Underwater | Segredos Revelados
4 Capítulo 3

O mais prudente seria procurar alguma pousada em que eu pudesse deixar minhas coisas e como eu não havia levado nada, eu também precisava de um lugar que oferecesse itens de higiene pessoal. Não foi difícil achar alguma coisa na internet, eu simplesmente entrei em um site de hospedagens e procurei por algo barato, mas bom. Resolvi ir andando até lá, não era muito longe da rodoviária. O cheiro da maresia era maravilhoso, o vento soprava forte e o sol não estava lá muito forte, não era um dia ideal para estar na praia na visão de muitos, mas para mim, mais perfeito que aquele dia, impossível. No caminho, parei em um caixa eletrônico e saquei dinheiro, não queria ter que explicar para os meus pais qualquer coisa que aparecesse na minha fatura no mês seguinte.
Eu não sabia o que estava acontecendo, mas cada vez eu me sentia mais distante deles, eu havia achado algumas vezes que essa distância era por conta do grande intervalo de nossas idades, mas já era grande o bastante para saber que mesmo nesses casos ainda havia algum tipo de ligação entre pais e filhos. Eu amava eles, e os respeitava, mas não era mais o bastante.
A pousada tinha um ar pitoresco e aconchegante. A garota na recepção me olhou com deboche, talvez por eu sempre aparentar menos idade do que realmente tenho.
— Olá, posso ajudar? — Ela perguntou.
— Eu gostaria de alugar um quarto.
Não queria ter visto aquele olhar dela, uma brasa quente de raiva acendeu em mim.
— Olha, na internet a avaliação de atendimento era bem melhor do que você está demonstrando aqui. Estou vendo esse seu olharzinho debochado, ok? Vou responder suas perguntas não pronunciadas. Sim, eu sou maior de idade e eu tenho dinheiro para pagar por isso aqui. Agora, eu preciso de um quarto. Entendido?
Ela pareceu assustada pelo meu tom e quase me arrependi, mas a verdade é que senti satisfação em ver aquele olhar nela.
— Me desculpe, mesmo — a voz dela pareceu trêmula.
— Está tudo bem, Mari? — Um rapaz alto e muito bonito saiu da sala atrás dela.
Seus olhos extremamente azul acinzentado, como um mar tempestuoso, se cravou em mim.
— Sim, Alex. Eu só... fui rude com essa cliente. Ela quer alugar um quarto.
Ele olhou para ela com o que parecia ser simpatia.
— Tudo bem — ele disse. — Eu assumo daqui.
Ela entrou pela porta pela qual ele tinha saído enquanto ele assumia o balcão.
— Meu nome é Alex, gostaria de pedir desculpa pelo comportamento da Mari, ela é nova aqui.
Assenti sem dizer nada, eu quase fiquei sem palavras diante da beleza dele.
— Qual tipo de quarto você quer? Temos de todos os tipos. Está sozinha?
Concentrei em responder suas perguntas.
— Quero um quarto standart, simples. Estou sozinha. Quero uma diária apenas.
Enquanto eu falava seus dedos eram ágeis no teclado.
— Nome, por favor.
— Olívia Sebastian.
Ele sorriu e fiquei curiosa.
— O que foi? — Perguntei.
— Nome que cai bem em você — ele respondeu me olhando.
Aquilo me surpreendeu.
— Ah, é? — Sorri. — E por quê?
— Sabe o que quer dizer Sebastian? — Eu apenas neguei com a cabeça. — Quer dizer venerável, reverenciável.
Sorri, não tendo palavras. O que ele queria dizer?
Ele pareceu ficar sem graça e olhou para baixo.
— Bom, vamos lá, vou te acompanhar até o quarto.
Ele me guiou por alguns corredores até chegarmos a uma porta de madeira.
— Aqui estamos. Bom, todas as refeições estão inclusas, o jantar será servido às 20h, e o café da manhã é à partir das 7h. Se precisar de qualquer coisa, pode me chamar na sala atrás da recepção.
— Obrigada, Alex.
Ele sorriu ao perceber que eu não havia esquecido seu nome.
— Disponha, Olívia.
Quando ele estava dando as costas eu resolvi que queria conhecer aquele garoto então deveria fazer alguma coisa.
— Ei, pode me chamar de Oliv.
Ele fez uma pequena reverência sorrindo e saiu, enquanto eu tentava desvendar o que aquilo significava.
Deixei minhas coisas no quarto e saí para ver o que mais me atraia naquele lugar, o mar.
O mar estava como em meu sonho: raivoso, mas mesmo parecendo hostil eu me sentia tranquila ao observá-lo. A praia estava deserta. O início da noite começava a despontar no céu.
Lembrei-me de quando tinha meus oito anos e meus pais me levaram à praia pela primeira vez. Eu estava animadíssima. O carro mal estacionou e eu sai correndo, sentindo a areia em meus pés e o sol forte aquecendo meu corpo. Minha mãe gritou meu nome, correndo atrás de mim. Eu nunca fui de desobedecê-la, mas estranhamente não parei ao seu chamado. Apenas queria sentir a água.
— Oliv! — Minha mãe me alcançou, segurando meu pequeno braço. Seu rosto era uma mistura de preocupação e irritação. — Nunca mais faça isso. Entendeu? — Ela se agachou para me olhar, sabia que quando fazia aquilo era porque eu havia feito algo errado.
— Eu só queria ver o mar de perto — expliquei, não querendo a olhar nos olhos. Havia algo trancando minha garganta, como um nó invisível. Na época eu não sabia distinguir, mas aquilo era raiva.
— Não pode sair correndo assim, entendeu? — Ela procurava meu olhar, as mãos envoltas dos meus braços ficaram mais apertadas e o nó em minha garganta também. — Olhe para mim, Olivia — ordenou.
O nó em minha garganta se soltou e eu gritei. Como nunca havia gritado em minha pouca vida. Minha mãe me soltou, assustada. Todos da praia olharam, mas logo voltaram a suas vidas.
Meu pai chegou com o guarda-sol e o restante das coisas de praia logo depois. Para ele havia sido apenas uma birra. Para minha mãe e para mim não. Eu pedi desculpas, mas no fundo de meu pequeno coração infantil algo havia mudado e até ali eu ainda não sabia o que havia sido.
Um senhor passou vendendo tangas, comprei uma e a estendi na areia, deitando sobre ela e fechando os olhos.
Ouvi uma voz, era apenas um sussurro. Vinha do mar. Abri os olhos me sentando e olhei para frente, as ondas raivosas agora se acalmavam. A voz continuava, parecia doce e frágil. Dei um passo à frente, me desprendendo de todo medo aparente, de toda hesitação que queria me tomar.
Ελάτε στο σπίτι
Agora conseguia identificar a frase. Com certeza era em grego.
Σας χρειαζόμαστε, παιδί μου, disse mais uma vez. A voz estava mais forte, parecia estar... perto.
Cerrei os punhos automaticamente. Minha respiração estava ficando mais pesada. Parecia que alguma força invisível me puxava... era a sensação mais estranha que já senti. Minhas pernas ficaram fracas e eu me vi caindo de joelhos na areia molhada.
— Quem...quem é você? — perguntei tentando focalizar em algo, mas minha visão estava ficando cada vez mais embaçada.
Não recebi resposta. Mas sentia a mesma presença fria do meu sonho...era como o mar, que ia e voltava em ondas calmas.
Peguei a tanga e voltei para a pousada atordoada. Eu achei que ali ia ser minha paz e só tinha resultado em aprofundar mais a loucura, ou que quer que estivesse acontecendo comigo.
Corri pela areia e depois pela rua até chegar à pousada sem me preocupar com os olhares curiosos. Entrei na pousada sem olhar para a recepção, corri até o quarto e me tranquei lá. sentei no chão com as costas apoiadas na porta. Olhei para minha calça jeans suja de areia molhada no joelho. Tirei a calça jeans, minha blusa e entrei no banheiro, me permiti um banho demorado e me cobri com o roupão que a pousada disponibilizava.
Quando saí do quarto, tomei um susto. Alex estava sentado na cama me esperando.
— Oi — ele disse.
Não respondi, só olhei para minhas roupas jogadas no chão e a porta que eu havia trancado.
Ele pareceu entender meu olhar.
— Olha, precisamos conversar.
Cobri-me um pouco mais.
— Sobre o que? — Minha voz estava baixa, eu estava resolvendo se aquela era uma situação de perigo ou não.
— Sobre o que está acontecendo com você.
Eu ri debochada.
— O que você sabe sobre isso?
Ele não riu comigo.
— Eu sei das vozes, eu sei sobre as palavras gregas, eu sei o que elas querem dizer.
Eu não sabia o que pensar.
— Como?
— Eu sou como você, Olívia — ele se levantou e se aproximou de mim.
— O que nós somos? — Perguntei sussurrando.
— Vamos ter essa conversa mais tarde, mas eu preciso que você saiba que não deve pronunciar seu nome ainda.
— Eu já pronunciei, Alex. Você sabe meu nome.
— Não, Oliv. Não esse. Aquele que dizem na sua cabeça — ele afastou o cabelo molhado do meu rosto, para tocar minha têmpora.
Não senti vontade de afastar a mão dele, mas não reagi.
— Oliv, eu vou te mostrar uma coisa. Posso?
Assenti.
— Feche os olhos — ele pediu e eu acatei.
Senti sua testa encostando na minha e então foi como imergir na água. Uma força grande imensurável me tomou, eu era dela e ela era minha, ela estava em mim e se movia em mim. As vozes em minha cabeça, era apenas uma voz, a voz da verdade, a voz de quem eu realmente era. Eu vi tudo. Eu vi lembranças que não eram minhas. Um casal estava ali naquela noite escura, olhavam fascinados para um bebê envolto em uma manta rosa, eles falavam baixo, eu não conseguia ouvir muito bem. A mãe da criança chorava angustiada, seu marido a consolava e percebi que ela segurava o bebê como se ele fosse ser tomado dela. Soltei um arquejo ao ver como a mãe daquele bebê era parecida comigo, alguns dos seus traços eram angulosos, mas o cabelo era do mesmo tom alaranjado e quando ela olhou para o marido com desespero, entre suas lágrimas vi o mesmo tom verde de meus olhos ali. O marido a abraçou e junto dela o bebê, ele beijou a pequena testa e desapareceu do meu campo de visão. Eu me aproximei, eu estava como um espectro ali, ela não podia me ver, nem me escutar, o que era bom, porque seria incrivelmente estranho se ela pudesse. O homem voltou e percebi que estávamos no início do dia, o sol começava a aparecer no horizonte, estávamos perto da praia e a mulher parecia estar molhada. Atrás do homem estava outro casal.
"Venha, esse casal vai cuidar dela" — o homem chamou e a mulher andou até ele com o bebê no colo.
O casal atrás do homem eram mais velhos, pareciam ter uns 40 anos e com choque eu os reconheci. Eram meu pais. A mulher chorava muito quando entregou o bebê nas mãos da mulher mais velha e naquele momento eu entendi. Aquele bebê era eu. Então percebi que o homem, parceiro na mulher ruiva, cantava uma canção em grego antigo. Meu pai se aproximou de minha mãe e olhou o pequeno embrulho rosa que agora chorava, os três estavam sofrendo efeito da canção. Depois que o homem parou de cantar, ele pegou na mão da mulher, o céu arroxeado com nuances laranjas me deixaram olhar melhor o casal enquanto eles corriam para o mar e entravam nele, vi os dois olharem rapidamente para trás enquanto o sol nascia e então eles desapareceram em meio às águas do mar.
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