Underneath it All

1 Prólogo: Sweet Emotion


Notas iniciais
Espero que gostem do prólogo, ficou um pouquinho grande, mas tudo bem (eu acho -q). :3

Todos sempre estavam exaustos depois dos jogos.

Não havia muito com o que se preocupar, afinal, estes eram só amistosos, mas o time de Karasuno sempre dava o melhor de si, independente da ocasião. Isso lhes garantia várias vitórias, mas também muito cansaço, que às vezes até sobrepunha a vontade de comemorar. Não era à toa que todos estavam esparramados pelos cantos do ônibus, cochilando. O caminho seria longo, então era melhor dormir por ali mesmo. Tanaka roncava sonoramente num dos bancos da frente, e mesmo isso não impedia os outros rapazes de entrarem num tipo de transe. Exceto por Tobio, que se sentia extremamente mal humorado. Sempre tivera sono leve. Era impossível dormir com aquele barulho.

Encarava a visão que a janela lhe proporcionava. Não era exatamente bonito de se ver, mas ao menos servia para passar o tempo. O caminho seria longo, uma vez que a escola em que foram jogar era bem longe da Karasuno, então, teria de aguentar um bom tempo. Já passava das dez, e ele era o único – além do motorista – que ainda se mantinha acordado. Decidiu tentar dormir de novo, ajeitando-se de lado, e se frustrou mais uma vez.

Hinata, por outro lado, dormia que nem uma pedra, sentado ao lado do levantador. Chegava a ser engraçada a discrepância entre os dois, mesmo nas pequenas coisas. O ruivo conseguia dormir em qualquer lugar quando estava cansado. Mantinha a boca semiaberta, e a cabeça pendendo para os lados. Tobio virou o rosto para encará-lo e rapidamente sentiu Shouyou pesar sobre si. Suspirou aborrecido, com indignação. O menor havia encostado a cabeça em seu ombro e isso sequer o fizera acordar por alguns segundos para se dar ao trabalho de tirá-la dali. Depois de alguns minutos esforçando-se para desvencilhar-se do outro, o moreno terminou por desistir disso também, rendendo-se. Não conseguia entender porque o gesto o deixara tão desconfortável e tenso.

Havia algum tempo que já se sentia esquisito quando ficava próximo do ruivo, mas era muito bom em esconder isso para focar-se na vitória do time. Infelizmente, aquele fora o último amistoso do semestre, e Tobio recusava-se a pensar no que faria depois. Havia decidido, há algum tempo, ignorar as próprias sensações. Por mais que houvesse algum tipo de sentimento ali – sentimento esse que o levantador não conseguia sequer imaginar o que poderia ser –, seria melhor guardá-lo. Não podia suportar ter seu rendimento reduzido por causa desse tipo de peculiaridade, e, para que isso desse certo, o melhor seria deixar as coisas como estavam.

Mas os amistosos haviam acabado e não tinha mais com o que ocupar a própria cabeça, o que fazia com que o assunto voltasse a ser trazido à tona por si próprio. Irritava-se com isso, mas não havia mais nada para pensar. Os treinos não eram o bastante para manter sua mente distraída da “questão” que tanto queria evitar. E, para piorar tudo, ali estava Hinata, ao seu lado, apoiando-se em si, no mais profundo sono.

Tentou ignorar os pensamentos esquisitos e fortemente influenciados pelos hormônios que insistiam em vir à tona por causa da oportunidade que parecia surgir bem diante de seus olhos. Não. Jamais. Não conseguiria fazer nada mesmo se estivesse realmente mal intencionado. Mas era difícil encarar o ruivo tão perto sem sentir ao menos um frio no estômago. Tobio sabia que aquela era a mais pura idiotice. O problema era que não conseguia controlar bem essas reações involuntárias.

Sempre tivera muito controle de tudo. De sua equipe, de suas habilidades e até mesmo de seus companheiros. Dava conta de tudo com a maior facilidade. Entretanto, parecia impossível controlar-se diante de Shouyou naqueles últimos meses. Por vezes, quando estavam sozinhos, sem treinar, apenas passando o tempo juntos, não sabia o que dizer a ele. Era como se sua voz sumisse da própria garganta. As mãos suavam, e ainda que o ruivo nunca notasse – porque, bem, ele era lerdo demais para isso –, Kageyama sabia muito bem que aquilo não era normal, e que nunca havia acontecido até então.

Mas o que deveria fazer? Se nunca nem mesmo havia sentido tais coisas antes, como deveria reagir? Sabia muito sobre vôlei... Boas técnicas em geral. Mas, quando o ramo era outro, embolava-se todo. Não entendia o sentido de ficar todo estranho na presença de Hinata, e preferia não pensar sobre isso. Era um capricorniano teimoso, e tudo o que estava além do alcance de sua compreensão não valia a pena ser estudado.

– Isso é tudo culpa sua... – Murmurou, inexpressivo, dando um peteleco leve no nariz de Shouyou, que nem dava sinal de acordar, assim como todos os outros dali. – Idiota...

Inclinou-se mais um pouco, passando o dedo indicador no rosto do ruivo, como se estivesse fazendo seu contorno. Tinha traços finos. Não eram delicados, até porque esse era o último adjetivo que poderia ser usado para descrever Hinata, mas combinavam com sua personalidade. Eram dinâmicos, e lhe davam a impressão de ser alguém extremamente ágil – coisa que era, na verdade. Era a primeira vez que Tobio o via com uma expressão tão quieta, que o via fechar suas pálpebras e se render ao cansaço.

Era diferente. Talvez houvesse outra palavra para descrever o modo como aquilo lhe agradava, mas, por hora, ele apenas estava achando “diferente”. Qualquer um que via o pequeno pulando praticamente o tempo todo para rebater a bola com certeza acharia aquela cena inusitada, portanto, o levantador não se preocupou em pensar naquilo. Aliás, era um dos poucos momentos em que se permitira relaxar e apenas encarar o rosto do ruivo, continuando a fazer os contornos.

O menor esboçou um leve sorriso, o que deixou Kageyama um tanto acuado. Imediatamente afastou-se, mas, percebendo que Hinata não havia acordado, logo voltou ao que fazia – com mais cautela dessa vez. Hinata era do tipo que sorria de orelha a orelha o tempo todo, sempre animado e extremo; era quase como o fogo, se alastrava rápido, chamava atenção por onde passava e, na maioria das vezes, devastava tudo. Mas, naquele momento, a chama dos cabelos e do espírito do rapaz pareciam ter se aquietado, permitindo-se serem afagados por uma das mãos de Tobio por uns instantes.

O levantador sempre fora o oposto do pequenino. Se comparado a ele, era quase como uma brisa noturna após um sol escaldante. Não tinha a mínima aptidão para relacionar-se com pessoas, e terminava por deixar as tendências egoístas falarem mais alto na maioria das vezes. Reclamava de tudo, e nunca se dava satisfeito por nada. Era egocêntrico e muito seguro de si. Levara algum tempo para acostumar-se a trabalhar em equipe. Mas, estranhamente, quando estava com o ruivo... As coisas pareciam funcionar com naturalidade. Conseguia desprender-se de sua personalidade para unir-se a ele. E complementá-lo em suas jogadas.

Ah, se a vida fosse tão fácil quanto o vôlei, teria muito menos problemas. Quando não estavam em quadra, a espontaneidade e desprendimento de Hinata o deixavam confuso. Muitas vezes não conseguia enxergar as coisas do modo que o ruivo enxergava. Era um tanto desgastante ter esse tipo de relação, mas... Bem... Não sabia dizer que tipo de relacionamento os dois tinham. Talvez não houvesse nenhum. Não sabia se realmente considerava o ruivo um amigo, ou se talvez fosse só conveniência, por estarem no mesmo time. Mas não importava. Dificilmente passaria disso.

Encarou o menor novamente, permitindo-se chegar um pouco mais perto do rosto dele. Haviam algumas marquinhas, talvez pequenas sardas, praticamente invisíveis, a não ser que estivesse realmente próximo, como estavam naquele momento. O garoto não tinha nenhum aroma especial... Fora o de suor. Não era ruim, como ocorria com a maioria dos garotos na puberdade, mas também estava longe de ser bom. No entanto, era forte. Sequer notou quando se aproximou ainda mais, num estado de puro inebrio, como se estivesse fora de si.

Seus lábios encostaram vagarosamente nos do ruivo, num beijo vagaroso e desajeitado, que viria a ser o primeiro do levantador. Um selinho leve, que o permitira sentir Hinata ainda mais de perto. Não havia malícia ali. Apenas uma demonstração discreta e quase inconsciente de afeto, explicitando tudo aquilo que Tobio sentia, mas que não entendia, e nem conseguia falar sobre. Um simples beijo que expressara muito mais do que o rapaz conseguira em todos aqueles meses. Um beijo rápido, que durou menos que cinco segundos, mas que o fizera corar, quando finalmente dera por si, e quando percebera o que estava fazendo.

Afastou-se rapidamente, ajeitando-se no lugar e certificando-se que Shouyou ainda estava adormecido. Permitiu-se aliviar apenas quando teve certeza, mas permaneceu inquieto, sentindo o coração palpitar bem rápido, e sem entender absolutamente nada do que acabara de fazer. Como? E por quê?

Pressionou as mãos contra os apoios do banco. Tremia um pouco. Acabara de beijar o ruivo e sua cabeça estava totalmente vazia, ao invés do turbilhão de pensamentos que costumavam passar por ali – a maioria envolvendo vôlei, inclusive. Não sabia o que lhe dera para iniciar aquele beijo. Simplesmente havia apagado durante o gesto. Não havia nem mesmo aproveitado o momento, só havia agido por instinto – e sabe-se lá que instinto louco era aquele. Nunca sequer havia cogitado beijar alguém, as garotas definitivamente não lhe interessavam. Mas Hinata também não! Só poderia estar ficando louco...

“É o estresse pós-jogo. Só pode ser.” Pensou, mordendo o lábio, um tanto nervoso. E se alguém tivesse visto? Olhou para os lados. Ninguém nem mesmo havia se movido durante todo aquele trajeto. Fechou os olhos por alguns instantes. Não conseguia nem processar o que estava se passando, era como se tivesse um bloqueio para o que havia acabado de fazer. Só tinha noção de que o havia beijado, mas parecia que a última coisa que seu cérebro queria fazer era entender o motivo.

“Pessoas se beijam quando se gostam. Mas eu... Gostar desse idiota?” Encarou o ruivo novamente, deveria ser a quinquagésima vez que repetia aquela frase para si mesmo. “Mas por que outro motivo eu sairia beijando pessoas estranhas do nada? Talvez eu tenha problemas. Talvez o karma esteja voltando por todos esses anos que eu não soube trabalhar em equipe. Talvez...” O ônibus parou bruscamente, e Kageyama quase deu um pulo. Seu coração só não acelerou mais porque não era possível. O berro “CHEGAAAMOS!” fez com que todos acordassem, e o levantador fez o máximo para parecer natural.

Estava tão paranoico que parecia que todos os olhares lhe condenavam. Os rapazes mal haviam aberto os olhos e ainda se mantinham naquele estado catatônico sonolento demais para se levantarem, mas isso não o impedia de achar que todos sabiam sobre o que acabara de acontecer, mesmo que ninguém estivesse prestando atenção. Hinata nem notara que estava apoiado no moreno. Espreguiçara-se vagarosamente, quase como um gatinho que acabara de acordar. Tobio não sabia por que estava associando o rapaz a um gato, mas achou melhor levantar-se o mais rápido possível, seu corpo e sua mente estavam realmente traiçoeiros naquele dia.

Os outros iam retirando a si e a suas mochilas do ônibus, sem muito ânimo. Ainda teriam de ir até suas casas, e já estava tarde, mas ninguém parecia de mau humor. Havia sido uma bela vitória, a daquele dia. Não havia motivos para aborrecimentos.

Quando todos desceram, a despedida foi rápida, e logo cada um foi dirigindo-se para seus respectivos lares, combinando de se encontrarem no dia seguinte para mais um treino e agradecendo pelo trabalho de todos no jogo do dia. O levantador foi o último a se virar para ir embora, mas, quando estava prestes a partir, subitamente, foi cutucado por alguém, na altura de sua cintura. Sentiu um frio na espinha. Era isso. O seu fim. Mordeu o lábio inferior, apreensivo.

– Hm, Kageyama... – Era Hinata. O menor segurou o casaco de Tobio, fazendo os pelos da nuca do rapaz se eriçarem. A voz do garoto ainda estava levemente embriagada, parecendo um pouco sonolento. – Acho que tive... Um sonho estranho... – Ele comentou como se não fosse nada demais.

– Uh... É? – Perguntou, tentando permanecer o mais natural possível. Virou-se para o rapaz, ajeitando a mochila nos ombros. – Você estava roncando, imaginei que estivesse no mais profundo sono. – Comentou, debochando.

Hinata arregalou os olhos, indignado.

– Eu não ronco! – Exclamou, despertando num segundo.

– Ronca sim... E baba... Céus, como você baba! – Retrucou, sem cessar a zombaria. O garoto parecia lançar faíscas pelo olhar ao ouvir aquelas palavras.

– O quê?! – O ruivo limpou os cantos da boca imediatamente algumas vezes. Não... Ele não babava, mas o levantador tinha de arranjar algo para falar. Era melhor desvirtuar o assunto.

Começaram a caminhar juntos sem sequer perceber, sem cessar as implicâncias um com o outro. Seria o caminho mais longo até a casa de Tobio, mas decidiu acompanhar Shouyou sem pensar duas vezes. Continuaram a conversa, ainda que o maior se sentisse desconfortável de vez em quando, bastava fazer alguns comentários maldosos para irritar o outro que logo tudo se ajeitava. Não entendia por que queria ficar aquele tempo a mais com o pequeno, mas preferia não pensar nisso. Preferia não pensar no beijo e nem nas coisas que se sucederiam dali. Ao chegarem à casa de Hinata, em frente à porta, finalmente tomou coragem para perguntar:

– Você tinha falado de um sonho estranho... – Hesitou. – O que era?

– Nah! Sonhei que você tinha me beijado... – Riu despretensiosamente. Era incrível como o ruivo conseguia falar aquilo sem soar esquisito, porque Kageyama quase teve um ataque do coração naquele momento. – Mas não foi nada. Sonhos não significam nada, afinal...

– É... – Assentiu Kageyama. – Não significam nada...

“Mas e a realidade, o que significa?”

Notas finais
Mereço review? ~