Uma questão de honra
5 Capítulo 4
O garoto observou minha expressão, e deu um sorriso divertido.
– Sim, sou eu – disse por fim, como se soubesse o que eu havia pensado. – Não que isso faça alguma diferença.
– Pelo contrário – eu disse, levantando o seu olhar. – Isso me ajudou a observar a personalidade de Gray. Pude decifrar o que ele pensa, e como pensa.
Ele pareceu confuso.
– Como assim?
– Ah, você não entenderia. Algum dia, quem sabe.
– Claro que sim – ele terminou seu balde e olhou para trás, na direção de Patrick e Suzanne, ambos sorridentes e envergonhados. – E se me permite me dar mais um conselho, deixe o relacionamento “afetivo” do seu amigo longe dos ouvidos de Jimmy e Fred, e sua atual trupe de babacas.
– Por quê?
– Eles farão de tudo para prejudicar Patrick e Suzi.
Não gostei muito do tom e o apelido íntimo que ele havia se referido a Suzanne, mas não comentei nada. Eu estava sentindo ciúmes pelo meu amigo, era ridículo.
– Porque fariam isso?
– Porque são uns idiotas. Terminei aqui, vou indo. A propósito, sou o Alex – ele estendeu a mão escura.
– É um prazer, Alex.
Alex assentiu e desapareceu nos fins dos dormitórios, a permissão de Gray.
Terminei meu trabalho e lancei um olhar para Patrick, e felizmente ele o encontrou. Mandei um aceno rápido para Suzanne e indiquei o céu escurecendo para Patrick, que estava com o segundo balde ainda cheio. Patrick entendeu e sussurrou algo para ela. Suzanne deu algumas risadinhas e saiu da lavanderia, mandando olhares e acenos para Patrick, e depois um aceno alegre para mim.
Segui a linha do lago, onde Patrick logo me encontrou.
– O que foi? – ele perguntou, tirando a camiseta coberta de casca de mandioca.
– Nada, vim para cá, é bem tranquilo, não?
Pat assentiu. Ele retirou as botas e ficou de cueca.
– Pat, o que está fazendo? Eca, não faça isso perto de mim, seu pervertido.
– Vou mergulhar seu idiota. Está calor, e não me importo com o que você pensa.
Na verdade, eu não me importava com o que ele estava fazendo, mas sim com o que aconteceria depois. Nada a ver com Gray ou algo parecido. Minha preocupação estava centralizada no momento que ele saísse da água, esse seria o pior.
E o momento logo aconteceu.
Logo após seus longos minutos dentro da água, Patrick saiu do lago escuro, pingando água, e eu cobri os olhos.
– O que foi? – Patrick riu. – Você me vê tomando banho, e está de sacanagem?
– Não é isso – olhei para ele. – O quê eu não gosto é a cena horrorosa que fica quando você sai da água.
– Como assim?
– Sua cueca é branca, Patrick. Cuecas brancas quando molhadas ficam transparentes. Posso ter te visto pelado, mas essa cena é traumatizante. Por favor, se cubra.
Ele gargalhou e colocou seu uniforme.
– Que sorriso cínico é esse? – perguntei, enquanto voltávamos para o dormitório, se fossemos pegos aqui e ainda por cima neste horário, seríamos punidos.
– Ela me deu um beijo – ele me encarou, encantado.
– Na bochecha?
– Não, na boca.
– E isso é bom?
– Lógico. Ela deve gostar de mim.
– E como sabe? Ela te disse?
– Não. Mas aposto que gosta. É uma questão de tempo até ela me dizer.
– Acho que quem deveria dizer algo assim deveria ser você.
– Por que acha isso?
– Porque é a realidade. Não estou querendo ser machista, mas você é o homem, e deveria dar a iniciativa. Ela é toda tímida e na dela. Não sei se ela tentaria começar qualquer coisa.
– Tem razão.
– Mas você é um bobalhão, seria legal ver você tentando juntar as palavras e gaguejando perto dela.
– Quem não gaguejaria? Ela é uma formosura!
– E você está apaixonado. Só quero que tome cuidado, Pat. Não acho que quaisquer indícios de namoricos sejam permitidos aqui.
– Ei, pare. Eu sei me cuidar sozinho.
– Disso que duvido. Mas a vida é sua, Patrick. Pode fazer o que quiser com ela.
– Eu vou fazer. Vou tirar bom proveito dela. Junto de Suzanne.
– Que lindo e enjoativo.
– Diz isso porque ainda não tem ninguém, mas quando tiver, vai me entender.
– Disse certo. Ainda não tenho. Portanto – retirei as botas e deitei na cama – Vá dormir e me deixe em paz.
Patrick me lançou um olhar fulminante, e depois se virou.
Se bem que isso era verdade. Eu não tinha uma namorada. Isso não me aborrecia, claro que não. Simplesmente isso me deixava meio para baixo. Eu vi alguns garotos escrevendo em seus cadernos de capa de couro. Podiam ser para qualquer um. Amigos, família, superiores e as namoradas. Tanto faz. Eu não tinha como adivinhar. Eu não tinha a ideia do que escrever para a minha mãe. Eu e a escrita não nos dávamos muito bem. Minha mãe ficaria emocionada com uma carta minha, mas ela não chegaria tão cedo. Era uma lástima, mas eu era perfeccionista. Tinha que ser uma coisa boa, emocionante. É bem óbvio que se eu simplesmente escrevesse “eu te amo” ela ficaria feliz, mas eu não. Minha mãe não se importaria. Um dia ela me disse que eu deveria fazer algo importante para alguém e que isso valesse a pena para os dois, que nunca mais fosse descartado, mas que isso não poderia ser para ela. Eu nunca entendi o que ela quis dizer, mas se essa era a sua vontade, um dia eu faria, nem que fosse a beira da minha morte. Era um sentimento de obrigação, devoção. Como se eu estivesse devendo um favor, como se eu tivesse feito uma promessa para ela. E eu odeio ficar devendo a alguém. Eu não podia mais pensar nela, eu acabaria chorando, e era a minha primeira semana aqui. Não era algo muito bom para a minha imagem ou reputação. Se é que eu inda tinha algo assim para zelar. Fechei os olhos e esperei o dia passar o que foi difícil, pois Pat não parava de roncar.
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