Notas iniciais
Comentem bastante.

Narrado por Renesmee


Quando abri a porta e vi Jacob parado no corredor, meu coração deu um salto inesperado. Por um segundo inteiro fiquei apenas olhando para ele, surpresa demais para reagir de forma racional. Eu definitivamente não estava esperando por ele naquela tarde. Minha cabeça ainda estava cheia demais da conversa com Alec, das palavras que ele tinha acabado de dizer, das memórias que tinham voltado de uma vez só.

Mas então percebi uma coisa.

Alec ainda estava na minha sala.

E por algum motivo que eu não consegui explicar naquele momento, a última coisa que eu queria era que ele visse qualquer fraqueza em mim. Ele já tinha revelado algo que tinha virado meu mundo de cabeça para baixo, já tinha confirmado que grande parte do meu relacionamento com ele tinha sido uma espécie de encenação para me proteger. Aquilo por si só já era humilhante o suficiente. Eu não precisava que ele visse o estrago que aquela verdade tinha feito.

Antes que Jacob pudesse terminar de falar, segurei a mão dele e o puxei para dentro do apartamento.

– Oi, amor, eu estava te esperando.

As palavras saíram rápidas, quase naturais demais para alguém que estava improvisando naquele exato momento. Enquanto fechava a porta atrás de nós senti o corpo de Jacob ficar um pouco rígido ao meu lado. Quando me virei para encará-lo, percebi imediatamente a confusão nos olhos dele, aquela expressão de quem claramente não tinha entendido nada do que estava acontecendo.

Então ele olhou além de mim.

Na direção da sala.

Alec estava parado perto da mesa, observando a cena com uma expressão difícil de ler. Por um segundo os dois homens apenas se olharam, avaliando um ao outro em silêncio.

Jacob foi o primeiro a quebrar aquele momento estranho.

– Eu… decidi aparecer de última hora.

Ele disse aquilo olhando diretamente para Alec, como se já tivesse entendido que havia uma plateia inesperada naquela situação.

Respirei fundo antes de falar.

– Jacob… esse é o Alec.

Fiz um pequeno gesto com a mão na direção dele.

– Meu cunhado.

A palavra saiu mais pesada do que eu gostaria. Mesmo dizendo aquilo, senti um desconforto estranho na boca, como se minha mente ainda estivesse tentando aceitar aquela nova definição.

Jacob me lançou um olhar rápido naquele momento. Não foi um olhar confuso dessa vez.

Foi um olhar de entendimento.

Algo na expressão dele mudou quase imediatamente, como se tivesse captado a situação inteira em poucos segundos. Ele estendeu a mão na direção de Alec com uma calma impressionante.

– Prazer, eu sou o Jacob.

Ele fez uma pequena pausa antes de completar.

– O namorado.

Alec piscou, claramente surpreso.

– Namorado?

Olhei para ele tentando manter uma expressão tranquila.

– É algo recente.

Senti a mão de Jacob deslizar até minha cintura naquele momento. Ele me puxou um pouco mais para perto com naturalidade, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.

– Bem recente – ele acrescentou com um sorriso leve.

Alec alternou o olhar entre nós dois por alguns segundos, claramente tentando processar aquela informação nova.

– Eu não sabia que você estava namorando.

– Pois é – respondi tentando parecer casual. – As coisas aconteceram rápido.

Inclinei levemente a cabeça em direção a Jacob.

– Não foi, amor?

Jacob assentiu, o sorriso ainda no rosto.

– Foi sim.

O silêncio que veio depois durou apenas alguns segundos, mas pareceu mais longo do que realmente foi. Finalmente Alec soltou um pequeno suspiro e ajeitou o casaco.

– Acho que… é melhor eu ir.

– Acho que é melhor mesmo – respondi sem rodeios.

Ele assentiu uma última vez e então olhou para Jacob.

– Foi um prazer.

Jacob respondeu com um aceno de cabeça.

– Igualmente.

Alec caminhou até a porta e saiu do apartamento sem dizer mais nada. Esperei até ouvir os passos dele se afastando pelo corredor antes de fechar a porta novamente.

Quando a tranca encaixou, soltei um longo suspiro.

Encostei as costas na porta e levei as mãos ao rosto por um segundo antes de olhar para Jacob.

Ele ainda estava no meio da sala, claramente tentando entender o que tinha acabado de acontecer.

– Desculpa.

Minha voz saiu mais cansada do que eu gostaria.

– Eu posso explicar.


Narrado por Jacob


Fiquei parado no meio da sala enquanto Renesmee ainda estava encostada na porta. A expressão dela parecia uma mistura de cansaço, vergonha e alívio ao mesmo tempo, como se todo o peso daquela noite tivesse finalmente começado a cair sobre os ombros dela. Eu ainda estava tentando organizar o que tinha acabado de acontecer. Em poucos minutos eu tinha sido puxado para dentro de um apartamento, chamado de amor por uma mulher que claramente não esperava me ver ali e apresentado como namorado para o ex dela, que por acaso agora também era cunhado dela.

Respirei fundo e passei a mão pela nuca.

– Certo… pode explicar.

Ela se afastou da porta e caminhou devagar até a sala, sentando na ponta do sofá como se ainda estivesse tentando decidir por onde começar. Eu me sentei na cadeira perto da mesa, mantendo uma certa distância para não pressioná-la mais do que o necessário.

Renesmee começou a contar tudo.

Falou da conversa que tinha acabado de ter com Alec, da revelação sobre o relacionamento deles, da forma como Elizabeth tinha pedido para que ele namorasse com ela enquanto ela se recuperava do acidente. Enquanto ela falava eu conseguia perceber claramente uma coisa.

Aquilo não tinha trazido paz nenhuma para ela.

Na verdade parecia ter feito o contrário.

Quando terminou de contar a história, o silêncio se instalou por alguns segundos no apartamento. Eu observei o rosto dela, tentando entender o que estava passando na cabeça dela naquele momento.

– Você não parece aliviada por saber da verdade.

Renesmee soltou uma pequena risada sem humor.

– Porque eu não estou.

Ela passou a mão pelos cabelos.

– Eu passei dois anos achando que ele tinha simplesmente me trocado pela minha irmã. Agora eu descubro que o relacionamento inteiro… foi uma espécie de favor.

Não havia raiva na voz dela, havia algo pior.

Humilhação.

Eu fiquei quieto por um instante antes de perguntar: – Ele mencionou um acidente.

Ela levantou os olhos para mim.– Você quer saber o que aconteceu?

Dei de ombros.

– Só se você quiser contar.

Renesmee soltou um pequeno suspiro.– Eu não era exatamente uma boa menina naquela época.

Levantei uma sobrancelha imediatamente.

– Ah é?

Inclinei um pouco o corpo para frente.

– Agora você chamou minha atenção.

Ela me lançou um olhar que misturava irritação e diversão.

– Não era nesse sentido.

– Que pena – respondi, provocando.

Apesar de tudo, um pequeno sorriso apareceu no rosto dela.

– Dois anos atrás eu estava voltando de uma festa com alguns amigos.

Ela parou por um instante antes de continuar.

– Eu tinha bebido.

Meu sorriso desapareceu devagar.

– Muito?

Ela assentiu.

– O suficiente para não ter condição nenhuma de dirigir.

Fiquei em silêncio enquanto ela continuava.

– Eu perdi o controle do carro em uma curva. O veículo bateu contra o guard-rail e o vidro do para-brisa se estilhaçou.

Renesmee levou a mão até o braço sem perceber.

– Alguns pedaços do vidro… me atingiram.

Foi só então que percebi o gesto dela. O jeito como a mão passou pelo braço não era aleatório.

Era um gesto automático.

– Você ficou com cicatrizes.

Ela não respondeu de imediato.

– Algumas.

O jeito como falou deixou claro que aquele assunto ainda era difícil para ela. Não parecia apenas dor física, parecia algo que tinha mexido com a forma como ela se via.

Eu me inclinei um pouco mais para frente.

– Renesmee.

Ela levantou os olhos novamente.

– Você é linda.

Ela piscou surpresa com a frase.

Continuei antes que ela pudesse responder.

– E sabe de uma coisa?As marcas que a gente carrega não são lembranças de fraqueza.-

Fiz um pequeno gesto com a mão.

– Elas são lembretes de que a gente sobreviveu.

Renesmee me olhou em silêncio por alguns segundos.

– Às vezes as cicatrizes só estão lá para nos lembrar do quanto somos fortes.

Ela respirou fundo e um sorriso pequeno apareceu no rosto.

– Obrigada.

Depois abaixou o olhar por um momento.

– E… desculpa.

– Pelo quê?

– Por ter te colocado naquela situação agora há pouco.

Ela fez um gesto em direção à porta.

– Eu praticamente te arrastei para dentro do apartamento e te transformei em meu namorado por cinco minutos.

Soltei uma pequena risada.

– Já tive encontros mais estranhos.

Isso fez ela rir de verdade dessa vez.

– Mesmo assim… obrigada por entrar no jogo.

– Não foi difícil – respondi.

O silêncio voltou por alguns segundos até que ela franziu a testa.

– Espera… como você descobriu meu endereço?

Eu sorri de lado.

– Segredo profissional.

– Jacob.

– Tudo bem.

Levantei as mãos em rendição.

– A secretária da escola ajudou um pouco.

Ela inclinou a cabeça.

– Ajudou como?

– Digamos que ela acreditou quando eu disse que estava precisando devolver objetos seus.

Renesmee piscou algumas vezes, surpresa.

– Você disse isso?

– Funcionou.

Ela balançou a cabeça rindo.

– Inacreditável.

Então o sorriso dela diminuiu um pouco.

– Mas… o que você veio fazer aqui?

Foi aí que lembrei do motivo real.

– Eu vim por causa da Ayla.

O rosto dela mudou imediatamente.

– O que aconteceu?

Cruzei os braços.

– Eu ia te perguntar a mesma coisa.

Fiz uma pausa antes de completar.

– Por que você mudou de turma?