Uma questão de honra
7 Capítulo 6
Suzanne cobria-se com uma blusa, estava sem seu lindo e simples vestido de lavadora, e Patrick não estava em lugar algum. Ela tinha algumas lágrimas rolando no rosto, e seus olhos arregalados mostravam o quanto estava assustada. Ela estava agachada no canto, rodeada por iniciados e veteranos militantes risonhos. Entre eles, Jimmy e Fred.
– Ah, qual é loirinha? – Fred reclamou. – Eu te vi uma vez saindo com aquele idiota do Patrick. Porque eu não tenho chance?
Outros garotos tentavam puxar o casaco das mãos de Suzanne, para descobri-la, e foi aí que eu entendi: Suzanne não estava com roupas por baixo.
Alex e eu tentamos ajuda-la, mas eram muitos garotos nos impedindo. Suzanne me encarou como se me pedisse para parar, que era inútil.
– Nossa – exclamou Jimmy, apontando para Alex e eu – Quer dizer que você deu para eles também, é?
– Deixa ela em paz, Jimmy – gritei, tentando me soltar dos braços que me seguravam.
– Senão o quê? Vai me bater? Ou vai chamar o capitãozinho Gray? Já que você é preferidinho dele mesmo.
– Escuta Jimmy, é ela quem faz as comidas. Ela pode colocar veneno na sua.
– E você acha que eu estou com medo dessa daí? Tenho mais o que fazer – ele se virou para Suzanne. – Ô loira, dá pra soltar esse casaco ou vai demorar muito?
Novamente, os garotos lançaram as mãos para puxar o casaco, mas Suzanne o puxava e segurava-o mais forte ainda.
– Fred, Jimmy. É sério, deixe-a. Se Gray descobre suas atitudes, sabe-se lá o que ele faria.
– É mesmo? E como ele saberia? Por acaso você vai mandar uma carta para ele? – Jimmy pegou algumas folhas de seu bolso. As minhas cartas!
– Solte isso! Isso é invasão de privacidade, seu palerma.
– E eu não ‘tô nem aí. “Mãe, faz um tempo que não lhe mando cartas. Estou avisando que conheci uma pessoa nova aqui. O nome dele é Alex, e a senhora adoraria conhecê-lo. Ele é legal, faz alguns dias que conversamos, e ficamos cada dia mais amigos, Patrick até foi com a cara dele. Os treinamentos estão me fazendo bem e...” – Jimmy amassou e pegou outra carta – “Mãe, feliz páscoa! Estou escrevendo porque estou sem sono. Na verdade a preocupação com Patrick tirou meu sono. Ele foi – como diz Alex, que no momento está roncando ao meu lado – ”comemorar” a páscoa com Suzanne. Essa frase junta mil sentidos, e eu prefiro acreditar no mais inocente possível. Talvez estejam comendo chocolate num momento desses...” – ele amassou e também jogou no chão.
Eu estava cerrando os punhos. Como ele podia ser tão baixo?
– “Comendo chocolate”? Não se faça de tonto. Pelo menos não mais do que é. Ah é. Quase me esqueci da minha última carta. Sobre o que você acha de Patrick, e, principalmente, de Alex. Ele adoraria ouvir, não acha?
Jimmy começou a ler, e eu temia o pior. Ele estava quase chegando à pior parte.
– Jimmy – gritei, e ele parou assustado com o tom. – Continue e eu arranco todos os fios dessa barbinha invisível debaixo de seu nariz.
– Ora, como acha que isso é uma barbinha? Pois saiba que você nunca conseguiria...
Acertei a canela do menino que me segurava, e fui para cima de Jimmy. Rolamos no chão, ficando no meio do corredor.
Ele acertou um soco em meu nariz, do qual sangrou e fez meus olhos marejarem.
– Ah, vai chorar?
– Se você fosse esperto o bastante – levantei do chão, limpando o sangue que escorria. – Saberia que os olhos marejam quando o nariz é acertado, seu otário.
Soquei seu queixo, recebendo um chute na costela como resposta. Como que de propósito, acertei seu nariz, que também fez os seus olhos lacrimejarem, ainda mais que os meus.
– Ué, agora quem está chorando é você? – sorri, e ele me lançou um olhar de desafio.
– Eu decorei a carta, quer que eu a recite para Alex?
– Ei, sabia que você fala demais? Cala a boca só um pouco – lancei minha mão em seu rosto, parcialmente nocauteando-o.
Corri para Suzanne, os iniciados tinham fugido, os veteranos estavam com Fred tentando acordar Jimmy.
– Ei, você está bem?
Ela balançou a cabeça negativamente.
Retirei meu casaco, e me virei para que ela se cobrisse. Ela jogou os cabelos para frente, e levantou com cuidado, para que a blusa não levantasse. Suas mãos estavam geladas, e seu corpo tremia, Ela não andava direito, não conseguia levantar as pernas descobertas. Alex a pegou no colo e nós saímos o mais rápido que pudemos, os garoto desacordado ainda estava sendo levado por Fred, o sangue do nariz pingando no chão.
– Onde a levamos?
– Para a lavanderia.
– E o Patrick? – viramos o corredor.
– Está vendo ele aqui? – ok, isso foi grosseiro. – Desculpa. Nós o procuramos assim que nos assegurarmos que ela vai ficar bem.
Deixamos Suzanne aos cuidados da Velha do Esfregão Assassino, como Alex e Patrick a chamavam, pois ela era uma das pessoas mais mal humoradas que eu já vi. Quase pior que Gray. Quase.
Por sorte, nós achamos Patrick não muito longe dali. Ele estava desnorteado, os olhos vazios e distantes.
– Pat, o que aconteceu?
– Eu... Estava... – ele se agachou e enterrou a cabeça nas mãos.
– Ei, calma aí, cara. Conta o que aconteceu.
E ele contou. Detalhe por detalhe. Patrick e Suzanne estavam juntos quando Jimmy e seus amigos passaram. Eles avistaram Suzanne e a pegaram. Patrick não tinha visto muita coisa, mas quando os alcançou, viu que Suzanne estava quase sem roupas. Isso o acertou em cheio. Patrick ficou paralisado, em choque. Fred o apanhou, e eles o seguraram, trazendo-o para perto da namorada. Quase foi obrigado a ver tal cena, se ele não tivesse cuspido em Fred. Os dois começaram uma briga, e Patrick jogou sua blusa para que Suzanne fugisse. Ela segurou, mas não conseguiu sair dali. Os outros caras maiores arrastaram Patrick para perto do lago, e lá o espancaram, tecnicamente falando. Enquanto apanhava, podia ouvir os gritos de Suzanne não muito longe dali, e isso cortou seu coração. Quando não os ouviu mais, temeu o pior. Quando os garotos o deixaram ali, sangrando e machucado, a primeira coisa que Patrick fez foi rolar para a água, para lavar o sangue seco. Quando terminou, foi procurar Suzanne, mas nem ela nem os caras estavam lá. Ele se sentiu acuado, como um animal selvagem numa cela.
Agradeceu quando viu Alex e eu, e sentiu um alívio enorme quando soube que Suzanne estava bem. Mas uma coisa me martelava na cabeça. Patrick não citou nenhuma vez que viu Suzanne. O que eles tinham feito com ela, para que ele ouvisse os gritos dela?
– Pat, me responda uma coisa.
– Diga.
– Quando você estava com os caras, o que acha que eles fizeram com a... Ai, Alex!
Alex me deu um piso forte no pé. Lancei meu melhor olhar desafiador, e ele lançou outro, esculachando o meu.
– Cala a boca, não pergunte nada. Sei o que você quer perguntar – cochichou.
– E o que tem?
– Cara, ela é a namorada dele. Como você acha que ele vai reagir? Se toca.
– Tem razão, desculpe. Vamos deixa-lo aqui?
– Eu não sei. Só não podemos leva-lo para a Suzi. Acho que ele ficaria pior do que ele está.
Aproximei minha mão no ombro de Patrick.
– Ei grandalhão, quer dar uma volta para esvaziar a mente?
Ele balançou a cabeça.
– Não, quero ver minha namorada.
– Pat, eu acho que ela devia descansar, ela levou um grande susto, e tem que ficar sozinha um pouco.
– Você não entende – ele retirou minha mão do seu ombro. – Suzi é frágil, ela não gosta de ficar sozinha. Ela precisa de mim.
– Porém – interveio Alex – Sua namorada realmente precisa ficar sozinha dessa vez. Vamos Patrick, você também precisa ficar sozinho.
– Se preciso ficar sozinho, porque vocês dois vão me acompanhar?
– Hm, pelos bons amigos que somos.
Patrick conseguiu sorrir.
– Tudo bem, mas depois eu quero vê-la.
– Você vai ver não se preocupe.
Alex, Patrick e eu andamos em volta do campo, Gray não estava lá, por sorte. Entramos no hipismo e visitamos os cavalos.
– Eu sempre gostei desse aqui – Alex acariciou a crina do garanhão de pelo castanho.
– Sério? Esse bonitão sempre foi mais com a minha cara. – alisei o cavalo negro, que estava comendo feno. – E você Patrick? Gosta de cavalos?
Quando Patrick não respondeu, Alex e eu nos viramos para ver o porquê do seu silêncio. Patrick tinha saído, cavalgando num cavalo de um tom mel imprescindível e brilhante.
– Que danado – Alex sorriu. – Nós vamos ficar aqui? Ou vamos segui-lo?
– É óbvio que vamos segui-lo.
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