Notas iniciais
22.07.2015, quarta-feira. Los Angeles, USA.
Eu havia chegado em casa após um longo dia de trabalho. As coisas tornaram-se agitada de um dia para o outro na empresa, muitas entregas, recebidos e encomendas. Atrasos a serem resolvidos e problemas surgindo, aconteceu tudo em um só dia o que o chefe não queria.
Para completar Jeffrey não estava lá, e colocara o controle da empresa todo sobre as minhas costas. Mas eu entendo, sua mãe teve uma queda de pressão e desmaiou, sua saúde estava indo de mal a pior e seu estado estava crítico e eu de jeito maneira poderia deixar meu cansaço físico e mental ultrapassar a necessidade maior como a de Jeffrey.
Joguei minha bolsa no sofá da sala e retirei os coturnos que estavam em meus pés desde as sete da manhã. Eu havia entrado um pouco mais cedo no meu expediente, e saído mais tarde que o normal. Estava exausta e com muita fome, minha cabeça latejava e meus olhos lutavam para manterem-se abertos e focar em algo.
— O dia parece ter sido difícil, hein? — escutei a voz do meu irmão logo após fechar a porta, a qual eu nem sabia que tinha se aberto e virei-me num pulo.
— Nem me fala. — respirei fundo retirando o casaco e coçando o nariz por fora. — Onde estava?
— Sua alergia está atacada?
— Não sei..., ó, não me enrola. Onde estava? — indaguei cerrando os cílios em sua direção e o deixando levemente constrangido.
— Hum... é, e-eu estava só dando uma volta. — pigarreei ao sentir certo nervosismo em sua voz. — O que foi Amelie?
— Nada não... preciso de um banho agora, mas quero falar com você depois! — dei-lhe uma piscadela e levantei-me do sofá, caminhando para a suíte do meu quarto e retirando toda a minha roupa. Entrei no box rapidamente e liguei o chuveiro deixando a água quente tocar a minha pele em seguida, sentindo aos poucos os meus músculos começarem a relaxar enquanto ela ia escorrendo por todo o meu corpo.
Molhei meu cabelo e escorei-me na parede, deixando a água escorrer por sobre mim durante um tempo. Eu não tinha esse costume, pois meus banhos eram sempre rápidos e eu relaxava depois, mas hoje eu sentia essa necessidade de ficar sob aquela água quente por um tempo a mais.
Passei uns óleos corporais, esfolheei meu corpo e assim que terminei meu banho, sai do banheiro enrolada numa toalha. Me sentia renovada. Então vesti um pijama de coelhos com cenourinhas verdes e calcei uma chinela verde, caminhando até a sala, procurando por meu irmão.
Gritei por ele algumas vezes, até o mesmo me avisar que se encontrava na cozinha, e logo rumei para lá.
— Yum... tá fazendo o que de gostoso ai?
— “Sandubão”, bem recheado de suculento. — lambi meus lábios ao ver duas carnes de hambúrguer em cada pão e sentei-me numa banqueta próxima do balcão de mármore no centro da cozinha.
— E ai, vai me contar o que se passa? — já fui logo perguntando, e se conheço bem Noah Looper, ele não ia fazer muitos rodeios.
— Conheci uma mulher.
— Quantos anos ela tem? — perguntei e o escutei sugar o ar, virando-se lentamente para mim.
— Então... espero que não se assuste e não enlouqueça, por favor... é que ela é bem mais velha que eu, tem vinte e cinco anos. — levantei as sobrancelhas em surpresa e ele riu pelo nariz.
— Eu não vou enlouquecer, mas uau... não sabia desse seu gosto pelas mais velhas...
— É, eu não gostava muito não, mas ai veio ela...
— Awww... — sussurrei fazendo um biquinho e mexendo o nariz de forma engraçada, o instigando a fazer uma careta cômica.
Assim que ele terminou de encher dois copos com suco de manga e colocou tudo numa bandeja de porcelana, nós seguimos para a sala e nos sentamos no tapete grosso.
— E você pode me ajudar? Se não vou enlouquecer.
— Oi? Ajudar em que? — indaguei pegando o meu sanduiche e soltando um riso.
— Ah... é que você é mulher, Amelie, e já se relacionou anteriormente com o Dylan... — sua voz diminuiu ao tocar no nome daquele que me remetia há tantos momentos.
— Uhum, entendi. Ok. — falei de supetão, não querendo deixá-lo constrangido e com sentimento de culpa. Mas a real era que eu não entendi nada, eu não sabia mesmo o que fazer, não sabia nem o que fazer com o fator ‘Daren’, como eu iria ajudar ao meu irmão? — Mas e ai, como se conhecera?
— Nossa, me lembro de quando nos falamos pela primeira vez. Eu estava esperando os caras — os caras eram seus amigos do grupo de ciências — No sebo perto daquela esquina depois do seu serviço, e nossa, ela entrou com aquele cabelo todo desgrenhado e aquelas olheiras escuras sob os olhos, fiquei encantado. — lhe encarei meio duvidosa, que mentiroso. — Tô falando sério, nem daquele jeito ela conseguiu ficar feia, mas deixa-me continuar. Eu sou o tipo de pessoa que não sabe disfarçar, entende isso né? — assenti rindo e cruzei as pernas na famosa posição de índio. — Ai ela viu que eu estava analisando-a, coitada, ficou toda vermelhinha, tão fofa. Tratou logo de ajeitar o cabelo e atravessou toda a livraria sem me olhar, mas eu simplesmente não conseguia tirá-la da minha visão, era linda demais. Ai eu levantei num impulso e caminhei para onde ela havia seguido, suas mãos seguravam um exemplar do Billy Graham...
— Ela é cristã? — perguntei curiosa e animada interrompendo-o. Eu sabia que era tudo o que ele queria. Seu sorrisão confirmara e não contive palminhas de felicidades, quase o puxando para um abraço. — Ai meu Deus, que incrível Nando, fico muito feliz por você e, está bem, continua, te interrompi de novo. — resmunguei fazendo-o rir e tomei outro gole do suco, estava ótimo.
— E desse livro, engatei numa conversa com ela, parecia que nos conhecíamos há tempos, foi massa. Os meninos demoraram um pouco para chegar, mas tivemos que nos despedir antes e então peguei seu número e ela foi embora em seguida. Depois disso nos vimos somente duas vezes, a primeira foi sem querer e a segunda, bom... nós marcamos.
— Ah, que ótimo, Nando! — exclamei e o que era para ser um sorriso, se transformou num franzir de sobrancelhas e trincar de maxilares. — O que foi?
— Ela terminou um relacionamento muito pesado recentemente e está meio que fechada para quem sabe um possível namoro. Não sei o que devo fazer. — sorri acariciando seu cabelo louro, era idêntico ao meu e também era parecido comigo, fisicamente falando.
— Nando, é a primeira vez que eu lhe vejo falar duma garota com tanta empolgação e essência, acho isso lindo, sério mesmo! Relacionamentos complicados não são ruins só no momento, mas após também, não vivenciei um e nem nada do tipo, mas através de relatos, pude atribuir certo conhecimento. — ele assentiu. — Qual o nome dela?
— Rosie.
— Uau, lindo nome. Pois bem, a Rosie só quer ter certeza que não vai se meter numa enrascada de novo, mas e outra, ela disse que gosta de você? — ele negou com a cabeça. — Pois então meu amor, ela nem sabe dos sentimentos dela ao certo, me entende? Ela quer respirar um pouco, mas enquanto ela respira, cuide dela em amizade, eu não vou à igreja nem nada, mas eu sei que Deus escuta as nossas orações, eu sei que Ele cuida da gente, então ore à Ele pedindo que cuide-a, que trate-a e a deixe novinha em folha, para que ai sim, você dê o segundo passo, pois a ultima coisa que eu quero é que ela lhe use como uma válvula de escape.
— Eu já disse que tenho a melhor irmã do mundo? — sorri largamente ao escutar aquelas palavras. — Você é o meu exemplo Amelie.
— Não, você que é o meu exemplo, bro! — após dar-me um sorrisão e afagar meu cabelo, veio ele com a provocação.
— Mas e você, Amelie? — ele perguntou curioso e o encarei confusa. — Chegou tarde da noite, vem dando muitos sorrisinhos espontâneos sem estar fazendo nada. Temos um motivo específico pintando na área? — revirei os olhos e ele mordeu um pedaço de seu sanduiche que não havia comido até agora.
— Não é nada. — resmunguei prendendo um riso, mas foi impossível.
— VIU! — acusou-me apontando o dedo. — Olha só, eu não falei nada demais e já se entregou com um riso. Quem é?
— Se chama Daren. — ele me olhou empolgado. — Mas eu não sei, ou eu sou muito sonsa para não notar, ou não tem reciprocidade.
— Aposto na primeira opção.
— VAI SE FERRAR! — bradei dando-lhe um tapa.
— Ué, foi ele quem te chamou para sair, não foi? — assenti. — Então...
— Então o que? Nós só saímos para jantar e não rolou nada demais. — resmunguei.
— Mas bem que tu queria... — cerrei os cílios lhe encarando e assim que me preparava para socá-lo, a porta da sala fora aberta, revelando meu pai que carregava várias sacolas de compra em suas mãos.
Saltamos do sofá e corremos até ele para ajudá-lo, parecia pesado e ele fazia demasiado esforço para carregar a compra.
— Amelie. — meu pai falou respirando fundo. — Preciso da sua ajuda num final de semana de agosto, uma família virá para cá e quer alugar uma casa de praia, como você quase nunca está na sua, você permite?
— É claro, ué! Só preciso limpar, deve estar empoeirada, e então beleza. É para um fim de semana, né? — ele assentiu e sussurrei um ‘beleza’.
Fomos para preparar a janta e após isso, comemos juntos na sala enquanto assistíamos ‘Vai Que Cola’, Paulo Gustavo havia explodido pelo mundo inteiro, era incrível. Nós lavamos as nossas louças e após a janta fomos nos deitar. Eu estava exausta, meu corpo parecia ter levado uma surra e quando meus olhos quase se fechavam, senti o vibrar do meu celular sob o meu travesseiro, havia chegado um mensagem e por simplesmente ao ler o nome no visor, minhas bochechas esquentaram e sorri para o nada, a mensagem era simples, mas significou muito.
“Bom sono, Amelie. Nos vemos amanhã e que seus sonhos sejam incríveis, assim como você é. Fique com Deus♥.Ps: saudades.” —Daren Smith.
E antes de dormir, ele havia pensado em mim. Algo me dizia que em todo o tempo, os teus pensamentos estavam voltados para mim. Eu devia agradecê-lo, pois dentre todos que sempre me olhavam com olhares lépidos, Daren me cuidava com um simples olhar vagaroso.
***
23.07.2015, quinta-feira. Los Angeles, USA.
Acordei pela manhã um tanto quanto ansiosa, eu iria vê-lo e apesar de me assustar com o fato de estar me entregando rápido a algo que nem sabia se era certo, eu estava animada, não só por esse fator, pois na verdade haviam muito mais.
— Dois meses! — sussurrei alegre para mim mesma.
Faltavam exatos sessenta dias para o meu aniversário e eu achava essa data uma das melhores.
O fato era que eu amava datas comemorativas, aniversários então, nem se fala, e eu iria completar vinte e oito anos, o que para as pessoas, eu sentir essa felicidade toda por ficar mais velha, era como se fosse o cumulo da minha sanidade mental, o que na verdade não era isso, não era gostar de envelhecer, já que eu ficava mais graciosa com o passar do tempo, mas sim era que eu simplesmente amava dessa data, simples, sem uma resposta exata, eu simplesmente amava.
Após alguns devaneios e conseguir expulsar a minha preguiça, levantei-me e já fui logo ao banheiro. Fiz xixi e realizei a minha higiene matinal.
O clima estava bem agradável, não fazia frio e muito menos calor, então hoje eu iria usar algo bem leve.
Vesti uma t-shirtbranca com o símbolo da Adidas estampada na sua parte frontal e em seguida uma jeans preto. Apesar de eu saber que o veria hoje, não estava na vontade de me arrumar não, então por fim calcei um pisante também da Adidas, esse na cor preta, e apenas ajeitei meu cabelo, que possuía as pontas bem cacheadas hoje, deixando-o solto, jogado levemente para o lado. Passei um pouco de rímel e um batom vinho matte, vai que Jeffrey me deixasse presa na empresa o dia inteiro.
Peguei minha mochila jogando dentro dela alguns pertences importantes, e sai do quarto, caminhando em seguida para a sala, local onde estava um completo silêncio, assim como o resto da casa. Rumei até a cozinha e do armário peguei um pacote de biscoito recheado, depois na fruteira peguei uma pera e voltei para a sala, apanhei meu molho de chaves que ficava atrás da porta e abri a mesma, saindo e fechando-a em seguida.
O ventinho gostoso passou por mim, chacoalhando o meu cabelo e em seguida os arvoredos que se formaram ao redor de minha casa com o passar dos anos. A sinfonia era gostosa e a sensação de que o inverno estava chegando ao seu fim me animava de forma demasiada. Eu amava o verão e a primavera, as temperaturas eram ótimas para ir à praia e surfar, o único problema era que durava tão pouco, ou era só impressão minha mesmo.
Algumas crianças andavam com suas mães pelas calçadas da rua, outras resmungavam e choravam em seus colos, num pedido inaudível, somente com os seus olhinhos espremidos quase dizendo: “mamãe, eu não quero ir pra aula”. Acabei rindo comigo mesma ao presenciar àquelas cenas e quando me dei conta já estava parada no semáforo que acabara de se fechar umas rua antes da empresa.
O trânsito não estava lá essas coisas, mesmo estando em horário de pico, estava tranquilo e somente bem movimentado.
Um vento forte soprou passando por mim e chacoalhou as arvores, formando também pequenos redemoinhos com as folhas que estavam caídas no chão, e assim que virei à cabeça para acompanhar os redemoinhos, dei de cara com Daren que possuía Louise em seu colo.
— SURPRESA! — a pequena gritou jogando-se rapidamente para o meu colo e apertando-se contra mim. — Bom dia, Amelie! — a abracei fortemente também e beijei sua bochecha fofinha.
— Bom dia minha linda! — sussurrei e olhei para Daren por cima dos ombros de Lou.
Ele estava tão lindo. Vestia uma bermuda preta, e uma t-shirtda mesma cor tendo em sua frente à palavra Runescrita na cor branca. O cabelo estava mais cheio que nos outros dias. Tão lindo.
— Bom dia, Daren! — o saudei, e atravessamos a avenida assim que o semáforo ficara verde.
— Bom dia! Como você está? — seus olhos não paravam de me fitar enquanto eu brincava com Louise, ela estava tão lidinha. Vestia uma calça jeans azul claro e uma blusinha branca por debaixo duma jaqueta da mesma cor de sua calça. Seus pés estavam calçados por um par de tênis da Nike na cor azul bebê, e o cabelo, ah, o cabelo estava solto como o do pai, a diferença era que tinha uma pequena coroa de princesa em sua frente.
— Estou ótima, e você?
— Muito melhor agora. — ele me sorriu e o encarei por alguns segundos, com um sorriso de canto.
— Isso é bom, né? — indaguei risonha e acabei por receber uma piscadela de sua parte.
— AMELIE! — escutei meu nome ser gritado ao longe e virei-me para procurar quem o dizia, acabando por ver Lucy correndo feito uma louca em minha direção. Ela estava linda, vestia uma jeans colado ao corpo na cor branca e uma batinha cinza, seus pés estavam calçados por um par de meia pata vermelho escarlate, que com certeza iria lhe pedir emprestado. — Bom dia! — ela disse para todos nós num fio de voz, enquanto retomava o fôlego com as mãos apoiadas nos joelhos.
— Ué, eu quem sou a asmática e você que quase morre nessa corridinha? — perguntei-lhe risonha enquanto voltávamos a caminhar. Seu olhar me fuzilou e segurei a risada, dando-lhe um cutucão leve na barriga. — Lucy, esses são Daren e Louise. Lou e Daren, essa é Lucy, minha melhor e graciosíssima amiga. — os apresentei dando uma sorrisão e encarei Lu, já a repreendendo antes que ela inventasse de realizar alguma brincadeira.
Caminhamos todos juntos até a frente da empresa, e antes que Lucy se despedisse, a mesma deu-me um tapinha na bunda e sussurrou um ‘vai com tudo’. Ela já estava me irritando. A mulher entrou antes de mim, e virei-me para Daren, que possuía uma expressão divertida no rosto.
— Ela é doida. — sussurrei dando um beijinho na testa de Lou, antes de entregá-la de volta ao colo do pai. Ela estava meio sonolenta e pelo incrível que pareça seu parceiro Cláudio não estava junto dela. — Ué, cadê o Cláudio, Lou? — numa atitude engraçada a garotinha escondeu o rosto no vão do pescoço de seu pai e o mesmo me sorriu passando o cabelo da filha para trás da orelha.
— Estou achando que ela o perdeu, não encontro em nenhum lugar. Ela fica tão triste quando tocamos nesse assunto que chega a dar dó. — fiz um biquinho acariciando o cabelo dela e sorri. — Preciso ir.
— Eu também. — respondi-lhe o encarando, e meus pés pareciam ter se colado ao chão.
— Lhe espero aqui antes que dê o seu horário, ok?
— Mas e se eu sair tarde? Não quero fazê-los me esperar. — ele sorriu se aproximando e me dando um casto beijo na bochecha, mas se afastou em seguida.
— Nos vemos daqui a pouco, Amelie. — ele sorriu-me e passou a caminhar com Lou já dormindo em seu colo.
Com passos apressados subi os degraus que havia na frente do edifício e adentrei no mesmo, pronta para mais um dia!
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