Under The Mirror
3 Jimmy Montez
Crystal estava parada perto do portão de ferro, esticando o pescoço para cada carro que passava. O jardineiro da casa, um homem velho de chapéu de palha chamado Sr. Boles, cortava o muro vivo perto dela.
–O que está esperando, menininha?-Perguntou o Sr. Boles, descansando a tesoura.
–Meu amigo Jimmy. –Crystal espiou a esquina. Nada. –Ele disse que viria.
O Sr. Boles voltou a cortar as folhas. Crystal estava ansiosa demais para se sentar e esperar lá dentro.
Depois de mais quinze minutos, um carro virou a rua e parou no portão. Crystal abriu um sorriso de orelha a orelha e correu para a calçada enquanto Jimmy pulou do carro da mãe, segurando um casaco.
Jimmy Montez era um garoto latino e esguio da idade dela. Ele tinha cabelos castanhos corredios, pele cor de canela e olhos castanhos que brilhavam de animação por tudo. Os dois se conheceram quando ainda eram bebês, porque eram vizinhos na antiga rua de Crystal.
Crystal acenou para a mãe de Jimmy e o puxou para dentro do pátio de concreto. Ele estava boquiaberto.
–Crystal. –Disse. –É imensa. Você tem um pomar?-Disse quando notou as árvores de limões. Crystal assentiu, animada. Ela o puxou.
–Vamos ver!
Eles ficaram um tempão brincando por entre as árvores, escalando e colhendo as amorinhas que cresciam nos cantos das cercas. Depois de algumas horas, Molly apareceu com uma bandeja cheia de sanduíches de geleia e uma jarra de suco de laranja. Eles fizeram um banquete.
Quando já estavam cheios de pão e geleia, se deitaram no chão gramado.
–O que tem lá em cima?-Perguntou Jimmy, apontando com a mão morena para o sótão. Crystal suspirou calmamente. Estava ficando com sono.
–O sótão.
–Já foi lá?
–Uhum. –Murmurou ela em resposta. Estava mesmo muito cansada.
–Como que é?
Crystal bocejou. Seria indelicado ela se virar e dormir?
–Cheio de tralha velha e empoeirada.
–Legal. –Jimmy fez uma pausa. –A gente pode ir lá?
–Claro. –Crystal estava quase adormecendo...
Jimmy se levantou de um pulo e a puxou pelos pés. Crystal arregalou os olhos.
–O que está fazendo?-Perguntou.
–Você não disse que a gente podia subir no sótão?
Crystal se levantou, nervosa.
–Eu não sei. Molly não ficou muito feliz da última vez que eu fui lá...
–Molly é a moça que cuida da casa?
Crystal assentiu.
–Mas por que ela não ficou feliz?-Esse era um problema de Jimmy. Ele não parava de fazer perguntas.
–Não sei. Ela só disse pra eu nunca mais ir lá em cima.
–Ora, ela não pode mandar em você.
–Mas eu... Eu acho que ela tá certa.
–Bobagem. –Os olhos do garoto estavam enormes. –Vamos? Por favor?
Ele parecia tão desesperado que Crystal não conseguiu dizer não. E além disso, ela também queria dar mais uma olhada naquele espelho estranho.
–Tá bom. –Ela cedeu. –Mas só cinco minutos.
Jimmy bateu continência.
–Palavra de escoteiro.
Crystal riu e os dois entraram na casa. Foram os mais silenciosos possíveis, pé-ante-pé, até a escadinha grudada no final do corredor do terceiro andar.
Crystal olhou para os lados.
–Onde Molly está?
–Acho que na lavanderia. –Respondeu Jimmy aos sussurros.
–Ótimo. –Ela começou a subir a escada, com ele logo atrás. Ela empurrou, com dificuldade, a portinha e os dois passaram. Jimmy olhava tudo com olhos enormes.
–Uau. –Ele exclamou. –Olha só para esse lugar.
–É bem legal, né?
Jimmy começou a andar pelo cômodo, explorando tudo e soltando frases aleatórias.
–Ei, uma coleção das revistas do Capitão América! Legal.
–Tem cheiro de coisa velha!
–Nossa, adorei esse lugar.
Crystal riu e olhou para o móvel tapado com o lençol, que parecia encará-la, como um fantasma. Ela desviou o olhar.
–Nossa, essa foto deve ter uns mil anos. –Jimmy ia dizendo. Crystal se aproximou dele e analisou a foto. Era de uma família, mulher, homem, criança. Ela sorriu, imaginando quem seriam eles.
Crystal mordeu o lábio e puxou a manga de Jimmy.
–Preciso te mostrar uma coisa.
Os dois foram para frente do espelho. Crystal descobriu o objeto e Jimmy arregalou os olhos.
–O que você acha?-Perguntou a garota.
–É lindo. –Jimmy estava quase enfiando o rosto no espelho.
–Eu sei. Descobri ele na primeira vez que vim aqui.
Os dois ficaram encarando o espelho até ouvirem barulho de passos.
–Molly! –Crystal arregalou os olhos, empurrou Jimmy para o lado e cobriu o espelho com o lençol de novo. –A gente precisa sair daqui.
Ela abriu a portinha.
–Anda logo!
Os dois desceram tão rápido que Jimmy tropeçou no final da escada.
–Vamos! –Crystal o arrastou até o quarto mais próximo, que era o escritório de Frank. Os dois se esconderam atrás do sofá. Crystal estava nervosa. Não podiam estar ali.
–Aquele é um espelho mágico. –Jimmy comentou.
–Cala a boca! Frank pode entrar.
–É sério, Crystal. –Ela olhou para o amigo. Ele parecia muito sério para alguém com nove anos. –É mágico.
Ela ficou em silêncio e os dois esperaram até Molly descer.
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