Uma questão de honra
3 Capítulo 2
O capitão Gray nos lançou um olhar desconfiado quando chegamos, mas voltou às explicações. Jimmy e Fred nos lançaram olhares raivosos, e nós ignoramos.
– Marchando! – gritou Gray.
Nossas fileiras começaram a se movimentar, em círculos, e após uma nova ordem, ela se dissipou e expandiu, formando grupos. Patrick se distanciou, e acabou ficando no grupo atrás do meu. Gray se aproximou, estalando as botas no campo aberto.
– Quem gosta de jogos por aqui? – ele perguntou, rodeando os alistados.
Percebi de repente, que em cada grupo ficava apenas dois alistados novos, e o resto formado por veteranos. Não entendi porque, mas todos os grupos estavam assim, exatamente como o meu e de Patrick. Jimmy estava com o grupo a minha direita e Fred a minha frente.
Senti um cutucão por trás, e virei levemente o rosto para o lado.
– Eu sugiro que você levante a mão – uma voz aguda e limpa disse atrás do meu ouvido – Se um capitão perguntar se você gosta de tortas, você obviamente vai dizer que sim.
– E por que eu faria isso?
– Você é um idiota mesmo. Sou veterano, escute o que estou dizendo.
Relutante e desconfiado, levantei discretamente a mão, e de relance Gray viu, com faíscas invisíveis nos olhos.
– Oh, isso é ótimo. Vamos jogar!
Basicamente, o “Jogo” dele era, o treinamento. Carregamos o dia inteiro tocos de árvores, pedras e variadas coisas pesadas. Quase fomos afogados no rio, ao treinar o disfarce, pintados de lama e tinta. As armas eram pesadas, e começamos com pistolas. Eu, obviamente, errei a maioria, acertando apenas duas vezes, e no canto do alvo.
– Você é horrível – zombou Fred. – Nem devia estar aqui.
– E você é chato. Também não devia estar aqui. Mas que engraçado o destino, não?
E me virei novamente para o alvo, ignorando os comentários da pessoa repugnante ao lado. Patrick se saía muito bem, acertando todos no meio, muito melhor do que eu.
Felizmente recebi uma vantagem: facas. Eram leves e fáceis de serem arremessadas, com um tiro certeiro no coração, ou algum órgão vital. Eu era realmente bom nisso, enchendo meu peito de ar e orgulho, continuei a acertar. Senti-me confiante, poderia mostrar a Gray que poderia ser útil em algo, ao invés de trazer-lhe dor de cabeça, como um adolescente imaturo faz. Porém, se eu quisesse ir à guerra, usaria armas, teria de remendar isso. Ou qualquer outra coisa do tipo. Patrick se saía não tão bom como eu, mas razoavelmente bem. Fred tinha alguma dificuldade, e Jimmy tirava de letra. Ainda não havia descoberto quem havia sussurrado para mim hoje cedo, no campo. Quem sabe nunca saberia.
Pausa para o almoço. Finalmente. A garota que nos ajudou mais cedo na lavanderia estava lá, ajudando as mulheres a fazer a comida. E do lugar onde ela estava- ou seja, a cozinha- saía um cheiro divino. Lambi os beiços, estava cansado e com fome. Patrick sentou a minha frente, com o olhar na garota. Deu um sorriso galanteador.
– Cara, se você namorar por aqui, pode se ferrar sabia?
– Eu sei cara, eu sei. – ele balançou a mão, ainda sorrindo para ela. Não, ele não sabia.
– Que seja – falei, dando de ombros. – Só cuidado com o que fizer.
– Suzanne. Lindo, não?
– O quê?
– Suzanne. O nome dela – ele virou-se para mim, quando a garota, Suzanne, saiu.
– Hm, como descobriu isso?
– Ela me disse, quando fui pegar a comida.
– E ela sabe que seu nome é Patrick?
– Sim. Por quê?
– Desculpa, mas, só eu que estou com uma má impressão de se algum momento ruim, ela possa falar seu nome e fazer você se ferrar?
– Duvido muito. Até por que eu sou inesquecível, e meu nome não.
– Acho que não, Pat.
– Ora, não ouse dizer esse apelido em público – ele riu –, passarei vergonha assim.
Pat era, na verdade, o meu apelido para Patrick. Quando nos conhecemos, Patrick escorregou na lama na ponta de sua casa, e sem querer, gritou Pat, ao invés de um palavrão. Por causa do desespero diz ele, mas eu não acredito. Idiota demais, eu sei. Só o chamo assim quando fico nervoso ou algo do tipo. Enfim, esse era um motivo forte demais para ficar bravo com ele.
– Só acho muito rápido demais isso. Vocês nem se conhecem direito. É rápido demais.
– Cara, você tem que parar de falar “demais”.
Oh! Eu fiz de novo. Droga!
– Desculpe – murmurei – Mas acho que terá problemas com isso.
– Você acha coisas sem pé nem cabeça. Não reclame, essa é a verdade.
– Vamos nos ferrar se esses idiotas – ele apontou para Fred e Jimmy, que se aproximavam – continuarem no nosso pé.
– Não acho que fiquem se nós ignorarmos. Eles cansam uma hora, você vai ver. Não se preocupe.
– Nossa você fala como se estivesse acostumado com essas situações– ele observou, atônito.
– É porque eu estou. Mas termine seja lá o que for que você está comendo. Não quero me atrasar de novo.
É eu estava acostumado com essas situações no colégio, Algumas eram piores. Mas eu não quero falar sobre isso. Vou apenas esperar Patrick terminar seu almoço.
– Obrigado – disse Patrick, entregando o prato para a garota da lavanderia – Estava uma maravilha, assim como você.
Fiquei enojado com suas cantadas patéticas, e a menina sorriu. Como ela conseguia sorrir com isso? Eu não sei. Suzanne era pequena e delicada. Loira dos olhos castanhos e arregalados. Tinha mãos pequenas e pálidas, seu rosto era fino e levemente arredondado, não combinava com o jeito musculoso e desajeitado de Patrick. Ela era magra e esguia. Ele era destrambelhado e alto.
– Eu disse que ela gamou em mim. – ele gabava-se, enquanto corríamos pelo campo, agora alimentados e com a energia reabastecida.
– Provavelmente, ela não recebe muita atenção daqui. Portanto, receber gentileza de um militante deve ser tecnicamente, uma honra ou sei lá o que ela considera.
– Porque você é assim?
– Assim como?
– Todo negativo e extremamente correto. Custa falar alguma gíria?
– Mano, acho que não combino falando gírias. Se ligou, Brow?
Ele riu baixinho.
– Não, você não combina mesmo. E o lance de ser politicamente correto?
– Hm. Não sou assim. Apenas sou realista e penso de modo mais maduro que você. Aí está a graça. O geek e o “gostosão”. A dupla Infalível.
Ele pensou um pouco, enquanto virávamos a curva.
– A quem você se refere a gostosão?
Suspirei, que garoto lerdo.
– Bom, acho que vou mudar de “gostosão” para “tartaruga”.
– Entendi agora. Obrigado, eu sempre soube disso. Olho-me no espelho.
– Pelo que percebemos, eu não perguntei nada. E você não me deve respostas fúteis. Aliás, acho que – gritei, enquanto ele se afastava –, acho que você está correndo na direção errada!
Ele parou e me observou correr. Quando caiu a ficha de que deveria me seguir, Gray parou em sua frente. Pelo menos eu não estaria ali para ouvir à bronca que ele levaria.
– Foi horrível – dizia Patrick, enquanto tomávamos banho, encarando-nos, agora já sem vergonha, no bom sentido. – Ele me olhou com aqueles olhos amarelos de gavião e...
– Pelo que me lembro dos olhos do gavião – o interrompi. – não são exatamente “amarelos”.
– Que seja. Como eu estava dizendo, ele me encarava com um olhar mortal, dizendo para continuar a correr. Juro que naquele momento morri de medo.
– Não estaria aqui, se estivesse realmente morto.
– Ei, sabia que você não sabe ser sarcástico? Para de ser nerd.
– Sabia. Desculpe, eu tentei.
Os quartos estavam quase vazios. Alguns tinham ficado no campo, pois Gray ofereceu alguma atividade física extra. Era bem provável que os demais aceitaram para puxar o saco dele, e se mostrarem listados eficientes e com bom desempenho. Fazendo as atividades sem esforço e com determinação. Eu não faço parte desses espertinhos. Uso a lógica. E no momento, minha lógica diz que amanhã Gray pegará pesado. Que esse “treinamento extra” era um teste. E amanhã todos estariam cansados. Consegui fazer Patrick entender porque ele não devia fazer o exercício, e por fim, ele entendeu, e eu recebi um “você é um gênio” como resposta da informação. Na verdade, menti. Eu não estava exatamente usando minha lógica, ou minha “inteligência”. Eu ouvi meu pai me explicar sobre o tempo de alistado dele. O capitão dele era pior, ou pelo menos era o que ele dizia. Vivia fazendo testes. Por isso, se colocarmos a cabeça pensar um pouco, poderemos arriscar, e se pensarmos muito bem, quem sabe nos damos bem. A teoria do teste e um desafio de resistência amanhã era tentador, e minha mente martelava com essa possibilidade.
Olhei para o lado e vi Patrick me encarando.
– O que foi agora?
– O que aconteceria – ele disse, com o olhar distante. –, se fossemos gays e eu fosse apaixonado por você, mas você não me desse mole?
– Oh meu Deus, Patrick! Não sou obrigado a responder suas asneiras. Patrick, você é o cara mais idiota que eu já conheci.
– Obrigado. Agora responda a minha pergunta.
– Eu nunca te daria mole. E você nunca daria em cima de mim. E o melhor: Não somos gays, portanto tire essa ideia de idiota da cabeça. Vá dormir.
– Eu não consigo tirar ela da minha cabeça.
– Suzanne?
– Sim. Eu acho que vou ir lá vê-la. – ele tentou se levantar, mas eu o segurei.
– Escuta bobalhão, você é louco?
– Não. Sim. Não sei. Por ela.
– Então vê se põe essa cabeça de pudim para pensar, e fica deitado aí. Já pensou o que pode acontecer quando descobrirem você saindo do quarto para visitar uma menina?
– Tecnicamente, ela é uma mulher. Tem mais de dezoito anos.
– E você teve a audácia de perguntar a idade dela, grandalhão?
– Tive. Qual o problema? Ela vai ser a mãe dos meus filhos!
– Esquece. Pat me prometa que não vai sair. Prometa.
– Tá, eu prometo.
Eu conhecia Patrick, ele me prometeu, mas sua cabeça ainda estava na garota. Ele poderia ir à outra noite. E isso traria problemas para eles.
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