Under the water
4 Baby don't lie
Notas iniciais
POV TOBIAS
Estamos na estrada há algumas longas horas e Lynn ainda não trocou mais de dez palavras comigo. Na verdade, desde ontem à noite não nos falamos direito e em parte até concordo com ela, eu devia ter sido mais “gentil” com Tris. Não que isso seja meu forte, mas acho que deveria ter pelo menos tentado.
Senti-me mais seguro após sua mensagem de ontem. Talvez a loira tenha considerado me perdoar, o que pra mim é ótimo. Não que eu tenha visto uma chance de reconquista-la, não... Mas talvez ainda sejamos amigos um dia. Um dia.
Acabo de atravessar uma porteira e já consigo enxergar uma casa de campo com piscina a cerca de 1km de distância. Finalmente.
~^~^~
Paro meu carro em frente à casa. Abro a porta do mesmo e saio, posso observar Will e Christina imitarem meu gesto. A morena me lança um olhar nada amigável, o que só deixa mais claro que peguei pesado ontem.
– É o seguinte. Antes de entrarmos, quero esclarecer que temos um quarto pra nós garotas, e um pros garotos. E se quiserem transar, tem vários quartos pela casa, é só escolher um livre. – Reprimo uma risada. Eu não transaria com mais ninguém além de Tris por aqui, algo que seria meio improvável de acontecer essa semana.
Assim que Christina fecha a boca, Will abre a grande porta de entrada da casa. Vejo todos os outros entrarem. Coloco a mochila por cima de um dos meus ombros e resolvo seguir o pessoal. Caminho pelos longos e largos corredores do casarão e em alguns minutos estou parado na porta de um quarto enorme com quatro camas de solteiro com lençóis brancos e azuis espalhadas por seu interior, as quais já estão todas ocupadas, menos uma. Caminho até ela e jogo minha bolsa em seu colchão. Uriah, Zeke e Will conversam pouco, talvez não queiram que eu ouça. Ao contrário da deles, a conversa das meninas soa tão alta que poderia ouvir de qualquer canto da casa. Entre as falas e risadas, destaca-se a de Tris, a qual tento ignorar o máximo possível enquanto retiro minha camiseta preta ficando apenas de calça. O calor está me matando, e mal sai do ar condicionado. Jogo a camisa por cima de meu ombro e sigo vagarosamente pra fora do quarto em direção à cozinha. Ainda no corredor consigo enxergar Shauna preparando algo pra comermos.
– Não sei o que seria de nós sem você, Shau. – Falo em alto e bom tom assim que chego à cozinha. Abro o armário e sigo até a geladeira a procura de água.
– Talvez sem mim agora fosse um maníaco atacando outra ex-namorada no banheiro. Tobias, já pensou em ser mais gentil com as pessoas? – Em momento nenhum Shauna desvia o olhar da salada que prepara.
– Penso toda hora Shauna. Quero um dia conseguir isso. – Tomo um gole da água gelada. Meu tom de voz sai mais rígido do que eu esperava, e percebo isso quando ela finalmente se vira pra mim.
– O que iria fazer com Tris se eu não tivesse chegado Tobias? – Ela abaixa seu tom de voz, se certificando que ninguém a ouviria além de mim.
– Eu só queria conversar, okay? Tris nunca iria me perdoar se não soubesse toda a verdade sobre Nita. Eu nunca quis fazer nenhum mal a ela, muito menos... Muito menos tentar algo a força. – Quando Shauna abre a boca pra retrucar, Beatrice chega.
– Atrapalhei algo? Eu...
– Não! Já estava de saída. – Digo interrompendo Tris. Seguro meu copo d’água e me direciono vagarosamente até a sala de estar. Avisto um grande sofá assim que chego, e sem pensar duas vezes me deito nele. Larguei o copo na mesa de centro e levei a mão até o controle que liga a TV. Passo pelos canais sem prestar muita atenção neles. Paro em um canal de filmes, onde passa um tal de “Divergente”.
Porra, essa protagonista é a cara da Tris.
~^~^~
Sinto o cheiro da comida de Shauna. Ela fez macarrão com frango, um dos meus pratos favoritos.
Meus pés me levam de volta pra cozinha. Concentro-me apenas nas conversas vagas que ouço ao meu redor enquanto caminho em direção à pilha de pratos. Ouço gritos ecoando em meus ouvidos. Não consigo decifrar o sentido das palavras que ouço até alguém me balançar.
– TOBIAS! TOBIAS! – Tris aperta suas mãos com força contra meus braços enquanto me chacoalha. – LYNN, LYNN. PORRA TOBIAS! – Meu prato vai ao chão. Vejo o corpo de Lynn se debater no chão e finalmente consigo separar o choro de Christina com os gritos de Tris. Afasto suas mãos de meu ombro da forma mais fria e rápida possível e corro até o corpo de Lynn.
– Tris, traga um travesseiro. Rápido! Shauna, um pano limpo! – Entrego meu desespero fácil. Tris sai correndo em direção ao quarto das garotas enquanto viro Lynn de lado pra evitar que se engasgue com a saliva. A loira volta na mesma velocidade que foi e me entrega um travesseiro branco. O coloco sob a cabeça da morena que se debate no chão, e sem hesitar, pego o pano da mão de Shauna e limpo sua saliva. Abro o zíper de seu moletom, revelando uma camiseta com os dizeres “I’d throw my pie for you”. Fazendo referência a Orange is the New Black.
Pouco a pouco Lynn vai se acalmando, até seu corpo parar de se debater totalmente. Ela está sonolenta, então resolvo leva-la pra um dos quartos vazios e a deixar descansar um pouco.
Seguro a morena nos braços, cuidadosamente, e caminho com ela até o terceiro quarto à esquerda. Deito seu corpo sobre a cama de casal e ligo o ventilador de teto no baixo. Ando devagar até a porta tentando fazer o mínimo de barulho possível, mas antes que eu a feche ouço baixinho:
– Obrigada, Four.
– Por nada, Lynn. – Termino de fechar a porta e assim que me viro vejo Tris a minha espera de cabeça baixa.
– Tris? – Estou surpreso em vê-la assim.
– Tobias... erm. – Ela hesita em falar. Odeio essa mania de se preocupar com o que eu vou pensar. Só fale, porra. – Eu te devo um obrigado. – Sua mão esquerda vai até sua nuca e seu olhar continua pra baixo. – Só você sabia isso de primeiros socorros e... sem você Lynn talvez, não sei. Não sei se ela estaria bem. – Ela levanta seu olhar pro meu. – Lynn é uma de minhas melhores amigas, me ajudou muito quando eu e você... erm... Rompemos.
– Tris. – Faço questão de olhar em seus olhos verdes que parecem assustados. – Lynn também é minha amiga e eu faria isso por qualquer pessoa. Não me deve agradecimentos. Apenas cuide dela até eu voltar, vou trazer algo pra comermos. – Tris assente com um muxoxo e entra no quarto. Quando chego à cozinha vejo todos sentados na mesa conversando algo sobre Lynn. Assim que Shauna me vê, levanta e vem em minha direção.
Shau sorri gentilmente enquanto passa a mão por minha bochecha.
– Obrigada Tobias. E-eu não sei o que faríamos sem você aqui. – Ela olha pro corredor às minhas costas. – Onde está Tris?
– Ela ficou no quarto com Lynn. Preciso levar algo pra loira comer, ela deve estar com fome. Pode me ajudar? – Shauna assente com um sorriso e em alguns minutos trás dois pratos de macarrão em uma grande bandeja, e antes de eu sair, ela coloca dois copos de suco. Sorrio como agradecimento e sigo de volta pro quarto em que Lynn está dormindo. Abro a maçaneta com cuidado pra não derrubar tudo e entro no quarto. Assim que Tris me vê ela se levanta caminha até a porta, a fechando lentamente. Vou em direção à varanda do quarto e coloco a bandeja sobre a mesa que se encontra no meio de duas cadeiras brancas, típicas de áreas externas. Tris vem em minha direção observando o prato de macarrão, posso ver que o atacará em alguns segundos.
– Se preferir posso comer no quarto e você come sossegada na mesa. – Minhas mãos vão em direção ao meu prato, mas antes que alcancem seu destino, Tris diz rapidamente:
– Não! Erm.. Pode comer aqui. – Assinto com a cabeça e me sento na cadeira. Meu gesto foi imitado por ela pouco depois.
Dou a primeira garfada no macarrão. A segunda. A terceira. Nosso silêncio me corrói, digo qualquer coisa pra quebrar o gelo.
– Delicioso, não?
– Sim. – O tom de sua voz é seco. Creio que nosso diálogo terminou por hoje.
~^~^~
Já começa a anoitecer e Lynn já está acordada. Pela janela do quarto consigo vê-la sentada a beira da piscina enquanto os outros se divertem. Sorrio ao ver que ela está bem e que Tris está feliz por isso.
Talvez eu queira ver a loira feliz. É, talvez.
Meus cotovelos estão apoiados na grande janela de madeira e a brisa calma do fim de tarde passa pelo meu rosto, me fazendo recordar todos os momentos bons que vivi até agora. Desde me mudar da casa daquele homem, até o namoro com Tris.
O céu tem tons alaranjados, e posso ver o pôr-do-sol por entre as montanhas. Isso me faz sentir vivo. Sentir-me um adolescente novamente.
Deito-me em minha cama e por alguns instantes o teto de madeira torna-se interessante a meu ver. Concentro-me apenas no som da água que vem da piscina e na risada dos outros, em pouco tempo pego no sono.
“Tenho uma arma na mão, e enquanto corro, fugindo de algum lugar, consigo ouvir tiros vindos detrás de mim. Ouço gritos, ouço o seu grito. A alguns metros a minha frente vejo Tris amarrada no chão enquanto chamas cercam seu corpo. Seu grito invade meu ouvido de tal forma que sou movido pelo impulso. Corro até perto da loira e tento desamarra os nós da corda, mas minhas mãos parecem passar direto, como se não existissem.
– Tobias, me ajuda! Socorro Tobias! – Seu grito é escaldante. Seu corpo queima lentamente no fogo, e resolvo tomar talvez a maior decisão de minha vida. Aponto o cano da arma pra cabeça de Tris, e aperto o gatilho.
Vou tira-la dai querida. Seu sofrimento acabará.
O som do tiro ecoa em meus ouvidos, e o último grito de Tris é meu nome.”
Minha respiração está ofegante até demais, minha testa está molhada pelo suor. Olho ao meu redor e está tudo escuro, apesar disso consigo ver os outros dormindo em suas devidas camas, deve ser madrugada.
Então me levanto e caminho pelos corredores sombrios da casa. Nunca fui de ter medo de muitas coisas, mas esses corredores me dão calafrios durante a noite. Vejo que a porta da cozinha está aberta e a luz da lua invade o cômodo. Por segurança, ou pura curiosidade, vou verificar quem a abriu. Assim que atravesso a porta consigo observar Tris debruçada no parapeito de madeira que cerca a varanda. Ela segura uma xícara com algo dentro, talvez chá. A loira usa apenas uma camiseta xadrez vermelha e preta que com toda certeza não é dela. Porra, vou ter que me segurar pra não comê-la aqui mesmo.
– Tobias... – Olho imediatamente pra Tris, que hesita em continuar. Seu dedo indicador passa de um lado pro outro na madeira e seus olhos se enchem do horizonte azul escuro da noite.
– Beatrice... Eu... Quero que me perdoe. – Me posiciono do lado da loira, tentando ao máximo encara-la nos olhos – Por favor, me perdoe por ontem... E pelo que aconteceu no baile.
– Me surpreendeu ontem Tobias. – ela solta um riso sem graça enquanto observa as estrelas que são mais aparentes aqui. – Pensei que fosse me atacar ou algo do tipo.
Meus cotovelos cedem, e eu os apoio na madeira fria, ficando ainda mais próximo da altura de Tris.
– Eu nunca iria te machucar. Digo, eu sei que a machuquei. Mas acho que consegue me entender. – Meus olhos se encontram com os dela por alguns segundos, mas posso perceber seu desconforto.
– Uhum. – Meu olhar desvia pra sua boca, Tris morde seu lábio inferior com certa força. Ela fica extremamente sexy desse jeito, mesmo nunca tendo feito isso nessa intenção. – Sabe... Eu tentei me envolver com outros garotos. Mas acho que meu gosto era um pouco particular, já que todos me lembravam de você. Durante alguns anos da minha vida, tudo me lembrou você. – Seus olhos verdes se fixam nos meus. – Por Deus, eu sofri tanto, Tobias. Depois da nossa separação e da morte de Natalie, tudo mudou na minha vida. Tornei-me outra pessoa. – O sorriso nos lábios de Tris se desfaz, ela leva uma de suas mãos a altura do meu rosto, acariciando minha barba rala. — Eu tentei te esquecer por tanto tempo Tobias... E acho que não tem como perdoar alguém que já não lembramos mais. – Ela sorri gentilmente como se sentisse pena de mim. Suas palavras doem mais que um tiro. Eu não posso acreditar.
– Você está mentindo, Beatrice. – Minha voz sai mais baixa que o esperado, e o digo travando. – Não acredito em você.
A loira fica na ponta dos pés e leva sua boca pra próximo de minha orelha, me causando arrepios. Bem baixinho ela diz:
– Não, Four. Eu não estou mentindo. – A loira sorri enquanto sua mão cai sobre meu ombro e desliza por meu braço. Vejo seu corpo se afastar do meu. Não posso acreditar.
Fale com o autor