Under the water
6 Truth or Dare
Notas iniciais
Since I don't have you — Guns N Roses
Inalo o perfume de seus cabelos loiros. Ela cheira algo parecido com morango. Desde que conheço Tris por gente ela usa esse perfume, o mesmo que sua mãe, Srta. Prior, usava. O corpo da loira está jogado de bruços na cama, coberto apenas por uma camiseta velha do Rolling Stones e um short de pijama preto extremamente curto. Mordisco meu lábio inferior levemente com a visão privilegiada que tenho no momento, e mais do que nunca, tenho que me segurar novamente.
As gotas de chuva se chocam contra a porta da varanda que fechei alguns segundos atrás. Algo em mim me diz que esse será o clima pelo resto do dia. Levanto-me então, sendo cuidadoso pra não acorda-la. Meus pés se encaixam num chinelo preto e eu caminho até da cama até a porta, até o corredor, até a cozinha. Ninguém além de mim acordou, o que é bom.
Abro o armário e pego o pó de café. Coloco duas colheres dele na cafeteira e um pouco de água. Nada melhor que um café forte e amargo pra me acordar hoje.
Encosto-me então no batente da porta, e observo atentamente as gotas de chuva baterem com força no chão de gramado. Com esse tempo mal consigo ver as montanhas ao meu redor. Em alguns minutos a cafeteira apita, e é quando me direciono até ela e retiro a pequena jarra. Derramo o líquido negro em uma xícara grande qualquer que achei no armário. Dou o primeiro gole e o gosto amargo, e ao mesmo tempo bom, invade minha boca. Pela minha visão periférica consigo avistar, vindo do corredor, uma pequena criatura loira com a cara amassada e o cabelo embaraçado. Seus olhos verdes estão cercados por uma pequena mancha escura, ela não dormiu tão bem hoje.
– Café? – Sinalizo com a xícara enquanto encosto-me de novo ao batente da porta. A loira apenas me olha, ignorando minha pergunta.
– Eu não devia ter ido pro seu quarto. – Ela caminha em direção ao armário e pega outra xícara, dessa vez branca, a qual é preenchida por café segundos depois.
– E porque não exatamente? – Dou outra goleada. Nossos olhos se encontram enquanto ela senta em uma das cadeiras na mesa da cozinha.
– Não quero que pense que estou cedendo. Quero apenas ser sua amiga. – Dessa vez ela quem toma o café. Seu rosto sereno e cansado muda a expressão pra uma careta logo depois. Rio brevemente da situação. Acho que eu também queria ser somente seu amigo no momento. Não estou preparado pra um relacionamento sério, pra lembrar datas de namoro ou algo do gênero, mesmo que por ela eu fizesse tudo novamente.
– Não, isso não passou pela minha cabeça, Beatrice. E está sem açúcar. – Ela me lança um olhar furioso.
– Por que não me avisou antes?
– Sobre o que eu pensei ou sobre o açúcar?
– Não seja mais idiota do que aparenta, Tobias. – Beatrice abre o pote de açúcar que estava em cima da mesa, e com a colher do mesmo, adoça seu café.
– Não seja mais durona do que aparenta, Beatrice. Eu realmente não pensei que estivesse cedendo, mas sim que teve um pesadelo com sua mãe. Sei quanto Natalie era importante pra você. Eu não ia deixa-la desamparada, que tipo de ser humano eu seria se o fizesse?
– Tobias. – Ela toma outro gole. Ela retorna a xícara na sua posição e seu indicador contorna toda sua borda. – Você disse que me ama. – Ela finalmente olha pra mim. Rio fraco.
– Sim. – O último gole de café desce por minha garganta. – Não se faça de zonza, você sempre soube disso. – Acho que devo ter pegado pesado, afinal, sinto que se ela pudesse me mataria naquele momento.
– Sempre me amou? – Ela fala e quase na mesma hora eu assinto vagarosamente com a cabeça indo pra baixo e pra cima. – Por que me traiu então, Sr. Eaton?
– Eu já te expliquei que foi Nita quem me beijou, Beatrice.
A loira se levanta apoiando as palmas das mãos na madeira fria e bruta da mesa.
– Depois de terminarmos você namorou seis meses com a garota que te beijou, sem ao menos dar um tempo a meu respeito. Acha que eu realmente vou acreditar nas suas palavras? – Ela cospe as palavras, que agora saem alguns oitavos mais alta.
Fecho meus olhos por dois segundos e largo minha xícara já vazia na pia. Caminho contornando a mesa até ficar frente a frente com a loira. Nossos olhos se encaram e nossos lábios estão tão perto que eu poderia beija-la sem muito esforço. Uma de minhas mãos, que estava esquivada atrás de meu corpo, se move até o rosto de Tris e leva uma mecha de fios teimosos e loiros pra trás de sua orelha. Posso ver sua bochecha corar levemente.
Quando ela se prepara pra falar algo, a interrompo.
– Me vi perdido sem você depois daquele maldito baile. Eu perdi você e meu pai no mesmo mês. – Percebo que o chamei de “pai” pela primeira vez em anos. Um arrepio toma conta de meu corpo. – Marcus não me significava muita coisa. Mas era meu pai. Querendo ou não, sou filho dele. Querendo ou não, fui em parte culpado por sua morte. – Meus olhos se fecham por alguns segundos. Tento reprimir a memória de Marcus deitado na cama de hospital com aquela camisola branca que quase se misturava com seu tom de pele pálido e sem vida. – E você... Você Beatrice, foi a pessoa que mais amei em toda minha vida. – Um riso fraco de frustração escapa de minha boca. – E eu a perdi. Eu estava sozinho. Minhas noites eram resumidas em bebidas e sexo com garotas que eu nunca tinha visto na minha vida. Certa vez me encontrei com Nita em um dos bares que eu frequentava. Eu não estava sóbrio. Conversa vai, bebida vem e estávamos na cama. Isso se repetiu por quase um mês. Foi a forma que achei pra tirar você da minha cabeça. Funcionou por seis meses. Mas eu não ia mais iludi-la, afinal, que tipo de ser humano eu seria se o fizesse? – Posso sentir que Tris solta um quase riso. Meus olhos se abrem e se deparam com os dela. – Desde que eu te perdi eu não tenho momentos felizes, não faço planos pro futuro nem... nem nada. Desde que eu não te tenho eu não tenho amor pra dividir e ninguém pra cuidar. Eu vacilei com a pessoa mais importante da minha vida Beatrice, mas eu nunca deixei de te amar. É tolo da minha parte pedir pra que acredite em mim?
– Muito. – Tris sorri de leve, e seus olhos cansados ganham um brilho que eu já não via neles.
A distância entre nós é quase imperceptível e sua respiração descompassada se funde com a minha. Nossos lábios, que antes roçavam um no outro, agora se encaixam perfeitamente, iniciando um beijo calmo. Minhas mãos descem pra sua cintura e aperto meus dedos nela assim que sinto seus braços contornando meu pescoço. Sua mão acaricia minha nuca, e suas unhas, mesmo que pouco compridas, me causam arrepios quando passam de leve por minha pele.
Nos separamos quando o ar se faz necessário. Nossas testas colam uma na outra e meus olhos, antes fechados, agora se abrem juntamente com os da loira. Encarar aqueles olhos num tom verde misturado com azul me deixava à beira da loucura. Ela morde seu lábio inferior enquanto abaixa sua cabeça e encara nossos pés.
– Apenas amigos. – Digo quase rouco.
– Apenas amigos. – Ela repete enquanto sorri levemente. – Tobias...
– Sim?
– Você tem gosto de café. – Tris ri fraco enquanto seu olhar se volta pro meu. Acompanho seu riso.
– Você não fica pra trás.
~^~^~
– Tem problema eu continuar dormindo no quarto separado? Não me dou bem com os roncos de Zeke.
– Eeei! – Ele protesta. – Eu não ronco.
Uriah se afoga com a água que bebia enquanto ri de seu irmão. Após algumas palmadas nas costas vindas de Marlene, ele solta:
– Então acho que durmo no mesmo quarto que um porco. Sinceramente, não sei como aguenta Shauna!
– Já até me acostumei. – Ela ri e é acompanhada por todos os outros. – Por mim não tem problema não Tobias.
– Não vejo problemas desde que não reclame de algum barulho suspeito vindo do quarto ao lado. – Will diz. Christina cora pouco por conta de seu tom de pele. – Me desculpe meu amor, você sabe que é barulhenta, não negue. – Mais uma rodada de risadas toma conta da cozinha enquanto a morena da um tapa na cabeça do namorado.
– Chocolate quente pronto! – Lynn diz enquanto caminha da cozinha pra sala e coloca uma bandeja de canecas coloridas em cima da mesa de centro. – Não acredito que ainda tá chovendo. Deveríamos estar na piscina agora, agindo como adolescentes mimados novamente. – Ela se senta no sofá ao lado de Tris, que pega uma das canecas.
– Por quê? Podemos simplesmente assistir uma comédia romântica, tomar chocolate quente e ficar no tédio o dia todo. Por Deus, eu faço isso nos meus dias de TPM. – A loira fala. Reprimo uma risada enquanto goleio meu chocolate quente.
– Um jogo. – Will diz. Ele se levanta do colchão que deixamos no chão e segue pra cozinha. Olho confuso pra todos ao meu redor. Will volta com uma garrafa de cerveja vazia. – Verdade ou consequência.
– Hmmm.. Voltando aos tempos adolescentes. – Marlene diz enquanto senta no chão com as pernas cruzadas.
– Ah qual é, não vai matar ninguém. – Eu digo enquanto me sento ao lado de Marlene, também com as pernas cruzadas. Deixo minha caneca de chocolate ao meu lado e observo todos imitarem meu gesto.
– Quanto marmanjo jogando verdade ou desafio. – Uriah fala. – Deveríamos estar separando e assinando papéis em nossas empresas ou indo a casas de prostituição e pagando danças particulares.
Marlene imita o gesto de Christina e acerta o namorado na cabeça, arrancando novamente o riso de todos. Eu nem queria pensar que depois de alguns dias eu lá estaria em meu escritório assinando papeladas em cima de papeladas.
Após todos tomarem seus lugares, Will coloca a garrafa de vidro marrom no chão e vira.
– Lynn para Zeke. Verdade ou consequência? – Christina perguntava.
– Consequência. – Ele responde e posso ver um sorriso no rosto de Lynn.
– Bem, terá que dançar twerk na frente de todos, e temos permissão pra filmar com nossos celulares. – Ela diz enquanto tira seu iphone do bolso e o chacoalha no ar.
Isso vai ser engraçado. Zeke nunca soube dançar.
– Nã... Não! Eu escolho verdade. – Ele tenta redimir, inutilmente.
– Para de ser gay. Vai lá e rebola esse popozão, gostoso! – Eu o disse em tom de brincadeira e pude ouvir risadas vindas de todo canto.
Zeke levantou com uma carranca no rosto. Dirigiu-se a parede da sala e apoiou as mãos na mesma. Ele fazia alguns movimentos desengonçados com o corpo, o que arrancou ainda mais risadas de todos. Lynn filmava com seu smartphone toda a cena.
Verdade vem e consequência vai.
– Will para Tobias! – Christina fala. – Verdade ou consequência?
– Verdade.
– Com quem foi o melhor beijo que já teve?
– Beatrice. – Respondi sem rodeios, arrancando alguns comentários do povo. Olhei pra Tris, que parecia um pimentão. Ela girou a garrafa novamente, como se quisesse que mudassem logo de assunto.
A garrafa para.
– Tobias para... Tris. – Christina tenta manter a animação, mas algo a impede.
– Verdade ou consequência? – Eu disse antes que ela o fizesse.
– Verdade.
O silêncio toma conta da casa.
– O que me disse de madrugada na varanda aquele dia, era verdade?
O silêncio novamente. Beatrice suspira e abaixa a cabeça.
– Não.
Eu sabia. Ela nunca foi tão boa mentirosa. Reprimo um sorriso e ela gira a garrafa. O jogo continua por mais algum tempo, e quando percebemos a chuva já cessou. O frio já não era tão intenso e as nuvens davam lugar a um tom avermelhado no céu. Saímos lá fora pra admirar o pôr-do-sol. Os olhos verdes de Beatrice brilhavam como eu nunca havia visto. Ela não sorria, mas tudo nela entregava que estava feliz. E se a loira está feliz, eu também estou, afinal, meu objetivo é esse. Naquele momento eu sentia que tudo ao meu redor nos favorecia e nos acolhia. Naquele momento eu me senti exatamente como me senti no terraço do salão, quando nos beijamos pela primeira vez. Naquele momento eu me senti completo.
Uma vez ouvi dizer que a tristeza é apenas o intervalo entre duas felicidades. E que a felicidade pode ser uma pessoa. No meu caso, minha felicidade é a mulher que observa o sol se esconder atrás das montanhas.
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