Notas iniciais
Capítulo pequeno porque hoje o dia ta corrido. A noite posto mais.

Eu ainda estava tentando organizar tudo dentro de mim quando Jacob fez aquela pergunta. Por um instante, pensei em desconversar, mudar de assunto, qualquer coisa que evitasse mais um problema naquela noite. Mas não adiantava. Aquilo também fazia parte do caos que minha vida tinha virado nos últimos dias.

Respirei fundo antes de responder.

– A diretora me tirou da turma da Ayla.

Jacob franziu a testa imediatamente.

– Tirou? Por quê?

Cruzei os braços, me apoiando levemente no encosto do sofá.

– Como punição.

Ele me olhou sem entender.

– Punição por quê, exatamente?

Soltei um suspiro, já cansada só de repetir aquilo.

– Porque eu dei aulas particulares pra ela enquanto estava suspensa.

O silêncio que veio depois foi curto, mas intenso. Eu vi claramente o momento em que aquilo fez sentido na cabeça dele… e também o momento em que ele não aceitou nada daquilo.

– Isso é absurdo.

A forma como ele falou foi imediata, firme.

– Ela não pode fazer isso.

Dei de ombros, tentando parecer mais tranquila do que realmente estava.

– Eu também achei.

Passei a mão pelo braço, mais por hábito do que por necessidade.

– Mas segundo ela, eu desobedeci uma decisão da escola.

Jacob balançou a cabeça, claramente irritado.

– Você ajudou minha filha. Isso não é desobedecer, isso é fazer o seu trabalho melhor do que qualquer um ali.

Não consegui evitar um pequeno sorriso, mesmo com tudo aquilo.

– Eu tentei explicar isso.

– E?

– E não adiantou.

Ele ficou em silêncio por um segundo, como se estivesse tomando uma decisão.

– Eu vou resolver isso.

Levantei a cabeça na mesma hora.

– Não.

Ele me olhou.

– Como não?

– Jacob, por favor, não se mete nisso.

Me levantei do sofá, dando alguns passos na direção dele.

– Isso só vai piorar a situação.

– Piorar como?

A voz dele saiu mais firme agora.

– Já está errado.

– Eu sei, mas…

Parei por um instante, tentando encontrar as palavras certas.

– Eu não quero parecer alguém que precisa de proteção ou que está usando pai de aluna pra resolver problema.

Jacob soltou um pequeno suspiro, claramente sem concordar.

– Você não está usando ninguém.

Ele deu um passo mais perto.

– Eu sou o pai da Ayla. Tenho todo o direito de questionar uma decisão injusta que envolve minha filha.

Abri a boca para responder, mas fui interrompida pelo som do celular dele tocando.

O clima mudou na mesma hora.

Jacob pegou o telefone do bolso e atendeu sem nem olhar o visor.

– Rachel?

A expressão dele mudou em segundos.

– Ayla o quê?

Meu coração apertou só de ver o jeito que ele ficou.

– Como assim você não sabe onde ela está?

A voz dele ficou tensa, carregada de preocupação.

– Você procurou na casa toda? No quintal? Com os vizinhos?

Ele começou a andar de um lado para o outro.

– Não, eu estou indo pra casa agora.

Fez uma pausa curta.

– Fica aí. Não sai.

E desligou.

O silêncio que tomou conta do apartamento foi pesado.

– Jacob…

Minha voz saiu mais baixa.

– O que aconteceu?

Ele passou a mão pelo cabelo, claramente tentando se controlar.

Quando olhou pra mim, os olhos estavam diferentes.

– A Ayla sumiu.

Senti o chão desaparecer por um segundo.

– Como assim sumiu?

Dei um passo na direção dele.

– Ela estava com a Rachel e… simplesmente não está mais lá.

Meu coração começou a bater mais rápido.

– Eu preciso ir — Ele falou caminhando até a porta.

- Eu vou com você!


O caminho até a casa de Jacob pareceu mais longo do que realmente era. Eu fui em silêncio no banco do passageiro, com as mãos apertadas uma contra a outra no colo, enquanto minha mente girava sem parar. A imagem da Ayla não saía da minha cabeça, o jeito doce dela, o sorriso fácil, e agora… sozinha em algum lugar da cidade. Cada segundo que passava parecia pesado demais.

Quando o carro finalmente parou, Jacob já saiu antes mesmo de desligar completamente o motor. Eu fui logo atrás, quase correndo junto com ele até a porta.

Assim que entramos, o clima da casa me atingiu de uma vez.

Tensão.

Preocupação.

Rachel estava na sala, andando de um lado para o outro com as mãos juntas, claramente nervosa. Seth estava ao lado dela, tentando manter a calma, mas dava pra ver no olhar dele que também estava preocupado.

Rachel foi a primeira a falar assim que viu Jacob.

– Jacob…

A voz dela falhou um pouco.

– Eu deixei ela no quarto. Ela disse que ia descansar um pouco, então eu fui organizar as coisas que trouxe… quando voltei…

Ela engoliu seco.

– Ela não estava mais lá.

Jacob ficou imóvel por um segundo.

– Como assim não estava mais lá?

A voz dele saiu baixa, mas carregada.

Rachel pegou uma folha de caderno que estava sobre a mesa e estendeu para ele com as mãos levemente trêmulas.

– Ela deixou isso.

Jacob pegou o papel rápido, como se aquilo pudesse dar alguma resposta imediata. Eu me aproximei sem perceber, ficando ao lado dele enquanto ele lia.

A letra era pequena, mas reconhecível.

“Vou falar com a Nessie para ela me desculpar.”

Senti meu peito apertar na mesma hora.

– Meu Deus…

Levei a mão à boca, o coração acelerando.

Jacob leu a frase de novo, como se não estivesse acreditando. O papel tremia levemente na mão dele.

– Não…

Ele passou a mão pelo rosto, começando a andar de um lado para o outro.

– Ela saiu sozinha.

A respiração dele ficou mais pesada.

– Em Seattle.

Rachel tentou se aproximar.

– Jacob, a gente vai encontrar ela…

– Como?

Ele interrompeu, a voz agora mais alta, carregada de desespero.

– Rachel, ela tem sete anos!

O silêncio caiu pesado na sala.

– Ela não sabe nem se localizar direito, não conhece a cidade, pode ter ido pra qualquer direção…

Ele passou a mão pelo cabelo, completamente perdido.

– Ela está por aí… sozinha.

Cada palavra parecia machucar mais.

Eu fiquei parada por um segundo, sentindo a culpa crescer dentro de mim de forma sufocante. Aquilo tinha começado comigo. Com a mudança de turma. Com tudo.

Dei um passo à frente.

– Ela deve estar me procurando — Minha voz saiu mais baixa dessa vez.

Todos olharam para mim.

– Mas… ela não sabe onde eu moro.

Engoli seco, tentando organizar o raciocínio.

– Então ela deve estar andando sem rumo… tentando me encontrar.

Jacob fechou os olhos por um segundo, como se aquilo fosse ainda pior do que ele imaginava.

Seth falou firme:

– A gente precisa sair agora.

Jacob já estava pegando as chaves novamente.

– Vamos procurar nas ruas próximas, pontos de ônibus, qualquer lugar.

Ele olhou pra mim.

– Você vem comigo.

Assenti na mesma hora.

– Claro.

Saímos apressados, mas dessa vez meu coração estava ainda mais apertado.

Porque não era só uma criança perdida.

Era uma criança procurando alguém… sem ter a menor ideia de onde encontrar.