Já haviam passado mais de dois meses, e eu não suportava mais o Patrick. Suzanne para lá e para cá. Os dois estavam parcialmente namorando. E ainda ninguém os descobriu. No aniversário de Patrick, Suzi tinha feito um almoço especial. E eu no meu recebi tecnicamente a mesma coisa, só que menos romântico, é claro. Suzanne tinha virado uma grande amiga, e apoiou muito Patrick, e eu fiquei muito feliz por ele ter uma namorada como Suzanne. Ela sempre o ajudava com alguma coisa, não importava qual fosse. Descobrimos que Suzanne nunca saía dali por causa de Gray, pois seus pais tinham morrido e ela resolveu ficar por ali. Alex também estava comigo e Pat, e Jimmy e Fred não pararam de nos atormentar. Alex não achava as garotas bonitas, e eu tinha certa desconfiança disso, mas deixava de lado, ele era meu amigo, e não importava do que – ou quem – ele gostava. Nesses dois meses, aprendi tanta coisa. Alex me ajudou com a minha dificuldade nas pistolas, pois nosso estágio estava ficando mais avançado, e usaríamos armamento pesado. Patrick era oficialmente meu melhor amigo, me tirou de várias barras. Alex não ficava para trás. Ele fazia o que podia, e éramos só nós três, contra outros vários “iniciados” e veteranos. Gray não parecia tão aterrorizante agora. Ele parecia “normal” e até mesmo “humano”. Ele me elogiou muito nos últimos dias, e se meu pai soubesse, ficaria orgulhoso. Mandei bilhetes e recados para minha mãe e meus irmãos; Eu sempre recebia uma resposta. Respostas alegres, com saudades, todas as letras carregadas de emoção boa e familiar. A letra materna da minha mãe me emocionava, eu senti saudades dos seus doces, e do modo como ela falava dura, mas gentil, como se fizesse a gente se sentir tremendamente mal por tê-la desobedecido. Seus olhos azuis exalavam carinho, e eles nos obrigavam a amá-la, mesmo ela não fazendo nada. Eu mantinha orgulho ao falar da minha mãe, ela era forte. Cuidou de mim e de meus irmãos mais novos mesmo quando meu pai se foi, e a deixou sozinha no mundo. Eu não gosto de lembrar isso, era meio revoltante.

Gray parecia sempre andar preocupado e irritado, e sua raiva era descontada em nós. O treinamento era pesado, e em alguns termos foi bom. Eu olhava-me no espelho mais forte, ou como disse Patrick, eu estava ficando “gostosão”. As nossas costas estavam definidas, e gomos desconhecidos estavam aparecendo em minha barriga. Alex e Patrick vieram falar comigo hoje cedo, disse que haveria alguma coisa no pátio. Era páscoa, e todos deviam estar pensando nisso. Segui para lá sozinho, Pat estava com Suzanne e Alex devia estar por aí arrumando o cabelo. Gray falou de como era páscoa, seria uma janta especial. Não devíamos nos empanturrar de chocolate, porque amanhã tem treinamento, como sempre.

Era incrível ver o sorriso de satisfação de Suzanne comendo doce. Parecia uma criança se lambuzando de algo que come pela primeira vez. Agora ver Patrick comendo era devastador. Mais parecia um mamute comendo uma carcaça, faminto.

– O que será que acontece quando sairmos daqui? – perguntei, interrompendo o ritual de como comer um chocolate de Alex.

– Ah, sei lá. Suzi, você que mora por aqui. O que acontece?

– Bom – ela lambeu os dedos. –, muitos ficam como os veteranos que vocês viram aqui. Outros saem e nunca mais aparecem. Mas agora, nosso país está em briga com outro. É bem capaz de que venha uma guerra.

– Briga com quem? Japão?

– Eu não sei – ela deu de ombros. – Não gosto de guerras. Não fico procurando saber.

– O que eu sei de guerras é horrível – disse Alex. – Eles vem na sua casa, roubam seus cavalos e animais, comida, plantações e levam suas mulheres.

Suzanne cobriu o rosto com as mãos pequenas.

– Sim, sim. É horrível, isso aconteceu uma vez com a nossa família. Por sorte, eu não era viva naquela época. Deve ser traumatizante.

– E é.

– Como sabe tanto, Alex?

Ele suspirou.

– Minha mãe. Sou fruto disso.

Levei um tempo para entender, e quando o fiz, Alex levantou a mão, ele não queria consolo.

– Por mim está tudo bem. Eu não tenho nada a ver com isso mesmo.

Suzanne levantou- se e foi andando com Patrick para fora.

– Tchau, meninos – ela acenou alegre. – Já está na hora de nós irmos dormir.

Alex e eu nem precisamos chamar Pat de volta. Sabíamos o que eles iam fazer. Como disse Alex, a comemoração especial de páscoa deles.

Na noite toda, Patrick não voltou. Eu fiquei meio incomodado, porque era meio perigoso ficar por lá. O doce tinha me feito mal, e eu1 fui quatro ou cinco vezes no banheiro, e só consegui dormir bem depois. Lembra que eu disse que algo poderia dar errado nesse relacionamento dos dois? Eu estava certo. Quando eu acordei, risadas vinham de um canto no alojamento. E quando eu e Alex fomos ver do que os veteranos – incluindo Jimmy e Fred – estavam rindo, a cena foi irrelevante.