Un Amore Per Me

2 Il nostro viaggio


Durante algumas horas de viagem Tato descobre que Romena é uma motorista cuidadosa, fã de séries dramáticas e melosas, a filha mais velha em uma família de classe média, que é competitiva com sua irmã mais nova, mestra no preparo de tortas e viciada em incensos aromáticos pela casa. Ela lhe conta rapidamente sobre sua paixão por literatura e a escolha pela faculdade que fez. Diz amar muito a mãe, mas não ter visto alternativa senão mentir para fugir da sua superproteção. Alega ser a filha favorita do seu pai e a protetora do seu irmão do meio.

— Assim, quando ele não sabia o que fazer me ligou. Eu não o julguei, é claro, mas o incentivei a procurar a Amanda para que juntos pudessem tomar uma decisão. Ele estava muito assustado, mas no fim assumiu sua responsabilidade, se tornou um homem, e hoje é pai da pequena Clarissa, a menina mais linda que você verá na vida, garanto. — Ela termina o relato sobre a precoce paternidade do seu irmão.

Tato acrescenta tia coruja as características que percebe nela.

— Nossa, meus parabéns ao seu irmão. Eu tenho vinte e dois anos e não consigo, definitivamente, imaginar em me tornar pai. Seria um desastre. — Ele declara se lembrando do peixe de Michael que ele matara ao não lavar o aquário direito.

— Você já tem vinte e dois? Imaginei que tivesse apenas vinte e um. — Romena constata surpresa.

— Não, fiz aniversário no mês passado.

— Parabéns. — Ela lhe sorri timidamente, sem saber o que mais dizer.

Após alguns minutos de silêncio, Tato, que nunca se sentiu muito confortável em ambientes serenos, pergunta:

— Ainda falta muito para chegarmos?

— Um pouco. Ainda mais que precisaremos parar em uma pousada para eu descansar. Odeio dirigir à noite.

— Se não se incomodar, podemos trocar a direção. — Ele se oferece.

— Você dirige? — Romena pergunta surpresa.

— Sim, eu costumava usar mais o carro da minha mãe do que ela própria. Só não tenho o meu porque a grana não dá.

Romena assente compreensiva e Tato percebe sua curiosidade. Notou que ela era muito curiosa também.

— Acho que não faria mal eu falar um pouco sobre mim. — Ele se oferece notando sua timidez.

— Seria ótimo. — Ela confirma com um leve suspiro de alívio. — Minha mãe certamente me bombardeará de perguntas sobre você. Sempre fui muito vaga quando a conversa tomava esse rumo.

— Isso é um alívio. Estava com medo de ter que forçar um sotaque inglês caso você tivesse uma queda pelo Mr. Darcy.

— Eu tenho uma “queda” por ele. — Romena frisa rindo. — Mas não cheguei a esse ponto.

Tato gosta de fazê-la rir. Normalmente gosta de fazer todo mundo rir, mas ao ouvir a risada leve de Romena a esquisitice da situação, que ele tenta ao máximo ignorar, se ameniza. Romena é uma mulher atraente, inteligente, se ela não fosse sua professora, e ele se iludisse sobre poder ter chances com ela, não duvidaria que se interessasse. Desse modo, talvez, estar sendo pago para fingir ser seu noivo se torna algo menos surreal. Ainda é estranho, muito estranho, mas não é algo que foge totalmente a realidade.

— Bem, eu sou um cara do leste, cresci na praia e adoro uma onda. — Romena tenta não fazer careta ante a declaração, como as pessoas podem gostar da água gelada e irritantemente salgada do mar sempre lhe será um mistério.- Mas desde que eu vim para a Universidade de Corlleos tive que me acostumar a outro estilo de vida. Aprendi a andar de skate, o que não se compara, mas o esforço para manter o equilíbrio me lembra das pranchas. Comecei a passar muito tempo na biblioteca e a tomar café, juro que eu nunca tinha tomado café antes!

— Como assim? — Romena o encara de olhos arregalados.

— Sim, eu sei. Essa também foi a reação do Michael. Mas eu não tenho culpa se vocês têm o hábito de tomar xícaras diariamente por aqui, enquanto de onde eu vim café é quase como bebida alcoólica, não se dá para crianças e se toma com moderação.

Romena ri incrédula e Tato ri junto, porque ele gosta de rir.

— Minha comida predileta é rabanada, eu adoro bandas indies, se tivesse grana faria uma tatuagem, uma tartaruga porque eu amo tartarugas, queria ser vegetariano, mas amo hambúrguer, estudo biologia, minha mãe chama Aurélia, não sei do meu pai desde que ele resolveu fazer um mochilão, sem irmãos, meu livro favorito é Assassin's Creed e… Ai! — Tato se esquiva dos óculos de sol que Romena joga em sua direção. — Por que fez isso?

— Como pode dizer que esse é seu livro favorito?! — Ela indaga um tanto alterada.

Esquentadinha, mais um item à lista. Pensa Tato.

— Você já leu Assassin's Creed? — Ele arqueia as sobrancelhas com falso ar superior.

— Não, obrigada. Mas e você? Já leu algo além disso? — Ela retruca desdenhosa sem forçar o ar superior.

— Claro que já! No colégio.

Romena bufa consternada.

— Mas se você lesse, talvez também pudesse gostar. — Ele termina sorrindo esperançoso.

— Duvido. — Ela murmura séria.

— Ah, vai! Não seja rabugenta! — Tato provoca ainda sorrindo.

— Não estou sendo rabugenta. Por favor, Tadeu, você tem vinte e dois anos e considera um livro de jogo o melhor que já leu?

— É Tato. — Ele a corrige delicado. — Tadeu é nome de velho, e eu não disse em momento algum que era o melhor livro que já li, apenas o que mais gosto.

Romena o olha enviesado, Tato observa sentindo-se vitorioso.

— Não gosto desse seu sorrisinho de vencedor. Dê-me meus óculos para eu poder atirá-lo de novo.

— Não é fofo que estejamos tendo nossa primeira briga, querida?

— Você é ridículo. — Romena comenta rindo.

— Mesmo assim, ainda sou seu noivo. Afinal de contas, por que fingir o noivado se você pretende acabar a farsa em breve?

Ela volta a ficar séria prestando atenção à estrada.

— Como eu te disse, no fatídico dia em que você me encontrou quase chorando na sala, minha irmã irá se casar e não tenho como perder esse momento. Eu a amo, apesar de não termos uma relação lá muito invejável, e estou feliz por ela, entretanto, se eu aparacesse sozinha todos descobririam de cara minha mentira e seria extremamente vergonhoso. — Romena para respirando lentamente, ela se concentra no retrovisor ao entrar em uma pequena e mal sinalizada curva. — Me senti ficando para trás, Júlia tem a sua idade e já está se casando, meus dois irmãos mais novos estão formando suas famílias, ao passo que eu, eu continuo na estaca zero. Precisava de algo que não me deixasse tão para trás em relação a todos.

Ela se sente triste pela sua visão distorcida das coisas, pela pena que sente de si mesma, pelo seu egoísmo, por sua situação.

Tato não sabe o que dizer. Ele não a julga, mas acha estranha a forma como vê as coisas. Sente um pouco de vontade de lhe dizer que a vida não é uma corrida mas prefere, no momento, guardar para si.