Under The Mirror
1 New House, New Life
Notas iniciais
Espero que gostem!
-Vá brincar de alguma coisa. –Disse a mãe de Crystal. A menina suspirou.
-Não conheço essa casa.
-Então vá explorar. Sabia que temos um sótão agora? Não tínhamos um sótão na outra casa.
-Mas tínhamos um porão. E a macieira. E Jimmy.
-Querida, você já viu o pomar que tem lá atrás? É cheio de limoeiros.
-Não gosto de limões. São azedos. Prefiro maçãs.
-Sabe qual é o ditado? Se a vida te der limões, faça uma limonada. –Sua mãe sorriu, se virando e indo colocar uma caixa de papelão na mesa. Crystal bufou e saiu batendo os pés.
Ela andou até a porta da frente e sentou-se nos degraus de concreto, olhando infeliz para a estúpida fonte de pedra. Ela detestava aquela fonte. Detestava o cheiro de limões que vinha do pomar. Detestava aquela casa idiota. E detestava o novo noivo da mãe. Se não fosse por ele, elas nunca teriam saído da maravilhosa casa de dois andares só para irem morar naquela monstruosidade que tinha sótão, salas de jantar enormes que ninguém nunca comia e uma fonte idiota no pátio de entrada. Ela enterrou a cabeça nas pernas, chateada. Queria chorar, mas também não queria.
Crystal ouviu um barulho e ergueu a cabeça. Viu um gato preto se lambendo no muro vivo. Tombou a cabeça para o lado. Sua mãe não gostava de gatos, mas Frank dizia que eles eram bons para deixarem a casa livre de ratos e baratas. Crystal não gostava nem de ratos e baratas, então gostava dos gatos.
Quando os brilhantes olhos de lanternas do gato se encontraram com os dela, ela o encarou. Os dois ficaram se encarando por muito tempo até sua mãe a chamar para entrar. Crystal foi, desconfiada.
-Sabia que tem um gato no muro vivo?-Ela questionou, sentando-se na cadeira para jantar.
-Um preto?-Perguntou Frank, colocando uma jarra de suco na mesa. –Ele ronda a vizinhança.
-É de quem?
-De ninguém. Da natureza.
A mãe de Crystal franziu o nariz.
-Não gosto de animais selvagens. Eles têm pulgas e doenças.
-Mere, o gato nem entra em casa. –Riu Frank. Crystal os observou, o cenho franzido. Só Frank chamava sua mãe de Mere. –Ele só fica na hera, passeando.
Crystal apoiou os cotovelos na mesa e se esticou para pegar o purê.
-Crystal, tenha modos. –Sua mãe repreendeu, sentando-se como uma verdadeira dama. Crystal girou os olhos, encarando o prato vazio. Ela via seu reflexo pela porcelana.
O jantar se passou e ela ficou em silêncio. Sentia falta da velha Sra. Wallabanger ligando a TV para ouvir o noticiário noturno ou das crianças mais velhas rindo nas esquinas. Agora tudo o que ouvia era o pio de uma coruja e latidos de cachorros.
-Bem, hoje foi um dia cheio. Já pra cama, mocinha. –Sua mãe a levou pela mão. Molly, a nova empregada, recolheu os pratos em silêncio. Crystal a olhou, curiosa. Ainda não tinha tido a oportunidade de falar com ela.
Enquanto ela se ajeitava para dormir, sua mãe analisava o quarto.
-É, ficou ótimo.
Crystal olhou ao redor. O quarto era o dobro do tamanho do antigo, com mais espaço e mais janelas. A cama era maior também.
-Por que tudo ficou maior?
-Porque as coisas ficam maiores com o passar do tempo. Vem cá. Vou te colocar na cama.
Crystal escorregou por entre os cobertores, olhando para a janela aberta. Sua mãe sentou-se ao seu lado, lhe dando um beijo na testa.
-Vai melhorar, meu amor. Sempre melhora.
-Estou com saudades do Jimmy. –Confessou Crystal. Jimmy era o seu melhor amigo no mundo todo. Eles caçavam sapos juntos na lagoa.
-Ele também está com saudades de você. A Sra. Gyllenghal me telefonou hoje, dizendo que Jimmy estava triste.
-Ele pode vir nos visitar?
-Claro. Qualquer dia ele aparece.
Crystal sorriu.
-Boa noite, filha. Vou deixar a janela aberta, pra ficar mais fresquinho.
Crystal suspirou e apagou o abajur da mesinha de canto. Ela dormiu quase imediatamente. Sonhou com gatos escondidos em limões, que brotavam das grandes janelas. Quando acordou, se sentiu esquisita. Molly estava abrindo as cortinas, deixando os raios do sol entrarem. Crystal cobriu a cabeça com o travesseiro e gemeu.
-Está na hora de se levantar, mocinha. –Disse a empregada. Crystal descobriu apenas um olho. O cabelo ruivo de Molly brilhava com o sol. Pena que estava preso em um coque tão apertado.
-Seu cabelo é bonito. –Ela comentou. Molly sorriu.
-Obrigada. Está na hora de se levantar. Sua mãe vai te levar para a cidade, fazer compras.
Crystal gemeu e escorregou da cama.
-Que chato. –Reclamou. Molly separou a roupa da menina com cuidado. –Qual é o seu nome completo?
-Molly Eleanor Arbuthnot.
-É engraçado.
-É escocês. Vá para o banho.
Crystal rastejou para dentro do chuveiro e ligou a água. Estava deprimida, mas nem tanto. Ela planejava explorar mais a casa, principalmente o sótão enorme que tomava conta de todo o último andar. Quando ficou pronta, pegou uma laranja e entrou no carro com a mãe.
Fale com o autor