava mais forte.
Ela queria voltar a acreditar que poderia segurar a mão de Imogen.
Ela queria acreditar que este passado não fazia diferença, e que poderia seguir em frente.
Pelo menos com Imogen.
“Este é meu passado... Meu histórico... Minha historia... Não é culpa minha... Não é por minha causa.
E não deve ser o que define meu futuro”*
Pelo menos por Ryan.
“...Eu sou capaz de ser amada... Sou merecedora de cuidados... E aquele lampejo de luz... Faz toda a diferença. O lampejo de luz que me deu esperança... que algum dia... Meu verão chegará”*.
Seu verão, sua personificação dele, um dia de neve, um sol ameno, uma lareira e um cobertor quentes, um bom livro de mistério, uma face humana real em frente o espelho.
Sem mascaras.
Só Sakura Haruno.
— Sakura... por favor, não me deixe.
Ou, Sakura Uchiha.
“Eu quero reconciliar a violência no seu coração
Eu quero reconhecer que a sua beleza não é só uma máscara
Eu quero exorcizar os demônios do seu passado
Eu quero satisfazer os desejos secretos do seu coração”
le do thoil = Por favor.
Is breá liom tú! = Eu te amo!
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