Uma prova de amor

1 Um dia não tão ótimo assim


Cinco horas da manhã. O despertador apita e em seguida já é desligado.

Regina acorda sentando na cama espreguiçando seus braços num longo bocejo.

— Hoje o dia vai ser ótimo!

Como ela sempre parecia estar com um bom humor nesse horário da madrugada, era inacreditável como um ser humano acordava sempre sorrindo.

Tomou um banho, escovou os dentes, escovou seu cabelo, hidratou seu corpo, se maqueiou e por fim espirrou um leve perfume adocicado de maçã no seu pescoço.

Mal chegou no trabalho e já foi recepcionada pela sua equipe. Todos com um belo sorriso no rosto e um "bom dia" pra acompanhar. Logo sua assistente já chegou com seu café de toda a manhã.

— Bom dia Srta. Mills.

— Oh pare Ruby, já lhe disse pra não me chamar assim. Apenas Regina está bom. — Pegou o café da mão da assistente lançou uma piscadela e entrou na sua sala jogando sua bolsa em cima da mesa.

Sentou na cadeira e respirou fundo tomando um gole do café expresso sem leite e sem açúcar.

Regina gostava sempre de estar com muita energia logo cedo. — O que temos aqui.. — Tinha uma pilha de papéis em cima da mesa e conforme ela passava de papel em papel suas sobrancelhas se estreitaram.

— Srta.. quer dizer Regina. Eu já ia te avisar que algumas das reuniões com aquelas editoras que você me pediu pra marcar foram canceladas. — Ruby apareceu na porta.

— Mas como assim? O que houve? — A morena parecia extremamente confusa.

— Disseram que seu conteúdo é...

— Ora vamos Ruby pode falar!

— É homofóbico, racista e inadequado para a publicidade da empresa.

— Isso é ridículo. — Falou sorrindo com ironia.

Regina tinha tudo que alguém poderia querer desejar.

Casa própria, carro chique, uma empresa em processo do sucesso e funcionários que à idolatravam. Estabilidade financeira, amigas presentes e um bando de homens querendo sua atenção a todo custo.

Parecia ser a vida perfeita para a mulher perfeita. Exceto por uma coisa.

Regina não tinha caráter.

É isso mesmo que você leu.

Regina não tinha um coração bom nem de longe. Era cruel e preconceituosa de todas as formas possíveis.

Se você não estiver aos pés dela, é simplesmente descartado.

— Eu vou ligar pra outras empresas que não foram chamadas e..

— Não não não.. — Negou com o indicador enquanto lia um dos papéis. — a minha ideia é simplesmente genial, não existe a possibilidade de ser destruída assim por essas empresas sem margem de... conteúdo! — Ela pensou por uns segundos, olhou pra Ruby. — Ligue de novo pra eles e diga que insisto em marcar as reuniões.

— Mas Regina, já fizemos isso semana passada com aquelas outras empresas e todas recusaram da mesma forma. Eu não sei como dizer isso mas.. acho que não querem esse tipo de ideia no mercado.

— Eu te pago pra fazer o que mando, não pra dar opiniões Ruby. — Cruzou suas pernas repousando na cadeira. — Marque as reuniões.

— Tudo bem.. sim Regina. — A assistente baixou a cabeça e se retirou.

~~~~~~~~~~~~~~~

— Você enlouqueceu! — Todas as cadeiras daquela mesa cumprida estavam ocupadas numa sala fria pelo ar condicionado.

Estavam ao redor da mesa, homens engravatados e mulheres bem vestidas.

— O que está chamando a atenção nos últimos tempos e sendo o mais pronunciado possível são anúncios e propagandas contra a homofobia e racismo. E você quer colocar um tipo de propaganda que vá totalmente contra essas regras? Seria crime. — Um dos homens se pronunciou.

— Pensem na ideia — Regina caminhava ao redor da mesa com classe. — Você está andando pela calçada num dia bom e quando menos percebe, se depara com dois homens de mãos dadas da cor negra.

Acredito que não exista maior ofensa tanto pra raça quanto pros padrões sociais.

Então você desvia daquilo pra evitar o desgosto.

Você entra numa loja e compra o chocolate branco da Cacau Delícias ou seja, a marca da sua empresa. — Sua postura sempre impecável, o som dos saltos era a única coisa que ecoava pela sala.

— Você já falou sobre isso no começo da reunião e já entendemos. Mas essa sua ideia vai nos levar a falência. Imagina a quantidade de processos que tomariamos nas costas!?

Sem contar algum tipo de movimento ou protesto que também iriam jogar contra a gente.

— Sem falar que não estamos mais em 1910. — Uma ruiva se pronuncia não gostando do que tinha ouvido.

— Os tempos mudaram. Todos querem igualdade e respeito, esse tipo de público é praticamente o maior que existe. Estão lutando tanto por respeito e compreensão e agora que estão conquistando quer tirar isso deles? — Outro homem comentou.

— Essas pessoas são o motivo de toda essa bagunça! Gays, lésbicas, travestis e toda a merda que acham que sejam.. Não passam de doentes. — Regina tinha raiva no olhar e um sorriso maquiavélico nos lábios.

— Explica pro meu esposo, que ele tem uma doença há quase vinte anos só por ser casado comigo então. — Um homem mais velho entre eles chamou a atenção fazendo todos olharem pra ele e depois de volta para Regina.

Silêncio no ar.

— Eu me recuso a participar de uma empresa que contrata esse tipo de gente. — Suspirou fundo e pegou sua bolsa. — Vocês são desprezíveis.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

— O que é? — Regina atendeu o telefone enquanto andava pela rua.

— Nossa.. que mal humor é esse?

— Dia não tão ótimo assim.

— Que merda. Me encontra no Rabbit Role em 5 minutos.

— Não posso estou ocupada com o trabalho.

— São só dez minutos do seu precioso tempo, majestade. — Aconteceu um reviro de olhos mútuo entre a ligação.

— Sorte sua que estou perto.

Caminhando mais um pouco Regina chega no bar sentando em frente ao balcão ao lado de Tinker, sua amiga de infância. — Eu quero um whiskey duplo por favor e com gelo.

— O que aconteceu com a cidra de maçã?

Ah sei.. dia não tão ótimo assim. — A loira terminou seu último gole e pediu mais um. Podia sentir o olhar reprovador da morena.

— Faz somente um ano que você não é mais uma alcoólatra, devia maneirar.

— Eu to maneirando. Isso é só um.. um.. drink ocasional.

— Claro.

— É verdade eu to muito melhor agora Regina. Já você acho que não.

— São essas empresas sem bom senso. Não sou eu. Minha ideia é genial. — Bebeu um gole da sua bebida com cuidado. — Esse copo foi esterilizado? Não está me parecendo nenhum pouco higiênico. — Largou o objeto em cima do balcão e limpou as mãos com guarda napo.

— Rejeitaram sua ideia de novo?

— Eu que tomei partido em dispensar eles. Não valeriam a pena de nenhum modo.

— Regina você sabe.. que como sua melhor amiga de infância eu te conheço melhor que ninguém..

— Por favor não vamos entrar nessa de novo.

— Eu só estou dizendo.. que talvez pra sua empresa ir pra frente, você precisa inovar sabe.. ir na onda do momento.

— Onda do momento? — Duas sobrancelhas arqueadas foi o que Tinker recebeu.

— Só to dizendo pra você seguir a vibe.

— Tinker eu sei bem como administrar a minha empresa, não preciso dos conselhos de uma advogada de quinta, ex alcoólatra que continua bebendo.

As duas ficarem em silêncio. Regina viu que tinha magoado os sentimentos da amiga. Tinker era a única pessoa que a morena se sentia mais a vontade pra ser sincera.

— Me perdoe eu não quis dizer isso.

— Você não está num dia bom. — Voltou a beber.

— Eu acho que a minha empresa vai falir. — Tinker quase cuspiu a bebida.

— O que???

— Os lucros estão diminuindo, não tenho margem de vendas do nosso marketing. Estou tentando a todo custo marcar reuniões com investidores e editores mas todos simplesmente recusam as minhas ideias.

— Pelo menos você não tem o nome de uma fada. — Respondeu com ironia.

— Não eu tenho o nome de uma rainha má.

— E é exatamente o que você é. Uma rainha má.

— Já está bêbada.

— Não tô não. Você sabe o que precisa fazer pra conseguir com que invistam em ti. — Regina parecia confusa. Por fim ela discordou intolerante.

— Não.

— Regina olha só. Você quer ser preconceituosa, homofóbica e tudo mais tudo bem. Mas não deixa isso arruinar sua carreira.

— Não é essa a questão Tinker. Pessoas assim nem deveriam existir, não posso aceitar divulgar um absurdo desses.

— O que ? Duas mulheres juntas ou homens ou sei lá o que for?

— Isso é doença.

— Isso é orientação.

— Lá vamos nós novamente e você sabe que essa discussão não acaba bem.

— Okay eu já parei. Só não deixa isso te arruinar tá.

— Eu tenho que ir. Preciso voltar a trabalhar. Por favor se cuida.

— Também te amo.

~~~~~~~~~~~~~~~

Na cabeça de Regina o mundo teria que estar em perfeito equilíbrio e esse equilíbrio é como tudo "sempre" foi. Casais héteros e ponto.

Toda essa nova representatividade e respeito que as pessoas homossexuais estavam lutando tanto pra obter era simplesmente uma tentativa de fazer uma doença se alastrar pelo mundo.

Há dois anos atrás sua empresa ia melhor que nunca com anúncios e vendas de publicidade totalmente tradicionalistas e muitas vezes racistas.

Mas os tempos realmente mudaram e aos poucos esses costumes tradicionais foram se esvaindo, trazendo até a consequência do crime.

Só que Regina não estava nem ligando pra isso. Ela só queria deixar a reputação tradicionalista intacta. É assim que tudo "devia" ser.

De volta ao trabalho, passou horas na sua sala tentando agendar mais reuniões com investidores de alto escalão. Alguns aceitavam mas pagavam pouco pelos riscos. Porém a maioria dispensava.

Resolveu fazer uma simulação de quanto perderam naquele ano todo. Se assustou com os resultados olhando para a tela do computador. Não era possível ter decaído tanto.

Estava prestes a falir e não sabia o que fazer pra conseguir dinheiro logo e rápido. Ela tinha funcionários pra pagar e todos os custos e aluguéis do local. Tudo parecia estar indo tão bem e mais uma vez esse tipo de gente "doente" acabando com a sua vida em tão pouco tempo e naquele momento tudo estava indo por água abaixo.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

— Como a senhora me diz que não posso tirar o empréstimo? — Regina diz indignada mas mantendo a postura. Outro dia não tão ótimo assim.

— Eu sinto muito Srta. Mills. Mas pra quantidade que você quer não podemos fornecer.

— Eu tenho uma empresa que vale 10 milhões de dólares há mais de 5 anos e você me diz algo desse tipo?

— Eu sinto muito. Mas pelo que vimos pelo sistema sua empresa não vale mais essa quantia e o quanto a senhora está pedindo o banco não pode ajudar.

— É inacreditável. É inaceitável. — Levantou arrumando sua saia justa e caminhou pra fora do banco central.

Estava quase entrando em desespero. Não sabia o que fazer e jamais cederia em mudar sua ideia de marketing.

Passado por ali, foi para o trabalho ver como estavam as coisas e depois decidiu ir para a academia com uma amiga.

— O que você faria se precisasse de dinheiro rápido Bela? — As duas corriam na esteira.

— Amiga, por que tá me fazendo essa pergunta?

— Só por curiosidade.

— Eu faria um empréstimo.

Regina parou a esteira pra tomar sua água tônica e secar o suor com a sua toalha.

— Bom, um empréstimo não é opção nessa hipótese. — Sua "amiga" parou de correr também e olhou desconfiada.

— Você ta falhindo?

— Você enlouqueceu querida? — Sorriu de canto — É para uma amiga. Ela está em apuros e precisa de muito dinheiro rápido.

— Ata já tava pensando que teria que pedir pro Rumple ver um outro emprego. — Deu uma risada alta.

— Não se preocupe, seu marido tem o emprego garantido.

— Ah perfeito. Então Regina não sei como te ajudar a ajudar a sua amiga. — Imediatamente mudou sua feição para uma carinha triste.

— Sem problemas Bela. — Regina foi para outro aparelho e Bela foi atrás.

— Mas.. Eu conheço alguém que conhece alguém.

— Por que está sussurrando?

— Porque isso é segredo.

— E por que é?

— Não é importante. Eu tenho o número se você quiser. — A morena pensou por um curto tempo. — Mas se não quiser..

— Pode me passar eu aceito. — Ao terminarem os exercícios Bela passou o contato e se despediu falando que "Ela não soube desse número por ninguém".

Parecia meio suspeito mas ela decidiu mandar uma mensagem assim que chegou em casa.

Regina: Boa noite.

Desconhecido: Qual o serviço?

Regina: Preciso de dinheiro rápido

Desconhecido: Quanto?

Regina: Podemos nos encontrar pessoalmente?

Desconhecido: Me encontre no centro perto da Praça central. Amanhã 20 horas.

Regina: Como vou saber quem é?

Desconhecido: Jaqueta vermelha

Regina estava muito desconfiada e odiava admitir que precisava de ajuda. Mas por mais que fosse uma pessoa ruim não queria tirar o emprego dos seus funcionários e muito menos claro, perder seus próprios benefícios. Ela só precisava do dinheiro pra reinvestir e pagar os atrasos das contas e dívidas. Tudo ficaria bem ela só precisava do dinheiro.

Na manhã seguinte, como sempre, acordou as 5 da manhã e fez sua rotina matinal. Foi trabalhar, tentar marcar mais algumas reuniões mas sem sucesso devido a sua reputação.

Todos estavam trabalhando duro para desenvolver e programar todas as outras ideias que Regina já tivera e se esforçando pra manter os contratos já assinados com empresas há anos. Nada estava indo muito bem.

O tempo passou e Regina já estava pronta pra ir encontrar com a pessoa desconhecida pra ver se conseguia algo. Pegou sua BMW e dirigiu até o parque.

Chegando lá ela não avistou ninguém com uma jaqueta vermelha. Observou em pé por um tempo. Mas logo em seguida decidiu sentar no banco para esperar.

Tinham poucas pessoas aquela hora.

— Eai Madame — Regina pareceu ter tomado um leve susto quando viu uma mulher loira de jaqueta vermelha sentar ao seu lado. A morena não disfarçou o olhar de espanto. — Não olha pra mim. Somos apenas pessoas desconhecidas que sentaram no mesmo banco. — A mulher olhava em volta da praça. — Esperava o que? Que fosse um cara barrigudo de bigode grosso, corrente de cifrão e tatuagem na testa?

— Como você sabe que sou a pessoa certa?

— Dá pra ver pelo seu olhar. — A mulher tinha um charme natural.

Um sorriso galeante e cheirava a hortelã com baunilha. Vestia calças jeans e botas. Uma camisa meio aberta por baixo da jaqueta vermelha.

— Vamos direto ao assunto Srta... — Regina tornou a olhar pra ela com um ar arrogante.

— Pra você eu sou a srta ninguém. — A loira olhou no fundo dos olhos da morena. Como se fosse possível ler sua alma. — Precisa de dinheiro e não sabe como arrumar ne?

— Você consegue resolver isso?

— Claro — Sorriu.

— Qual seu preço?

— Me diz você.

— 5 milhões.

— Puta que pariu. Tu parece fudida mesmo.

— Acho que como mulher você deve medir suas palavras Srta. — Regina odiava palavrões assim. A risada da desconhecida não poderia ser mais alta

— Eu acho que como "mulher".. você nem deveria ter me mandado mensagem. — Sussurrou se divertindo. — Seu maridinho não te paga mais?

— Eu não tenho marido, não que isso seja da sua conta.

— Não é e nem me importo.

— Então passa o número do seu chefe logo pra eu não perder mais meu tempo aqui.

— Não sem receber algo em troca.

— Por um número?

— Tudo nessa vida tem um preço madame. Chegar até eu é fácil, prosseguir é que é difícil. — O branco dos dentes da outra começou a irritar Regina.

— O que você quer?

— To pensando..

— Okay, claramente perdi meu tempo. — A morena se levantou com desgosto daquela situação com aquela pessoa.

— Uma noite. — Se levantou e andou até a morena. As duas se olhavam dessa vez.

A loira foi passar o dedo pra tirar o cabelo de Regina do rosto mas levou um chega pra lá abrupto.

— Não encosta em mim! Saiba que nem se você fosse a última pessoa da face da terra em hipótese alguma eu passaria uma noite com uma mulher. Isso é nojento e inadequado...

— Blá blá blá.. — Foi interrompida. — Eu não quero transar com você, só um cinema.

— Você é louca.

— A escolha é sua, seu dinheiro está a um passo de ti. Vai rejeitar por não querer ir num cinema? Quem não gosta de cinema?

— Você nem me conhece.

— E se eu quiser conhecer?

— Que atrevimento! — Regina suspirou umas três vezes. Pensou por um tempo. Seria só um cinema certo?

Poderia aceitar pra pegar logo o número e pedir o dinheiro que precisava. E jamais deixaria a desconhecida se atrever a querer algo a mais. Quanto mais rápido isso acontecesse mais rápido terminaria.

— Okay. Mas.. um cinema e depois nunca mais eu quero te ver na minha vida! — Só de pensar em sair num cinema com uma mulher já pensava em vomitar. Mas tentou ao máximo pensar que era apenas um encontro de "amigas".

— Fechado então. Vou entrar em contato. — A desconhecida sorria convencida demais e assim se retirou dali tão rápido como chegou.

Notas finais
Se gostaram comentem!