Uma questão de honra
2 Capítulo 1
Acordei com um som meio agudo de apito. As vozes masculinas e sonolentas embalavam-se em meio ao som dos chuveiros ligados. Patrick estava arrumando a cama, e deu um chute no cara que o estava cutucando.
– Bom dia, Patrick. Estamos atrasados?
– Pelo contrário – ele respondeu –, está um pouco cedo.
– Hm. Acho que vou tomar um banho. Você arruma a minha cama?
Ele franziu o cenho.
– Arrumo. Acho que vou dar uma molhada no corpo também.
Saí da cama, cambaleando de sono, e retirei minhas roupas. No começo fiquei meio desconfortável por estar pelado na frente de pessoas que eu não conhecia. O único era Patrick, e não sei se o considerava como melhor amigo. Ele era o único. Minha casa era alguns minutos perto da dele. Antes de nos alistarmos, nossas mães conversavam, no caminho do colégio. E para não ficarmos no tédio, ele puxou papo. De aí em diante, não paramos mais. Patrick era bem jovial, para alguém que acaba de fazer uns dezoito anos. Tinha os cabelos sedosos e de cor chocolate. Seus olhos eram um tom de castanho escuro, e tinha um físico bem atlético. Embora tivesse uma aparência intimidadora, perdoe-me pelas minhas palavras, era um retardado. Sua mente era criativa demais, e eu tinha medo de isso o atrapalhar no seu treinamento.
A água quente durou por pouco tempo, logo ela esfriou, e não voltou mais. Tivemos de tomar com a água gelada mesmo, de manhã.
Um homem trouxe nossos uniformes, duas peças para cada um, e um par para o inverno.
– Cara, eu não fiquei um gostosão nesse uniforme? – perguntou Patrick.
– Hm. Ficou. Eu também. Aliás, todos ficaram.
Comecei a rir, e Patrick me encarou como se apenas eu achasse graça naquilo.
– Bom ver que está todo de bom humor, pois hoje começa nosso treinamento pesado. Eu tinha pensado em começar algo leve com vocês, mas digamos que eu pensei melhor.
– Nossa, muito melhor – cochichou Patrick. Lancei um olhar reprovador para ele.
– Se vistam – continuou o homem –, comam o café da manhã, e façam tudo em exatos dez minutos.
Fomos para o hall da entrada do salão e sentamos nas mesas. Patrick mexia com os garfos, e sequer tocou na comida. Dois caras que passavam com bandejas de comida por trás de nós bateram em nossas cabeças, fazendo-nos encostar-se a nossa comida.
– Babacas – murmurou Patrick.
– Fala, novatos – disse o garoto loiro – Jimmy e Fred, os melhores daqui. Falou? Até o treino, caso sobrevivam até lá.
Patrick e eu corremos para o banheiro limpar a gola dos nossos uniformes. O sinal tocou e todos os outros fizeram uma fila única para fora do refeitório público. Seguimos para o campo aberto e nos dividimos em dois enormes grupos. Fred e Jimmy ficaram no outro time, e Patrick e eu ficamos na primeira fila.
– Sentido! – berrou nosso capitão. Era um homem de aparência de quarenta anos, tinha os cabelos ralos e grisalhos, seu rosto tinha a barba mal feita e uma cicatriz ligeiramente para o lado do olho azul mar. Arrumamos nossa postura e pernas dobradas, deixando nossos braços colados ao lado do corpo.
O homem tinha um olhar amedrontador, e seguiu nossa fileira, observando um por um. Quando chegou por nós, parou e nos encarou.
– Hm. – ele segurou as nossas golas, fortemente. – Estavam rolando na lama, porcalhões?
Alguns tiveram de levantar a mão para segurar a risada, e o capitão passou o olhar para eles.
– Adoraria saber qual era a graça – e rapidamente eles se calaram. Ele voltou-se para mim e Patrick. – É isso que vocês usam em primeiro dia de treinamento?
– N-não, senhor.
– Pois então, saiam logo daqui, e me voltem com uniformes limpos!
Patrick e eu corremos ofegantes para a lavanderia mais próxima, onde as velhas fuxiqueiras fofocavam sobre os novos alistados.
Uma garota da nossa idade sorriu para nós, aproximando-se.
– Em que posso ajudá-los, cavalheiros?
– Precisamos – suspirou Patrick –, de um uniforme limpo e bem passado, se a formosa dama nos conseguir.
A garota fez uma careta e passou os olhos pelos nossos corpos, logo depois, sumindo entre os lençóis brancos estendidos.
Patrick e eu sentamos no chão, esperando a garota. Ela logo voltou, trazendo dois uniformes limpos e lisos.
– E que isso não aconteça novamente, esses uniformes não são feitos para serem entregues de reserva para quem se suja do nada.
Patrick agradeceu e beijou a mão da moça, arrancando-a um sorriso lindo.
– Nos safamos – disse ele, correndo ao meu lado, enquanto abotoava a blusa.
– Você que pensa – retruquei.
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