Un Amore Per Me
3 La proposta
Era exasperador como ele sempre esquecia alguma coisa nas salas, seria impressionante se não fosse um saco ter que voltar para pegá-las. Desse modo Tato subiu rapidamente os degraus de dois em dois, ficando ofegante ao entrar novamente na sala de onde acabara de sair.
Romena estava sentada à sua mesa, a cabeça enterrada entre as mãos e os pensamentos perdidos na sua estupides. Por que fora inventar que tinha um namorado? Por que fora se embaralhar mais ainda dizendo estar noiva?! Era ridículo, absurdamente patético. Como ela pôde mentir tão descaradamente e por tanto tempo? Sua mãe não merecia isso.
Mas talvez, se ela não lhe telefonasse todo fim de semana, indagando quais eram seus planos, e a criticando daquela forma construtiva, como se só estivesse dando sugestões, mas que pareciam mais instruções de como Romena deveria viver, ao contrário da vida morna que levava. Tinha tanta pena de si mesma e da sua situação que, certa vez, cansada das insinuações da mãe soltara que esta não precisava mais se preocupar, pois ela não estava sozinha. Tinha um namorado. Um namorado.
Céus, seus olhos estavam começando a arder.
A questão é que ela não se incomoda em não ter um parceiro, apenas se ressentia por todos os seus conhecidos terem. Não queria a infelicidade de ninguém, mas era incapaz de deixar de comparar seu estado inativo ao fluxo de novidades e grandes acontecimentos nas vidas alheias.
Agora ela havia prometido passar o verão na casa de campo da família e, para piorar, levaria seu namorado, ou melhor, noivo. Inferno, que noivo? Era melhor ela colocar um anúncio no jornal antes que os estoques acabassem.
Romena solta um riso seco, deprimido.
Tato se assusta ao erguer os olhos da sua carteira e perceber que sua professora de italiano ainda está na sala. Distraído com sua blusa jogada embaixo da cadeira nem a notara ao entrar. Entretanto agora, vendo-a com a cabeça deitada no tampo da mesa, acha que ela parece um pouco desolada, perdida.
— Er… Você está bem? — Constrangedoramente, sua voz sai muito mais alta do que ele pretendia devido ao eco da sala vazia.
Romena ergue rapidamente a cabeça, assustada, e tenta se recompor arrumando os cabelos escuros atrás das orelhas.
— Ah, me desculpe. Eu não havia te visto aí. — Ela murmura encabulada.
— Tudo bem, eu também não tinha te visto. Só vim pegar minha blusa. — Meio apatetado pelo embaraço ele ergue a blusa de frio vermelha na altura do rosto.
Romena assente sem saber o que dizer. Tato fica parado no meio da sala por um ou dois segundos, encarando-a. Ela distraidamente o avalia, mais pela força do hábito, e o acha um rapaz até que atraente, se você se interessa por um tipo mais descontraído e despojado. Não faz o seu estilo, ela prefere homens mais maduros e centrados, porém, na sua situação atual (a seca total para ser específica) ela não desprezaria o rapaz.
— Eu posso te ajudar? — Tato, por fim, pergunta, incomodado com a expressão triste nos olhos dela.
Distraída, Romena sorri condescendente.
— Acho que não.
Tato passa o peso de um pé para o outro.
— Certo. Sinto muito, então.
Ele começa a caminhar em direção à porta. Com o rosto apoiado à mão Romena o observa partir, curiosa por ele se incomodar em preocupar-se com ela.
— Ahn, espera! Ta… Tadeu! — Ela se lembra do seu nome.
Ele para e se volta novamente em sua direção. Romena arruma a postura recostando-se à cadeira.
— Você vai fazer alguma coisa neste verão?
Por milésimos de segundo Tato tem a impressão de que ela o está convidando para sair. No entanto, a expressão levemente desolada em seu rosto o leva a acreditar que não seja bem isso.
— Trabalhar. — Ele responde simplesmente, com um leve toque de hesitação na voz.
— Ah. — Romena solta decepcionada.
— Eu frito batatas em uma lanchonete. — Tato se sente impelido a explicar, sem ter muita noção do porquê. Talvez tenha sido só a decepção em sua voz, como se ele pudesse ajudá-la, se não fosse sua ocupação. — Vai ser algo bem chato, um desperdício de verão. Mas fazer o que? Eu preciso da grana. — Ele começa a tagarelar, preenchendo o silêncio dela com inutilidades.
Cada vez mais ele sente a necessidade de ajudá-la, não entende o motivo e nem se prende muito a isso. Desde pequeno sua mãe lhe diz que ele sempre foi muito prestativo, querendo ajudar a todos, possivelmente para conseguir aprovação, em sua opinião.
Romena o observa tagarelando agitado. Nunca dera muita atenção para esse aluno em especial, não porque fosse uma professora relapsa, apenas não botava muita fé no garoto. Sabia que seu curso era de biologia, não entendia porque ele escolhera aulas complementares de italiano, de toda forma ele comparecia as aulas, ela lhe dedicava a mesma atenção que aos demais alunos, porém ele nunca chamara sua atenção ou instigara sua curiosidade.
— Aceitaria passar o verão comigo, Tadeu? Mentir para toda a minha família, passar por situações constrangedoras e ter alguns exemplos do que não fazer com sua vida? — Sem se dar conta e sem a intenção, Romena o questiona com ar vago.
Tato olha ao redor da sala. As carteiras vazias e a expressão desinteressada de Romena lhe dão a impressão de que está imaginando coisas.
— Eu lhe pagaria pelo tempo perdido, é claro. — Ela acrescenta entediada.
Tato, em vez de sentir-se ofendido como seria esperado, começa a achar a situação absurdamente engraçada. Ela parece não ter muita noção do que está dizendo, parece tão distraída que sequer percebe que, praticamente, acabara de oferecer-lhe um emprego de verão.
Algo um tanto suspeito? Talvez. Estranho? Certamente. Tato dá de ombros e reponde:
— É, pode ser.
Romena pisca tranquilamente algumas vezes antes se dar conta de sua reposta, ou melhor, antes de ser dar conta de sua pergunta. Ela estava brincando, não estava?
Mas agora, que ele aceitara a proposta, a ideia alucinada lhe parecia vagamente eficaz. Se contratasse alguém para apresentar à família, não passaria pela humilhante situação de declarar-se uma mentirosa e ainda poderia dar um fim a toda essa embaraçosa situação. Levaria seu acompanhante, o apresentaria para todos, resolveria o problema e depois o dispensaria, inventando qualquer desculpa esfarrapada para o término.
— Está falando sério? — Romena se certifica após alguns instantes, encarando Tato fixamente.
Ele abre um sorriso sincero, ela parece mais incrédula do que ele próprio.
— Estou.
Após segundos encarando-o ela levanta e caminha até uma carteira vazia, indicando a Tato a carteira da frente. Ele se senta e ela começa uma longa explicação, ainda meio desnorteada com a situação, mas muito aliviada em relação aos seus problemas. Talvez, e apenas talvez, essa história possa dar certo.
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