Notas iniciais
Continuação...
Eu estava parado em frente à praça quando a avistei caminhando encantadoramente, como de costume, sobre seus finos par de saltos. Não havia desequilíbrio algum naquela mulher, e nossa, ela esbanjava uma segurança que eu jamais havia visto em minha vida, e em nenhuma outra pessoa. Amelie era tão autentica.
Seu olhar era suave, e antes que encarasse a mim, a vi jogar levemente o cabelo para o lado, encarando-me em seguida e deixando o suave sorriso em seus lábios finos me desmontar, quebrando toda e qualquer barreira existente em meu interior.
— Ei! — ela me saudou, apertando minha mão e desajeitadamente beijando-me a bochecha. Seu cheiro me inebriou e apesar de seu aroma ser doce, ainda assim era refrescante e avassalador, como sua portadora.
Amelie estava tão linda naquele vestido e meu Deus, aqueles olhos brilhavam como esmeraldas, eu estava vidrado.
— Olá, Amelie. Boa noite! — ela sorria de forma tão espontânea que cara, era impossível ficar normal em momentos como esse.
— Boa noite! Como você está?
— Tô ótimo, mas na real? Tô melhor agora. — ela sorriu largamente e passamos a caminhar. — E você?
— Tô bem também, na verdade estou cansada, mas bem.
— Se você quiser nós podemos ficar em casa e pedir uma pizza. — e quando eu disse isso, ela faltou enfiar uma faca no meu pescoço.
— Eu quero sair, Daren. — confessou me fazendo ficar surpreso.
— Então nós vamos sair. — sorri-lhe, recebendo o mesmo gesto. — Você gosta de voar, Amelie? — indaguei, fazendo-a me encarar curiosa e posteriormente balançou a cabeça de forma positiva.
— Por quê? Me levará para jantar nas alturas? — dito isso ela soltou uma risada e acompanhando-me, viramos numa rua.
— Não, boba. Fora uma pergunta aleatória! — ela assentiu ainda risonha e andamos até pararmos de frente para a minha 4x4 — Mas vamos jantar nas montanhas.
Amelie sorriu, de novo, e sinceramente? Nunca vi sorriso tão largo e lindo como aquele. Juro que senti vontade de me deleitar naqueles lábios, devorar aquela boca com beijos intermináveis.
Oh céus, como podia alguém ser tão envolvente como aquela mulher?
— SÉRIO? — ela guinchou com um brilho nos olhos batendo palminhas em seguida, suas expressões eram tão engraçadas que me embalavam a todo o momento.
— Muito sério. Você gosta? — perguntei abrindo a porta para a moça, e fechando-a em seguida, para depois correr ao outro lado e entrar no carro, passando o cinto, assim como ela e dar partida.
— Se eu gosto? Eu amo montanhas, mas eu nunca fui jantar numa montanha. — sua expressão foi bem curiosa e pensativa, fazendo-me rir.
— Tem um restaurante que eu gosto bastante. Variados estilos de comidas e o atendimento é legal, descontraído, animado, igual a você. — juro ter visto um rubor formar-se em suas maçãs, mas a má iluminação poderia estar apenas me enganando, então dei de ombros. — E sobre você? Falamos um pouco de mim, agora conte-me sobre ti.
Ela pigarreou um pouco e me olhou.
— Eu não tenho nada de interessante para lhe falar sobre mim. — ri pelo nariz e a encarei por um instante, voltando a olhar para a estrada em seguida.
— Amelie, eu te conheço a menos de duas semanas e lhe acho a pessoa mais interessante que já vi em toda a minha vida, por favor, né? Então imagina o quanto sua vida fora interessante. — ela riu docemente e respirou fundo, como se fosse começar a falar para nunca mais.
— Eu venho duma família de surfistas, meu pai e meu irmão são profissionais, eu estou no caminho. — ela gargalhou levando a cabeça para trás como se aquilo fosse a coisa mais engraçada e virei numa rua. – E a minha mãe, bom... eu acho que ela ainda é, pois a mesma nos abandonou quando eu tinha apenas três anos, enquanto eu mamava igual uma bezerrinha, sabe? E desde então nunca mais a vi.
— Que bad hein.
— Que nada, prefiro assim. Sinto falta dela, mas temo que caso ela volte as coisas virem uma loucura, a vida da minha família tá muito boa para algo ruim acontecer.
— Sua mãe seria algo ruim?
— Minha mãe não, mas a volta dela sim. — confusa e engraçada.
— Sei... mas então, me conta mais alguma coisa.
— Bom, eu tenho uma casa só para mim no sul da cidade, porém, como não gosto do fato de ficar sozinha numa casa grande, eu moro aqui com o meu pai e meu irmão. — assenti e virei numa rua, iniciando a subida duma serra. — Ela é linda sabe? De frente para o mar, seus móveis são todos de cores neutras. O que eu vou dizer não tem muita importância, mas eu gosto de roupas com cores mais vivas sabe? Um vermelho escarlate, um amarelão, um azulão, e já no quesito casa, amo cores frias. Acho tão sofisticado, e em toda a minha casa a única coisa que tenho de colorido são os tapetes e a geladeira, pois eu achei ela muito fofa e os tapetes eu bordei.
— Vou te dar umas tintas vermelhas, verdes fluorescentes para pintar a casa quando precisar retocar. — brinquei fazendo-a me fitar séria, mas com aquele resquício de diversão.
— Não ouse, Daren Smith! — tirei uma das mãos do volante em sinal de rendição fazendo-a rir e sinalizei para que ela continuasse.
Cada fala sua era como um beijo.
— Ah! Eu tenho um Ford f100 na cor verde água, ele é lindo. Era do meu tataravô, que presenteou o meu bisavô no seu trigésimo quinto aniversário e antes que o mesmo falecesse, me deu também como presente de aniversário. Sim, esse carro já rodou várias gerações.
— Uau, que loucura. E você? Pretende passar adiante? — ela riu e tombou a cabeça levemente para o lado.
— Eu sonho com a maternidade, apesar de certo problema ai me impedir, a minha fé é demasiadamente maior que obstáculos e certamente, eu terei um filho vindo de mim, mas enquanto ele não vem, acho que adotarei uns.
— Uns?
— Sim, uns... acho que uns quatro estará bom.
— Ah, estará sim, sem dúvidas! — afirmei estarrecido com sua fala e a escutei gargalhar, virando a cabeça para o lado da janela.
Acho que não demorara nem cinco minutos para que Amelie pegasse no sono, pois assim que eu virara em sua direção ela respirava calma e profundamente. Calmamente retirei uns fios de cabelo que tampavam seu rosto e os passei para trás de sua orelha, e oh! como ela conseguia ser encantadora até dormindo?
Vez ou outra ela dava um sorriso em meio ao sono, como um bebê, como a minha Louise.
E ao pensar em minha filha, diminui a velocidade do carro e cliquei num botão que discava diretamente para o numero de minha irmã, Rebeca.
Assim que ela atendeu conversamos durante um tempo, mas em todo o momento eu me atentava à estrada. Louise já estava dormindo, e Rebeca estava capengando de sono, então nos despedimos e desliguei.
Uma neblina se formava, então percebi que já estávamos próximo e num tom baixo chamei Amelie, que apesar de sonolenta respondeu-me com um ‘ahn?’ e endireitou-se no banco, virando em minha direção.
— Já vamos chegar. — ela assentiu e espreguiçou-se, bocejando em seguida.
— Aqui faz frio?
— Sim, e a sua jaqueta não aniquilará a temperatura. — ela fez um biquinho e apontei para os bancos de trás. — Acho que o meu sobretudo está ali, você pode usá-lo se quiser. É bem quente e da altura de seu vestido, vai se sentir confortável.
Ela assentiu e inclinou-se para trás, puxando o casaco pesado.
— Ué, chegamos? — a loira perguntou assim que estacionei o carro, balancei a cabeça positivamente em sua direção, fazendo com que em seguida saíssemos do carro.
O sobretudo havia ficado perfeito em seu corpo.
A temperatura do lado de fora estava pelo menos uns dois graus, ou menos, e então enfiei minhas mãos nos bolsos do casaco e passamos a caminhar lado a lado.
— Você costuma trazer muitas mulheres aqui, Daren? — Amelie perguntou de supetão e a encarei assustado. Como assim? — Ah, é que você é um homem muito bonito, gene...
— Não, Amelie. — a cortei lhe lançando um olhar duro. — Não sou este tipo de homem, está bem? — respondi-lhe ríspido e ela assentiu, mas permitindo um sorriso brincalhão estampar teus lábios.
— E que tipo de homem você é, Daren? — a encarei de soslaio e ela ainda sorria, se equilibrando em meio ao caminho de pedras. Apesar de que a mesma fizesse parecer fácil, vez ou outra eu percebia seu salto afundando na terra, então estendi-lhe meu braço a qual ela entrelaçou o seu, facilitando mais o teu lado.
— Isso somente com o tempo você descobrirá! — dito isso, de forma misteriosa, nós paramos de frente para uma porta com modelo rústico e Amelie, de maneira demasiada, encarou-me assustada.
— Sabe aquele restaurante da animação Enrolados, na qual todos os funcionários são uns brutos e depois se transformam nuns amorzinhos? Então, acho que esse é o caso, mas os funcionários daqui não são uns amorzinhos, e sim brutos mal-amados. — a encarei abismado com o tanto de coisa que ela conseguiu pensar em dez segundos e então segurei-a pelos ombros e a olhei no fundo de seus olhos azuis acinzentados. — Como você me traz a um lugar desses?
— AMELIE! — gritei risonho e acariciei sua bochecha. — Eles podem até serem uns brutos, mas são muito bem amados, viu?
— Dane-se, vamos voltar Daren. — ela já ia me puxando pelo braço, mas entrei em sua frente e calmamente fui empurrando-a porta a fora. — Ai meu Deus, eu odeio escuro. — ela muxoxou fazendo-me rir logo depois que atravessamos a entrada e passávamos por um corredor soturno.
De repente ela apertou-se contra meu corpo e acho que lhe traria mais vezes aqui, para senti-la tão próxima de mim mais vezes assim.
Não lhe dirigi a palavra até que abrisse a porta que tinha ao final do corredor, aquela porta que jogava sobre mim um barril cheio de lembranças.
Sua expressão não fora diferente do que eu imaginava. Os olhos brilhavam e sua boca estava entreaberta, sua face revelava seu entusiasmo, o que acabou me contagiando também.
— Uau!— ela sussurrou me olhando e depois passando os olhos por todo o local, desde as mesas com estilo vitoriano até os painéis com todos os estilos de comida que serviam naquele lugar. Variava indo de junk food até healthy food, tinha para todas as pessoas que escolhiam modos de vida diferentes.
Com o fundo musical duma música contemporânea instrumental nos embalando, passamos a caminhar por entre as mesas, algumas já estavam ocupadas e vez ou outra eu cumprimentava algum conhecido. Aquele restaurante era um ninho da família, sério, sempre tinha algum conhecido.
— O que você costuma comer? — Amelie perguntou interrompendo meus pensamentos e lhe encarei, ela olhava os painéis, eles eram de madeira envernizada e neles estavam escritos o nome de cada prato ou lanche.
— Junk food!
— Acho que nos daremos muito bem! Apesar de que quase todos os dias eu coma besteiras vindas do mc, subway ou guloseimas de docerias maravilhosas, não me canso disso por nada. — ela disse passando a língua entre os lábios e juntando as mãos em seguida, que anteriormente estavam ainda grudadas em mim.
O restaurante mais parecia uma lanchonete bemsofisticada, e o seu estilo totalmente vitoriano dizia totalmente isso. As cadeiras eram totalmente acolchoadas, e em seu chão havia um imenso tapete com costuras também no estilo vitoriano cobrindo toda a extensão do espaço. As paredes eram cobertas por papeis de parede com veludo na cor vermelho marsala, e o balcão seguia com a madeira envernizada numa tonalidade mais escura e bem cuidada.
O gerente dizia que todos os dias, antes de abrir o estabelecimento um carinha vinha e passava o espanador por todos os cantos, deixando o local impecável.
Terminamos de atravessar o grande salão, e sentamos-nos próximo a uma espécie de sacada, meu local preferido desse restaurante.
— E ai Daren, quanto tempo cara. — Michael saudou-me já com a caderneta em sua mão. Ele era o atendente daqui e ex-namorado de Rebeca, minha irmã. Enraizei com ele uma amizade imensa e inabalável.
— Pô cara, nem me fala. E ai, como está? — respondeu-me ele dizendo que estava bem, e o abracei, apresentando em seguida, e a contra gosto também, Amelie que sorriu simpática e hesitante, como de costume.
Montamos nossos pedidos, já que aqui os hambúrgueres eram artesanais e montados da forma que os clientes quisessem e com o que quisessem.
— Nossa! Aqui é demais. Você me trará mais vezes, não é? – ela perguntou animada e retirou o casaco, já que aqui dentro havia um sistema aquecido. Balancei a cabeça positivamente e a mesma sorriu, checando seu celular, guardando-o, porém, em seguida. — Mas então Daren, conte-me como fora a sua adolescência. — ela pediu inclinando-se um pouco sobre a mesa e apoiando os cotovelos na mesma, parecia interessada.
— Minha adolescência foi ótima, mas digamos que ela durou até um mês antes da chegada de Louise. Eu sempre fui bicho solto, sabe? Bem moleque mesmo, porém, eu não era um garoto maldoso, entende? Era o calor da adolescência e eu me amarrava em sair para zoar com meus amigos. Veja bem, nós saíamos à noite para cobrir as casas com papel higiênico, eram muitos rolos, e cobríamos os vidros dos carros com água e sabão. Meu Deus, só depois de um tempo eu pude perceber como éramos uns infantis e idiotas. — enfatizei fazendo-a rir e agradecemos assim que nossos pedidos chegaram, acompanhados de dois copos grandes um com suco de uva para ela e o outro de coca-cola para mim. — E depois saíamos para comer amendoins e barras de chocolate sobre túmulos do cemitério da cidade.
— Nossa!— ela disse me olhando engraçada. — Você amava infernizar seus vizinhos, não é? Não só os vizinhos, até os mortos. – assenti mordendo um pedaço do meu hambúrguer, vendo o queijo mussarela esticar-se e encarando-a por cima. — E bem bad boy. — tive que entalar a minha gargalhada e lhe encarei desacreditado.
— Eu, bad boy por ensaboar carros no meio da noite e comer amendoins com amigos? Que blasfêmia. — ela gargalhou e me pediu para continuar, era engraçado como ela se interessava por pequenas coisas. — Mas ai a minha Louise entrou em minha vida, e bom, não é que eu tenha me tornado uma pessoa azeda, sabe? É que tive que ficas um pouco mais contido e responsável depois que ela nasceu. Eu tinha uma prioridade maior, né?
— Uau! — ela sussurrou tomando um gole do seu suco e aproximei-me limpando o pouco de maionese que estava em sua bochecha. — Você teve uma adolescência incrível e engraçada! Assim como você mesmo. – arqueei a sobrancelha em sua direção e Amelie tomou uma posição mais ereta, novamente desconsertada. — Quero dizer que você é um pai incrível. — ela titubeou olhando para baixo, mas encarou-me em seguida, tendo o sorriso brincando em seus lábios. — Que se dane! Você é incrível mesmo, Daren.
Nosso papo não durara muito após isso, ela apenas comia e vez ou outra trocava olhares comigo, sinto que havia ficado envergonhada depois de dito aquilo, mas isso somente fez com que eu ficasse ainda mais fascinado nela. Sua audácia ultrapassava os limites de sua timidez, aquilo me intrigava e me surpreendia a todo instante, queria conhecê-la mais, descobri-la.
Após pedirmos uma porção de fritas para comer no caminho de volta, ao fim de nossa noite juntos, com muita relutância de sua parte, eu paguei a toda a conta e ela ficou de cara fechada para mim até que descêssemos toda a serra, fora até fofinho, mas não escutar sua voz durante todo o trajeto foi uma morte lenta e dolorosa.
Assim que chegamos à rua da casa de seu pai, descemos do carro e a levei até a entrada.
— Você é ridículo, Daren Akin!— vociferou voltando-se para mim. Nós estávamos somente com a luz da lua nos iluminando e os seus orbes brilhavam, reluzindo ainda mais quando ela sorrira.
Amelie esticou-se um pouco, ficando nas pontas dos pés e inclinando-se, beijou-me castamente a bochecha, dando-me as costas em seguida e subindo os degraus da fronte de sua casa.
— Até logo, Daren! — ela exclamou abrindo a porta e me olhando pela última vez naquela noite foi fechando-a cautelosamente, até que não sobrasse uma fresta sequer.
“Me interessa esse lado teu, tal bem ninguém percebeu. Me desarma, me convenceu...”.
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