Undead World.
21 Capítulo 21 - Welcome to Calico.
Notas iniciais
– Charlie, eu ... Eu fiz merda. –
– O que você fez agora? – Charlie indagou distraidamente, vidrada na televisão onde jogava algum jogo da franquia Resident Evil. Quando um momento silencioso se passa, a garota loira pausa o jogo e então foca o olhar na sua irmã mais nova plantada em sua porta, ela parece pequena e vulnerável, o capuz de seu moletom preto do Metallica apertado em volta do rosto. –
– Quinn? O que há de errado? – Ela pede uma segunda vez. –
– Papai vai me matar. – Quinn sussurra. Ela solta os cordões do moletom e então puxou a touca da cabeça. Os olhos de Charlie se arregalaram. –
– Caramba ... O que você fez ... –
Lá se foi o cabelo longo e dourado que se combinava perfeitamente com o de Charlie, até o mesmo aroma suave de morangos que compartilhavam, substituído por um cheiro ardente de tinta. O cabelo de Quinn estava num rosa brilhante, algumas raias loiras à esquerda, e está curto, acima dos ombros, agitado e elegantemente desarrumado.
Charlie gasta dois segundos em estado de choque, pois Quinn é sua gêmea idêntica, e então é surreal ver seu rosto cercado por algo que não sejam as madeixas douradas.
– Esqueça o pai – Diz Charlie, arqueando uma sobrancelha. – Mamãe vai te matar. Na verdade, eles vão te matar juntos, provavelmente. A primeira coisa que concordariam em anos. –
Quinn não disse nada, mas em seu rosto criou-se uma expressão de pânico. Quase que instantaneamente, Charlie se sentiu horrível.
– Desculpe. – Diz ela. – Olha, não haverá nenhum assassinato, e nós temos quinze anos, então não podem te expulsar de casa, não importa o quanto o papai falará disso. Mesmo assim, você vai ouvir um monte. –
Quinn engole seco e então assente, um tanto mais relaxada.
Charlie dá um tapinha do seu lado na cama e então sorri para Quinn quando a mais nova senta-se ao seu lado.
– Eu até que gostei – Ela diz calmamente. – Combina com você. –
– Mesmo? – Quinn pergunta, insegura. –
– Vai levar um tempo pra me acostumar, mas sim, eu gostei. A Frannie também vai gostar. –
– Eu acho que vou me trancar no meu quarto e nunca mais sair. – Quinn murmura.- Você pode me levar o jantar nos próximos cem anos? –
– Você vai ter que mostrar para a mamãe hoje de manhã. Ela pode preparar o pai um pouco, pra que ele não tenha um ataque cardíaco e, literalmente, morra. –
– Não, eles não podem ver isso, nunca. – Quinn quase grita, porém logo lembra-se da irmã mais velha e dois pais dormindo nesse exato momento. — Merda, onde eu estava com a cabeça? –
– Algo a ver com esse negócio de auto-expressão punk, provavelmente. –
Quinn lhe lança um olhar mortal, e Charlie apenas ri desconfortavelmente.
...
– Charlie, eu ... Eu fiz merda. –
A primeira vez que Quinn lhe disse isso, há aproximadamente dois anos atrás, fora por causa do novo estilo; O cabelo rosa, os piercings, algo que rendeu um falatório de três horas vindo de seu pai. Então, se ela estava dizendo que fez merda, é porque ela realmente fez merda.
– Deixa eu adivinh- Ela foi cortada por um abraço, Quinn apoiou a testa em seu ombro, e ela só faz isso quando está assustada, algo que as acompanha desde a infância. –
– A-a Berry ... – Quinn murmura, a voz fraca de quem pode chorar a qualquer segundo. –
– O que tem a Berry? – A loira indagou com a voz calma e acolhedora, passando gentilmente as mãos nas costas da mais nova cobertas pela jaqueta de couro. –
– A-a Berry ... E-ela está grávida, Char. E-eu a engravidei. – E então Quinn começa a chorar, sendo amparada por Charlie, em estado de choque. Daquela vez, Quinn passou muito do limite. –
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– Hey, o que foi? Cê tá encarando o nada aí, parece até que se perdeu no tempo. – Charlie pergunta sem olhar para Quinn, prestando atenção nos mapas abertos no painel do carro. –
A garota loira dirigia o Cadillac enquanto Quinn cuidava de Beth, fazendo várias caretas para a criança sorridente, que ria de sua mãe como se sua vida dependesse disto. No banco de trás, Brittany e Rachel dormiam escoradas uma na outra, enquanto Santana gastava seu tempo afiando algumas facas, já que não tinha realmente nada para fazer.
– Pensamentos distantes. – Quinn responde simplesmente, segurando Beth contra si. –
– Hm ... Tá ... Estamos no Condado de McKinley, Novo México. Irônico, não? – Ela sorri de lado, e Quinn solta um riso fraco e tristonho. Ela pode quase nunca falar sobre isso, mas sente falta da sua vida normal. Todos sentem, na verdade. –
– Eu nasci aqui – A voz fraca e sem graça de Santana alcança seus ouvidos. – Novo México. Silver City, uma cidadezinha pequena, bem parecida com Lima, por isso que nos mudamos pra lá, eu acho. Mas tenho parentes aqui. – Julgando pelo estado horrível em que Albuquerque se encontrava, Santana logo pensou na família, e no final trágico que eles tiveram, e aquilo doeu como o inferno, até mesmo para a maior vadia do McKinley. Ninguém viu, mas seus olhos lacrimejaram. –
– Sinto muito .. – Charlie murmura, de repente se sentindo horrível. –
...
– ... E quando o Ryder chegou, eu já havia quebrado o nariz do Kurt! – Marley exclamou enquanto ria da careta que o irmão mais velho fazia. –
– Ryder só te protegia sempre por que você é a mais nova. – O rapaz murmurou, cruzando os braços em falsa ofensa. –
– Quem é Ryder? – Sam indagou sem tirar os olhos da estrada, seguindo de perto o Cadillac de cor cereja. –
– Nosso irmão mais velho. – Responderam os irmãos Hummel em perfeita sincronia. –
E então ficaram em silêncio, ainda era difícil para eles tocar em um assunto tão delicado quanto suas famílias, já que todos ali perderam-nas, até mesmo Marley e Kurt, ou Quinn e Charlie. Já alguns, como Kitty, nem sabiam o que havia acontecido com seus parentes direito, mas já os consideravam mortos, e aquilo era difícil de se aceitar, todos que te acompanharam na vida sendo assassinados de uma maneira brutal. Mesmo estando entre amigos, eles sentiam sozinhos no mundo.
– Você era uma criança ridícula! – Marley comentou para Kurt, numa tentativa de amenizar o clima pesado criado no carro. – Com aqueles suspensórios e as meias três quartos. –
– Você era uma criança ridícula – O rapaz de cabelos avermelhados disse em tom de brincadeira. – Você se vestia que nem uma versão menor da Berry! –
De brincadeiras e falsos insultos eles partiram para uma briga nem um tanto fraternal, com insultos idiotas e tapas, enquanto Kitty tentava intervir e chamava-lhes a atenção assim como uma mãe irritada. Logo Puck tentou interromper a briga e então Sam, e assim todos estavam gritando sem um motivo plausível.
– Calem a boca, eu quero ouvir! – Puck gritou com o pequeno walkie-talkie colado em sua orelha, numa tentativa falha de escutar o que Charlie tentava lhe dizer. –
– Olha aqui, você não me manda calar a boca, Puckerman! – Kitty gritou de volta, e quando Marley teve um ‘pequeno’ ataque de riso, a loirinha se concentrou em estapear a namorada e também Kurt, mesmo que o rapaz não estivesse envolvido na pequena DR. –
– Eh ... Vocês estão podendo falar? – Charlie indagou um tanto receosa, escutando os gritos como plano de fundo para a voz de Puck . –
– Mais ou menos. O que foi, cópia? – Ele indagou com uma certa dificuldade, segurando a mão de Kitty que tentava estapeá-lo a qualquer custo, enquanto uma Marley risonha segurava a pequena pela cintura. –
– A-acabamos de passar de Flagstaff, então temos só mais quarto horas de viagem, aproximadamente ... Se cuidem aí. – E então desligou seu walkie-talkie. –
Puck suspirou e então assentiu.
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Eram aproximadamente seis horas da tarde, se você olhasse pelas janelas veria o belíssimo pôr do sol, logo dando lugar à uma noite estrelada e estranhamente, quieta de mais, pois literalmente, estavam no meio de um deserto.
Fizeram a única curva encontrada em quilômetros, e então lá estava a velha cidade fantasma de Calico. O que sempre fora aberto para o público, agora era rodeada por pneus grandes, talvez de tratores, e muros altos improvisados com concreto e madeira e também duas torres, que Charlie supôs serem para vigia.
Assim que pararam na entrada da cidade, em frente aos seus portões grandes e intimidadores, cerca de cinco homens apareceram em cima do muro, com coletes aprova de balas e metralhadoras.
– O que querem aqui? – Um deles grita. Os canos de suas armas apontados exatamente para a cabeça de cada um dos adolescentes que descem dos carros. –
– Pode crer que não é confusão. – Quinn grita de volta, levantando as mãos na altura da cabeça. – Escutamos o chamado de vocês alguns dias atrás, e bem, cá estamos nós. –
Os homens se entreolham e cochicham entre si, e logo um deles desceu do muro. Segundos depois, os portões se abriram, revelando ainda mais homens armados, e na frente deles, um homem bem vestido em seus prováveis cinquenta e poucos anos, ruivo e com cabelo e barba bem feitos.
– Olá! – Ele fala, sem se importar em esconder sua empolgação. – Me chamo John Beale, bem-vindos à Calico. Eu espero que não se incomodem com as armas apontadas para vocês, mas é necessário, imagino que tenham noção de como são os dias de hoje. Então, peço que por favor entreguem suas armas. É regra da cidade, ninguém anda armado por aqui tirando os guardas. –
Quinn aproximou-se lentamente e então estendeu a mão para o tal John, e o homem cumprimentou-a de bom grado, sempre com um sorriso estampado por trás da barba alaranjada.
– Quinn Fabray. –
– Senhorita Fabray, imagino que você seja a líder do grupo, não? –
– Na verdade, não temos um líder, eu acho. Somos uma equipe. –
Ele ri alto, e Quinn imagina que vai gostar desse homem, ele parece divertido.
– Ótimo, ótimo, quanto mais trabalho em equipe melhor, não? Bem, peço que entreguem suas armas para este rapaz aqui – Ele coloca a mão no ombro de um jovem alto, loiro e de olhos azuis com barba por fazer. – Joe, leve-os para a minha casa depois, sim? –
– Sim senhor. –
...
Aquilo era incrível. Pessoas, várias delas, agindo como antigamente. As crianças brincavam com seus cachorros nas ruas, os pais ficavam na pequena praça improvisada conversando calmamente enquanto seus filhos brincavam de heróis ou matadores de monstros, como eles chamavam os mortos-vivos, e apesar de serem velas, tudo era bem bonito e iluminado, não deixando um pedaço sequer de escuridão pelas ruas da pequena comunidade em estilo faroeste.
Na pequena prefeitura de madeira, onde John, o aparente prefeito/governador morava, estava o grupo todo sentado ao redor de uma mesa observando o homem ruivo, sentado na ponta.
– Podem perguntar o que quiserem. Imagino que tenham muitas coisas em mente. – Ele fala, sorrindo gentilmente. –
– Tem doces aqui? – Marley é a primeira a perguntar com seu jeito infantil e divertido, e John logo ri alto. –
– Temos alguns. – A morena comemora internamente, mas por fora apenas solta um sorriso expansivo. –
– Quantas pessoas moram aqui? Tem mantimentos para todos? – Foi a vez de Rachel perguntar, enquanto segurava Beth no colo. A garotinha loira olhava para todos curiosamente, provavelmente se perguntando sobre o que estava acontecendo. –
– Oitenta e sete, agora, com vocês, noventa e oito. E sim, podemos sustentar todos até o próximo inverno despreocupadamente. – Ele assentiu, animado. –
Foram poucas as outras perguntas, até que foram interrompidos por uma garota ruiva, não muito mais velha do que vinte anos. Ela adentrou a prefeitura com um pequeno bloco de anotações em mãos, aparentando nem perceber que haviam pessoas novas lá.
– Papai, vamos precisar de mais cadernos e também- oh – Ela murmura, quando finalmente sobe o olhar e percebe a presença do grupo novo. – Me desculpe, não vi que estava ocupado. –
– Não, tudo bem querida – Ele sorri e a garota retribui, o mesmo sorriso estampado em seu rosto. Realmente, ela era muito parecida com John. – Essa é minha filha, Chloe. –
– Olá. – Ela então sorri para eles, e Charlie de repente se sente corar. Aquela garota era linda. Muito mais do que linda, talvez. Seus olhos eram profundamente azuis como o céu de um dia ensolarado, e seu sorriso era exuberante, de alguém que ainda via esperança mesmo naquele mundo. –
Quando Quinn percebe que Charlie está praticamente babando pela ruiva, logo chuta a canela da irmã gêmea por baixo da mesa, que se segura para não xingá-la, mas novamente sorri para a ruiva, e quando é correspondida, ela rapidamente cora.
– Bom, podemos voltar a conversar amanhã, estou meio cansado. A idade chega para todos, não é? – Ele sorri. – Temos quatro quartos sobrando no hotel, suas coisas estão lá, me desculpem a intimidade. Vinte, vinte e quatro, vinte e seis e vinte e oito. Aliás, a água é limitada, então economizem – Após isso, os olhos de Marley brilharam. – Boa noite. –
Rapidamente o grupo se retirou, ainda observando a pequena cidade onde o mundo não acabou como se fosse bom de mais pra ser verdade. Enquanto caminhavam pela rua única de asfalto sujo com areia que seguia reto até o fim da cidade, Charlie sentiu alguém segurar seu ombro, e quase que numa ação automática, ela levou a mão até o bolso da calça jeans, mas quando viu que sua arma não estava lá, teve um ataque interno de pânico.
– Hey, relaxa – Uma voz acolhedora e amável chegou ao seus ouvidos, e quando a loira virou-se, logo deu de cara com Chloe. – Eu nem imagino pelo que você deve ter passado pra ficar tão desconfiada desse jeito. –
– E-eu ... Hm ... É-é. – Ela murmurou, enrolando-se nas palavras e sentindo suas maçãs do rosto esquentarem. Quando a ruiva soltou um risinho fraco, ela sentiu uma concentração de sangue forte no meio de suas pernas. –
– Sabe, você não me disse o seu nome ainda. -
– E-eu ... Charlie ... – Ela riu sem graça. –
– Charlotte, não é? É um nome bonito. – A ruiva sorriu, e a loira quis morrer. –
– Fabraaay! – Santana gritou, e de repente Charlie só quis que a latina calasse a maldita boca. – Vai ficar aí? –
– V-vou? – Ela trocou um olhar com Chloe, e logo respondeu-a; — Vou. –
A morena assentiu e então entrelaçou sua mão com Brittany, voltando a se reunir com o resto do grupo.
– Então Charlie, quer dar uma volta? – Chloe pergunta, esperançosa, seus olhos azuis brilhavam em busca de uma resposta. –
– P-pode ser. -
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