Underneath it All
2 It's hard to get around the wind
Notas iniciais
Duas semanas haviam se passado desde o incidente.
Não houvera proximidade alguma entre Tobio e Hinata fora das quadras, mas o pensamento do que havia ocorrido no ônibus não saía da cabeça do moreno, que constantemente se perguntava se deveria falar com alguém sobre o assunto. Obviamente o orgulho do levantador não permitiria algo assim, mas não fazia mal algum ponderar. Uma pena que seus companheiros de equipe parecessem igualmente inexperientes quando se tratava desses “sentimentos estranhos”, caso o contrário, talvez alguém percebesse o que estava ocorrendo ali e tentasse ajudá-lo.
Mas Kageyama também não facilitava. Nunca deixava transparecer boa parte do que se passava em sua cabeça; seus olhares para o ruivo eram os mais discretos e despretensiosos possíveis e seu comportamento desajeitado apenas fazia com que tudo parecesse ainda mais usual. Ora, era um garoto socialmente inapto, portanto, lidar com pessoas nunca fora seu forte. Tinha de ser realmente muito sensitivo para se dar conta dos sentimentos do levantador. Se nem ele próprio sabia o que se passava em sua cabeça, que dirá os outros, não?
Seguia a pé para a escola, tomando seu suco e tentando ao máximo inibir seu mau humor matinal. Sempre prometia a si mesmo que tentaria ser uma pessoa melhor a cada dia, mas era impossível cumprir esse trato durante as manhãs.
Nunca entenderia aquelas pessoas sorridentes que saíam por aí desejando um bom dia para todo mundo – às vezes até mesmo para objetos inanimados. Pessoas que adoravam observar a grama verdinha e sentir o cheiro do orvalho, que caminhavam alegremente por aí, e tudo o mais. Era patético. Tinha de ser mentalmente afetado, no mínimo, para sair fazendo esse tipo de coisa por aí. E, além do mais, de onde diabos eles tiravam aquela disposição toda? O único pensamento que tinha às 7 da manhã era como conseguiria controlar seus impulsos para não esganar ninguém até o final do dia.
– Oi, Kageyama!
“Tch. Falando em mentalmente afetado...” Conhecia bem aquela voz. Era Shouyou, que aparecera do nada, quando Tobio estava prestes a adentrar o portão da escola, e que estava sorrindo de orelha a orelha enquanto os cabelos ruivos totalmente desalinhados caíam sobre seu rosto, resultados de uma provável corrida para chegar até ali. Ele arfava um pouco, mas não aparentava nada além de disposição.
– Veio a pé hoje? – Foi a única coisa que conseguiu dizer, numa espécie de grunhido descontente, enquanto esboçava sua típica expressão de poucos amigos. Apertava a caixinha de suco vazia com tanta força que parecia que queria explodi-la.
– Hm... Mais ou menos. – Hinata se recuperava rápido. Já parecia quase pronto para outra longa corrida, ainda que estivesse um pouco corado de cansaço. Coçou a cabeça de modo desajeitado e sorriu sem graça. – Eu estava realmente empolgado pedalando... – O baixinho gesticulava de modo exagerado, representando a cena. – E aí BOOOM!!
– “Boom” o quê, idiota? – Kageyama franziu o cenho com impaciência.
– A corrente soltou, prendeu no pedal e os dois saíram tipo VROOM... Foi uma bagunça! – Shouyou arregalava os olhos contando a história, chegava a ser irritante para o levantador fazer aquele estardalhaço todo por algo banal. – Até tentei arrumar, mas não consegui.
Tobio manteve-se pensativo por alguns instantes. Não que fosse um exímio mecânico, mas consertar uma bicicleta não parecia uma tarefa lá muito complicada ou complexa. “Droga. Não importa. É claro que ele não vai conseguir arrumar sozinho... É um tapado.” Além disso, sabia que a casa do ruivo era relativamente longe da escola, e não queria que... Bem... Que ele ficasse esgotado para os treinos. Mesmo Hinata poderia ficar esgotado de tanto caminhar, e o moreno não queria isso, certo? Claro que sim. E, usando essas desculpas esfarrapadas como pretexto, disse:
– Eu posso te ajudar.
– MESMO?! – Os olhos do pequeno se iluminaram e seu sorriso se alargou ainda mais. – Obrigado, Kageyama, você é incrível! – O agradecimento enfático do ruivo chamou a atenção de praticamente todos em volta, e o levantador ficou vermelho como um pimentão. Era muito constrangimento para um dia que havia acabado de começar.
– Estúpido... F-Fale baixo. – Ralhou, indignado em como Hinata conseguia contentar-se com coisas tão insignificantes. Lances de bola, ter amigos, estar num time... Qualquer outro consideraria isso totalmente irrelevante, mas não ele. O pequeno ficava totalmente feliz só por ter essas coisinhas acontecendo em sua vida. – Nos encontramos na hora da saída e você me leva até onde sua bicicleta está.
– Uhum. – O menor retrucou, saindo em disparada e deixando Kageyama sozinho, plantado no meio do corredor.
O moreno suspirou longamente, seguia para a sala pensando no que havia acabado de fazer. Andava tendo esses impulsos ultimamente, mas se esforçava ao máximo para escondê-los. Por fora, ainda parecia o mesmo levantador mal-humorado e resmungão de sempre, mas andava se tornando mais sensível – ao menos quando se tratava de Hinata.
Se importava com ele à sua maneira. Não gostava de vê-lo inseguro e muitas vezes se responsabilizava por fazê-lo acertar suas jogadas. Também era Tobio quem o repreendia e fazia discursos agressivos-mas-bem-intencionados sobre a importância de Shouyou como uma isca. Agia como o pilar que permitia que Hinata alcançasse o topo. E ainda que nunca fosse passar disso, seria o melhor pilar que o pequeno haveria de encontrar em sua vida.
A aula honestamente passou rápido. Kageyama já havia superado o estágio de ficar ansiosos por qualquer besteira desde que começara a sentir aquelas “mudanças”. Seria um conserto de bicicleta que provavelmente não duraria muito mais do que vinte minutos. Ficava mais tempo com o ruivo durante os treinos, mas, como não treinariam naquele dia, ao menos teriam aquele tempo para ficarem juntos, mesmo que não fossem trocar nenhuma palavra relevante – como ocorria na maioria das vezes, tanto que o maior nem se importava mais.
Hinata já o esperava no portão e não falou nada quando o maior apareceu, apenas seguiu em frente. A caminhada seria longa. Se o levantador bem lembrava, quando deixara o ruivo em casa naquela noite, há duas semanas, andaram um bocado, mas estava de noite e o garoto suspeitava que Shouyou não sabia muito bem se guiar com pouca iluminação, então, talvez não fosse tão longe assim. Não sabia o que falar durante o trajeto. O sol raiava vívido e amarelado nas cabeças dos dois rapazes, que pareciam não se importar. Continuavam a caminhar pelas sombras das árvores.
Era primavera, o que lhes dava uma visão privilegiada das flores desabrochando, mas é claro que eles não percebiam. Afinal, eram garotos no auge da puberdade; tudo acontecia rápido demais e definitivamente não havia muito tempo para se admirar florzinhas... Ou qualquer peculiaridade que estivesse no meio de seus caminhos. Não havia apelo em parar para observar o dia bonito que fazia, para se deitar na grama ou olhar as nuvens. Talvez algum dia houvesse. Mas não ali. Não naquela hora.
– Vamos ter que subir até a sua casa? – Kageyama perguntou, despretensioso. Honestamente não queria ter que ir lá. Quanto mais contato pudesse evitar com outras pessoas, melhor seria para ele.
– Não. Deixei a bicicleta aqui perto. Estou tentando me lembrar do lugar.
– O quê?! – O moreno engasgou. – Já pensou que alguém pode ter levado sua bicicleta?
– Ah, ninguém faria isso. – Hinata sorriu. – Seria muita maldade.
“Céus. Ele não tem noção mesmo.”
E o pior é que a bicicleta realmente estava lá jogada perto de um arbusto. Era de um vermelho vibrante, que fez Tobio pensar no quanto a cor lembrava os cabelos do ruivo. Chegava a ser engraçado. De qualquer forma, o moreno se ajoelhou na grama e começou a examinar o que se passava ali. Shouyou deveria ter pedalado de maneira realmente descuidada (ou desesperada) para conseguir soltar a corrente e enrolá-la no pedal. Por sorte, não era nada muito difícil de ajeitar e logo Kageyama iniciou o processo.
Hinata sentou-se do seu lado, observando o moreno arregaçar as mangas e concentrar-se em dar um jeito em seu estrago. Ele sempre fazia esse tipo de coisa, fosse no vôlei, fosse em qualquer outra ocasião, parecia que o levantador sempre aparecia para consertar as coisas do ruivo. Como a água cristalina que consegue conter o fogo que se alastra. Esse era o levantador na vida do pequeno, que se pegava encarando o compenetrado colega cerrando os olhos ao tentar encaixar a corrente da bicicleta corretamente.
Ele sempre tinha aquela expressão. Ameaçador, com o cenho franzido. Olhos semicerrados, sobrancelhas unidas, e lábios que não expressavam um sorriso sequer – o máximo que já havia visto eram alguns meios-sorrisos de satisfação ou sorrisos assustadores, que ocorriam quando Kageyama forçava. Nunca o havia ouvido rir em todo o tempo que convivera com o levantador. Tobio sempre levava tudo muito a sério e era sempre literal no que falava e fazia (não que Hinata fosse perceber caso ele não fosse). Nunca havia nada implícito em seus gestos. Talvez por isso as pessoas achassem que realmente fosse fácil entendê-lo.
Mas eles só o viam como o Rei Egoísta. Ninguém sabia que, no fundo, ele era uma pessoa tão normal quanto qualquer outra. Apesar do talento natural que chegava a irritar, do perfeccionismo exagerado e da falta de habilidade para comunicação... Tobio tinha sua própria maneira de agir e um comportamento nada excêntrico. Funcionava bem com seus colegas de equipe, sobretudo com Hinata, que conseguia fazer com que o moreno se sobressaísse ainda mais. Era um mistério como acontecia, mas só o ruivo conseguia fazer isso.
Quem quer que se surpreendesse com Kageyama quando ele agia sozinho, certamente não tinha ideia do quanto ele podia ser melhor com quando estava com Shouyou.
– Terminei. – Disse por fim o rapaz, limpando o suor da testa. Havia consertado tudo e até feito alguns ajustes no outro pedal, que estava muito mal encaixado, provavelmente por descuido do menor. Havia terminado mais tarde do que esperava, cuidando para deixar a bicicleta no melhor estado possível. Virou o rosto para encarar Hinata, e lançou um olhar severo. – Você desgasta muito seus pedais, nanico. Melhor tomar cuidado para não se estatelar na próxima.
– E-Eu tomo cuidado! – Shouyou contestou, afetado. – Hoje mesmo, quando perdi o controle da bicicleta, consegui saltar realmente muito alto para não me machucar.
Tobio balançou a cabeça negativamente.
– Não sei como você sobrevive. – Deu de ombros. O pequeno sabia se virar sozinho, apesar de tudo. Tobio ainda não chegara ao ponto de querer repreendê-lo como se tivesse alguma autoridade para isso (só tinha quando se tratava do vôlei). – Hm... – Hesitou por alguns instantes. – Estou com fome. Vamos comprar algo na loja de conveniência.
– Tem uma perto daqui. – Hinata concordou.
Ainda não haviam almoçado, mas nenhum dos dois parecia com tanta fome assim, logo, a loja de conveniência serviria muito bem. Kageyama comprou um suco de caixinha e um salgado esquisito que fazia seu gosto, enquanto Shouyou se contentou em comprar alguns doces. Tobio nunca havia reparado nisso... Mas o ruivo realmente gostava de doces. Era bom, até porque ele precisava mesmo de muita energia para gastar. Terminaram por se sentar num lugar mais afastado, embaixo da sombra de uma árvore. Era um ponto mais alto dali, então, tinham uma bela visão local.
A prefeitura de Miyagi não era um lugar muito moderno. Era o típico lugarzinho tranquilo para se viver, onde não muitas coisas aconteciam, e as pessoas costumavam ser gentis e receptivas. Tinha um jeito de lugar pequeno... Conseguia manter bem sua essência, mesmo com o passar dos anos e a modernização chegando com cada vez mais força. Estava excepcionalmente bonita naquela primavera, com as flores desabrochando, a grama verdinha e a brisa suave. Era um clima agradável para relaxar, e finalmente podiam fazer isso, já que não havia nenhum jogo ou amistoso marcado para tão cedo. Parte de Kageyama sentiria falta da pressão de ter de ser melhor do que nunca, mas, como um todo, alegrava-se por poder finalmente treinar de maneira mais despretensiosa. Apesar de ser tão exigente consigo e com os outros, não podia negar que vôlei também era algo que praticava por diversão.
Hinata, por outro lado, não pensava muito nisso. Era realmente difícil dizer o que se passava na cabeça do garoto. Muitos diriam que nada, mas não era exatamente desse jeito. Dizem que, quando se fala muito, fica mais difícil pensar, e era de fato estranho que o menor estivesse tão calado. Pensava no curto tempo que havia se passado. Estava sendo muito diferente do que ele acreditava que seria, e, estranhamente, estava sendo bom. Fizera bons amigos naquele período... Virara amigo até mesmo de seu rival, que agora era seu levantador. E finalmente estava num time de verdade. Não entendia como a vida podia dar reviravoltas tão facilmente. Talvez ela gostasse de adrenalina, da mesma forma que ele, por isso estava sempre dando essas guinadas inacreditáveis.
– Kageyama. – Iniciou o assunto, cortando o longo silêncio que quase sempre se formava quando estavam os dois sozinhos. – A Karasuno é um lugar bem legal, não é?
– Uh. – O moreno virou-se para encarar o menor. – É sim. É bem legal.
– E nosso time é realmente muito bom. – Sorriu.
– Não exagere. Temos algumas falhas... Principalmente na defesa, eu diria. Mas sinto que ainda sim estamos caminhando na direção certa.
O ruivo o encarou. O Tobio egoísta do Ensino Fundamental certamente havia aprendido algo. Passara a usar o “nós” ao invés do “eu”, e finalmente conseguia fazer a análise do todo, ao invés de querer que as pessoas simplesmente alcançassem seus padrões. Não sabia dizer o motivo, mas apreciava aquela mudança. Diria até que estava contente de ter o moreno em sua vida.
– Você mudou bastante. – Comentou despretensiosamente, o que fez com que Kageyama fizesse uma expressão confusa. – Eu nunca acreditaria que você ia virar meu levantador, ainda mais depois daquela partida...
– Você também não está mais tão ruim. – Retrucou num tom de zombaria de quem, apesar de tudo, não queria ofender o menor. – Só por isso estou levantando pra você. – Tomou um gole do suco, observando o ruivo degustar o doce que havia comprado e tentando não se lembrar que havia o beijado há algumas semanas.
– Eu realmente gosto das nossas jogadas. Quando você joga para mim, é a melhor sensação do mundo! E sempre funciona, porque você é incrível! – Gesticulou de modo adorável, que fez Kageyama corar e querer enfiar sua cabeça no buraco mais próximo.
Poderia parecer um comentário despretensioso (e realmente era), mas surtia um efeito estranho no garoto ser elogiado por Hinata. Era a segunda vez no dia. Não estava muito preparado, ainda mais estando sozinho com ele. Sequer podia dizer para ele ficar quieto porque os outros estavam olhando. Não havia ninguém ali.
– ... Obrigado. – Agradeceu da melhor maneira possível. Isto é: unindo as sobrancelhas e desviando o olhar. Raramente demonstrava para Shouyou que gostava de ser seu levantador, logo, o pequeno ficou bastante feliz com a reação. Sabia que Tobio era uma pessoa incrível também.
Estavam próximos, e o ruivo estendeu a mão para ajeitar as madeixas escuras do moreno, que bagunçaram devido à brisa. Ele não estava acostumado com toque, portanto, o instinto natural quase fê-lo se afastar. Era novamente aquela posição em que podia contar todas as marquinhas do rosto de Hinata, que, por sua vez, conseguia ver o azul escuro dos olhos de Kageyama. Era um azul um tanto melancólico, que contrastava drasticamente com o dia claro que fazia, mas que era a característica mais marcante do levantador. Tinha um olhar amedrontador quase sempre, era estranho vê-lo sem estreitar os olhos. Mesmo as sobrancelhas, que estavam sempre unidas, relaxaram com o toque. As mãos do ruivo pareciam bem gastas enquanto passeavam pelos cabelos do rapaz, resultado de vários treinos puxados, que provavelmente lhe dariam alguns calos também. Mas era um toque caloroso, apesar de não haver nenhuma pretensão por trás do mesmo.
Não iriam se beijar de novo. Shouyou fazia aquilo naturalmente, e Tobio recebia o gesto como se fosse algo comum, na medida do possível. Não podia negar que estava tenso, lembrando-se da vez que roubara um beijo do menor enquanto este adormecia. Não queria ter aquele impulso de novo. Mas não precisou se preocupar. O gesto apenas o fez relaxar um pouco, e talvez tenha até mesmo quebrado um pouco da tensão quase glacial que se formava entre os dois de vez em quando.
– É muito azul, se você olhar bem de perto. – Hinata comentou, se aproximando um pouco mais.
– Do que está falando? – O levantador retrucou, sem entender.
– Seus olhos. Digo, eu sabia que eles eram azuis, mas eu nunca tinha visto esse tom antes. – Estava um tanto maravilhado, e não conseguia esconder. As bochechas do moreno esquentaram um pouco. Era raro que alguém prestasse atenção naquele tipo de detalhe... Quanto mais alguém tão distraído quanto aquele nanico. – É tão escuro que chega a ser assustador. Combina com você, Kageyama. – Riu.
– Eu não sou assustador. – Ele contestou, unindo as sobrancelhas de novo e finalmente se afastando.
– Não é mesmo. – Shouyou suspirou, desviando a atenção para o cenário. – Você parece bastante assustador a primeira vista. E eu tenho muito medo quando você se irrita durante os treinos, mas você aprendeu a ser um cara legal, por incrível que pareça.
– Hah. – Tobio se sentiu um tanto alfinetado por aquela observação, mas não se importou. Era o jeito que os dois interagiam. – Não posso dizer o mesmo de você, que fica mais irritante a cada dia que passa.
– Pff... – O ruivo rolou os olhos, voltando a dar atenção para seus doces.
Não demorou muito para que Kageyama fosse embora. Já havia passado tempo demais ali com ele, e precisava ir para casa. Não se sentia cansado, mas precisava de um descanso. Se despediram. Dessa vez o levantador não foi deixar o ruivo em casa. O trajeto era realmente mais curto durante a luz do dia, ou talvez ele só estivesse muito pensativo para notar o tempo passar. Quando viu, já estava na frente da Foothill Store, onde se encontravam, além do treinador Ukai, Daichi e Suga-san conversando animadamente. Era estranho como aqueles dois estavam sempre juntos.
Achou que por bem devia cumprimentá-los, e a conversa se estendeu por mais alguns instantes, mas eles já estavam de saída. Sugawara seguiria o mesmo caminho de Tobio, e os dois prosseguiram com a conversa. O outro levantador era certamente um dos mais sensíveis do time. Agia como uma mãe algumas vezes, fazendo com que o maior se sentisse estranhamente confortável na presença dele. Não era difícil conversar com Koushi, e ele era muito compreensivo com a inaptidão social de Kageyama. Muitas vezes ria dos comportamentos exagerados do rapaz, mas era sempre com ele que Tobio conversava quando sentia que precisava falar algo (raramente acontecia, no entanto).
O sol já ia se pondo no horizonte, numa tarde que passara mais rápido que o moreno gostaria. Lembrou-se de Hinata por alguns instantes, entrando numa espécie de transe.
– Kageyama? Está tudo bem? – Suga-san perguntou, após ver que Tobio ignorara completamente a conversa que estavam tendo há pouco.
– Ah... Sim. Está tudo ok. – Respondeu, piscando os olhos repetidas vezes. “Mas o que acabou de acontecer comigo?” Mordeu o lábio inferior. Se havia alguém com quem podia comentar sobre o assunto que tanto lhe encucava, esse alguém era Sugawara. Não que conseguisse ser direto quanto ao que queria expressar ali, mas, bem... Talvez fosse bom pedir conselhos, ainda que indiretamente. – Sugawara...
– O quê?
– Quando você realmente começa a pensar em uma pessoa... – Hesitou, percebendo a reação do outro levantador, que arqueou as sobrancelhas, certamente duvidando do que ouvia ali. – Pensar muito, muito mesmo nela. E você- você faz coisas esquisitas quando está perto dela. E não sabe o motivo. Quando você se sente claramente desconfortável de ficar só com a pessoa, mas ao mesmo tempo quer que isso aconteça... Por que isso acontece?
Suga-san achou um tanto adorável que Tobio estivesse lhe perguntando aquelas coisas, mas demorou para digerir a pergunta. Era algo tão óbvio, sequer precisava de resposta. Ele podia até ser brilhante quando se tratava de algumas coisas, mas conseguia ser totalmente o oposto em outras.
– Ora, Kageyama. É bem simples. Você está apaixonado.
– O QUÊ? – Engasgou.
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