Uma estranha no ninho - Vol. I
12 Um estranho plano.
Notas iniciais

Estava irritado...muito irritado.
Saga marchava por um dos corredores do 13º templo enquanto arrastava Keiko pelo braço esquerdo. A garota estava exercendo muito bem seu papel como irmã de Kyoko em tirar os cavaleiros do sério e em especial Saga. O geminiano já havia perdido o cavalheirismo e a paciência desde que pisou naquele lugar e Keiko só fazia piorar. A garota tentava ao máximo se equilibrar, mas estava sendo quase impossível. Por vezes tropeçava nas próprias pernas enquanto impropérios nada amigáveis saíam dos lindos lábios rubros que herdara de sua falecida mãe.
—Ai! Seu grosso. – Queixou-se quando foi praticamente atirada em uma das cadeiras.
O cavaleiro de gêmeos era famoso por seu temperamento forte, mas, porém, gentil e educado o que tornava raras atitudes rudes ou grosseiras, diferente de seu querido irmãozinho, mas a paciência de Saga tinha limites e esta já tinha ido pelo ralo. Ele sentia que seria capaz de usar seu Satã Imperial em Keiko só para que ela o guiasse até o outro mundo ou... quem sabe torturá-la com uma viagem nada amigável por Outra Dimensão fizesse a mimada irmã de Kyoko mudar de ideia?!
— Keiko acho melhor você não me irritar mais do que já estou. Eu não vou perguntar de novo. – Rosnou e Keiko empalideceu.
— Eu...eu... – Fez uma pausa. — Eu não posso levar vocês no Makai assim. Eu nem sei onde a Kyoko está. O Makai é gigantesco e ela pode estar em qualquer lugar, levaríamos anos procurando. Hiroaki não seria idiota, se ele estiver com a Kyoko nunca conseguiremos nem entrar no Makai. Ele já deve estar de olho.
—Isso eu tenho que concordar. – Camus se pronunciou.
—Acha que eu me importo com esse cara?! Poupe-me. — Ironizou o cavaleiro de gêmeos.
Keiko deu de ombros, cruzando os braços e as pernas com descaso. Eles haviam maltratado sua irmã e isso ela não admitiria mesmo. Saga podia até ter boas intenções, mas em sua cabeça Kyoko estava bem mais protegida nos braços de Hiroaki do que ali com aqueles...humanos preconceituosos.
O geminiano franziu a testa com ainda mais força, causando um tremor de nervosismo no lado direito. Uma de suas mãos bateu na lateral da cadeira e Keiko pulou de susto com o som metálico da armadura contra a madeira. Os olhos verdes perfuraram a íris escarlate da garota com tanta fúria que Keiko sentiu-se diminuir a cada segundo.
—Eu não sei porque, mas alguma coisa me diz que você está me escondendo alguma coisa. – Keiko engoliu em seco e Saga sorriu de lado. — Acertei?!
A youkai desviou o olhar por alguns instantes para logo em seguida voltar ao ponto de partida.
—Eu não vou levar vocês até lá para você por capricho arrastar minha irmã de volta para esse lugar. Já não basta o que vocês fizeram? O que mais vocês querem? Deixem a Kyoko decidir o que é melhor para ela, se ela quiser voltar ela voltará. – Berrou olhando dentro dos olhos de Saga.
— IDIOTA!! – Saga protestou em resposta e Keiko se encolheu como um bichinho amedrontado. — Como você me diz uma coisa dessas quando sua irmã está sendo usada por eles?! Eu não vou deixá-la fazer a maior bobagem de sua vida por estar sendo enganada. Nós não somos inimigos, eu sei que erramos, mas isso não é motivo para deixar que eles...usem a dor da Kyoko para ferir pessoas inocentes. O Luy está no hospital lutando para sobreviver porque ela deu a ele uma chance, se a deixarmos agir sem pensar todo seu esforço terá sido em vão.
A youkai respirou fundo tentando não admitir que talvez Saga estivesse com razão. O menino só havia sobrevivido porque Kyoko agiu rápido e se ela quebrasse a barreira aí sim seria a verdadeira culpada da morte dele e de muitos outros inocentes. Não que isso fizesse alguma diferença para Keiko, mas sabia que sua irmã nunca se perdoaria por cometer um ato impensado e daquela proporção.
— Olha eu não sei mesmo para onde a Kyoko foi levada, mas...eu imagino que a Naomi tenha ido com ela para sua Mansão que fica no Leste do Makai. – Fez uma pausa. —Antigamente eles viviam todos juntos, mas...com a responsabilidade das fendas cada um ficou responsável por uma área: A Kyoko ficava com a parte Sul, Hiroaki com o Norte, já Naomi com o leste e os gêmeos tomavam conta do Oeste. Como eles morreram acredito que a Naomi e Hiroaki devem ter se dividido para não causar alarde na população local.
— Mas...fraca como a Kyoko estava é bem provável que essa tal Naomi queira ficar bem próxima dela ou será que já tenha levado para o tal...Hiroaki? – Perguntou o taurino com ar de curiosidade.
—Eu não sei. Vocês cortaram a cauda da Kyoko e isso a deixou muito fraca e vulnerável. Mesmo que no Makai nós fiquemos mais fortes por conta do ar de lá não acredito que tenha sido suficiente para Kyoko poder se virar sozinha, então eu não acredito que a Naomi, lógico dependo do estado físico da minha irmã, vá querer se arriscar a move-la por longas distâncias. Se acontecer alguma coisa com ela Hiroaki ficará furioso. Mas...isso é só o que eu acho. Se eu estiver errada, Kyoko já está com Hiroaki-sama desde que saiu daqui.
—Puxa, para quem tentou matar a Kyoko até que ele está sendo bem bonzinho, não é?! — Ironizou o gêmeo mais novo e Keiko bufou.
— Bonzinho é a última coisa que ele é. Mas...eu duvido muito que essa ordem tenha vindo realmente de Hiroaki-sama, se a Kyoko morrer ele não tem como cortar a barreira. – Fez uma pausa coçando a nuca. —E também existe um porém em tudo isso: o Hiroaki é completamente louco pela Kyoko a anos. Eu já perdi as contas de quantas vezes ele pediu ela em casamento e levou “não” como resposta. — Keiko sorriu irônica, fitando os olhos faiscantes de Saga que não gostou nem um pouco daquilo.
— Fale-nos sobre quem é essa Naomi. – Pediu o papa.
—*Fuuuu...* O quê que eu posso dizer?! Eu não sei bem definir o que ela é ou quem é. Alguns dizem que ela é uma...morta viva, outros que é uma feiticeira ou bruxa....já outros alegam que ela é o Necromante mais poderoso que já veio a existir. – Keiko passou a mãos nas madeixas para enfim continuar. — Kyoko nunca me disse de onde ela veio ou como Hiroaki a encontrou, mas tudo eu sei é que tudo que tem vida perto dela morre. Tudo! Plantas, animais, insetos e principalmente humanos. Todos no Makai têm medo dela e ninguém se atreve a sequer respirar perto dela. – Keiko conclui.
—Isso porque nunca viram o Carlo. – Disse Afrodite com um sorriso vitorioso.
—Eu não lembro do Máscara da Morte estar envenenando ou comendo a carne de pessoas por aí. – Milo ironizou fazendo peixes dar de ombros.
—Isso não vem ao caso agora. – Saga se pronunciou novamente. — Como fazemos para chegar à casa dessa mulher?
— Saga, você tem certeza? A Kyoko pode nem estar mais lá. Isso é suicídio! A Naomi é a própria morte, se ela encontrar vocês, acabou! Vocês vão morrer!
— Aí que está, Keiko: nenhum de nós aqui tem medo da morte. Eu vou até lá buscar a Kyoko e se ela não estiver com essa bruxa eu irei atrás de Hiroaki. – ditou Saga, sério e imponente.
Keiko bufou novamente. Será que Saga não entendia que aquilo era loucura? Homens...sempre tão burros.
— Olha, eu não quero ser responsável pela morte de vocês, mas...já que você não vai tirar essa ideia maluca da cabeça, então...eu vou ensinar vocês como entrar.
—Poxa até que enfim. – Kanon falou pegando uma xícara de café que havia acabado de ser servida com alguns biscoitos.
—Aff...saco! Nee-san vai ficar uma fera! *fuuuu*... Vamos ver; sem a cauda a Kyoko não tem como cortar a barreira, no máximo abrir uma fenda de um mundo para o outro, e isso dependendo muito de como ela realmente está fisicamente. Então, isso nos dá um pouco de vantagem e tempo. Primeiramente ela precisará se alimentar mais do que o normal e descansar até ter sua força restabelecida ou pelo menos uma boa parte dela. – Disse a garota bebericando seu café.
—Quanto tempo isso leva? – Saga perguntou
—Depende. Pode levar até anos.
— Como ela faz para ter a força de volta? – Shaka inquiriu calmo como sempre atraindo a atenção de Keiko e os demais.
A garota sorriu de lado e com uma sobrancelha erguida disse:
— Se alimentando...de vocês. Humanos que são a maior fonte de energia para nós youkais. A Kyoko sofreu um trauma muito grande e comer comida em si não será o suficiente e ela não terá escolha, ou se alimenta dos humanos ou vai morrer. – Keiko franziu o cenho e em seguida ergueu as sobrancelhas.
A garota puxou a cadeira mais para próximo da mesa: — Para manter a Kyoko viva a Naomi será obrigada a sair para buscar alimento fora do Makai; isso é um fato, que nos deixa outra vantagem. Sua casa ficará vulnerável por algumas horas até porque ela não poderá pegar qualquer pessoa e levar para a Kyoko. Ela terá que caçar.
— Mas ela non pode mandar alguém fazer isso por ela? – Camus perguntou e Milo e Afrodite concordaram.
—Ela até poderia, mas pela Kyoko ser forte não pode ser simplesmente qualquer pessoa. O alimento precisa ser saudável e forte, os youkais menores não conseguirão isso. Ah! Quer um conselho? Reforce sua guarda, nunca se sabe do que ela é capaz. – alertou olhando para Shion que assentiu.
Dohko se levantou saindo da sala e comunicando os guardas para redobrarem a guarda e a atenção. Ordenou também que cavaleiros de prata ficassem de vigia e avisassem caso vissem algo de estranho enquanto eles estavam em reunião.
— Bom, agora vem a parte difícil. Vocês não podem simplesmente... entrar no Makai com a cara e a coragem. Vocês são muito poderosos, mas mesmo assim ainda são humanos. Um youkai pode farejar carne humana a quilômetros, então a primeira coisa será camuflar vocês e fazer com que fiquem temporariamente protegidos pelo ar de lá. – Keiko sorriu com a cara de surpresa e curiosidade de todos. — Então, o primeiro passo: Nada de armaduras!
— O quê?! – Todos eles praticamente berraram ao ouvir aquele absurdo.
— Está louca, não podemos ir sem nossas armaduras isso...isso é suicídio. – Ditou Kanon indignado.
— Ah...isso é loucura. – Resmungou Aiolia, passando a mãos nos cabelos e mostrando um sorriso nervoso.
— Acalmem-se rapazes, deixem a Keiko terminar. – Pediu a jovem deusa.
Keiko fitou o semblante pensativo de Saga tentando adivinhar o que ele poderia estar pensando. Ele não parecia muito disposto a recuar depois de tudo que ouviu mesmo com a aparente recua de seus companheiros. Os olhos verdes possuíam um brilho intenso, presos em um ponto qualquer enquanto o semblante sério indicava que ele estava pensando sobre aquilo tudo ou quem sabe em como Kyoko estava. Saga havia reagido de forma totalmente diferente do que pensou, fazendo seu coração pesar com o pedido do cavaleiro. Ele parecia estar bem mais preocupado em como a raposa estaria do que consigo mesmo.
— Vocês não podem chamar muito a atenção, se forem de armadura Hiroaki, com toda certeza, perceberá a invasão e será ainda mais perigoso, principalmente para minha irmã. Nós temos que entrar e sair sem sermos notados. Nós entramos lá, rezamos para que eu esteja certa, se sim, ótimo! Pegamos a Kyoko e a trazemos de volta o mais rápido que pudermos. Nada de lutas, nada de poderes cósmicos e ponto. – Concluiu Keiko
— Isso não me parece nada bom. – Aiolos mordiscou um biscoito olhando preocupado para os companheiros.
— Ninguém é obrigado a ir. – A voz de Saga saiu baixa e calma, mas mesmo assim atraindo toda a atenção para si.
— Olha...eu sei que parece loucura e que...eu posso estar...tentando matar vocês, mas, não tem outra opção. Se entrarem de maneira ofensiva, estarão colocando a Kyoko em risco e eu não vou permitir isso. Se não for do meu jeito, esqueçam.
Keiko ditou firme, olhando dentro dos olhos de Saga que entendeu muito bem o recado e no fundo concordava com aquilo. Chamar a atenção em um mundo onde se é o prato principal era suicídio e se Naomi era tão poderosa como Keiko havia dito a coisa se agravava. Ele não podia correr o risco de entrar em um confronto com ela, ou seja, lá com quem fosse, onde Kyoko seria a mais prejudicada. Ela não teria como se defender e muito menos fugir. Ele seria suas pernas, braços e principalmente seu escudo.
—Partimos amanhã cedo. — Saga se reergueu com toda sua imponência. Olhou para todos. — Como eu disse ninguém é obrigado a ir, a Kyoko estava sob a minha responsabilidade e ainda está. Entendo a preocupação de vocês e por isso eu mesmo vou buscá-la... sozinho.
Ao ouvir aquilo Kanon levantou abruptamente, caminhando a passos rápido até seu gêmeo. Sua mão grande segurando o braço do outro que ainda estava protegido pela armadura, puxando o mais velho para ficar face a face e assim ele o fez. Quem não os conhecia poderia dizer que era como um espelho e era exatamente assim que eles se sentiam. Saga sentia-se refletir na face de seu irmão e Kanon idem.
—Ei! Perai, que ir sozinho o quê! Eu não vou deixar você ir sozinho nem fodendo Saga, eu vou com você e nem pense em recusar porque isso não é um pedido. – Kanon ditou firme, soltando um sorriso de escárnio no final. Saga retribuiu exatamente como um espelho faria. Keiko sentiu-se admirada pela semelhança. Ela ainda não tinha visto os gêmeos daquela maneira. Face a face.
— Obrigado, Kan. – Saga respondeu dando um abraço em seu irmão, agradecendo a Atena internamente por tudo mais uma vez. No passado ele e Kanon eram rivais, contudo, após a guerra santa eles haviam ganhado uma nova oportunidade e isso Saga jamais desperdiçaria, transformando seu irmão menor no que ele sempre deveria ter sido: Seu melhor amigo.
— Eu vou também! – ditou Afrodite se erguendo rápido, quebrando o momento de irmãos e trazendo a atenção de todos para si. O peixinho ergueu uma sobrancelha, cruzando os braços sobre o peitoral. — Nem pensar que eu vou deixar você ir sozinho com esse...irresponsável do Kanon. Você precisará de ajuda eficiente quando encontrar a Kyoko. Ela está muito fraca e você ficará vulnerável a qualquer ataque.
Saga sorriu ainda mais aliviado. Mesmo não admitindo ele sabia melhor do que ninguém que precisaria de ajuda. Ficou feliz com aquela atitude.
— Você sabe como ninguém como ser irritante, Afrodite. – Kanon disse apontando para peixes que balançou os ombros como resposta fazendo alguns rirem.
E foi nesse momento que ninguém mais e ninguém menos que Camus de Aquário ficou de pé, atraindo toda a atenção da sala. Keiko sentiu um frio correr sua espinha diante da seriedade daquele homem. Ele conseguia ser incrivelmente lindo sem fazer nenhum esforço.
— Afrodite tem razão. Me avise a hora e eu estarei lá mon ami. – avisou o aquariano e Saga sorriu ainda mais.
—Por acaso é algum pré-requisito ser...lindo e gostoso para ocupar o cargo de cavaleiro de ouro? – Keiko sussurrou travessa e Saori riu baixinho sem conseguir responder, mas no fundo tinha que admitir que a indagação da outra fazia todo sentido.
— Obrigado, Camus...eu...
Saga não conseguiu terminar, pois Aiolos interrompeu, avisando que também iria. Saga ficou sem entender e Aiolia sentiu-se surpreso com aquilo. O Sagitariano coçou a nuca, totalmente sem jeito, mas se justificou que aquela era a única maneira que ele via de se desculpar com Kyoko e principalmente com Saga. Aiolos era um bom homem e Saga não podia negar mesmo diante do erro dele. Quem era ele para fazer acusações sobre pecados já que de todos ali ele era quem carregava o passado da pior espécie e mesmo assim seus companheiros o haviam acolhido como uma família novamente mesmo sendo o responsável pela maior traição do santuário.
— Que lindo! Quem vê assim de fora vai pensar: Olha lá que bando de boiolas. – Milo fez uma pausa. – Nada contra Dite. – E zombou. Afrodite lhe mostrou a língua em resposta fazendo todos caírem na risada ainda mais quando Camus lhe deu um belo tapa no pé da orelha.
— Iremos amanhã então. – Saga apertou a mãos de seus amigos e Keiko deu um pulo da cadeira como quem acabava de lembrar-se de algo importante.
—Ei! Espera, amanhã não! – Quase berrou. Entrando no meio deles e pedindo a atenção.
— Como não?! Keiko eu...
—Calma ohhh nervosinho, acalma esse seu coração apaixonado aí porque eu quero a minha irmã comigo tanto quanto você. – Saga ruborizou até o último fio de cabelo, mas nada disse. — Eu preciso verificar com uns...contatos umas coisas importantes e...dependendo do que eles disserem eu...virei buscar vocês.
Todos concordaram e partiram para suas respectivas casas.
oOo♊oOo
O céu parecia ainda mais pesado que o de costume naquele dia. A chuva batia na janela do quarto de Saga que ainda não havia criado coragem e ânimo para sair da cama, graças a aquele tempinho chuvoso e especialmente frio. Os olhos fechados davam ainda mais força a sua audição, fazendo o som das gotas de chuva se transformar na melhor canção de ninar do mundo.
Kyoko...onde você está?
Virou para o lado se aconchegando mais na grande cama e observando o vazio que jazia ali. Antes ele era ocupado por Eva, mas mesmo assim a mente de Saga só conseguia ver ali a raposa dormir tranquilamente. Estava preocupado e ansioso, ou melhor, dizendo...saudoso. Não conseguia deixar de pensar em como ela estaria. Se estava bem, se estava sofrendo ou se estava...chorando.
Fechou os olhos novamente, enfiando a mão na farta franja e se encolhendo um pouco mais.
“Me odeia tanto assim Kyoko?”
“Não Saga, esse é o problema. Não consigo te odiar, não consigo sentir raiva de você. Só consigo sentir...saudade.”
“Eu sinto sua falta. Quero que volte.”
Estava cansado de esperar. Havia passado quatro dias desde que Keiko saiu do santuário, alegando que precisava fazer uns contatos antes de seguirem para o Makai. Saga sabia que nada podia dar errado, mas estava ansioso mais do que devia. Cada minuto era precioso ainda mais para alguém que poderia estar morrendo. Será que Naomi estava cuidando bem de Kyoko? E se a maldita morta viva ou seja lá o que fosse estivesse maltratando a raposa mais ainda, se aproveitando de sua fraqueza? E Hiroaki? Só de lembrar-se do nome do infeliz sentiu seu corpo inteiro formigar de ódio e....ciúmes.
Quatro dias antes...
—Você não disse quem é esse Hiroaki. – Saga perguntou enquanto observava Keiko se ajeitar em frente ao espelho. A garota sorriu de lado, depositando as mãos na cintura.
— Tem certeza de que quer saber? – Ela perguntou desdenhosa e Saga achou melhor nem responder.
—Okay! Hiroaki é um exímio espadachim que seria capaz de cortar você ao meio mesmo estando com sua sagrada armadura de ouro. Ele é muito frio, calmo e...forte, muito...forte. Além de ser incrivelmente rápido e...lindo. – Gargalhou. — Ele é um inugami, ou traduzindo um youkai cachorro. Já ouviu falar?
— Não. – Saga respondeu frio.
—Inugami ou “deus cão” é um shikigami* japonês que são espírito invocado para servir e proteger. Ele tem a aparência de um cão, ou muitas vezes, um lobisomem. Ele é invocado geralmente com o intuito de executar uma vingança ou atuar como um guardião, ambos em nome do seu mestre humano, denominado Inugami-mochi. Os Inugamis são extremamente poderosos e capazes de existirem de forma independente, bem como possuir o seu próprio invocador e também outros humanos.
—Invocados?! — Saga perguntou confuso.
—Sim! Eles são invocados por meio de um ritual macabro e sinistro. – Keiko sentou na beirada da cama, cruzando as pernas, mas ainda mantendo os olhos presos nos de Saga. — O inugami é criado ao se enterrar um cão até o pescoço e colocar comida em torno dele de forma que ele não possa alcançar. Levará dias para o cão morrer, e durante este tempo o mestre do cão passará repetindo as seguintes palavras: “A sua dor não é nada comparada a minha”. Vários dias depois, quando o cão está prestes a perecer, torturado por alucinações e no pico de sua fome, sua cabeça deve ser cortada e enterrada num local de grande movimento. O barulho perturbará ainda mais o espírito do cão, e fará com que ele se transforme num inugami, que automaticamente voará em busca de comida. O alimento ao redor do cadáver agiria como uma oferta para aplacar o espírito vingativo do inugami, e, assim, torná-lo obediente ao inugami-mochi. Bizarro né?! – Keiko se reergueu pegando sua jaqueta e vestindo. — Nas Ilhas Oki, o Inugami assume a função que a Kitsune mantém em muitas outras regiões do Japão. Acredita-se que um mestre humano será abençoado com uma grande fortuna e muito sucesso, e que os favores concedidos por ele serão devolvidos com juros. No entanto, em troca, Inugami-mochi são evitados por outras pessoas, sendo difícil para eles até mesmo casarem. Apesar disso, deve-se ter cuidado para não ofender o seu Inugami, para que não receba a sua ira...—Keiko caminhou até bem próximo de Saga depositando um dedo no peitoral do cavaleiro — Pois ao contrário da kitsune, um inugami não se limita a seguir só os desejos de seu Mestre, mas também age de acordo com sua própria vontade.
— E o que acontece se ele não quiser mais receber ordens? – Saga perguntou e Keiko sorriu perversa.
— Se caso o Inugami resolver retornar para o seu corpo antigo, aquele que foi enterrado e ele não estiver em condições de ser habitado novamente, ele então poderá assumir o controle do corpo de seu mestre, tornando-o ainda mais poderoso. — Concluiu voltando-se novamente para o espelho.
—Então...Hiroaki...
—Sim, Hiroaki é um inugami que matou seu próprio mestre e tomou seu corpo para ser ainda mais forte. Pelo menos foi isso que a Kyoko me contou. — A garota pegou sua mochila e caminhando para porta, mas antes de sair lançou um olhar sério para Saga que retribuiu na mesma intensidade. — Saga o Hiroaki irá fazer de tudo para manter a Kyoko o mais perto de si o possível. Eu não tenho como dar garantia a você de que ele não aparecerá para nos impedir ainda mais...se a Kyoko chamar por ele, então sugiro que você esteja preparado. Ele não vai querer perder tão facilmente.
Saga aproximou o rosto do de Keiko e com a voz grave ditou firme: — Nem eu.
— Kyoko...se ele tocar em você... – Saga bufou ainda mais. Não sabia se sentia raiva de si mesmo ou daquela história toda, mas seu orgulho gritava que agora mais do que nunca ele queria a raposa de volta e que aquilo tudo para ele havia se tornado pessoal.
oOo ♊ oOo
Depois de quase uma semana, Keiko finalmente retornou da viagem que havia feito acompanhada de Aldebaran em busca de informações sobre a situação no Makai. Com o sumiço de Kyoko tudo que a mais nova havia previsto parecia estar se tornando realidade. O número de ataques de youkais aumentou consideravelmente em toda a Grécia. Nos noticiários e nos jornais, reportagens sobre estranhos sumiços de pessoas e filmagens amadoras sobre monstros estarem andando sobre a Terra havia virado rotina.
—Espero que tenha trago boas notícias. – Advertiu Saga. O semblante fechado e marcado por olheiras era a prova viva das noites mal dormidas. Keiko Sorriu.
—Bom, a boa noticia é que meus contatos, ou melhor, os da Kyoko conseguiram descobrir que Naomi tem saído com mais frequência do Makai. Isso nos leva a crer que ela está com a Kyoko e está alimentando-a.
—Então eu estava certo quanto esses ataques estarem sendo feitos por ela. – Shion pensou alto.
—É...quer dizer, mais ou menos. Pelas informações que consegui a Naomi não tem se afastado muito da Kyoko. Acredito que esses ataques que estão sendo feitos aqui na Grécia é uma maneira de manter vocês ocupados e distraídos o suficiente. A fenda que dá acesso ao santuário fica aqui. – Keiko apontou para um mapa indicando uma montanha próxima a StarHill.
— Podemos entrar por ela então? – Perguntou Kanon.
—Não, essa fenda fica muito distante de onde a Kyoko está. Levaríamos quase dois dias para chegar até ela e não é isso que queremos.
— E onde fica a fenda mais perto? — Agora foi a vez de Aiolos perguntar.
Keiko sorriu, deslizando o dedo no mapa e indicando o local exato. Saga, Kanon, Afrodite, Camus e Aiolos se entreolharam, concordando com um aceno. A garota olhou para Shion e este voltou seus olhos para Saori.
— Eu vou ligar para a Fundação e providenciar um jato ainda hoje. – Disse a deusa.
—Obrigado, Atena. – Saga levantou-se e em sinal de respeito depositou um dos joelhos no chão e beijou respeitosamente a mão direita da deusa que deu sua bênção a ele e aos outros.
Após quatro horas de espera, os cavaleiros designados já estavam a postos. Saga sentia-se cada vez mais ansioso, mas ao mesmo tempo feliz por seus amigos terem sido tão solícitos. Levaram pouca coisa, já que pretendiam ficar o menos tempo possível. Atena designou dois médicos para acompanhar caso eles precisassem de algum tipo de atendimento de emergência sem precisar chamar muito a atenção.
oOo ♊ oOo
Finlândia
Kanon já estava perdendo a paciência no saguão principal do luxuoso hotel. Saori fez questão que seus cavaleiros ficassem o mais bem acomodados possíveis naquela missão. Afrodite amou aquilo, já para Camus e Saga aquele luxo todo não era tão necessário assim mesmo no íntimo gostando muito.
Keiko sorriu em frente ao espelho, dando mais uma ajeitada nos cabelos e um retoque na maquiagem. Sorriu sexy e saiu de encontro os outros.
Camus folheava uma revista qualquer enquanto Aiolos trocava algumas palavras com Saga e Afrodite, já o gêmeo mais novo fumava um cigarro do lado de fora.
— Desculpe a demora, meninos. —Ela disse sorridente.
Aiolos ficou de boca aberta com o visual descolado e sexy da garota e Kanon não pode deixar de reparar também, aliais qualquer um repararia; calça preta justíssima de vinil, uma bota de cano longo, uma jaqueta de couro forrada com lã, luvas e um belo batom vermelho.
A garota sorriu ainda mais com a cara de bobo dos rapazes e saiu rumo ao táxi.
O local não era tão distante, mas o que era mais intrigante eram as pessoas que aguardavam sua vez para entrar. Uma fila enorme de gente esquisitas, pelo menos para os cinco.
— É impressão minha ou essas pessoas são um tanto...esquisitas? — Sussurrou Kanon ao pé do ouvido de Saga que acenou positivamente.
Keiko passou no meio daquelas pessoas, chegando até um dos guardas grandalhões e falando algo em seu ouvido, em seguida ela sorriu e acenou para os cavaleiros que a seguiram para dentro daquela boate psicodélica.
Camus sentiu-se extremamente incomodado com o jogo de luzes coloridas piscando freneticamente em uma sequência aleatória, o som alto da música “bate estaca” parecia retumbar dentro de seu crânio mais forte ainda. Saga e Afrodite seguiam mais a frente, tentando não perder Keiko de vista naquela montoeira de gente esquisita. Olhou em volta e em um canto mais afastado duas mulheres com caudas; uma felpuda e outra como de um macaco se agarravam loucamente, no bar o barman mais parecia ter saído do fundo do mar graças as suas guelras, orelhas de barbatanas e as membranas entre os dedos. Kanon que se distraiu ao ver um homem alto, gordo e verde enfiar sua língua bizarra na boca de uma mulher com rabinho de coelho, acabou por trombar com alguém no meio da multidão.
—Me desculpe, eu... – Ele disse perdendo a voz em seguida.
—Olá bonitão, está perdido? – Kanon sentiu-se hipnotizar com a voz e o olhar da mulher. Ela era lindíssima. Sem saber quando e como os braços dela envolveram seu pescoço se aproximando perigosamente de seus lábios. —Você é lindo. Parece perdido. Precisa de companhia?
A mulher sorriu lindamente e o dragão marinho ficou sem saber o motivo de não conseguir resistir, mas antes da mulher findar o que queria, Keiko surgiu do nada.
— SAI FORA! ELE É MEU! – berrou Keiko a outra. Está crispou o cenho.
— SEU?! E QUEM VOCÊ PENSA QUE É?! – devolveu, sua voz soando fantasmagórica.
— EU SOU A IRMÃ MAIS NOVA DE KYOKO ASANO, KEIKO ASANO E ESSE HUMANO PERTENCE A MIM! – disparou séria. A outra youkai empalideceu, mirando a cara perplexa de Kanon e logo voltando a outra.
—Eu...eu sinto muito. Queira me perdoar!
A youkai fez uma reverência e sem dizer mais nada saiu.
— Pertenço a você? Que história é essa? E porque me atrapalhou? – o marina resmungou irritado.
— Ela é uma youkai siren, queria se alimentar de você, agora vamos embora!
Mais na frente, Saga tentava caminhar desviando de algumas investidas de youkais machos e fêmeas. Camus e os outros se sentiam incomodar com aquilo. Keiko avisou que eles não podiam vacilar porque ali era uma boate para youkais que viviam na terra escondidos e que somente eles eram os humanos ali. Não podiam vacilar ou seriam o jantar da noite.
Caminharam um pouco mais, atravessando um extenso corredor escuro com algumas luzes vermelhas e azuis. Alguns casais se atracavam em beijos e alguns até mesmo transavam ali mesmo, de pé e sem o menor pudor. Afrodite e Camus paralisaram, pedindo a todos os deuses coragem para atravessar aquela suruba sem serem atingidos por algum líquido estranho. Saga estava tão concentrado no que queria que passou sem sequer olhar para os lados, assim como Aiolos e Kanon.
—Olá, Micky. – Keiko cumprimentou enquanto o rapaz magricela e com a face como de um rato folheava uma revista pornográfica.
—Olá Keiko, chegou cedo. – Ele respondeu ficando de pé. Os cinco arregalaram os olhos com aquilo. O rapaz era muito alto, mas excessivamente magro e muito calmo.
—É...eu não gosto de me atrasar. — Keiko sorriu passando por ele e acenando para Saga e os outros lhe acompanharem.
A sala era grande e com um bar repleto de bebidas. O assoalho escuro no chão e as paredes com isolamento acústico era coberta por um tipo de carpete vermelho. Mais ao fundo uma mesa grande de madeira rústica onde uma poltrona preta tinha como plano de fundo uma lareira de pedras. Alguns móveis, livros, um sofá branco e mais duas poltronas menores.
Todos olharam o ambiente com admiração. O dono daquele lugar tinha muito bom gosto e capricho.
— Oiiiii. – Disse Keiko um pouco mais alto. Os cavaleiros se entreolharam quando ouviram um som vindo de uma porta mais ao fundo.
— Só um minuto. – a voz grossa e forte, abafada respondeu. Logo em seguida ouviu-se o som de uma descarga e o anfitrião surgiu secando as mãos em uma toalha branca.
Era um youkai enorme. Gordo e forte, mas que possuía um sorriso simpático nos lábios extremamente largos. Um cabelo castanho encaracolado unido a uma barba rala e na testa, um pequeno chifre pontiagudo. Ele usava um terno cinza e sapatos de couro preto. No pescoço um cordão de ouro e no mindinho direito um anel também de ouro exibia dois pequenos rubis nos olhos de uma cobra.
—Guilhermo! – Keiko saiu a passos rápidos caindo nos braços do grandalhão que a recebeu com um abraço carinhoso. A garota praticamente sumiu diante daquele homem.
—Pequena Keiko, há quanto tempo. Você cresceu bastante desde a última vez. Por onde andou? – Ele perguntou e ela sorriu apontando para os cinco que nada disseram.
Guilhermo ergueu uma sobrancelha olhando para cada um dos cavaleiros com curiosidade. Aproximou-se fazendo Afrodite e Aiolos instintivamente darem um passo para trás. Kanon acabou acompanhando os amigos quando o grandão se aproximou mais e somente Saga e Camus ficaram a desafiar o homem somente com o olhar. Guilhermo olhou dentro dos olhos de Saga e depois fez o mesmo com Camus que também não se intimidou, em seguida voltou a postura de antes.
— Você me disse que o namorado de Kyoko-sama era bem valente, agora fiquei em dúvida entre os dois aqui. – Falou rindo alto enquanto apontava de Saga para Camus. —Foram os únicos que não correram de mim, isso é uma raridade. – E gargalhou mais alto.
—Namorado? – Camus sussurrou com os olhos cerrados e Saga ruborizou. Keiko deu uma risadinha baixa e deu de ombros, caminhando até Saga e o puxando pelo braço.
— É esse. – Ela disse alegremente.
—O quê?! – Saga surpreendeu-se. As sobrancelhas erguidas e a boca levemente aberta em espanto. — Que história é essa? – sussurrou para a garota.
— Ele disse que só deixaria você passar se tivesse um bom motivo e eu não tive um melhor. — Keiko resmungou entre os dentes.
—Ora, ora! Kyoko-sama e um reles humano?! É inacreditável! Se não fosse da boca da Keiko-chan que eu tivesse ouvido não acreditaria. Mas mesmo assim é um prazer conhecê-lo, meu rapaz.
O youkai se aproximou do homem mais velho, estendendo a mão enorme. Saga instintivamente olhou para a sua, que para um homem normal era grande, mas perto daquele gigante mais parecia a mão de uma criança.
Todos na sala prenderam o riso com a careta de dor que o geminiano não conseguiu esconder ao sentir sua mão ser esmagada entre a de Guilhermo que não satisfeito desferiu um tapa “amigável” no ombro do geminiano.
— Hahahaha...aperto de mão forte rapaz. Você é bem valentão, diferente dos seus amigos ali. Venha sente-se aqui, vamos começar com os preparativos.
Kanon até pensou em rebater aquela ofensa, mas Camus e Aiolos se entreolharam, achando melhor não contrariar o grandalhão pelo menos por hora. Eles dependiam dele e era melhor não arriscar bater de frente ainda mais ali naquele lugar.
Guilhermo se afastou, caminhando até um armário e tirando de lá uma caixa média de metal e depositando a mesma na mesinha de centro onde os cinco se acomodaram.
—Lembra que eu disse que precisava...camuflar vocês e protegê-los do ar do Makai? — Keiko indagou e todos responderam positivamente.
— Então....- Ela sorriu maliciosa, abrindo a caixa e retirando um saquinho de dentro. — fiquem a vontade rapazes.
Saga franziu o cenho, assim como Camus e Aiolos. Afrodite arregalou os olhos sem conseguir acreditar que teria que fazer aquilo. Kanon soltou uma gargalhada, dando um tapa em seu próprio joelho enquanto gargalhava de tanta surpresa.
— Que merda é essa? – Saga perguntou ríspido.
—Cocaína. – Keiko respondeu tranquilamente.
— Está querendo nos drogar? – Afrodite perguntou aturdido.
— Olha, não estou querendo transformar vocês em um bando de usuário de drogas, mas eu avisei que não era tão simples entrar no Makai. Homens que entram no nosso mundo em busca de...diversão ou seja lá o que for usam desse método para não serem...devorados por youkais retardados e mortos de fome e, principalmente não morrerem envenenados pelo ar. – Justificou.
— Ah droga! – Aiolos passou a mão nos cabelos completamente nervoso.
—Non há outra maneira? – Camus perguntou calmamente.
—Não. A cocaína possui uma substância capaz de inibir os efeitos colaterais do ar do Makai nos humanos e impedir que fiquem envenenados, mas ao mesmo tempo o deixando em alerta e completamente eufóricos. Poderíamos usar anestésicos também, mas vocês ficariam letárgicos e ela não é tão eficiente contra o veneno. A droga também afasta os youkais que não irão se atrever a devorar a carne de um bando de drogados e ficarem no mesmo estado, ficando vulneráveis a inimigos. — explicou Guilhermo.
Keiko passou por Saga e sentando entre ele e Camus. Depositou o pó na mesa e arrumou cinco fileiras com um cartão.
— Eu não vou contaminar meu corpo com essa...porcaria. – reclamou Afrodite levantando rápido e passando por Kanon e Aiolos.
—É um frouxo. – riu o dragão marinho.
— Isso não me parece uma boa ideia, iremos ficar desorientados se usarmos isso. — ditou Aiolos exacerbado.
Saga manteve os olhos presos na mesa pensando em tudo aquilo. Ele queria mais do que tudo trazer Kyoko de volta, mas aquilo era muito arriscado. Ficar drogado em uma situação como aquela não poderia dar em boa coisa, mas de uma coisa ele não podia desconfiar: A intenção de Keiko. Ela não queria e não colocaria Kyoko em risco daquela maneira se houve uma saída melhor.
A garota pegou um canudinho e apontou para ele: — Eu sei que parece loucura, mas quando você chegar lá você vai entender. Pensa que você está fazendo isso pela Kyoko e o Luy, e manda ver.
Kanon pegou um dos canudos na mesa e olhou para seu irmão. Sorriu jocoso e Saga entendeu o recado. Pegou o canudo da mão de Keiko e se posicionou. Afrodite roía as unhas de nervoso enquanto Aiolos e Camus observavam ansiosos e temerosos.
—A sua saúde, irmãozinho. – Kanon desdenhou e Saga retribuiu com um sorriso sarcástico e nervoso.
A inalada de ambos foi dada de uma só vez. Saga apertou os olhos e o nariz, sentindo o pó branco parecer cortar suas narinas. Kanon jogou a cabeça para trás e apertando a ponte nasal com força. Os olhos fortemente fechados enquanto sentia-se entorpecer pela ardência e os efeitos da droga que começavam aos poucos tomar conta de seu cérebro.
—Essa é da boa. – zombou. Prendendo a respiração e apontando o canudo para Aiolos que ficou sem saber o que fazer.
Keiko tomou o das mãos de Saga que nem sequer se moveu.
—Toma sua vez. – Falou entregando o objeto para Camus que ficou com cara de espanto.
— Eu non vou cheirar isso. – Disse sério e Keiko irritou-se.
— Então o que veio fazer aqui? Vá embora então.
Camus ouviu o som de o ar ser aspirado quando Aiolos finalmente tomou coragem para usar o pó branco. O sagitariano começou a tossir enquanto balançava a cabeça de um lado para o outro de olhos fechados.
—Olha se você vai fazer isso é melhor fazer rápido, pois o Saga e o Kanon já usaram e a droga já está fazendo efeito. Eles não têm muito tempo, então...ou você e esse afeminado usam logo essa merda ou vão embora daqui. — vociferou a garota.
Saga levantou de repente, caminhando até a estante de livros e apoiando uma das mãos. Sua mente parecia um turbilhão e a sensação de euforia e fúria estava ficando incontroláveis.
Aquilo era horrível, seu coração batia em uma velocidade absurda e seu corpo começou a suar. Sua boca ficou extremamente seca e seus olhos sem foco. Levou um susto quando sentiu algo tocar sua pele, mas quando olhou não era nada além de seu próprio casaco. Ele estava começando a ter alucinações e mesmo sob o efeito da droga ele começava a se arrepender de ter confiado em Keiko. Se aquilo não desse certo ele a mataria, com toda certeza. E foi justamente por conta desses pensamentos que Saga se virou como um leão furioso apontando para Keiko com suas pupilas dilatadas.
—Se acontecer alguma coisa com a Kyoko por eu estar...DROGADO... – berrou. —...EU TE MATO SUA VADIA!
— Calma, garoto! – pediu Guilhermo. O youkai sabia como ninguém lidar com aquele tipo de comportamento já que ali aquilo era frequente. Homens e mulheres curiosos o buscavam dia e noite atrás de aventura e conhecimento no mundo dos monstros. Lógico nem todos eram permitidos, mas aqueles que pagavam mais tinham acesso o quanto mantivessem a conta bancaria do gordão bem recheada.
Kanon começou a rir feito um lunático andando de um lado para o outro enquanto falava consigo mesmo coisas sem sentido.
— Merda eu não acredito que vou fazer isso. – resmungou o peixinho olhando para Camus. Fechou os olhos celestes com força e ....
—Merde! — Camus resmungou soltando o canudo e tapando o rosto com as mãos. Afrodite começou a bater os pés no chão e a gemer por conta da ardência em suas narinas.
Keiko gargalhou com os trejeitos de peixes. Passou o dedo na droga e caminhou para próximo de Saga e sem pedir permissão enfiou o dedo sujo na boca do mesmo que soltou um resmungo em contradição. Guilhermo segurou o menor e Keiko repetiu o gesto, esfregando um pouco mais da droga na gengiva de Saga.
— Você tem que durar mais tempo. Desculpa, mas tem que ser assim. —Saga se debateu um pouco mais, fazendo uma carranca superengraçada que desencadeou uma crise de risos histérica em Kanon e Afrodite.
—Meu irmão está muito louco. – o marina berrou em meio a gargalhada.
—Não mais do que você. — Agora foi a vez de Afrodite zombar. Todos começaram a rir como loucos.
Camus tentou se levantar, mas acabou caindo sentado novamente, proferindo palavras em francês que acabou fazendo os malucos rirem ainda mais. Saga deu uma risadinha sem graça e sem mais começou a se bater, arrancando o sobretudo rapidamente enquanto alegava haver aranhas em suas roupas.
O francês sem mais nem menos desabou no choro, alegando nunca ter sido um bom tutor para Isaak e Hyoga. Afrodite se compadeceu, envolvendo o amigo em um abraço carinhoso, enquanto Aiolos observava o nada como um bebê perdido na imensidão do céu azul carregado de nuvens divertidas.
Guilhermo gargalhou com as reações dos rapazes enquanto movimentava um livro na estante. A lareira começou a se mover para a direita e depois para trás revelando em fim a passagem para o Makai.
Todos fizeram um “ohhh” de estarrecimento e se aproximaram curiosos.
—Isso tem cheiro de privada suja.— resmungou Saga olhando para Keiko que achou graça daquilo.
Saga ficou observando o rosto da menina e levou o indicador as bochechas dela: —Fica ainda mais linda quando sorri.
Keiko riu ainda mais diante o olhar sexy do outro. Saga estava alucinando. Imaginando na face corada da youkai o rosto da amada por conta das covinhas que a mesma também possuía.
—Kyoko. – Sussurrou tentando beijar Keiko que gritou em protesto e se escondeu atrás de Aiolos. Saga deu de ombros e voltou a olhar para o buraco como se nada tivesse acontecido.
— Gostaram? — A garota perguntou.
— Maneirooo!!- Aiolos falou como um adolescente de quinze anos completamente eufórico.
—E então Saga está com saudades da Kyoko?- Saga acenou positivamente. Em seu rosto um sorriso devasso se formou em meio ao olhar luxurioso. Não precisava ser nenhum mestre para saber o que se passava na cabeça do maluco.
— Que bom!
E sem aviso Keiko deu um empurrão no geminiano. No automático ele agarrou o casaco de Afrodite pela gola desencadeando um efeito dominó. Camus puxou Aiolos pela mão assim que sentiu seus cabelos serem agarrados por Kanon, caindo no buraco que não parecia ter fim. O grito de horror dos cinco foi sumindo gradativamente naquela imensidão negra e fedida.
oOo ♊ oOo
E em uma árvore gigantesca um buraco em seu tronco pareceu vomitar os cavaleiros. Saga foi o primeiro, caindo de costas no chão, Afrodite veio logo depois, gritando até cair bem em cima de Saga com o rosto em sua genitália, Kanon surgiu bem depois, caindo de bunda no chão e dando algumas cambalhotas até se chocar em um cogumelo gigante. Aiolos e Camus deram um berro quando foram arremessados pelo buraco, obrigando-os a sair “catando cavaco” na tentativa de não se esborracharem no chão, mas só conseguindo para na beira de um enorme precipício.
— Mon dieu!! – Camus berrou girando os braços para trás para não cair.
—Atenaaaaa!!! – Aiolos também berrou tentando se equilibrar agarrado em Camus.
Saga empurrou Afrodite e correu como um louco, assim como Kanon, se jogando e agarrando os dois bem a tempo de eles não caírem.
—Ah meu Zeus, obrigado! Obriga...
Todos prenderam o ar quando um youkai que se assemelhava a um rinoceronte surgiu detrás da árvore, fechando o cinto. Saga cravou as unhas nas pernas de Aiolos e Camus ergueu as mãos somente um pouco em um ato instintivo de rendição. Afrodite que havia engatinhado até eles, fechou os olhos ao sentir o bafo fétido e quente do monstrengo contra sua pintinha fofa. Kanon com toda sua valentia, não se intimidou, erguendo um dos punhos como uma criança.
O youkai ficou observando o grupo de marmanjo com seus olhos arregalados de medo e surpresa, fazendo o monstrengo sentir um desgosto enorme; bufou na face de Afrodite.
—Bando de viciados. — E saiu caminhando sem olhar para trás.
Os cinco ficaram paralisados na mesma posição, sem saber se aquilo era real ou fruto de sua imaginação drogada. Aiolos sem mais desatou a rir e Kanon o seguiu deixando Camus irritado, proferindo uma frase em francês que fez todos caírem na gargalhada novamente.
— Estão se divertindo? — Keiko que havia saído do buraco logo depois deles, ficou a observar a cena sentada no cogumelo.
—Tirando o fato de que me sinto em um banheiro público?! Sim até que foi divertido. — Saga riu enquanto se batia para tirar um pouco da poeira. — E então, para onde nós vamos?
Keiko desceu do cogumelo e apontou para o casarão um pouco mais afastado. Kanon franziu o cenho e passou a mão nos cabelos questionando a garota sobre como ela sabia que aquela fenda era tão perto da casa de Naomi. A garota explicou que Guilhermo era um youkai do tipo Oni e que já vivia no mundo dos humanos a mais tempo do que qualquer um podia saber. Quando a barreira foi construída, o monstrengo entrou em acordo com Naomi para manter aquela fenda sempre aberta em troca de alimentos e contato com humanos cobiçosos.
Caminharam por quase meia hora até enfim chegarem à entrada do castelo sombrio e escuro. Árvores completamente sem folhas e algumas aves parecidas com corvos enfeitavam o lado externo, um chafariz seco onde ervas daninhas crescia e envolvia o objeto abandonado. No centro do castelo, um tipo de torre chamou a atenção do geminiano, mas ele nada disse. Sentia-se completamente eufórico e tão alerta como talvez nunca tivesse estado em sua vida. Várias janelas adornavam o lugar e uma única porta parecia dar acesso para dentro.
—Estão vendo? – Keiko se esgueirou até uma árvore, mostrando os homens uma janela em especial. — Ali é a cozinha, e ali a sala. No andar superior são os quartos. Teremos que olhar um a um para descobrir onde a Kyoko está.
— E a Naomi? — Camus perguntou e foi bem nesse momento que a própria surgiu pela porta. Todos ficaram presos na figura morbidamente sexy da youkai. Ela era tão bonita quanto Kyoko e Kanon deu um leve assobio.
A mulher caminhou devagar e um esqueleto humano surgiu em uma carruagem. No lugar dos cavalos, os mesmos monstros que Kyoko havia enfrentado para salvar Luy berraram quando a chicotada do cocheiro os acertou, os fazendo disparar em uma corrida frenética até sumir das vistas dos homens.
—Que gostosa! – Resmungou Aiolos e Afrodite lhe deu um tapa no estômago.
—Ela está morta o idiota! Dããããã...— Disse peixes.
Keiko riu daquilo, mas nada disse. Olhou para Saga: —Nós temos uma hora para achar a Kyoko e dar o fora daqui antes da Naomi voltar. Vamos nos dividir, okay?!
Todos concordaram e se esgueiraram até uma das poucas janelas abertas.
Keiko foi a primeira a entrar observando tudo em volta e farejando o ar. Quando achou que devia, acenou para que entrassem e assim eles fizeram. Aiolos ainda se enroscou em uma das cortinas quase derrubando uma mesa pequena e um jarro. Por sorte Camus o segurou e evitou o pior. Saga acenou, indicando o caminho para os amigos e pedindo silêncio.
oOo ♊ oOo
Aiolos esgueirou-se por um dos corredores como um espião super treinado. Olhando de um lado para o outro sem perde nada.
—Kyoko! – Sussurrou ao abrir uma porta e ver um cômodo que parecia um escritório vazio. Bufou e saiu a caça novamente.
Afrodite andava na ponta dos pés como uma legítima bailarina, encostado nas paredes para não ser notado. Um pequeno youkai surgiu de um corredor com uma bandeja nas mãos, obrigando o pisciano a correr e se esconder atrás de uma cortina para não ser visto.
Camus sentia-se dentro de uma fornalha. Seu corpo suava em bicas e uma vontade lacerante de vomitar quase o fez desmaiar. O aquariano correu até uma porta que por sorte era um banheiro, não pensando duas vezes e vomitando dentro da pia mesmo. Seu estômago parecia querer sair junto com seu cérebro e suas vísceras naquele ato e ele jurou nunca mais fazer aquilo novamente.
—Merde, como esses viciados conseguem usar essa...droga tantas vezes? —Retrucou observando sua imagem refletida no espelho envelhecido.
Kanon se entreteve em um lugar que mais parecia um museu dos horrores. Vários crânios inclusive humanos adornavam as paredes. Um aquário enorme no fundo onde continha peixes de várias espécies, pequenos monstrinhos parecidos com gnomos estavam empalhados pelo local e um cristal reluzente chamou sua atenção.
— Que máximo! —Sussurrou tocando de leve no objeto que cintilou.
No andar de cima Saga caminhava na ponta dos pés igualmente como Afrodite. O geminiano deu um pulo quando viu seu reflexo no grande espelho. Seu coração que já estava acelerado por conta da droga palpitou ainda mais forte. Seu cérebro demorou a assimilar que aquele era ele mesmo e não um inimigo. Saga piscou algumas vezes, movimentando as mãos até a ficha finalmente cair o fazendo cair em uma gargalhada contida.
— Você é durão cara. – Falou para sua própria imagem. — E bonito também. Ela não vai resistir, você vai ver!
O geminiano passou a mãos nos cabelos e bufou. Os olhos arregalados e o suor pingando de sua pele. Aquela maldita sensação parecia que não teria fim. Olhou em volta ao ouvir o ranger de uma porta e uma luz clarear o corredor.
oOo ♊ oOo
Kyoko soltou um resmungo quando sentiu sua barriga roncar. Estava faminta. Fazia mais de doze horas que não comia nada. Sentou devagar na enorme cama observando tudo a sua volta. Olhou para o relógio e imaginou que Naomi já devia ter saído. Será que ela iria demorar? Esperava que não, pois em seu íntimo ela sentia que algo estava errado.
Levantou devagar sentindo o corpo todo reclamar, as pernas fracas e a cabeça pesada. Ainda estava sem forças, precisava se alimentar melhor. Naomi estava se esforçando para ajudá-la, mas mesmo assim não sentia nenhuma vontade de cooperar. Ainda não conseguia esquecer o que havia acontecido com Luy e para piorar sentia saudades do geminiano quando sabia que não deveria. Tinha que esquecer aquele sentimento, até porque mais cedo ou mais tarde teria que decidir em manter o acordo ou não. Estava farta dos humanos, farta de ser maltratada e de ver tanta coisa ruim entre eles mesmo quando os mesmos se diziam amigos. Não que no seu mundo não houve coisas do tipo, mas não foram os de sua raça que a prenderam em uma jaula por anos e muito menos a mutilaram.
Vestiu as sapatilhas brancas e apertou um pouco o nó de sua calça da mesma cor, passou a mão nos cabelos e vestiu por cima das faixas que protegiam seus seios uma blusa de seda verde. Devagar, praticamente se arrastou até a porta onde um “tlec” pode ser ouvido quando a mesma se abriu, rangendo e iluminando parcialmente o corredor extenso. Saiu no mesmo passo e por ação instintiva farejou no ar um cheio mais do que familiar.
— Saga?! — Ela disse embasbacada. Seu coração retumbando fortemente dentro do peito parecia sacolejar todo seu corpo enquanto o ar se prendeu em sua garganta. Ela mal podia acreditar que ele estava ali.
Saga que até então conversava com seu reflexo, aprumou o corpo quando ouviu o ranger da porta. Pensou em atacar, mas o brilho daqueles cabelos eles nunca iria esquece, tampouco se confundir. A droga que tomava conta de todo o seu raciocino pareceu evaporar quando seus olhos finalmente se encontraram com os olhos bicolores mais lindos que já havia visto na vida.
— Kyoko?!
Continua...
Fale com o autor