Under the water
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Notas iniciais
POV Tris
Abro meus olhos lentamente enquanto Caleb, meu irmão, me acorda.
– Bom dia, bela adormecida. Se dormir mais um pouco vai perder o voo. – Sinto meu colchão abaixar onde ele senta.
– Bom dia, Caleb. – Minha voz sai fraca. Dou um sorriso amarelo e então me ajeito sentando na cama. – Que horas são?
– 05h00min. – Ele olha o relógio posicionado no meu criado-mudo, evitando contato visual comigo. Posso entender a tristeza de Caleb, afinal, sou praticamente a última família que o resta já que papai está sempre ausente por causa do trabalho e de sua nova namorada. Agora tempo pros filhos é raro.
– Tem certeza que não quer ir pra Chicago comigo? Eu iria adorar. – Eu digo, enquanto seguro sua mão e a acaricio. Depois que mamãe morreu nos tornamos muito mais próximos, e confesso que é estranho imaginar uma vida sem ele ao meu lado.
– Não Tris, preciso ficar com Susan, não posso simplesmente a abandonar aqui em Miami. – Caleb diz sorrindo levemente – Vou preparar seu café. Tome um banho e se arrume, sim? Não quero ver minha irmã mais nova perder o voo por preguiça.
Assim que Caleb sai do quarto, os dedos do meu pé encontram o chão frio de madeira. Me levanto ainda cambaleando pelo sono, tirando a roupa pelo caminho. Ligo o chuveiro gelado, a água percorrendo meu corpo me faz despertar. Vou voltar pra minha antiga cidade, vou rever meus amigos. Vou reconstruir minha vida.
~^~^~
– Eu vou sentir sua falta, maninho. Me prometa que vai avisar a data do casamento com antecedência, se não te mato. – Encosto a ponta do dedo indicador no meio do peitoral de Caleb. Ele solta um riso e segura meu dedo onde está.
– Eu, Caleb Prior, prometo que avisarei à madrinha do casamento a data do mesmo. Que tal? – Ele força uma risada que sai fraca. Droga, odeio despedidas. Odeio.
– Eu te amo, seu idiota. – Eu o abraço com toda minha força na tentativa de segurar as lágrimas que insistem em cair.
“Atenção, última chamada do voo para Chicago. Última chamada, Chicago...”.
Então solto minhas mãos das dele e pego minha mala. Caminho até a entrada do avião e me viro pra Caleb.
– Adeus, maninho. – é tudo que consigo dizer, mesmo sabendo que ele não irá escutar.
~^~^~
Acabo de colocar a última caixa no chão. Planejei essa mudança por alguns longos meses. Morei em Miami com meu pai e meu irmão desde meus 18 anos, fui pra lá logo depois de mamãe morrer, mas definitivamente não é pra mim. Cursei psicologia enquanto trabalhava como modelo de uma marca de roupas famosa, até decidirem transferir a sede pra cá e foi quando não pensei duas vezes em vir também, afinal meu emprego já era garantido, era. Tudo estava pronto pra me mudar, recebo uma carta dizendo que infelizmente não seria possível eu continuar como modelo, precisavam de algo novo, algo melhor. Já era tarde pra desistir de tudo e continuar em Miami, então coloquei nas mãos de Deus e vim. O dinheiro pra mim não era problema, afinal, papai mandaria uma quantia alta por mês como presente. Eu insisti durante muito tempo pra que não fizesse isso, mas ele ameaçou me proibir de voltar pra cá. Sei que sou maior de idade e tomo minhas decisões, mas prefiro ter a aprovação dele e de Caleb.
Olho pras caixas em minha volta ocupando todo o apartamento e uma pontada de arrependimento surge em meu peito. Não por deixar papai e Caleb sozinhos em Miami, mas por imaginar o trabalho que essas coisas vão me dar. Começo a abrir a primeira caixa cuidadosamente e deparo com um álbum de fotos dos meus 15 anos. Um leve sorriso brota em meu rosto. Me sento no chão gelado passando as fotos vagarosamente, me lembrando de como era minha vida, lembrando de como eu costumava ter tudo, a caçula da família podre de rica, a mimada. Nessa época eu ainda não namorava com Tobias, na verdade, a primeira vez que ficamos foi na minha festa de 15 anos. Quando termino de ver as fotos, coloco o álbum cuidadosamente do meu lado e pego outro dentro da mesma caixa. “Formatura colegial” era o que a capa me dizia. Abri com certo receio enquanto relembrava a festa, o primeiro porre, e me deparo com uma foto minha e de Tobias abraçados, dançando. Quem diria... traída pelo primeiro namorado com uma de suas melhores amigas na festa de formatura do colégio.
“ A música calma embalava nossa dança, minha cabeça estava deitada no espaço entre o peitoral e o queixo de Tobias. A noite estava perfeita, não tinha como melhorar.
– TRIS! – Christina grita no meu ouvido, me acordando de um transe. – Vamos pegar alguma bebida, vou pedir pro DJ tocar uma música de verdade, não aguento mais esse mela-mela.- ela dizia rindo enquanto me puxava pelo braço.
Apenas olho pra Tobias como se pedisse permissão e ele assente com a cabeça. Sigo Christina até o bar e peço duas Vodcas, ela pede algo que desconheço, mas que deve ser forte. Assim que o garçom entrega meu pedido vejo Chris indo até o DJ. Sigo de volta pro lugar onde eu dançava com Tobias, e presencio algo que eu realmente não queria ter visto aquela noite. Tobias estava aos beijos com Nita, uma das minhas melhores amigas. Eu paralisei, minha boca formava um ‘o’ desacreditando de tudo que estava vendo. Por instinto começo a pisar duro em direção aos dois que nem notaram minha presença. Cutuco o ombro de Tobias até ele olhar pra mim assustado, e antes que ele dissesse um ‘A’, joguei a Vodca na cara dele.
– Seu filho da puta de merda! Como fez isso comigo, seu idiota? – eu gritava. Minha garganta ardia e apesar da música alta os outros convidados em volta nos olhavam espantados. Ignorei os olhares e me virei pra Nita – E você sua vadia? Ainda dizia ser minha amiga? Puta do caralho.
Christina chega do meu lado ainda segurando sua bebida sem entender absolutamente nada do que estava acontecendo. Pego o copo da mão dela e tomo tudo em um gole. O liquido desce rasgando por minha garganta e jogo o copo de vidro em Nita. Minha visão estava embaçada. A festa já deu pra mim. Não aguento mais. Me viro e caminho rápido, enxugando as lágrimas, e quando vejo que Tobias corre atrás de mim, viro meu corpo em um movimento e dou um tapa em sua cara.
– Nunca. Nunca mais dirija uma palavra a mim – Eu não sabia se eu gritava, mas foi alto o suficiente pra ele escutar. Eu já me sentia tonta por tudo que tinha bebido antes, e depois disso só lembro de ter acordado em meu quarto.”
Ouço meu estômago roncando e só então resolvo sair pra comer alguma coisa, afinal, já são 16h45min e não tive tempo de comer nada desde que cheguei. Saio de casa despreocupada, andando pelas ruas de Chicago e observando cada detalhe. Percebo que as coisas mudaram enquanto eu não estava por aqui. Avisto um café a duas quadras de distância. Ótimo, tudo que eu preciso.
Assim que entro no café sou empurrada, o local está lotado. As garçonetes desviam as bandejas por cima das cabeças. Procuro uma mesa vazia pra me sentar e logo uma garota chega pra anotar meu pedido. Meu celular vibra com uma mensagem de Christina:
“Soube que chegou hoje em Chicago. Como assim não me falou nada? Não significo mais nada pra você, sua puta?”
Rio assim que termino de ler, e guardo o celular no bolso, a ignorando. Sei que isso me dará uma certa confusão depois, mas não me importo. Nesse momento só me importo em comer algo. Batuco com meus dedos na mesa enquanto observo as pessoas que estavam a minha volta, e quando vejo, estou encarando um homem alto e de terno parado a alguns metros de mim. Por instantes penso nunca tê-lo visto, mas a sensação muda quando meus olhos encontram os deles. Olhos azuis como o mar à noite. Tobias Eaton.
Nos encaramos durantes alguns segundos mesmo com pessoas passando a nossa frente. Tobias Eaton. Senti meu rosto esquentar numa mistura de ódio e mágoa. Tobias Eaton. O filho da puta que me traiu no baile de formatura. Meus olhos se enchem de lágrimas e antes que a garçonete volte com meu pedido eu me levanto e caminho até a porta de saída do café. Enxugo as lágrimas com o dorso de uma das mãos, até alguém segurar meu braço esquerdo. Tobias Eaton. Tento ao máximo me soltar até conseguir. Saio do lugar atordoada. Eu sabia que uma hora ou outra iria vê-lo, mas por que tão cedo? Por que agora?
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