Undertale - True Reset
42 Seguindo Viagem
Notas iniciais
[Frisk]
Estava ficando tarde quando Sans apareceu na porta do quarto.
— Já está pronta? Vamos logo antes que o povo de Snowdin acorde, já que queremos evitar alguém falando o que não deve para Undyne.
— Entendo, estou pronta.
Sans olhou para a minha mochila com um olhar curioso.
— Você vai levar somente essa mochila? Suas coisas não cabem aí.
— Eu não pretendo levar tudo. Estou levando somente o necessário, o restante... — Uma tristeza subiu pela minha garganta. — Pode se livrar do restante, não vou precisar.
Sans veio até o meu lado e colocou a mão sobre o meu ombro, eu iria sentir saudades dele, apesar dele dizer que iria me acompanhar boa parte do caminho.
— Não seja boba! Lógico que eu não vou me livrar das suas coisas, esse quarto sempre será seu, e suas coisas vão ficar aqui. Somos como uma família.
— Família...
Isso me lembrava o modo como ele me via... Minha coragem de dizer o que eu sentia antes de partir se esvaia a cada vez mais. Eu era da família... Eu era a irmãzinha... Ele nunca me enxergaria como ele me enxergou na outra linha do tempo, pois parece que ele se lembrava, mas parecia querer afastar tudo relacionado as linhas passadas. No fundo acredito que ele nunca me perdoou completamente pelo o que deixei Chara fazer. Ele nessa linha seguiu um novo rumo, ele deve estar flertando com aquela que vi ele conversando na minha festa de despedida.
— Sans... espero mesmo que você seja feliz, mesmo se eu não conseguir.
— Shhhhhhhhh... Não fale nada, vamos deixar as coisas seguirem o seu rumo.
Eu não me controlei e o abracei, de início senti sua surpresa com o meu ato, e depois de um tempo, ele foi relaxando e correspondeu ao abraço. Eu quase chorei de felicidade com aquele gesto. Eu poderia jogar tudo para o alto e ficar por ali mesmo, mas eu seria negligente com a situação dos monstros. Eu queria que eles se libertassem e farei o que for preciso, portanto espero que eu consiga, e que mesmo que eu não esteja viva, Sans possa encontrar a felicidade. Espero que ele se lembre de mim quando ele ver as estrelas.
Nos separamos e seguimos para a sala, onde o Papyrus nos encontrou na porta, ele estava com sua roupa e uma cesta, aparentemente cheia de alimentos.
— VAMOS? EU PREPAREI ÓTIMAS REFEIÇÕES O GRILLBY VEIO ATÉ AQUI E TROUXE UNS SANDUÍCHES TAMBÉM.
Eu sorri, eu realmente amava todos ali, fui tão bem recebida, agora chegava a minha hora de partir, e eu esperava poder retribuir a todos, dando-lhes a liberdade.
Chegando na saída de Snowdin, vimos uma figura parada na neblina vindo em nossa direção. Eu comecei a tremer imediatamente e Sans segurou a minha mão. Depois de um tempo percebi que era um monstro do tipo gato, e reconheci logo em seguida, era a tal garota que estava conversando com Sans na festa. Ela parecia estar esperando-o.
— Sans! Que bom que te encontrei! — Seu olhar caiu sobre a minha mão que Sans segurava, podia jurar que vi um brilho de raiva passando por seus olhos, que rapidamente se recompuseram. — Não te encontrei na sua cabine de vigia hoje, pensei em jantarmos no Grillby’s.
Eu percebi que Sans estava desconcertado e eu retirei a minha mão da dele, mesmo lutando contra o sentimento de vazio que senti. Senti minha coragem se esvaindo completamente. Eu senti ciúmes, mas mais do que isso, senti uma enorme tristeza, um sentimento de perda. Espantei todos esses sentimentos, pois tentei me convencer que sempre teria o carinho daqueles dois irmãos.
— Rachel... Eu tô um pouco atrasado hoje...
— Desculpe, mas será que eu poderia falar um pouco contigo? Em particular? — Ela disse olhando diretamente para mim, de uma maneira desafiadora.
Sans me olhou, com um olhar de pedido de desculpas, e eu só assenti com a cabeça, vendo e os dois se afastarem para conversar.
Papyrus e eu seguimos um pouco adiante, afim de dar privacidade para a conversa dos dois. Saímos totalmente da neblina e entramos no começo de Waterfall, eu me sentei na borda do rio, deixando minha mão sentir a água que passava por entre os meus dedos.
Papyrus sentou ao meu lado, ele tinha uma expressão triste.
— Você não deveria se preocupar, ele não leva ela a sério. Na verdade, como eu tinha te avisado, ele não leva ninguém a sério, por isso te alertei, pois não queria ver uma amiga tão preciosa com esse olhar de sofrimento.
— Não estou sofrendo, pois não há pelo o que sofrer. Sans deixou muito claro como ele me enxerga.
— Você gosta muito dele né?
— Gosto, mas isso não importa, ele me vê como uma irmãzinha, como uma criança.
Papyrus me abraçou, e eu me senti confortada. Realmente não importava, pois eu sabia que minhas chances de sair viva eram quase nulas, e no final das contas era até bom que ele seguisse um outro rumo com outra parceira, pois eu sofreria muito em ver aquela cena se repetir.
Depois de uns minutos, Sans voltou sozinho. Ele me olhou e eu vi seu rosto ficar triste, eu estava sendo egoísta em aceitar que ele me acompanhasse.
— Nem me olhe com essa cara pirralha! Eu prometi te acompanhar, e é isso que farei. Você vai chegar no castelo do Rei em segurança.
— Okay... muito obrigada pela companhia.
Pouco mais a frente avistamos Undyne, que segundo Papyrus já deveria ter se recolhido, pois seu turno de patrulha já deveria ter terminado.
— Estranho ela estar por aqui... Bem, vou distraí-la e vocês se escondam.
— Tudo bem. — Sans e eu dissemos ao mesmo tempo.
Sans usou seus poderes para que chegássemos na moita onde nos escondemos, de lá podíamos ouvir o eco da conversa entre Papyrus e Undyne.
— Papyrus? O que faz aqui?
— UNDYNE! QUE BOM QUE TE ENCONTREI, ESTAVA INDO ATÉ A SUA CASA.
— Indo para a minha casa? Por quê?
— PARA TE PASSAR O MEU RELATÓRIO DIÁRIO.
— Verdade, eu estava quase me esquecendo. Desde que o humano estava fora do radar, seus relatórios diários não estavam tão diários.
— ME PERDOE! É QUE COM POUCAS COISAS PARA REPORTAR, PREFERI NÃO INCOMODÁ-LA COM COISAS SUPERFICIAIS.
Apesar de não gostar de mentiras, Papyrus era um grande mentiroso, se fosse para proteger alguém importante, ele poderia ser bem convincente.
— MEU RELATÓRIO É SOBRE O HUMANO, ELE ESTÁ NAS RENDONDEZAS DE SNOWDIN.
— Você o encontrou?
— SIM, O ENCONTREI.
— Você lutou com ele?
— SE EU LUTEI COM ELE? SIM, CLARO QUE LUTEI. LUTEI BRAVAMENTE.
— Você o capturou?
— INFELIZMENTE NÃO.
Undyne grunhiu, eu podia sentir sua raiva e frustração.
— EU TENTEI MESMO, MAS NO FINAL, FALHEI.
— Eu vou dar um jeito nisso eu mesma.
— O QUÊ?
— Eu vou pegar a alma do humano eu mesma.
— MAS UNDYNE, VOCÊ NÃO TEM QUE DESTRUIR ELE, VEJA BEM...
— Papyrus! Esse humano é a chave para o Rei nos libertar.
— VEJA BEM...
— Papyrus! De que lado você está?
— Eu... entendo... Eu ajudarei como puder. Vamos lá para casa, assim posso contar com mais detalhes as informações que levantei.
— Vá na frente, logo te alcanço.
Undyne de repente olhou em nossa direção, eu podia jurar que ela estava nos vendo, eu fiquei paralisada em meu tremor. Sans percebendo meu estado, passou a segurar a minha mão, tentando de alguma forma me passar alguma segurança, ela se aproximou, materializou uma lança e ficou olhando em nossa direção, eu sabia que aquele seria o meu fim, mas por algum motivo, ela simplesmente desfez a lança e foi na direção que Papyrus foi, como se tivesse contatado que o que ela viu era apenas um engano.
Sans estava segurando na minha mão, percebendo que eu estava chorando, ele sabia como eu estava assustada.
— Isso nunca vai acabar né? Não há esperança para mim...
Sans me abraçou, tentando dissipar meu medo.
— Se você quiser... Podemos voltar para Snowdin. Lá todos te conhecem, você teria uma vida pacífica lá. Você teria uma casa e uma família.
— Sans... Eu sempre vou amar vocês todos pelo o que fizeram por mim, mas eu tenho que continuar a minha jornada, eu quero... Se eu voltasse para Snowdin, eu estaria me acovardando. Eu estaria aceitando o fato de que eu teria que viver escondida...
— Frisk... As vezes está tudo bem sentir medo... As vezes está tudo bem querer se preservar... Nem tudo na vida é sacrifício...
Sans me olhava nos olhos, eu quis contar tudo o que sentia... Eu quis dizer que queria ver sua felicidade com a liberdade... Que mesmo que ele ficasse feliz com a minha estadia, que essa felicidade seria sobrepujada pela tristeza do confinamento, que eu vivo infinitamente menos do que os monstros, e que um dia minha vida acabaria e eles não seriam libertos. Eu quis dizer tudo isso, mas me calei.
— Vamos pirralha, agora a barra já está limpa.
Seguimos andando, mais para frente, Sans soltou a minha mão, e eu pude notar que suas bochechas estavam levemente azuladas.
Pouco mais a frente encontramos agua corrente e uma ponte de flores que não me parecia seguro, Sans parou diante da ponte de flores e me estendeu a mão. Ao ver a minha hesitação, ele perguntou:
— O que foi? Está com medo?
— É que... Isso não me parece seguro.
— Confie em mim, eu te colocaria em perigo?
— Eu sei que nunca me deixaria em perigo, não por vontade própria.
“A menos que ele quisesse se vingar”
Dei um pulo quando escutei a voz em minha mente.
“Relaxa Frisk, estou aqui somente para observar.”
Sans me olhou de forma desconfiada, como se ele soubesse que eu tinha ouvido a voz de Chara.
Eu para disfarçar, peguei a sua mão e atravessamos juntos a ponte de flores. Realmente era bem seguro e aparentemente a ponte era sustentada com magia. Logo a frente encontramos um monstro do tipo cavalo marinho, o Aaron. Ele estava admirando seus músculos quando ele notou nossa aproximação, e se virou exibindo seus músculos para mim. Sans parecia não estar gostando da situação, enquanto o Aaron exibia seus músculos para mim. Eu fiz uma pose, mostrando meus supostos músculos, ele sorriu e foi embora.
Sans foi me guiando por um caminho que eu não conhecia, até que chegamos em um lugar bem pequeno. Tinha somente um banco, e dava para ver as pedras reluzentes que ficavam no teto de Waterfall.
— Eu sempre quis te mostrar esse lugar.
— Por que?
— Nenhum motivo em especial, é que gosto de vir aqui quando quero ficar sozinho.
Sans foi se aproximando, meu coração acelerava a cada centímetro que ele chegava mais perto, se eu não soubesse que ele não tinha esse tipo de interesse em mim, poderia jurar que ele queria me beijar, apenas esse pensamento deixava minhas bochechas queimando.
— Er... Melhor a gente ir em frente, não queremos que nenhuma dificuldade nos alcance. — Eu interrompi seu avanço.
— Sim, claro. Você tem razão.
Seguimos andando em silêncio até que o telefone de Sans tocou. Ele olhou para a tela e em seguida me olhou.
— É o Papyrus.
— Acho melhor atender, pode ser importante.
Sans atendeu o telefone, eu não podia escutar o que Papyrus dizia, mas com certeza parecia importante, pois Sans parecia preocupado.
— Entendo, diga para ela que ela deixou Snowdin sozinha. — Mais um momento de silêncio. — Hum... entendo, diga que foi o que você viu, diga que ela estava usando um vestido e laço no cabelo. — Mais silêncio. — Eu sei que você não quer mentir, mas isso é importante, pelo menos até acertarmos essa situação. — Ele fez uma pausa para que Papyrus falasse. — Se ela falar que você está mentindo, é só justificar que foi como você a viu, que ela podia muito bem ter trocado de roupa, para dificultar sua identificação. — Sans deixou Papyrus falar mais um pouco. — Hum, diga a ela que estarei na cabine de vigia da entrada de Waterfall.
Depois de Papyrus dizer mais alguma coisa, Sans desligou.
— Então, o que foi?
— Undyne quer saber mais sobre você, estamos tentando despistar, mas sei que vai ser difícil. Ela é inteligente e implacável, mas vamos dar um jeito. Eu preciso me apresentar nas cabines de vigia, então você vai me esperar bem aqui, entendeu?
— Entendi.
Sans me deu um sorriso e no momento seguinte já não estava no meu campo de visão. Eu passei a tentar me distrair enquanto esperava. Depois de algumas horas eu me cansei, me senti como se estivesse perdendo tempo, então eu segui em frente. Encontrei uma Flor Eco, onde deixei uma mensagem:
— Sans, decidi seguir caminho. Me encontre mais à frente.
Sabendo que ele acharia essa mensagem eu segui, logo eu achei um Woshua que se aproximou ao ver que eu estava toda suada e suja. Pedi para que ele me limpasse e ele o fez todo feliz. Foi o que precisava para conseguir sua ajuda.
Cheguei ao que parecia ser uma grande ponte, que atravessava grandes cachoeiras, era um lugar muito aberto, eu me senti um tanto exposta, então tentei apertar o passo, pois sabia que quanto menos tempo exposta, mais segura eu estaria. Mas para a minha surpresa, eu fui perseguida por Undyne. Ela me perseguiu usando suas lanças, por sorte eu melhorei na arte da esquiva, levando poucas lanças de raspão, mas nenhuma me acertou, consegui escapar até o final da ponte, onde me joguei na água, tornando difícil a minha localização.
Depois que o perigo passou, eu consegui sair da água, e segui em frente.
Logo a frente eu avistei Sans, ele parecia preocupado, sua preocupação se suavizou quando ele me viu.
— Frisk, por que não me esperou? Por que está toda molhada dessa maneira?
— Eu pensei que seria melhor, seguir até encontrar um lugar propício para acampar, mas fui perseguida pela Undyne na ponte da grande cachoeira, eu tive que me jogar na água para despistá-la.
— Você precisa trocar de roupa, ou vai acabar doente.
Eu joguei a minha mochila igualmente encharcada diante dele.
— Vejo que teremos que acampar aqui. Eu te emprestarei a minha jaqueta, enquanto colocamos suas roupas para secar.
— Eu vou ter que tirá-las?
— A intenção é essa... Não vamos deixar que elas sequem no seu corpo para que você fique doente.
Eu fiquei extremamente encabulada, então comecei a tirar a roupa.
— Poderia se virar por favor?
— Claro!
Sans se virou, e eu tirei toda a minha roupa, e coloquei sua jaqueta, por ele ser mais alto do que eu, apesar de não ser tanto, sua jaqueta cobria até quase os meus joelhos.
Estendemos as roupas, inclusive as da mochila, e nos ajeitamos para descansar. Estava muito difícil para eu dormir, principalmente com ele ali do meu lado. Lembrei de todas as vezes que acordei e ele estava próximo, isso me fazia desconfortável de certa forma. Sans percebendo minha agonia disse:
— Se quiser posso deitar mais perto, assim poderá se sentir mais calma e segura.
“Como se isso fosse ajudar...” Pensei, mas mesmo assim aceitei.
Ficamos conversando, e tivemos até um momento, momento esse em que mostrei para Sans que não éramos tão diferentes como ele pensava, só sei que sentir o seu toque foi o suficiente para me fazer ter muitos pensamentos, pensamentos que foram inundando minha mente, lembranças da outra timeline, da que fomos namorados, pensamentos sobre meus sentimentos, pensamentos sobre tudo isso, sobre minha jornada. Ainda não conseguia dormir, depois de um tempo, acho que me debati demais, eu o senti me abraçar, e aos poucos eu senti sua magia, a mesma aura azul, me envolvendo, me acalmando, aos poucos fui caindo no sono.
Não me recordo de nenhum sonho que tive. Só senti o vazio, por ter acordado sozinha.
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