Uma mestiça com estilo

4 Regra 1 - "americanizar"



Acredito que tudo o que fazemos nessa vida, algum dia, refletirá em nós.

— Ainda bem que decidiu vir conosco!- Suni diz sorrindo para Lisa, que retribui o sorriso na mesma intensidade — Eu queria de fato, uma chance, para te conhecer melhor.

— Eu também!

Sinto o clima meio estranho pairar no ar. Suni, aparentemente, não apreciou a ideia de eu ter convidado Lisa para vir conosco. Mas, mesmo assim, eu insisti.

— Eu quero comprar um vestido novo. — divido minha empolgação com ambas que se entre olhavam discretamente.

— Vestidos não, quem sabe um jeans? — Lisa joga o braço sobre meus ombros — Talvez fique melhor em você.

— Se eu disser que nunca usei jeans acreditaria em mim? — pergunto fitando seus olhos que não revelaram surpresa.

— Eu só não acreditaria se você me dissesse ao contrario.

— Há, Há ... — rio ironicamente, fazendo uma expressão de deboche.

Suni balança a cabeça, mesmo não gostando muito de Lisa, aos poucos, acredito que ela esteja se acostumando com a mesma.

— Bem meninas, vou deixa-las sozinhas por um tempo. Preciso comprar um vestido. — Suni diz, virando-se para Lisa — Tome conta dela, por favor!

— Claro... — responde de imediato brincando com minha trança.

— Ta bom! — Suni beija minha testa — Qualquer coisa, me liga, OK?

— Tá. — respondo me despedindo.

Suni foi para outro caminho, deixando-nos sozinhas em um corredor repleto de pessoas.

— Acho que ela não gosta de mim. — comenta Lisa ao me arrastar para dentro de uma loja qualquer.

— hum... Serio? Acho que não. — faço cara de paisagem ao falar.

Olho ao meu redor, e vejo várias roupas de crianças. Acho que fomos parar dentro de uma loja infantil. Mesmo assim, Lisa, me puxava pelas mãos, olhando de um lado para outro como se procurasse alguém.

— Por que estamos aqui? — pergunto ao passar por dentro de algumas peças.

— Ah, sim, tenho um amigo que está nos esperando aqui.

— Amigo? Que amigo? Você não falou sobre nenhum amigo.

Ela ri de mim, fazendo caretas.

— Pare de escândalo! É alguém que irá nos ajudar. Não posso te transformar sozinha.

— Ehhh, por que diabos ele estaria em uma loja infantil?

— Porque é o único lugar que consegue se esconder das meninas!

Meu cérebro, não processou tão rapidamente quanto eu queria. Enquanto, minha mente trabalhaca para criar uma imagem que fosse plausível para o amigo misterioso de Lisa. Ela continuava a procurar, até que parou de repente de andar, e acenou empolgada para alguém que esperava no outro lado da loja.

Era um homem, alto, de pele escura. Seu corpo forte, estava sendo sufocado por uma camisa de mangá preta. Ele usava óculos, por isso, não pude ver seus olhos, porém, o que podia ser visto, era mais que suficiente: Seu jeans era escuro, e não estava colado a suas pernas que pareciam torneadas. Sua cabeça, era raspada, mas não careca. Aquele homem estava de lado, então, não pude deixar de prestar a atenção em seu bumbum arrebitado.

Nossa, chego até corar só de pensar nessas coisas. Só não fiquei com mais calor, porque o ar estava ligado, e bem abaixo da minha cabeça.

— Ele é quente neh? — Lisa sussurra em meu ouvido, enquanto o homem se aproxima.

Não a respondi, e nem concordei. Apesar de que, estava certa.

— Edgar! — grita pulando em seus braços. Ele beija-lhe a bochecha de forma íntima. Digo íntima, porque suas grandes mãos, percorriam lentamente as costas de Lisa.

— Lisa, querida! — morde sua orelha. — Fazem quantos dias já?

— Não reclame, só foi uma semana. Estive ocupada. — resmunga apertando os ombros dele — Venha, quero que conheça minha amiga.

— Ué, o que houve com a outra?

— Deixou a cidade. Acho que está relacionado ao vazamento de seus nudes.

Edgar gargalhou. Lisa trouxe-o direto mim, de mãos dadas.

— Essa é Sophia. — apresentou — Esse é Edgar.

Edgar retirou o óculos. Seus olhos, eram verdes, verdes como a grama. Ele era dono de um rosto incrível, tão incrível que senti vontade de tocá-lo.

— Sophia você é uma criança muito bonitinha. — usou o tom que os mais velhos costumam usar quando estão dialogando com crianças pequenas.

Quantos anos ele acha que eu tenho?

— Não, não use esse tom escroto com ela Edgar. Ela tem a minha idade. — Lisa conteve-se para não rir. Estava estampado em seu rosto.

— Serio? — Edgar revirou os olhos — Essa menininha tem 16 anos?

— Hey... — resmungo ao me sentir constrangida — Não pareço tão criança assim.

Lisa concorda ao balançar a cabeça.

— Por isso te chamei Edgar. Até onde sei, você é um ótimo estilista.

— Ele é... — gay? — Estilista? — reformulo minha pergunta.

— Sim, sou! — afirma, envolvendo minha cintura com seu braço — Ah, mas não sou gay! — exclamou, apertando minha bunda. Eu pulei para frente em reação a seu toque. Minhas bochechas queimaram.

— Oba, somos amigos! — grita Lisa me puxando para fora da loja — Põe a droga do óculos. Não quero seu fã clube atrás de nós.

Edgar faz o que ela pediu.

Como uma boneca, me deixei ser arrastada de um lado para o outro. Entramos em diversas lojas. Toda vez que Lisa pegava algo preto, Edgar mandava ela por no lugar, isso me tranquilizava.

De loja em loja, Edgar não se decidia. E quando encontrava algo que eu não gostava, eu mandava-o devolver. Finalmente, entramos em uma loja que parecia atrativa, cheia de vestidos e jeans belíssimos.

— Acho que agora vamos achar algo. — diz Edgar ao adentrar a loja.

— Quanta roupa colorida, ECA! — Lisa expôs a opinião, deixando bem claro que não curtiu a loja.

— Eu amei os vestidos! — digo passando a mão nos tecidos de boa qualidade. — será que ficarei bem neles?

— Só experimentando para saber. — Edgar responde, voltando com alguns vestidos nas mãos — Tome, experimente esses!

Ele me entregou alguns cabides. Fui para a cabine, onde pendurei-os em um pequeno ferro.

Tirei o vestido de renda, ficando apenas com as peças íntimas. Peguei um dos vestidos que Edgar me deu: Era azul turquesa, com um decote v profundo. A ponta do vestido, era trançada, cheia de babados. Era curto, três palmos acima do joelho.

Ao ficar encarando aquela peça, me perguntei se eu deveria ficar "americanizada" ou "emputada". Será que Edgar era dono de algum bordel?!

Coloquei o vestido, mesmo que fosse contra todos os meus princípios, só por curiosidade.

Não foi difícil entrar dentro dele, difícil mesmo, era adapta-lo ao meu corpo magro. Meus seios, apesar de pequenos, até que ficaram bem naquele vestido.

— Gente, eu acho que ficou muito curto. — Afasto a cortina ao dizer.

Edgar e Lisa conversavam, acredito que tranquilamente, quando sai do provador, ambos me encaram surpresos.

— Pela quantidade de chocolate que ingere, pensei que estaria acima do peso. — Lisa disse descaradamente. Eu só não sei dizer, se levarei como um elogio, ou como um cruel insulto. — Adorei Mesmo não sendo preto.

— Acho que falta algo! — Edgar adverte passando o dedo indicador pelos lábios — Hum... — ele mexe em meu cabelo desfazendo a trança, e joga, minha franja para o lado — Acho que com a maquiagem certa, ficará perfeita.

— Está muito curto! — insisto, mas ele me cala beijando meu pescoço.

— No tamanho certo. Que tal experimentarmos um jeans agora.

Como eu poderia dizer não com ele tão próximo a mim. Diferente de Noah, que fora um idiota, Edgar era atrevido e gentil.

Pego o jeans de suas mãos, e volto para dentro do provador. Ele havia me dado duas peças: uma blusa rendada branca, com um jeans escuro apertado. Após vesti-los, saio novamente da cabine.

— Gostei da blusa! — digo empolgada. Mas, não era como se eu não tivesse curtindo o jeans, era que eu não tinha costumes de usa-los.

— Ta aí, sexy sem ser vulgar! — Edgar disse oferecendo-me seu sorriso encantador.

— Gosto do jeans, e da blusa. Talvez, com as jóias certas, seu look fique completo.

Conforme as horas foram passando, eu comprava cada vez mais naquela loja. Dispensei várias roupas as quais não me sentir confortável. Porém fiquei com a grande maioria que me fora apresentada.

— 44 camisa de manga sem estampa. 32 estampadas. 12 Cardigans, 17 sobretudos, e 20 jaquetas curtas. 23 saias, 13 shorts, e 30 jeans. 14 vestidos longos, 13 curtos, e 5 floridos. 10 conjuntos de dormi, e 15 peças íntimas. — a atendente contava a minhas compras no caixa, enquanto todos ao meu redor, me olhavam assustados — Somente isso que deseja levar? — perguntou ao terminar de colocar todas as peças dentro dos sacos.

— Sim, por hoje, é só. — falo com a ligeira impressão de ter exagerado.

— Seu pai não vai berrar com você? — questiona-se Lisa ao me ver entupida de sacolas de papel.

— Não, ele não liga! Sempre fiz isso. — respondo saindo da loja.

— Essa menina gasta sem pena, gosto dela! — Edgar diz seguindo-nos.

Estávamos abarrotados de bolsas, porém, quanto mais eu gastava, mas queria comprar. Sempre tive compulsividade.

— Hey meninas, vejam! — Edgar apontou para uma loja repleta de sapatos belíssimos.

— Sapatos! — Lisa grita eufórica. Revelando, sem saber, que adorava sapatos.

— Pessoal...- chamo-os, recolhendo meu ombro. Eu tinha que contar algo a eles, antes de adentrarem a loja.

— O que aconteceu? — Lisa pergunta preocupada.

— É que...

— Tudo bem querida — Edgar sorrir, parando de frente para mim — O que houve?

— É que... Eu, bem, não sei andar de salto. — revelei, não acreditando o quanto estúpida soou a revelação

— Fala serio Sophia! Eu pensando varias coisas, não mucha do nada não. Eu posso te ensinar.

— Concordo com a Lisa, não tem problemas. Ninguém nasce sabendo de nada, tudo se aprende.

Eles eram tão maduros, apesar de terem um jeito assustador.

— Venha Sophia, vamos comprar sapatos!

— É Sophi, eu preciso de alguns também!

Olho para ambos, que carregavam consigo uma expressão tão alegre, que graças a eles, toda a minha dor havia desaparecido. Esse momento, poderia nuca mais acabar.

***

O tempo havia passado rápido demais. A ida ao shopping, que antes pertencia somente a mim e Suni, acabou sendo aberta para duas outras pessoas.

A animação de Lisa ao comprar seus amados sapatos, me surpreendeu. Enquanto, para mim, foram necessários 40 pares, 30 com saltos, Lisa ousou e comprou 70 pares. Ela dizia que não sabia qual escolher, e qua fazia muito tempo que não comprava sapatos. Só pela cara se sua mãe, quando as caixas chegaram, ela ficaria mais um bom tempo sem comprar nada.

Edgar fora mais sutil ao comprar, 10 pares, fora o que ele levou. Porém, cada sapato, custavam em torno de 700 á 1000 dólares. Bem mais caros que os meus.

Suni ao me ver com tantas bolsas, quase morreu. Ela havia nos encontrado no estacionamento carregando cinco bolsas, enquanto, fora necessário um carrinho para levar todas as compras que fizemos.

Não demorou muito para que e chegássemos em casa. E nem para que as bolsas fossem postas em meu quarto. Suni me ajudou, em seguida, disse que teria que tomar banho para sua reunião.

Eu organizava meu closet, peça por peça, buscando espaço onde não havia, quando ouvi uma batida suave na porta.

— Ainda guardando as roupas? — Suni aparece na porta, com o telefone da sala em mãos.

— Acho que nunca vou terminar isso! — resmungo ao colocar outro vestido no cabide.

— Não mandei comprar tanta coisa. O mínimo que exijo é que mantenha suas coisas arrumadas. — explica pela milésima vez desde que chegamos em casa.

— Eu sei! — ofereço-lhe um sorriso cansado. Ela se aproxima para passar as mãos em meus fios soltos.

— Termine logo! — sussurra ao beijar minha cabeça — telefone para você.

— Quem é? — pergunto ao pegar de suas mãos.

—É uma supresa! — diz saindo do quarto.

Eu não sei se é só eu que faço isso, mas encaro o telefone, como se ele fosse me dizer alguma coisa. Em seguida, ao reunir coragem, digo:

— Alô?!

— Princesa!! — a voz do meu pai do outro lado da linha não preenche somente meu cérebro, mas também como meu coração.

— Papai! — digo cheia de nostalgia. Eu queria tanto ouvir sua voz desde que mudei, que chego a tremer.

— Princesa, como é bom ouvir sua voz.

— Digo o mesmo!! — grito alegremente.

— Tem alguma novidade? — ele pergunta, e eu, demorou a responder.

Se eu tinha alguma novidade? Eu poderia começar dizendo: Hey pai, tenho vizinhos estranhamente bonitos. Fiz uma amizade, claro, depois de acertar a cabeça de um motoqueiro ( lobo) com uma agenda velha. Mas não acaba por aí, essa mesma amiga tem um gosto diferente, e costuma passar as noites frias com vampiros. Também tem seu irmão mais novo, Sean, que é fofo, e pronúncia palavras que julga dificeis. Assim, como para minha infelicidade, exite o Niah. Um idiota que arrumou briga comigo, e depois disse que eu seria sua "cadelinha". Mas é claro papai, nem tudo são espinhos. Conheci um carinha hoje, que passou a mão em mim, sem contar, que pelo gosto para roupas dele. Acredito que Edgar não seja estilista, e sim um cafetão. Bem essas são minhas novidades! Mas era claro, que eu, não iria dizer isso a ele. Pensei bem, e o que saiu fora:

— Sem novidades papai. E o senhor?

— Há, sim! Não, nada aconteceu desde que você se foi querida. Só hoje que recebi uma ligaçao estranha de um dos meus contadores particulares. Ele dizia que, uma divida no valor de 250 mil dólares, surgiu do nada.

Nossa, fiquei paralisada. Acho que dessa vez eu levaria bronca.

— Sinto muito papai! — falo abaixando a cabeça como se ele estivesse a minha frente.

— Não, não princesa! Não liguei para te dar bronca, acredito que sua adaptação esteja sendo difícil. Eu só queria saber se de fato está bem.

— Sim, papai, estou bem melhor agora.

— Então, fico mais tranquilo. Ligarei outro dia, Ok?

— Ta bom papai!! Eu te amo.

— Também te amo minha princesa! Quero conhecer sua nova amiga em breve.

— Espera, como o senhor sabe sobre Lisa? — pergunto nervosa.

— Hã, quem?

— Papai...

— desculpa filha.... Tem muita... interferência... To passando... debaixo de um túnel... Te amo... Tchau!

Tu tu tu ele desligou, deixando-me falando sozinha. Jogo o telefone em cima da cama. Meu pai era do tipo que aprontava demais.

Eu me questiono: se ele sabe da Lisa, provavelmente sabe de Noah. E se ele sabe de Noah, sabe sobre John e Edgar. Meu Deus, espero está errada se não, não restarai Sophia para " americanizar"