Crystal estava caminhando pelo pomar. Havia pelo menos nove limoeiros, três laranjeiras, uma rama de melancias, outra de batatas, uma estrutura de madeira parecida com um telhado cheio de videiras entrelaçadas e três pés de abacaxi. Sem contar as plantas selvagens. Comendo morangos minúsculos, ela pisava da grama que precisava ser cortada. As galochas respingavam a lama que aparecia por entre as pedras. Tinha chovido um pouco, mas lama não era um empecilho. Crystal gostava.

Olhou novamente para a janela do último andar da casa. Ela não pudera explorar o sótão. Sua mãe dissera que Molly passaria um pano nele, para que ninguém ficasse com alergias. Quando Molly ouviu o que teria que fazer, arregalou os olhos. Crystal nunca tinha visto ela daquele jeito.

A menina saiu pulando pelas poças. Achou um sapo embaixo de uma planta e o cutucou, mas o sapo pulou novamente. Ela riu e sentiu um pingo em seu ombro.

Começou a chover muito forte. Muito forte mesmo. Crystal correu para dentro de casa, as botas deixando pegadas enlameadas por todo o lugar. Sua mãe, que estava contando o orçamento, ficou zangada.

–Crystal! Olha o que você fez! Molly levou um tempão para limpar o hall. Deus, você parece uma criança às vezes.

–Eu tenho nove anos. –Retrucou Crystal.

–Mas age como se tivesse três! Tire as botas e as deixe na escada da frente, rápido!

Crystal obedeceu, deixando também a capa de chuva. Ela ficou rondando a mesa onde a mãe trabalhava, cantarolando e assoviando.

–Crystal!

–O que?

–Está me atrapalhando!

–Desculpe, mas não tem nada para fazer. Quando a escola começa?

–Na semana que vem. Vai fuçar lá em cima, sei lá. Só me deixa trabalhar em paz.

–Tá bom. Não precisa ser grossa.

Crystal subiu as escadas correndo e parou no penúltimo andar, onde dormia. Puxou a cordinha e desceu a escada fina que usavam para chegar ao sótão. Ela subiu e puxou a porta de madeira polida com um brasão. Crystal riu. Quem desenha brasões em portas de sótãos?

Ela empurrou a portinha e colocou a cabeça para dentro. Os olhos castanhos enormes exploraram o local escuro e estranho com curiosidade. Ela entrou completamente, piscando. Seus olhos se acostumaram com a penumbra e ela deu passinhos curtos e rápidos. O carpete vermelho pinicava sobre seus pés descalços. Ela sabia que não deveria estar tão impressionada, mas não conseguia se conter. Tinha esperado tanto por esse momento que pareceria um crime não estar fascinada.

Havia vários móveis cobertos, quadros nas paredes, um monte de tralha. Crystal sorriu. Era seu lugar.

Ela pegou, com cuidado, um disco de vinil. Soprou a poeira. Era um antigo, dos Beatles. Colocou novamente no lugar e andou mais uns passinhos. Até que ela viu. Uma estrutura maior que ela, coberta por um lençol branco fantasmagórico. Aproximou-se devagar, a respiração presa. Por alguma razão, aquele... Negócio... A atraía. Esticou a mãozinha para puxar o lençol...

Sentiu garras de ferro se fechar entorno de seu braço. Crystal gritou e se virou, mas era apenas Molly. Crystal respirou fundo, mas Molly ainda não a largara.

–Me solte!-Pediu.

–O que está fazendo aqui?-Sibilou Molly.

–Eu vim explorar!

–Aqui é perigoso

–Por quê?

Molly não respondeu. Ela pegou o lençol branco e cobriu o espelho novamente.

–Não entre mais aqui. –Disse em voz gelada. –Não sem que eu saiba.

Crystal vacilou.

–Mas... Eu...

–Vamos. –Molly estendeu a mão. –Vamos lá para baixo.

Crystal a seguiu, amuada. Estava um pouco nervosa com Molly e o espelho, mas não ia admitir.

No jantar, sua mãe estranhou o silêncio.

–Crystal. –Chamou. –Você está bem?

Crystal assentiu para seu prato de couve de Bruxelas.

–Você está quieta. –Continuou Frank. –Está doente?

–Não estou com fome. –Murmurou. Ela ergueu os olhos e viu Molly encarando o chão, mordendo o lábio inferior. –Mamãe, posso subir?

–Crystal, você não comeu nada. Olha, come só mais uma garfada que a mamãe deixa.

A garotinha engoliu a couve sem gosto e afastou o prato. Desceu da cadeira e correu para o quarto. Sua mãe suspirou.

–A mudança foi muita informação para ela.

–Ela vai ficar bem, Meredith. Por que não chama o amiguinho dela pra vir aqui?-Sugeriu Frank. A mãe de Crystal assentiu e Molly recolheu o prato.

Crystal estava sentada no apoio grosso e comprido da janela. Ela viu aquele gato novamente e deu um aceno. Sorriu quando o animal balançou o rabo pra ela.