Underwater | Segredos Revelados
3 Capítulo 2

O som das ondas se chocando umas contra as outras me fizeram abrir os olhos. Deparei-me com um céu cinza, tempestuoso. Sentei-me lentamente, tentando me lembrar de como fui parar ali. Olhei em volta e tudo o que havia era a areia sobre meus pés descalços, e o mar raivoso a alguns passos. Minha cabeça começou a latejar. Ouvi uma voz, e depois outra e mais outra. Logo, parecia que milhares de vozes falavam ao mesmo tempo em minha cabeça, a dor era surreal, como se cada falácia comprimisse meu cérebro. Fechei os olhos, como se aquilo fosse amenizar a dor. Até que tudo parou. As inúmeras vozes cessaram por inteiro, como um rádio que é desligado. Abri os olhos e me deparei com algo emergindo do mar. Levantei-me, as pernas bambeando pelo medo crescente. Eu não sabia o que aquilo era e algo em meu consciente não queria saber. Me virei para correr, quando ouvi uma voz, não em minha mente, mas atrás de mim.
—Η θάλασσα είναι ο προορισμός σας — disse a voz suave, enquanto minha visão embaçava até se tornar uma completa escuridão.
Acordei no escuro, com meu coração batendo contra as costelas. Levantei-me e fui ao banheiro. A luz me cegou momentaneamente, até que minha visão focou em meu rosto que estava pálido e assustado. Meu corpo encharcado de suor.
Respirei fundo, não querendo pensar naquele sonho bizarro. Tomei um banho rápido e me deitei novamente, toda a vez que meus olhos fechavam eu me via no sonho, algo surgindo do mar...aquela frase. Senti meu corpo se arrepiar. Porque aquilo estava acontecendo comigo? Em meio a perguntas sem respostas, adormeci.
***
Tecnicamente faltava meia hora para meu turno acabar. Já que havia me atrasado meia hora pois acordei atrasada. Eu gostava do meu trabalho, que era basicamente atender ao público numa loja de doces no centro da cidade. Mas aquele dia fora diferente, a cada barulho da porta parecia que eu iria entrar em colapso nervoso. A fala e o sorriso das pessoas me pareciam algo irreal, falso. Eu precisava ir embora.
— Duke – disse ao meu chefe, que estava sentado como de costume comendo um bolinho. – Preciso ir embora.
Ele limpou os cantos da boca dizendo:
— Tudo bem, mas vou ter que descontar… não queria fazer isso..., mas são as regras – ele deu meio sorriso e voltou a comer seu maldito bolinho.
— Faça o que quiser – respondi, as palavras saíram da minha boca antes que pudesse contê-las.
Duke me olhou de soslaio, um pouco surpreso. Eu nunca fui rude com ele e realmente não queria ser.
— Me desculpe...até amanhã. – peguei minha mochila e sai em disparada.
Eu não queria ir para casa e muito menos para a faculdade. Estava me sentindo estranha, como se nenhum lugar pertencesse a mim. Meu celular vibrou, era Ana.
Preparada para a prova?
Suspirei, exasperada. Eu havia me esquecido completamente da prova.
Nem um pouco...vou para a faculdade mais cedo para estudar. Até mais.
Minha cabeça começou a latejar novamente. Respirei fundo, tentando controlar minha vontade de gritar.
A faculdade estava vazia. Apenas alguns nerds e funcionários habitavam o local. Fui ao banheiro lavar o rosto, o latejar em minha cabeça persistente. Aquilo tinha que parar.
Fui até a biblioteca que estava vazia e me sentei com um livro a minha frente. Comecei a ler, mas logo parei. As palavras não faziam sentido e começaram a se embaralhar… logo se transformaram em uma frase.
Η θάλασσα είναι ο προορισμός σας
Fechei o livro com força. Meu coração voltou a bater forte. Senti novamente aquela presença perto de mim, quase podia sentir o frio emanando da tal coisa...
— Está tudo bem?
Alguém tocou meu braço, me fazendo pular.
—Hey, calma. Está tudo bem? Precisa de ajuda? – a funcionária da biblioteca estava ao meu lado. Alguns fios grisalhos pendendo de seu coque.
— Não… estou bem – peguei minha mochila, percebendo que minhas mãos tremiam.
— Tem certeza? Quando cheguei você estava falando sozinha – ela não pode conter o olhar de estranhamento sob mim.
— Estava...eu falo as vezes sozinha...treinando meu latim. – lancei um sorriso amarelo para ela.
— Latim? – ela arqueou uma sobrancelha. – Estudo latim e o que você estava falando está longe de ser latim… estava mais para grego antigo.
Não sabia o que dizer. Engoli em seco, tentando formular alguma resposta.
— São tantas línguas...acho que me confundi. Preciso ir mesmo, mas obrigada por se preocupar. – desviei do olhar inquisidor dela e comecei a andar.
Quando notei estava correndo pelo corredor do campus. Eu não queria ficar mais ali. Não queria ir para casa. Era como se nenhum lugar fosse meu.
Foi um impulso, quando me dei conta estava indo para a rodoviária. Comprei uma passagem e me afundei em um dos últimos bancos do ônibus que em 15 minutos partiria para o litoral mais próximo. Eu teria que avisar meus pais claro, talvez pedir para Ana me acobertar, mas eu estranhamente precisava daquilo.
Liguei primeiro para meus pais, falei que eu tinha esquecido de um trabalho urgente para o dia seguinte e por essa razão iria dormir na casa de Ana. Eles concordaram e me deram a ideia de ligar para Duke e pedir uma folga porque a faculdade deveria estar em primeiro lugar. Liguei depois para Ana, ela reclamou um pouco, disse que eu não deveria mentir para os meus pais e blá blá blá, mas aceitou me cobrir e disse que não ia me dedurar. Duke me disse que teria que descontar minha folga, eu disse que pegaria um turno ao sábado para compensar e pareceu gostar. Desliguei e afundei no banco, me perguntando o que eu estava fazendo.
Duas horas. Esse foi o preço por paz, apesar do silêncio em nenhum momento vozes me incomodaram, eu até consegui mergulhar em um sono sem sonhos. Acordei com uma moça me cutucando, dizendo que havíamos chegado. Agradeci e desci do ônibus meio desnorteada e estupidamente bem. Aquele era o meu lugar.
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