Under The Hell's Gaze
3 The Escape
Notas iniciais
Naquela casa pequena e apertada, só o barulho de gotículas de água a caírem no chão e a leve respiração de Kuroko eram audíveis. Mas, mesmo assim, a cabeça do ruivo tratava-se de uma incontrolável sinfonia de pensamentos. E por mais que não fosse da sua natureza esforçar-se e queimar os miolos com pensamentos que até poderiam parecer ridículos, não sabia como evitar ponderar nas imperfeições que o plano que desenvolveram poderia ter e de como estavam a arriscar tudo em algo que parecia impossível.
Estavam muito perto do fim mas ao mesmo tempo estava tudo apenas a começar. Havia passado uma semana desde que ele e Kuroko tinham-se tornado parceiros e decidiram partilhar votos de confiança para que pudessem garantir que a amizade que possivelmente surgiria do seu companheirismo não fosse um erro. Como afirmara ao azulado, contactou com alguém que previsivelmente estava onde pensara e essa pessoa certificou-se de que aquele grupo voltar-se-ia a reunir no suposto dia de amanhã. Só a menção de reunir o grupo fez com que os seus músculos ficassem tensos e Kuroko, observador como era, manteve-se num suspense e confusão sobre o que tinha aquilo de tão importante.
Entretanto, no "tempo livre" que tiveram entre os trabalhos
rurais, as curtas horas da refeição (que eram uma tortura para Kagami que tinha pouco que comer e aguentava fracamente a fome devido ao seu grande apetite) e as pequenas horas de sono, concentraram-se em explorar e aperfeiçoar o planeamento realizado, estudar o padrão de segurança dos guardas que se espalhavam pela cidade, e recolher (correção: roubar) materiais, como alimentos e armas, que arquivaram para a fuga que realizariam.
Tinham que se manter recatados e cuidadosos pois, se a palavra de que algo como isto chegasse aos ouvidos do imperador, uma catástrofe ia cair em cima deles e depois nada iria mudar. E ele prometeu que ia fazer tudo mudar.
Voltou-se para trocar de posição e cobriu-se melhor com o cobertor pobre que o protegia do frio presente no casebre, em tentativa de reconfortar-se e abraçar mais abertamente o sono que finalmente o estava a visitar. Não havia por que se preocupar. No dia seguinte tudo correria bem.
Tudo tinha que correr bem.
–X-
– O-oi Kuroko, para onde é que estamos a ir mesmo?
– O sítio onde vamos nos reunir com as pessoas que disseste.
– Isso sei eu! Mas...eu não sabia que este sítio existia em Rakuzan... — os olhos rubis vaguearam a tentar encontrar alguma referência que alertasse a sua mente que ele estava seguro naquele lugar. Sabia bem que existiam recantos na cidade que, mesmo que estivessem a ser controladas por guardas reais, eram menos vigiados pois eram nomeados de "inabitáveis" e "sombrios". As lendas urbanas surgiam só por uma gota de água cair no chão em locais como aqueles e Kagami pôde apenas engolir em seco quando ouviu sons irreconhecíveis.
A caminhada parecia infinita e a tensão presente no ar parecia aumentar a cada passo que davam. Estava perto, muito perto de chegar ao início, ao início do que iriam tornar o fim da tirania, e nunca se sentiu tão empolgado, tão confiante, tão entusiasmado. Ele sempre quis mudar o mundo desde que foi submetido ao terror horroroso que os humanos podiam criar mas agora que estava tão perto de agir estava a ser confrontado por um medo inexplicável. Já devia ter previsto que ia sentir algo como isto contudo, mesmo que pensasse assim, sabia que isso não ia acalmar o seu coração acelerado.
Começou a ver umas sombras surgirem por entre uns arvoredos e ouviu vozes a dizer palavras que não conseguia distinguir. Respirou fundo. Não podia voltar para trás agora. Ele ia fazê-lo.
– Que merda, eles estão atrasados! Como se atrevem a deixar pessoas mais velhas que eles à espera?! Eles precisam de aprender a respeitar os veteranos!
– Hehe, Hyuuga~, tens que falar mais baixo ou ainda recebemos visitas indesejadas~~! ..........e o Mitobe está dizendo que não podemos gastar nossas energias com intrusos!
– Acho que isso já é tarde demais para ser dito, eu vi algo a mexer-se...
– Eh? — um silêncio instalou-se no local e apenas os passos dos dois adolescentes a entrarem no lugar de onde as vozes vinham foi ouvido. Os olhos azuis dispararam a tentar reconhecer as silhuetas que estavam cobertas pelas sombras que as folhas das árvores produziam. E de entre elas identificou alguém que não esperava ver ali.
– Hyuuga-senpai?...É você...? — o seu usual tom monocórdico dobrou-se em algo confuso e um tanto espantado. A sua suposição foi confirmada quando a figura aproximou-se e demonstrou aquele que conhecia tão bem. Agora, fora da farda que usava na loja, o ar que emitia era menos profissional mas ainda um tanto sério e autoritário. Carregava às costas um saco cheio do que pareciam ser suprimentos materiais como armas e equipamentos. — Kagami-kun, não sabia que o Hyuuga-senpai pertencia ao grupo das "pessoas que conhecia"?
– Fizemos tréguas por agora... — os olhos do ruivo contraíram-se ameaçadoramente na direção de Hyuuga que pareceu apenas responder com um dos seus próprios olhares perturbantes. — Nós precisamos dele. Aliás, nós precisamos de todos os que estão aqui para o que vamos fazer.
– É bom saber que respeitas as nossas habilidades e que reconheces a nossa utilidades mas talvez seja altura de nos explicares porque nos pediste para nos reunirmos, Kagami. — um arrepio disparou pelo corpo do azulado. Talvez tivesse sido pelo tom de voz perigoso que Hyuuga usava ou apenas fosse o nervosismo, que estava presente desde que acordara, a despertar cada vez mais. Queria que fosse a segundo opção. Sentia-se mal só de pensar em ter um pouco que fosse de medo do moreno de óculos. Ele sempre fora impecável consigo, nunca falhando para ajudá-lo e curá-lo. Duvidar assim da sua lealdade e sentir-se desprotegido era até ofensivo.
– Sim~~, também acho que está na hora de nos explicares o que se está a passar, Kagami~. — a primeira figura a sair por entre as sombras foi um rapaz um pouco mais baixo do que Hyuuga, com os cabelos castanhos e olhos a combinar, e uma cara que parecia a de um gato. Atrás dele veio um outro que parecia ter um metro e noventa de altura e o seu corpo forte e musculado, intimidante, que se distinguia por entre as roupas, era totalmente oposto à cara simpática e gentil que a pessoa aparentava. Esta acenou com a cabeça que sim para a afirmação que o primeiro homem dissera.
Logo de seguida, o resto das figuras que ainda continuavam abrigadas na escuridão expuseram-se aos olhares intrigados e confusos que Kuroko possuía. Nenhum dos outros era muitíssimo alto, já tinha encontrado pessoas mais altas e sabia como lidar com elas, e todos estavam vestindo uma capa com um capucho de sarja e este tapava-lhes a cabeça. Com certeza era o que usariam para tentarem ser mais discretos ao escapar.
– Não há mais razão para adiar. Eu tenho que vos explicar tudo o que se passa e porque tive que nos reunir. — Ali estava um assunto que tomava toda atenção de Kuroko — não a parte de explicar a situação mas da menção do "reunir" dito com tanta frieza e crueldade. Ele queria entender o porquê de Kagami ficar tão incomodado sempre que se mencionava o passado ou até de cada vez que via o Hyuuga. E queria direito de ficar chateado pelo seu recém companheirismo formado com Kagami fosse ainda tão baseado em enigmas mas ele próprio não tinha qualquer razão para falar. — Este é o Kuroko. — indicou com a mão para a sua direção.
– É um prazer conhecer-vos a todos. O meu nome é Kuroko Tetsuya. Espero que possamos colaborar todos juntos. — curvou-se respeitosamente e quando se indireto viu que os outros olhavam-no espantado até libertarem um grito em coro.
–EHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH? HÁ QUANTO TEMPO ESTÁS AÍ?!
– Eu estive aqui o tempo todo... — conteve um sorriso. Já tinha vivido aquela sensação tantas vezes que agora lhe trazia memórias. Memórias..
– Bem, ele acolheu-me em casa dele depois de eu ter saído de cativeiro e nós acabámos por engendrar este plano para o qual precisamos de vocês. — todos tencionaram naquele momento e o olhar de Kagami enrijeceu, ficando mais sério e decidido do que Kuroko alguma vez tiveram visto. — Eu preciso de vocês para derrotarmos o Akashi...
– Tu estás doido?! — a voz de Hyuuga ecoou no silêncio que tentaram preservar. — Isso é escusado, não se lembram de todos os que se aventuraram para tentar enfrentar o imperador? Eles nem sobreviveram para serem executados! É melhor desistirem antes de fazerem um erro enorme—
– Não, Hyuuga-senpai! — pela primeira vez a voz de Kuroko soou forte e confiante. — Nós já pensámos e estamos completamente decididos em fazer isto. Sabemos como provocar um coup d'état repentino ia acabar com a morte de todos. Por isso é que decidimos que vamos fugir da Rakuzan.
– Fugir? — um rapaz de olhos pretos inteligentes, parecidos com os de águias, e cabelo curtos lisos que combinavam com a cor dos olhos, fez-se ouvir pela primeira vez, e manteve uma expressão calma e controlada.
– Sim, Izuki-senpai. Saímos daqui e planeámos melhor como derrotar o Akashi. Só falar disso aqui já é perigoso com toda a vigilância por isso o Kuroko propôs escaparmos. — Hyuuga ajeitou os seus óculos e, ainda parecendo pouco conformado, virou-se para Kagami irritadamente.
– E como estão a planear fazer isso?
– Precisamos de saber se podemos confiar em todos daqui antes de dizermos, Hyuuga-senpai. Por isso, vocês concordam com isto ou não?
Todos pareceram trocar olhares. Era normal estar hesitantes com a situação — a sobrecarga de medo diária que era imposta pelo imperador, pelos seus generais e pelos guardas até, era exuberante e aterradora — contudo haviam uma chama de determinação, de esperança a queimar nos olhos de todos. Estavam todos saturados de ter que aguentar o inferno. E, precisos apenas alguns momentos de silêncio e organização de pensamentos, um suspiro e olhar de relance de Hyuuga confessou o ambiente.
– Acho que tu já sabes a resposta, Kuroko.
–X-
–X-
Os pequenos chinelos de couro gasto faziam um barulho redundante ao embater com o solo árido e as duas figuras que caminhavam pelas ruas em direção a um destino que só eles sabiam qual era, mantinham-se discretos mas puramente intimidantes para quem os olhava.
Pararam e encostaram a uma parede adjacente a uma pequena banca de fruta, que mesmo por entre a pobreza, se mostrava brilhante e rejuvenescente. Os olhares famintos dos dois pousaram no alimento contudo contiveram e focaram-se apenas no tópico em que falavam.
– Kagami-kun. — o azulado aproveitou para sussurrar quando o outro fingia que concertava algo no sapato, tentando não agir suspeitosamente. — Então, quando a sombra estiver a oeste* pomos o plano em ação e escapamos pelo portão secundário a sul?
– .....Sim. — o ruivo pareceu levar um tempo para se orientar com as coordenados geológicas mencionadas. Kuroko apenas conteve um riso abafado. — De acordo com o que me disseram essa é a nossa única chance. Se falharmos podemos precisar de muitas semanas para compensar e perderemos a confiança...daquelas pessoas. — de novo os enrijecimento dos músculos de Kagami foi algo que o menor tentou ignorar. — E não podemos deixar que algo disto passe ao imperador ou vamos ser condenados por traição.
– Eu sei... — o maior finalmente levantou-se e Kuroko lançou-se um olhar por entre a franja de cabelo claro que lhe tapava os olhos. — Falhar não é uma opção aqui.
– Tch. — o outro lançou-se um sorriso convincente mas um tanto desajeitado. Era até triste o quão notável era o facto de como um sorriso verdadeiro parecia forçado devido à falta de frequência que este fora usado nos últimos tempos. — Nós vamos fazer isto. Afinal dissemos que derrotaríamos o Akashi, não foi?
– Kagami-kun, fala mais baixo ou alguém vai ouvir. Se alguém for morto, és tu.
– Oi, seu traidor...! Não está aqui ninguém, descansa, não há por que ter preocupações.
Porém, Kuroko sabia que ele tinha que se preocupar. Era o seu instinto, um presságio, um pressentimento. E ele não sabia o quão correto estava, pois, no momento em que caminharam em uma nova direção, um par de pernas trémulas correram para longe do beco onde estavam.
–X-
Inspirar. Três passos da sul. Expirar. Três passos para norte e uma ordem para se afastarem mais para sudoeste. Sombras a exatamente 36º graus refletiam os raios de sol. 15 segundos. Inspirar, dois passos para norte, expirar, cinco passos para sul. 10 segundos. Dois ofusco de luz de norte e três pingas de água a caírem no lago a sudeste. Três passos para sul. 5 segundos.
– Eh? Oi, tu aí! De cabelo castanho!..Plebeu, estás a ignorar-me?! Oi, o que é que--NÃO MEXAS--!
As suas pernas receberam uma carga de adrenalina e conseguia ouvir a nordeste o peso das passadas de Kagami que já tinha começado a correr. Os guardas, distraídos com a ocorrência repentina que sofreram, ao aperceberem-se dos dois adolescentes que começaram a correr e ultrapassaram os lugares acessíveis a membros do povo, tentaram persegui-los numa tentativa falhada.
Os olhos azuis transitavam de lugar em lugar, a tentar controlar a posição de Kagami para manter e evitar ser visto por qualquer guarda que passava. De momento ainda não conseguia localizar os outros do grupo e uma inspiração de ar cortante entrou-lhe nos pulmões. Eram só nervos que teria de ignorar. Ele só esperava que com o que tinham falado, tudo corresse bem.
– É bom saber que todos concordam nisto. Quero apenas que tenham consciência de que se alguém se perder pelo caminho, as chances de acabar preso ou até mesmo executado, são mais altas do que gostaria que fossem..
– Não te preocupes, Kuroko. — de novo trocaram olhares e nenhum deles pareceu hesitar minimamente. — Vamos todos em frente com isto. Não penses que és o único farto da tortura que é o nosso dia-a-dia.
Um pequeno sorriso sincero e emocionado surgiu nos lábios do azulado que tratou de escondê-lo rapidamente. Sorrir daquela maneira era sinal de confortabilidade e demonstrar um sentimento daqueles para pessoas que ainda não confiava totalmente era um erro. Respirou fundo e lançou um olhar sério para todos. Depois fechou os olhos e só voltou a abri-los quando sentiu que a pequena insegurança e nervosismo que sentira anteriormente tinha-se dissipado completamente.
– O plano é este. Como sabe existem dois portões principais na cidade de Rakuzan: o principal, que encontra-se na ponta norte da cidade, e o de sul, por onde chegam os prisioneiros e escravos. Os dois são constantemente vigiados por vários guardas por isso escapar por ali seria praticamente impossível. -ao ver que ia ser interrompido por uma "voz da razão" mandou um olhar de confiança a todos. — Mas eu e o Kagami-kun, após dias a estudar os padrões de turnos dos guardas, descobrimos uma pequena abertura que podemos aproveitar. Todos os dias, a exatamente 20 minutos do pôr-do-sol, os dois guardas que vão substituir na proteção mais próxima do portão demoram mais 2 minutos do que deviam. Temos que aproveitar esse momento para distraí-los e afastá-los e assim fugirmos.
– Mas quem é que vai afastá-los? Não haveria tempo para voltar e ninguém vai ficar assim para trás, certo...?! — o rapaz de olhos de águia inteligentes perguntou, com alguma insegurança presente na voz.
– Ninguém aqui fará isso.....eu conheço pessoas que vão fazer este favor por mim, pessoas que me devem coisas...temos que fazer com que os seus sacrifícios não sejam em vão...vamos sair daqui e quando voltarmos que seja para acabar com este inferno de uma vez por todas.
Quando moreno de óculos se encontrou no seu campo de visão acompanhado por outros três: o dos olhos de águia, o que parecia forte mas tinha um sorriso simpático, e o de cabelos castanhos com uma cara parecida com a de um gato, sentiu-se relaxar minimamente (o máximo que conseguia no meio de uma perseguição). As passadas irregulares da corrida de todos ressoavam mais alto do que se desejava mas isso agora não era importante: estavam quase a chegar à meta, a finalmente atravessar para o outro lado das muralhas.
Um movimento repentino alertou-o que a outra parte do plano estava a ser cumprida: um dos jovens, cujo nome, enquanto explicava o que se ia prosseguir, descobriu que era Tsuchida, manteve-se escondido perto do portão para que, quando o caminho estivesse livre, dirigisse-se até lá o mais rápido possível e abrisse a passagem de modo a que não houvesse mais impedições para concretizarem o esquema.
As portas estavam abertas após um evidente esforço da parte do outro; não havia qualquer impedimento da passagem e no seu campo de visão estavam todos a correr até lá; o plano ia concretizar-se e os guardas estavam ainda longe de conseguir fazer algo para o impedir.
Estava a ser fácil demais.
Olhou em volta em busca de alguma armadilha mas não viu qualquer sinal de que uma estava plantada. E foi aí que ouviu algo que preferia ter ignorado, algo que preferia que fosse apenas uma partida da sua mente: um som de uma seta a cortar o ar e um grito de dor vindo de trás de si, que fez um pânico familiar surgir no seu peito.
Ao virar-se viu que Izuki sangrava e um pedaço de madeira com um bico de metal estava espetado na sua perna. Este tentava levantar-se contudo o ferimento permanecia do lado da gravidade e a dificuldade em levantar-se era superior às suas forças.
Hyuuga, sem hesitar, baixou-se e pôs um dos braços de Izuki envolta do seu pescoço para ele se apoiar e conseguir levantar-se e Kuroko, que tinha praticamente ordenado os outros dois para continuarem a correr, foi também ajudar o de cabelos negros a andar, reparando nos guardas que, agora em maior quantidade, se aproximavam cada vez mais rapidamente.
Quis matar-se pela onda de desespero que passou pelo seu corpo.
As setas dissecavam o ambiente e voavam pelo pouco espaço em que corriam logo desviar-se delas tornava-se cada vez mais difícil. As palavras de Izuki, que se desculpava e autoproclamava de inútil e estorvo, eram como uma pedra a carregar às costas, um presságio da derrota. Os guardas, do topo da muralha, começavam a fechar as portas e por momentos ele pensou que não iam conseguir.
Por momentos desistiu completamente do plano e desejou desaparecer.
Mas já estava perto. E então fez a única coisa que podia fazer. Numa única ordem, mandou todos passarem para o outro lado o mais rápido possível, empurrou Izuki para os braços de Kagami e comandou-o a carregá-lo e correr imediatamente. Com todas as forças que os seus braços fracos e abusados possuíam, empurrou as portas de modo a mantê-las abertas. O seu corpo parecia estar a ser esmagado e sentia todos os ossos do seu corpo a serem destroçados com a sobrecarga de força que estava a exigir ao corpo, e quando viu Kagami a passar, começou a puxar as portas para estas fecharem de vez, chegando a ficar no meio entre as duas, completamente desprotegido para o inimigo. E então uma flecha voou na direção da sua cabeça e, nesse momento, ele viu a morte a passar-lhe pelos olhos.
Não se lembra do que aconteceu a seguir. Só se lembra de um estrondo enorme, como se duas rochas enormes tivessem sucumbido de uma falésia e embatido com o chão, de sentir o corpo a ser puxado com extrema força, momentos antes de quase ser morto pela flecha, e de cair para o chão, olhando para a frente e ver de fora as grandes muralhas da cidade Rakuzan.
Ele estava a ver de fora. Passado 3 anos finalmente estava no lado de fora daquela cidade.
Foi relembrado pela voz apressada de Kagami que ainda tentariam capturá-los e após levantar-se e recompor-se com a ajuda do ruivo correu atrás dos outros que já iam a avançar para a floresta. As ordens gritadas dos guardas e as setas que deambulavam pelo ar depressa deixadas para trás na sua corrida veloz junto com o pânico e o nervosismo que ainda faziam o seu coração palpitar muito apressadamente foram algo que prometeu abandonar naquele portão. E naquele momento, escondida entre a sua franja azul bebé e a respiração ofegante, libertou um sorriso aliviado e felicíssimo.
Estavam um passo à frente para a liberdade.
–X-
O silêncio impregnado naquelas quatro paredes propagou-se durante alguns segundos, mais do que deixariam qualquer um confortável, até serem interrompidas por uma voz tão suave e fria que era aterradora.
– Podes repetir o que disseste? — olhos heterocromáticos brilharam de uma inocência falsa pousando diretamente na figura de um homem trémulo, de roupas esfarrapadas e um ar paupérrimo desesperado.
– A-Akashi-sama, p-pe-perdoe-me p-p-por não ter dito mais cedo m-mas—!
– Eu disse para te repetires e não para me dares desculpas. — puxando a mesa onde se encontrava um jogo inacabado de shogi para o lado, levantou-se do trono onde se havia sentado e relaxado, aproveitado a agradável calamidade inconstante do reino. — O, que, disseste?
– E-e-eu o-ouvi d-d-dois r-rapazes, q-que pareciam adolescentes por isso devem ser indefesos! U-um era alto e ruivo e o outro pequeno e com cabelos muito claros...p-pareciam azuis...e-e e-eles disseram que...i-iam fugir...p-para fazerem uma revolta....
Um desgosto desprezável sobrevoou pelos olhos de Akashi e o anterior brilho foi tapado pelo ódio repugnante que surgiu. Algo que descrevia como raiva ferveu no seu estômago e sentia que podia vomitar só de ouvir aquilo. Como se podiam atrever a desafiá-lo a si e ao seu poder para se rebelarem e tentarem fugir?! Suspirou e depois deitou uma risada nasal desprezível. Sem se aperceber começou-se a rir levemente enquanto um sorriso maniacamente maléfico surgia os seus lábios. Então esta era a sua jogada? Esta era o movimento que o Tetsuya ia fazer?
– Sua majestade! — a voz do seu general fez com que direcionasse o seu olhar, de novo luminoso, para a porta, onde viu-o entrar junto de um guarda pálido e ofegante, com uma aparência nervosa e insegura. — Problemas, sua alteza~. Um grupo de rebeldes acabou de conseguir escapar pelo portão do sul! E pelo que me disseram um deles foi o Kuroko~. — mandou um amargo olhar de relance ao pobre coitado que se curvava no chão e, depois de suspirar pesadamente, retirou os vestimentos mais pesados que vestia, ficando apenas em roupas simples, mas com um aspecto exageradamente luxuoso.
– Se foi tão recente, não podem estar longe. Duvido que consigam andar tão depressa assim, por isso, eu próprio vou tratar deles. — ignorou a presença do plebeu e arrancou a espada que o guarda usava passando por os dois indiferentemente.
– O-o quê? A-A-Akashi-sama! N-não podem deixá-lo—!
– Estás a desafiar a minha ordem, simplório? — apenas um olhar e o guarda congelou de pavor. Este foi redirecionado para o comandante que não deixou de tremer um pouco com a intensidade. — Controla tudo enquanto estiver fora, Reo. — antes de continuar caminho cativou no canto do olho o homem do povo a relaxar e libertou um sorriso com tal acto tolo. — Ah, e mata-o. — apontou a mão para o pacóvio e sem mais nenhumas palavras deixou-os.
–X-
O oxigénio a entrar-lhes nos pulmões dava-lhes uma sensação de alívio esperada à demasiado tempo e agora, finalmente longe das muralhas sufocantes da cidade da Rakuzan e protegidos entre os arvoredos altos, aproveitavam o curto e merecido descanso após a batalha exaustante para fugir.
Só passados uns bons minutos alguns risos curtos e baixos surgiram entre as respirações aceleradas. Uns pequenos sorrisos começaram a brotar dos lábios e estes logo se transformaram em largos sorrisos honestos e alegres, dentro dos quais gritos de vitória, como um hino, ressoaram por toda a floresta, fazendo os pássaros que pousavam nos ramos das copas das árvores levantarem voo.
– Nós conseguimos Kuroko..!! — os olhos azuis pareceram arregalar um pouco quando, pela primeira vez, viram um sorriso brilhante e sincero no rosto do outro. E uma melancolia atingiu-o como uma espada ao ver o punho do outro estendido à espera de ser atingido pelo seu, algo que fez com um mínimo de hesitação ignorada pelo outro. — Finalmente saímos da Rakuzan e agora podemos—
– Tch, podem o quê? Onde é que pensam que vão?
Um silêncio indesejável rastejou pelo lugar e todos os olhares dirigiram-se para uma figura magra e ruiva que se encontrava sentada confortavelmente num ramo de uma árvore, a olhá-los a todos de cima, a subjugá-los. Porém, um par de olhos da cor do céu limpo nem se atreveram — já conheciam bem demais aquela voz para não reconhecerem a pessoa que a possuía.
– AKASHI!! SEU CABRÃO, VOU TE MATAR!! — os olhos rúbis queimaram de fúria incontrolável e no momento em que Kagami ia para empunhar a espada, à velocidade de um piscar de olhos, sentiu-se receber um corte deveras profundo, tanto no orgulho como na bochecha.
– Não te atrevas a desafiar-me assim, Kagami Taiga, ou juro-te que te vais arrepender. — os músculos do ruivo flexionaram quando uma espada foi-lhe encostada à garganta e deixou-se ficar ali parado, como um inútil, cobarde e fraco, à mercê nas mãos de Akashi. — Não me levem a mal, mas eu acho isto hilariante.
– Qualquer um vai levar a mal se fores tu a falar, Akashi! — a arma inclinou-se cada vez mais e, ao ver de relance como os outros pareciam cada vez mais nervosos e inseguros, decidiu calar-se pelo momento.
– Como é que se foram lembrar de uma ideia tão estúpida como esta? Fugir de mim não vai resultar em nada, que ridículo! Tetsuya — os olhos bicolores brilharam com a familiaridade que o nome rolava para fora da sua boca e este, ao reparar como todos tencionaram com a intimidade como pronunciava o nome do azulado, sorriu mais. — O que estás a pensar fazer com isto?
– Nós vamos derrotá-lo, Akashi-sama. Vamos organizar as forças suficientes e, quando voltarmos a Rakuzan, vamos acabar com o seu império. — a determinação acesa nos olhos azuis era tão evidente que se transmitia pelas palavras — estas que ao serem afirmadas pareceram trazer uma confiança a todos que se encontravam ali.
"Interessante. Demasiado interessante" – Não vou parar-vos. — voltou a embainhar a espada e começou a andar em passadas lentas e cuidadosas, que bem contrastavam o sorriso maldoso e indiferente estampado no seu rosto. — Eu vou ficar à espera do dia em que as vossas "determinações" fiquem perto de se realizar. — olhou fixamente para Kuroko contornando-o apenas quando certificou-se que não havia quaisquer traços de hesitação naquele olhar. — Boa sorte, Tetsuya.
A figura do imperador desapareceu gloriosa mas apressadamente. Dava-lhes uma segurança que ele se sentia inseguro entre tantos inimigos mas todos sabiam que era uma ilusão — o Akashi conseguiria derrotá-los a todos ao mesmo tempo se quisesse e isso era mais que frustrante. E embora não admitissem, o medo deixou-se pairar por uns longos minutos, mesmo quando o ruivo estava longe dos seus campos de visão.
– Estás bem, Kagami-kun?! — a voz alertada do azulado, que correra para perto do maior, relembrou-os do que se tinha passado e alarmou Hyuuga que devia fazer um curativo antes que aquela ferida infetasse. Mais trabalho
para ele logo após ter cuidado da perna de Izuki...
– Eu estou bem...- por mais confiantes que fossem as suas palavras os joelhos trémulos cederam e fizeram-no sentar-se na relva húmida. — A minha mente já está a abarrotar do Akashi. Não vou deixar isto interferir em nada, se for fazer algo é motivar-me a esmagá-lo completamente!
– Hm, mas pessoal~. — todos os olhares dirigiram-se para o rapaz com a cara de gato. — Agora que penso nisso, nem pensámos onde íamos ficar~. Com certeza não estão com intenções de passar o resto do tempo a viver na floresta, estão? — todos calaram-se e ponderaram sobre isso. Era verdade que nem tinham comentado nada sobre onde ficariam instalados nem como se organizariam após fugirem. Tinha sido irresponsável deles.
– Eu sei um sítio. — quem captou a atenção agora fora Izuki, que pousou a mão no queixo enquanto mostrava a insegurança da sua hipótese. — Ela ainda deve estar lá, ela disse que não sairia dali...
– T-tu não podes estar a falar...?! — os olhos de Hyuuga arregalaram-se como esferas.
– Sim, exatamente. A ex-princesa do reino da Seirin, Aida Riko.
Ela ainda está à nossa espera.
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