Uma nova vida
20 Capitulo 18 - Bêbada, ou não, minha vida continua uma droga!
Notas iniciais
Capítulo 18 – Bêbada, ou não, minha vida continua uma droga!
FLASH BACK ON
– Corra querida.
Era a voz de meu pai.
A cada pedalada que eu dava naquela bicicleta eu sentia a alegria invadir meu coração. Era o dia em que eu finalmente conseguiria dar minhas primeiras pedaladas. Para mim esse era o dia mais importante da vida de uma garota de seis anos. E com um pai ao seu lado tudo ficava melhor.
Enquanto minha mãe estava dentro de casa ensinando a Liam como fazer crochê, papai me ensinava a pedalar. Eles sempre faziam questão de nós ensinar tudo o que conseguiam. Tanto que Liam aprenderá a fazer sapatinhos de bebês com crochê.
A brisa do dia gelado batia em meu rosto. Meus cabelos, que antes estavam em um coque frouxo, agora voavam pelo vento.
– Consegui papai. – foi o que saiu da minha boca, depois que consegui pedalar sem rodinhas de apoio.
– Você sempre consegue.
Desci da bicicleta e corri para os braços de meu pai. Os braços quentes criaram uma barreira para que eu nunca saísse de perto dele.
– Eu te amo.
– Também te amo, filha.
FLASH BACK OF
– Pai?
Inacreditável. Depois de tanto tempo ele teve a descarada idéia de voltar? Ele ao menos sabe o quanto eu chorei quando ele se foi?
– Oi querida.
Neste ponto lágrimas já saiam do meu rosto.
Não chore por ele – meu subconsciente avisava.
O esperei por três anos antes de desistir. Eu acreditava que ele poderia voltar. Por mim. Por tudo que passamos. Cada palavra, cada gesto, cada Eu te amo.
– Não chore. – ele se aproximou e limpou uma lágrima.
Por impulso o empurrei para longe. Ele não pode fingir que nada aconteceu.
– Eu sei que você, me odeia.
– É mais que isso. Eu não sei como consigo olhar pra você.
Senti meu celular vibrar novamente dentro do bolso. Só de pensar que da última vez, a ligação era porque meu pai me esperava em meu quarto, a vontade de atender essa foi por água a baixo.
Mike – era o nome que o visor mostrava.
– Pode atender.
Eu atenderia de qualquer maneira.
– Mike? – perguntei aparentando dúvida.
Só esperava que ele não percebesse minha voz abalada.
– Você está bem?
– Por que a pergunta?
– Eu senti que não.
Deixei que as lágrimas saíssem. A cada dia que se passava meu coração batia mais rápido por Mike e eu não queria admitir isso. Nem pra mim e nem pra ninguém. A cada toque que ele me dava eu sentia meus pelos se arrepiarem. Cada selinho que ele me dava eu tinha vontade de aprofundar.
Talvez eu estivesse me sentindo atraída por ele.
– Eu sei que você está me odiando agora, mas se quiser um ombro amigo, eu estou aqui. – sorri com isso.
A cada dia que se passava ficávamos mais próximos. Era difícil admitir que eu gostava mesmo dele. Mas eu sentia que um dia ele me magoaria.
– Ou você está bêbado ou anda fumando drogas.
O ouvi gargalhar do outro lado da linha. Sua gargalhada me fazia sorrir.
– Não posso negar que estou parecendo gay agora.
– Mas mesmo assim, obrigada.
–Agora, tchau. Vou fazer maratona de pornografia com Matt.
Tudo que é bom, dura pouco.
– Cadê o respeito pela namorada?
Meu pai arqueou as sobrancelhas.
Era tão inacreditável que eu pudesse namorar?
– Devo ter perdido.
– Tchau! – exclamei encerando a ligação logo em seguida.
Olhei para meu pai que batucava as mãos na minha escrivaninha.
Lembra quando eu disse que não lembrava, de quando meu pai havia ido embora? Eu estava mentindo. Eu lembro. Não tão bem a ponto de contar detalhe por detalhe, mas lembro do dia que ele passou pela porta e me deixou para trás.
Eu apenas tento não lembrar, tento apagar isso tudo da minha memória. E quando as pessoas perguntam se eu lembro, eu apenas digo que não. Não quero que elas me olhem com pena, não quero que tentem me fazer sentir melhor.
– Você namora?
Assenti. Não tinha palavras para falar com ele. Limpei a ultima lágrima que caiu e o olhei diretamente nos olhos.
Era um tipo de recado que tínhamos. Era assim que eu me expressava com ele.
– Eu sei que você está triste. – ele passou a mão pelo cabelo, tentando inutilmente se acalmar.
Por que mesmo ele está nervoso?
– Por que voltou? Peso na consciência?
– Eu sei que foi errado te deixar para trás, mas tente entender meu lado. – revirei os olhos. Eram mentiras uma atrás da outra. – Eu a amava e sua mãe não aceitava. Nosso casamento já havia acabado á anos. Eu precisava de amor e sua mãe não podia me dar.
– Isso não explica ter me abandonado. E pense no Liam também!
– Eu queria ter te levado comigo, mas sua mãe me afastou.
– E por que agora ela mudou de idéia? – perguntei aumentando minha voz.
Meu pai me olhou e limpou uma lágrima de seu rosto.
– Porque eu pedi para que ela pensasse em vocês e não apenas nela.
***
Eu brincava no quintal de casa com Callie enquanto Liam conversava com Fred sobre coisas de meninos em seu quarto.
Eu e Liam nunca fomos bons em amizades, então os que tínhamos não deixávamos escapar. Principalmente aqueles que nos faziam sorrir todos os dias. Esse era o caso de Callie, minha melhor amiga. Minha confidente.
A encarei enquanto tentava inutilmente colocar uma saia em sua boneca.
Eu já sentia que alguma coisa iria acontecer, mas nunca imaginei que chegaria ao ponto de perder alguém que eu amava.
–Por que essa saia feia não entra nela?
Arqueei as sobrancelhas.
– Deve ser porque você está tentando colocar uma saia da Barbie, em uma boneca maior que você. – rimos juntas.
– Seu pai vai viajar? – ela perguntou e eu não entendi até olha para trás.
Avistei meu pai na porta dos fundos segurando duas malas enquanto conversava com minha mãe. Os dois pareciam brigar entre sussurros. Quando perceberam meu olhar sobre eles sorriram. Era um sorriso falso e eu sabia disso. Eu sentia quando eles estavam tristes.
Uma buzina foi ouvida do lado de fora. Meu pai olhou para minha mãe que chamou Liam com apenas um grito.
O garoto desceu as escadas correndo e se não fosse pela sua habilidade de equilíbrio ele poderia ter caído. Meus pais olharam em minha direção e foi ai que eu percebi.
Não ele não estava indo viajar, ele estava indo embora. Como Liam havia previsto á uma semana atrás. E foi ai que eu mais precisei de Callie.
Levantei do chão foi em direção ao que um dia foi minha família. Antes olhei para trás e avistei minha amiga me encarando. Ela estava triste por mim. Ela sentia o que eu sentia. Continuei meu caminho até chegar de frente para Liam que me mandou um olhar de “sinto muito”.
– Isso é um Adeus? – Liam perguntou abraçando meu pai.
Eu apenas encarava-os. Meus pés estavam presos no chão. Senti a mão de minha mãe no meu ombro. A mesma me puxou para dentro de casa e me abraçou. Foi ai que eu percebi que estava chorando.
A buzina foi ouvida novamente e eu ouvi passos indo em direção a porta. E quando eu menos esperei a batida na porta foi ouvida.
Ele tinha ido embora. Sem se despedir de mim.
***
Deixei que as lágrimas descessem de novo. A mesma lembrança me perseguia em todos esses anos. Em meus sonhos e pesadelos. Acordada ou dormindo. Era o que vinha sempre que eu pensava na palavra pai.
– Preciso que você saia. – falei apertando os olhos.
Abaixei a cabeça e apontei a porta. Os passos dele foram ouvidos. Eu seguia seus pés com o olhar. Ele parou na porta e antes que fosse embora falou:
–Eu não me despedi da ultima vez. – sua voz parecia abalada. – Tchau, Bria.
E novamente, a batida da porta foi escutada. Ao menos ele havia se despedido de mim desta vez. Com o apelido que apenas ele gostava de me chamar.
Bria!
(...)
– Você precisa de Vodka. – Sierra disse fazendo-me gargalhar.
A garota arrastou-me junto com Isa, para um supermercado com o intuito de comprar bebidas alcoólicas. Segundo ela, quando estava triste bebia para afogar as magoas. Já Isa dizia que quando estava triste, estudava.
E é claro que eu preferi as bebidas alcoólicas. Ficar bêbada pela primeira vez na vida, não mata ninguém.
Depois do ocorrido em casa, eu me tranquei no quarto e não sai nem quando me ofereceram lasanha. Liam batia na porta de dois em dois minutos, para saber se eu me sentia bem. E a não ser pelo fato de meu pai ter voltado dos mortos, eu me sentia bem. E quando liguei para as garotas falando que precisava de uma terapia, elas me fizeram sair de casa.
Pela janela!
– Ainda não entendi porque vamos beber ao invés de estudar. – Isa disse e Sierra revirou os olhos.
– Eu posso fazer uma lista. E a lista começaria com: “Bia ficaria com mais depressão ainda”.
– Podíamos beber champanhe sem álcool. Só pra fingir.
As duas me olharam e começaram a gargalhar. Eu tentei...
– Depois dessa, eu vou até quebrar essa garrafa, aqui. – Sierra disse pegando uma garrafa de vinho.
E foi o que ela fez.
E antes que eu pudesse pensar as duas já estavam correndo supermercado afora. Nem preciso dizer que fiquei com cara de paisagem no mesmo local, né?
As pessoas que passavam me encaravam de cima a baixo. Foi ai que percebi que colocariam a culpa em mim. E foi ai que eu corri, para qualquer lado.
Se me falassem que eu estaria correndo em um supermercado á duas horas atrás, eu não acreditaria. E se me falassem que eu encontraria o time de basquete da escola, neste mesmo supermercado, eu ficaria pasma.
E vamos incluir Mike Hamilton.
Já que eu já estava corada de vergonha por ter esbarrado em Justin, não teria outra saída a não ser sorrir pra eles. Alguns me olharam, outros sorriram e outro apenas me levantou do chão.
E não, não foi Mike. Foi o Justin.
– Por que estava correndo?
– Eu estava testando minha velocidade.
Os garotos soltaram uma gargalhada tão alta, que poderiam provocar um terremoto.
– Achei você, sua malandra. –um homem, maior que um lutador de MMA disse e eu estremeci.
Nem preciso dizer que é um segurança! Bem forte. Pra variar.
– Hoje em dia não tem mais seguranças magrelos? – perguntei e os garotos seguraram a risada.
– Pode explicar o vinho quebrado?
Só me restava me fazer de desentendida.
– Que vinho?
– Aquele quebrado.
– Quebrado? Mas eu nunca vi um vinho quebrado!
Mike passava a mão no cabelo enquanto sorria. Hoje seu sorriso estava mais bonito e uma vontade de beijá-lo invadiu meu corpo. Quando o mesmo percebeu meu olhar sobre ele, me olhou e disse em um sussurro “Se ferrou”.
– Não se faça de besta. – o segurança reclamou, fazendo-me olhar em sua direção.
– Qual seu nome?
–Richard Parker.
– Nome bonito. – falei dando batidinhas leves em seu uniforme.
– Obrigada. – sorriu de lado. – Minha avó que escolheu.
– Criança perdida no pátio 2 – o rádio de Richard anunciou e ele revirou os olhos.
– Não sei como essas pestes, se perdem. – reclamou insatisfeito.
Ele se foi corredor afora e eu voltei com minha típica cara de paisagem. Foi mais fácil do que eu imaginei.
Voltei meu olhar para os garotos que ainda estavam ali. E antes que eu pudesse falar qualquer coisa, eles explodiram em gargalhadas. Eu só fiquei observando, porque não encontrei o motivo da graça, mas talvez tenha sido o segurança.
– Achamos você.
Sinto que já ouvi isso.
Sierra e Isa apareceram do meu lado e encaram os garotos que não pararam de rir. Só pararam quando eu chutei a canela de todos. A não ser pelo fato de ter olhares mortais sobre mim, havia melhorado.
– Onde vocês estavam? – perguntei para as garotas que sorriram.
– A Isa estava conversando com um Boy Magia, dos Deuses.
Olhei na direção de Justin que fez uma careta.
– E você? – Sierra perguntou e eu arqueei as sobrancelhas.
– Bom, eu corri supermercado afora antes de esbarrar em Justin e cair no chão. Isso leva em conta ter passado mico na frente de todos. – as garotas soltaram risadas abafadas e eu continuei. – Depois fui surpreendida por um segurança maior que estatua da liberdade, que alegou que eu quebrei o vinho, que na verdade você quebrou, porque anda fumando altas drogas. Acho que foi só isso.
– No...
Isa começou e eu a atrapalhei:
– Ah, e eu ainda não bebi minha Vodka!
– Pra que Vodka? – Mike perguntou e nos olhamos em sua direção.
– Ah, deve ser porque o pai dela voltou dos mortos. – Sierra disse tranquilamente.
Mike pareceu de engasgar com sua própria saliva, porque começou uma maratona de tosses.
Deve estar com medo de se apresentar para mais um membro da minha família como meu namorado. – pensei comigo mesma.
Ri sozinha e os outros pareceram estranhar.
– Lembrei de uma piada.
Bom, não foi a melhor desculpa, mas eles pareceram acreditar.
Voltamos á realidade e fomos comprar minha bendita Vodka. Eu não estava totalmente a fim de beber, mas o que melhor que álcool para esquecer os acontecimentos recentes? E não é qualquer dia que a Vodka está em promoção.
Tivemos que pedir para Bob comprar, pois somos menores de idade. Fazer o que, né?
Pegamos as sacolas e saímos do supermercado. Os garotos decidiram me acompanhar na bebedeira e compraram mais bebidas. Onde passávamos as pessoas nos olhavam estranhos. Alguns cochichavam, outras velhinhas balançavam a cabeça com desgosto, outros adolescentes faziam algum tipo de toque com os garotos.
Qual o problema de beber?
Todo – meu subconsciente dizia.
Chegamos no parque e sentamos na grama.
– Ótimo lugar para beber quando se é menor de idade. – Sierra ironizou.
Peguei a garrafa de Vodka e abri. Ao que dizem está bebida não deixa você bêbado muito rápido. Pelo menos espero que isso seja verdade. Nunca me imaginei bêbada.
Todos olharam em minha direção como se fosse algo épico de se ver.
E a legenda é... “A primeira bebida alcoólica que uma adolescente irá beber”.
– Não me sinto a vontade com vocês me olhando. – reclamei.
Eles viraram o rosto para qualquer outra direção e eu tomei coragem para beber aquilo. O liquido incolor desceu minha garganta e uma ardência invadiu a mesma. Mas por incrível que pareça todo meu corpo pedia mais daquilo.
Enquanto eu bebia mais, avistei Mike me encarando. No mesmo instante que percebeu meu olhar sobre ele, corou. E isso sim era épico de ser visto.
– Gostou? – ouvi a voz de Felipe em meu ouvido.
Olhei em sua direção e o mesmo sorriu de ponta a ponta. Assenti com a cabeça. Voltei meu olhar para Mike e percebi que ele fizera uma careta. Ele desviou o olhar e adentrou em uma conversa animada com Matt.
Eu não estava nem ai pro mundo a minha volta. Eu estava ligando apenas para minha bebida e para meus pensamentos. E todo o meu cérebro fora preenchido pelo meu pai. Era ele em cada pedacinho dos meus pensamentos.
Quando menos percebi não tinha mais consciência de nada. Não sabia onde estava. Com quem estava e muito menos o porquê estava.
Minha primeira vez bêbada. E tudo por causa de meu pai.
Eu estava tão bêbada que antes que eu percebesse já estava dormindo e ao mesmo tempo chorando. Foi tempo de ouvir os garotos falarem:
– Ela está chorando?
– Credo, ela ta me assustando.
– Fraquinha.
– Ela dormiu chorando. – essa na verdade foi Sierra.
Senti meu corpo sair do chão e me deixei adormecer.
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