Underneath it All
7 Daydreaming and weird conclusions
Notas iniciais
Conversar com Yachi era sempre algo que Hinata gostava de fazer. A loira podia até ser um tanto esquisita, mas, honestamente, quem não era em Karasuno? Ela havia se tornado uma ótima amiga naqueles últimos tempos, sobretudo quando o ajudava a estudar e terminavam por passar parte do tempo reservado ao “aprendizado” jogando conversa fora.
Estavam sozinhos na sala de estudos, em vista que já passava das cinco da tarde e poucas pessoas permaneciam no colégio até àquela hora. Lá fora, o sol já ia embora, enquanto lá dentro o ruivo mascava a borracha que se encontrava na ponta da lapiseira enquanto tentava resolver um exercício de Matemática que era, no mínimo, impossível. Não entendia por que tinha de encontrar o “x” naquele gráfico. Aliás, qual era a necessidade de um gráfico que já não tinha todas as informações transcritas nele? Odiava abcissas, odiava x, y, z e qualquer outra letra que estivesse enfiada numa equação. Incógnitas. Pff. Como se já não houvesse muitas em sua vida. Elas sim eram muito mais importantes que aqueles números.
– Que merda. – Ele murmurou para si, unindo as sobrancelhas num gesto bastante kageyamístico. Hitoka parecia estar resolvendo seus exercícios com certa facilidade e num passo bem rápido, mas parou ao ouvir o resmungo do rapaz e levou seu olhar até ele. – Sério mesmo, Yachi. Quando é que eu vou precisar usar esse negócio na minha vida?
– Quando quiser ser aceito em uma universidade, provavelmente... – A loira retrucou, rindo. Realmente, podia até ser que números não fossem tão importantes, mas tinham de aprendê-los para passarem de ano e se tornarem profissionais decentes no futuro. – Vamos lá, falta bem pouco. Essa é a penúltima questão. Você estava indo muito bem...
– Eu não vou precisar disso quando eu for o Pequeno Gigante. Aliás, aposto que o Pequeno Gigante não dava a mínima para isso também. Calculadoras existem justamente para não precisarmos nos preocupar com baboseiras como números! – Shouyou fez uma cara emburrada. Já havia desistido de tentar resolver aquela questão. Chegou a conclusão de que se continuasse a insistir, seu cérebro ia tostar e ele com certeza morreria. – Bwaah. Vamos falar de outra coisa que não seja Matemática e universidade. É tão chato. – Ainda faltavam dois anos, mas o primeiro ano do Ensino Médio costumava ser quando os alunos já começavam a se preocupar com tais questões. Hinata nunca gostou delas. Falar do futuro era algo desnecessário, ao seu ponto de vista. O que tivesse que acontecer aconteceria, não é? Independente do obstáculo que se colocasse no caminho.
– E sobre o que você quer falar? – Yachi perguntou.
– Não sei.
A verdade é que a cabeça do ruivo andava mais nas nuvens do que o de costume. É claro que toda aquela distração tinha nome e sobrenome: Tobio Kageyama. Não conseguia deixar de pensar no moreno boa parte do dia – isso quando não estava pensando em vôlei, obviamente –, mas esse tipo de pensamento o frustrava. Ou o excitava. Dependia da situação. O segundo caso não vinha muito à tona naquele momento. De qualquer forma, estava realmente confuso quanto ao que sentia, e, por mais que não quisesse magoar o moreno expondo suas dúvidas, não conseguia evitar ficar pensando sobre o que estava acontecendo entre os dois. Shouyou não sabia se sentia confortável com o relacionamento excessivamente físico que estavam tendo.
Eles se beijavam em qualquer canto, os toques se intensificavam a cada dia, e, o ruivo tinha de admitir, isso era maravilhoso. Mas, depois, Tobio voltava a ser o mesmo de sempre. Não fazia questão de conversar. Eram raros os momentos que ele se mostrava afetuoso. E ainda que vivenciassem ótimos momentos – como o dia em que o moreno conhecera Natsu e se transformara num ser estranhamente gentil e afável –, na maior parte do tempo era quase como se Hinata fosse só um passatempo divertido que ele podia pegar e largar quando bem entendesse. E o ruivo não duvidava que fosse exatamente assim que Kageyama pensava. Aquele idiota. Quando aprenderia a parar de ser egoísta? Deu um longo suspiro cansado. Esse sim era um problema digno de solução. E era justamente o que a Matemática não explicava.
– ‘Tá tudo bem? – Yachi aproximou-se vagamente do pequeno, ele estava sem falar nada há um tempo razoável. – Tem algo te incomodando?
– Hm... – O ruivo negou com a cabeça. – Não. Eu acho. Talvez.
– Kageyama te fez algo? – Ela perguntou, fazendo Hinata quase dar um salto da cadeira.
Céus. Era tão óbvio que era por causa do levantador que ele estava todo avoado e esquisito? Odiava Tobio por isso. Queria bater na cara dele. Uma pena que não alcançasse, e que, caso por algum milagre conseguisse, só serviria para ser espancado depois. A reação exagerada do ruivo fez Yachi ficar vermelha como um tomate, se arrependendo amargamente de ter feito aquela pergunta. Não conseguia lidar com toda aquela efusividade que o rapaz exalava.
– P-Por que você acha isso?! – Shouyou retrucou, gaguejando.
– Não sei! – A loira se sentia pressionada com Hinata agindo daquele jeito. – Desculpe! N-Não quis insinuar nada! Mas é que sempre que você fica esquisito é quando acontece algo entre você e o Kageyama nos treinos. E você sempre reclamava do quanto ele era rude e... E... Desculpe! – Ela escondeu o rosto, entrando em desespero.
– Não... Não precisa se desculpar... – O ruivo terminou por corar também. Então ela estava falando sobre os treinos... De vez em quando, se esquecia do fato que ninguém sabia que os dois estavam juntos além deles mesmos. Yachi se recompôs alguns minutos depois. Ela sempre foi uma boa ouvinte, ao ver do pequeno. Talvez devesse se abrir com ela. "Me abrir... Que ideia é essa?" Pensou consigo mesmo, se prometendo que jamais usaria um termo como esses de novo, pelo bem de sua heterossexualidade. Ainda sim, cogitava falar sobre o problema com a garota, até porque ela parecia disposta a ouvi-lo, e Shouyou não conseguia se ver falando sobre isso em outra ocasião. – Eu só estou muito confuso no momento. E eu nem sei explicar... É tipo... Ele me faz sentir bem gwaaah sabe? Mas aí é tudo meeeh depois.
– Ele quem? – A moça parecia concentrada em tentar entender o que ‘gwah’ e ‘meh’ significavam. Presumiu pelo contexto que elas deveriam ter significados opostos. – Kageyama-kun?
– Er... Sim. – Hinata escondeu o rosto com as mãos, num gesto que esboçava toda a frustração que sentia. Era tudo culpa daquele Rei Babacão. – Prometa que não vai contar pra ninguém, mas eu e ele estamos... É tipo aquelas coisas de casal, sabe? Mas nós não somos um casal. – Justificou-se, antes que Hitoka chegasse à uma conclusão precipitada e fosse tarde demais.
– O- O quê? – Yachi exclamou, um pouco mais alto do que deveria. Agradeceu pelos dois estarem sozinhos, caso o contrário, certamente as pessoas estariam reclamando do escândalo que estavam fazendo ali. – Como assim? Vocês estão juntos?
– Mais ou menos. – O pequeno coçou a cabeça, tentando pensar num modo de explicar. Estavam juntos. Era verdade. Mas nunca havia dito aquilo em voz alta e tinha um pouco de receio de fazê-lo. Era mais difícil do que pensava admitir que saía por aí se agarrando às escondidas com o moreno.
– E-Então naquele dia que eu tinha ido guardar os equipamentos... Vocês dois... – Ela cobriu a boca, espantada. Já havia flagrado os dois em momentos suspeitos várias vezes, mas sempre achava que era coisa de sua cabeça. Ficava feliz por não estar enlouquecendo de vez. – Estavam se beijando, não estavam? – Ela questionou, num tom quase inaudível.
– A gente achou que não tinha mais ninguém lá! – O ruivo tentou se explicar. – Sinto muito por aquilo!
– Não. Está tudo bem... Eu acho... Desde quando vocês estão juntos?
– Um pouco mais de um mês. – O ruivo mordeu o lábio inferior, claramente constrangido. – Mas é só um palpite. Eu não estou contando...
– E ele ainda não te pediu em namoro? – Ao ouvir aquela pergunta, Hinata perguntou a si mesmo se estava agindo como uma garotinha histérica desabafando sobre as complicações de seu relacionamento com sua melhor amiga. “Muito hétero da minha parte. Realmente.”
– Não. – Admitiu, meio sem jeito. – Mas eu ainda não disse se também gostava dele.
– Não? – Yachi uniu as sobrancelhas, confusa. Admitir gostar da pessoa costumava ser o primeiro passo para começar um relacionamento. Normalmente. Mas, se tinha uma coisa que sabia bem, era que aqueles dois nunca poderiam ser considerados normais. – Como foi que aconteceu, então?
– Bem... Ele disse que gostava de mim. Mas disse que eu não precisava corresponder. – Parando para pensar, aquela havia sido uma declaração bem esquisita da parte do levantador. – Aí eu disse que a gente poderia se beijar mais vezes e ver o que acontecia.
– E depois...?
– A gente se beijou várias vezes. – Concluiu. – Continuamos nos beijando até hoje.
– E nunca mais falaram sobre isso? – Yachi cerrou os olhos. Como era possível?
– Não.
– Ele nunca mais te perguntou? Você nunca disse nada?
– Não.
– Hinata! – A loira exclamou em protesto. Não dava pra acreditar naqueles dois. Ela mesma nunca havia tido um relacionamento, mas tinha um acervo muito bom de livros e filmes de romance que estudava religiosamente sextas-feiras à noite. De qualquer forma, não precisava ser um expert no amor para saber que não era daquele jeito que a coisa funcionava. — Você gosta dele, pelo menos?
– Hm... – O moreno apoiou os cotovelos na larga mesa de estudos. – Eu diria que gosto. Mas eu não sei de que jeito. E também não tem como saber, porque ele nunca fala comigo sobre isso.
– É o gwah e o meh que você tinha citado antes? – Agora fazia mais sentido. Ainda bem.
– Isso. – Assentiu brevemente com a cabeça. Yachi não podia deixar de notar o quanto o ruivo realmente parecia consternado com aquele assunto. Já tinha um palpite sobre o modo como ele gostava do moreno, mas guardaria para si, pois sabia que isso era algo que ele tinha que descobrir por si mesmo. Ou, ao menos, era o que as mocinhas de filme de romance costumavam fazer. Ainda que Shouyou definitivamente não se encaixasse no perfil de mocinha, não deveria ser tão complicado para ele também. – Eu não acho que eu seja gay. Em toda a minha vida, eu nunca me senti atraído por nenhum cara. O Kageyama definitivamente não é o meu tipo... Digo... Ele não é fofo sob nenhum aspecto, e eu sempre gostei de garotas bonitinhas. Mas é bem divertido quando nós jogamos vôlei juntos, talvez por isso eu tenha dado uma chance... – Hinata suspirou. Seria tudo bem mais fácil se Tobio fosse uma menina fofinha ao invés de um marmanjo de 1,80 de altura com um olhar ameaçador. – Mas ele não parece se importar muito em conversar comigo, ainda que ele me agarre quando qualquer oportunidade surge. Parece que ele só pensa nisso, e eu termino por ficar em segundo plano. Sinceramente, eu não sei... Não sei se eu quero ficar com alguém assim...
– Você tem toda razão em se sentir desse jeito. – A loira concordou. – O Kageyama-kun definitivamente está fazendo parecer que não quer nada com você além de... Você sabe. – Ela corava só de falar. Não estava acostumada com as coisas impróprias que os dois andavam fazendo por aí. – M-Mas eu duvido que ele seja assim! Ele é tão inexperiente quanto você, então é normal que ele cometa alguns erros...
– Vários erros. – Shouyou corrigiu.
– Ok, ok. Vários erros. Mas eu imagino que esses erros pesem mais para você pelo fato dele ser um cara. E... E-eu não quero parecer intrometida, mas... Essa falta de diálogo entre vocês só vai piorar tudo. Então eu diria que você precisa... Confrontar diretamente o Kageyama. Porque talvez assim você consiga entender o que sente com mais clareza. Vocês precisam chegar num consenso sobre... Você sabe... O que está acontecendo.
– Talvez. Mas é difícil confrontá-lo. Não vamos esquecer que ele é assustador.
Era verdade. Yachi se arrepiava só de lembrar o sorriso satânico que o levantador lhe lançava quando estava tentando ser simpático. Se uma pessoa ficava daquele jeito quando estava tentando parecer legal... Imagine como deveria ficar quando estava realmente irritada?
– M-Mas você precisa tentar, Hinata! – A loira insistiu, voltando a si. Tinha de ser otimista. Talvez Tobio escondesse seu lado doce, ou algo assim, e só o mostrasse para Shouyou. – E não seja tão duro com ele! Parece difícil, mas é como Matemática... Uma vez que você entenda, vai saber o que fazer. Eu te garanto. – Concluiu, dando uma piscadela encorajadora. Nem a própria Yachi sabia que conseguia dizer coisas tão profundas. Ficou realmente orgulhosa de si mesma.
O ruivo odiava admitir, mas ela estava certa. O problema era achar uma ocasião em que pudesse chegar para ele e tentar ter uma conversa. O treino estava fora de cogitação, porque os outros poderiam ver e porque, bem, eles estariam muito ocupados treinando. Teria de ser no meio de uma... Sessão de amassos (o ruivo não conseguia arranjar um termo melhor para o que faziam). Só precisava conseguir se desvencilhar de Tobio por alguns instantes – o que, na verdade, poderia ser uma tarefa complicada, uma vez que o moreno conseguia fazer sua mente ficar em branco com aqueles beijos que lhe dava –, mas era o jeito.
–x-
– Esse filme parece muito ruim. – Kageyama resmungou, unindo as sobrancelhas enquanto encarava o cartaz. – The Mockingjay parte um? – Ele arqueou o cenho, relendo o título num tom um tanto sarcástico (com um inglês horrível, por sinal). – Você sabe que eu não assisti a nenhum filme dessa saga, não é?
– Eu também não. – O ruivo retrucou, sorrindo e apertando a mão do moreno, que estava entrelaçada com a sua. – Não tem problema. E, além do mais, é o único que está passando à essa hora.
Haviam combinado de ir ao cinema naquele sábado. Hinata já havia comprado os ingressos, pois era ele quem havia sugerido a programação. Não era de seu feitio sugerir ficar parado encarando uma tela fixa, mas havia todo um significado por trás daquilo. Bolara um plano com Yachi no dia em que conversaram e planejava colocá-lo em prática após a sessão. Passara a noite em claro pensando nos prováveis diálogos que aconteceriam naquela tarde, e na conversa que teriam. Como resultado daquilo, estava morto de cansaço e um tanto indisposto. Mas esperava que ficasse tudo bem.
Foram para a fila comprar pipoca. Não havia muitas pessoas ali naquele horário. Talvez porque a sessão fosse uma das primeiras e ninguém frequentasse o cinema às duas horas da tarde, mas o ruivo não se importava. Seria melhor assim, porque teriam mais privacidade e tempo. Estava nervoso como nunca estivera antes na vida – e olhe que ficava realmente tenso antes dos jogos, mas não era nada parecido com aquilo. O dia estava um pouco mais frio do que o normal. Estava vestindo um suéter alaranjado meio esquisito por causa da insistência de sua mãe (ela dizia que ele iria se resfriar caso não se agasalhasse, como todas as mães costumam fazer). Suas bochechas e nariz estavam com um tom levemente rosado, o que Tobio pensou que era bastante adorável. Encarava discretamente o ruivo, como se ele fosse a coisa mais preciosa do mundo. Jamais admitiria isso para si, mas era o que se passava em sua cabeça naquele momento.
– O que vão querer? – Perguntou a atendente, com um sorriso típico de quem queria estar em qualquer outro lugar que não fosse ali. Kageyama podia entender. Deveria ser realmente ruim trabalhar finais de semana.
– Hm. – Tobio encarou o menor, vendo que ele parecia bem distraído encarando os próprios sapatos. – ... Então, você quis enfrentar a fila só pra passar o tempo ou vai pedir alguma coisa?
– Hã... Sim, claro. – Ele acordou de seus devaneios, dando uma rápida olhada no cardápio. – Uma pipoca grande com um refri. A gente pode dividir. – Deu de ombros.
O ruivo não estava muito falante. Kageyama, de início, achou que fosse impressão sua, mas agora podia assegurar que definitivamente não era. Hinata não estava pulando como uma criancinha hiperativa e parecia alheio a tudo o que estava acontecendo. Isso era até aceitável, mas o fato dele não ter se empolgado com a comida foi o ápice para o levantador. Ele sempre ficava feliz quando tinha de escolher o que iria comer, mas, naquele dia, pareceu totalmente desinteressado, como se estivesse escolhendo simplesmente por escolher. Tobio não gostava da sensação que aquilo lhe passava.
Quando a mulher os entregou o pedido, o moreno entregou o dinheiro a ela e disse que ficasse com a gorjeta. Era estranho pagar as coisas para Hinata, mas seu espírito cavalheiresco capricorniano insistia que fizesse aquilo. E que carregasse a pipoca e o refri para ele também. Seguiram para a sala, porque a sessão estava prestes a começar. Já estavam passando os trailers. Se ajeitaram num lugar aos fundos sem trocarem uma palavra. O levantador se perguntava o que estava acontecendo. Podia ser completamente denso com alguns assuntos, mas era até bastante sensitivo quando se tratava de Hinata. Aquele comportamento não era típico do pequeno. Ele falava pelos cotovelos, mesmo que não tivesse nada a ser dito.
Os dois eram praticamente os únicos da sala, junto com um velhinho que parecia estar num sono profundo e uma mulher solitária, que só deveria estar ali porque não tinha nada melhor para fazer. Depois de uns quarenta minutos que a sessão se iniciara, o ruivo insistia em manter-se absorto na história do filme; o levantador achou aquilo muito esquisito, ainda mais para alguém que não tinha assistido aos outros. Talvez fosse porque as cenas de luta e os corpos destroçados fossem realmente interessantes, mas, mesmo assim, Tobio não conseguia entender. Já haviam ido ao cinema outra vez e não fora nada parecido com aquele dia. Ficar ali sentado assistindo a algo que ele sequer entendia não era nada legal. Tinha coisas mais interessantes com que se entreter.
Cansado de esperar por uma iniciativa, levantou bruscamente o encosto da cadeira que separava os dois e se virou para o ruivo, tirando o balde de pipoca amanteigada das mãos dele e colocando-o na cadeira ao lado. Inclinou-se para beijá-lo, ignorando completamente o momento tenso que se passava na tela. Hinata pareceu protestar no primeiro minuto, mas não demorou muito para que correspondesse e envolvesse o pescoço de Kageyama com seus braços. Os lábios de Shouyou tinham gosto de... Pipoca amanteigada. Não era exatamente bom, mas já fazia algum tempo que Tobio não estava conseguindo se conter. Insistia para que Hinata abrisse a boca para dar passagem a sua língua, e quando o pequeno o fez, invadiu-a com pressa. Ele sempre tinha pressa. Como se quisesse degustar cada canto da boca úmida do garoto e nunca tivesse tempo o bastante para fazê-lo. A posição era desconfortável, mas a sensação de beijá-lo continuava maravilhosa. As mãos de Kageyama percorriam o corpo do menor sem o mínimo pudor, lhe causando pequenos arrepios e uns ocasionais gemidos baixos. Esse era um lado do moreno que só o pequeno conhecia. Ambos podiam sentir o calor um do outro à medida que seus corpos se encostavam. Parecia que iriam sair faíscas daqueles toques. Era sempre assim quando se beijavam.
Mas por mais incrível que fosse, naquele dia, parecia que algo não estava encaixando. Não estavam sincronizados o bastante. Mesmo quando Kageyama levantou vagamente a blusa do ruivo, acariciando seu abdômen, e quando reservou toda a sua atenção para o tocar o baixo ventre do rapaz – que já estava bastante “animado”, diga-se de passagem, mesmo que fossem toques por cima das roupas –, ele não parecia estar ali. Fisicamente sim, afinal, ele estava correspondendo a cada movimento que o levantador fazia, mas parecia que sua cabeça estava em outro lugar, e isso irritava Tobio bem mais do que ele gostaria. Ele costumava se deliciar ao explorar o corpo do ruivo em qualquer que fosse a circunstância, mas só conseguia aproveitar efetivamente quando ele estava totalmente entregue. Não era o que estava acontecendo ali.
Separou-se do ruivo com má vontade e respiração ofegante. Definitivamente precisava de uma justificativa praquela... Falta de disposição.
– O que deu em você hoje? – Tobio perguntou, num resmungo sussurrado.
– Nada. – Hinata retrucou, coçando a cabeça, sem jeito. Droga. Ou ele era muito ruim em esconder as coisas, ou realmente estava óbvio o quanto ele estava apreensivo quanto à conversa que teriam e não conseguia fazer nada direito.
– Você está pensando em outra coisa. – O moreno semicerrou os olhos. Era a única alternativa. – Você está agindo estranho o dia inteiro. Quando vai me contar o que aconteceu?
Hinata deu um longo suspiro, encarando Kageyama com seus enormes olhos castanhos, que ficavam ainda mais intensos devido à pouca iluminação. Tinha de falar. O timing foi um pouco mais rápido do que esperava, e ele não havia preparado nenhum discurso legal (diferente da protagonista do filme, que, na sua opinião, falava umas coisas super relevantes e intensas), mas, se não fosse agora, não seria nunca.
– Bem, Kageyama... A gente precisa conversar.
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