Uma estranha no ninho - Vol. I
11 Um estranho passado.
Notas iniciais

Nunca em toda sua vida se imaginou ser capaz de tal ato mesmo este sendo justificado por amor.
Dos olhos azuis embaçados, uma lágrima solitária escorreu, borrando a maquiagem no rosto bonito. Olhou para o horizonte, lembrando-se da primeira vez que viu os olhos verdes do grande cavaleiro de gêmeos, Saga.
Ele era seu amor, seu herói, seu amante. Era seu ar, seu tudo, sua vida. Nunca em toda sua vida seu coração amou tanto alguém. Por ele mataria e morreria sem pestanejar, contudo, em hipótese alguma pensou que para manter seu amor por perto teria que assassinar uma criança indefesa.
Abraçou as próprias pernas sem conseguir parar de pensar no cavaleiro. Luy era muito querido por Saga e com certeza, aquele ato também o afetaria, mas o que podia fazer?! Às vezes em uma batalha é necessário sacrificar um para que o resto sobreviva, mas...mesmo assim é difícil encarar uma morte tão prematura.
— Arrependida? — Perguntou a Youkai sem muito interesse, focando-se mais em suas unhas do que em sua recém aliada.
— Não é questão de arrependimento é só que...ele era uma criança e o Saga...gostava dele. — Justificou
Naomi bufou de irritação. Sabia que isso aconteceria. Humanos eram fracos e patéticos, e nem mesmo um coração cheio de inveja como de Eva resistiria à morte de um ser inocente e indefeso.
—Ahhh minha querida ele vai superar você não tem que se preocupar com isso, até porque crianças nascem e crescem todos os dias. Logo-logo ele será substituído. — declarou a mulher.
— Não é bem assim, as pessoas não podem ser...substituídas dessa maneira. — o rancor na voz de Eva era quase palpável e Naomi sentiu-se incomodar.
— Não estou entendendo você, até agora pouco estava convicta de que queria ver Kyoko bem longe do “seu” Saga... – Desdenhou – ...e que você faria qualquer coisa para isso e agora você vem com esse sentimentalismo todo? Ahhh faça-me um favor, Eva! Deixe de ser hipócrita e fingida. Kyoko esta presa e ferida justamente como você queria e daqui a algumas horas meu amor, ela estará bem longe e o homem será todinho seu.
— Eu não estou arrependida de nada. Pelo Saga eu faria qualquer coisa eu só estou...preocupada como ele vai...reagir quando souber do menino e também...eu ainda estou...chocada com a visão daquela...vadia descontrolada. Ela quase me matou e você não fez nada só ficou...olhando. — Vociferou a morena.
— Ahhh entendo, você está com medo.
Eva ficou em silêncio, pois Naomi havia acertado em cheio. O medo parecia transbordar por todos os seus poros só de imaginar se algo desse errado. Saga ficaria furioso e com toda certeza a expulsaria do santuário ou a mandaria para uma prisão até morrer sozinha, ou então quem sabe Kyoko poderia achá-la antes dele e arrancar sua cabeça ou devorar sua carne enquanto morria lentamente. Tinha que admitir: estava morrendo de medo. Se Kyoko a encontra-se nem em um milhão de anos teria chances de sobreviver. Sentia um frio no estômago só de imaginar caso Aiolia não tivesse chegado a tempo. Kyoko a teria partido ao meio com mais facilidade do que se quebra um palito e isso era humilhante, e amedrontador.
— Você podia ter pelo menos feito alguma coisa. Você disse que ia me ajudar! – Expôs indignada.
— Mais eu ajudei. Eu plantei a semente no coração daquelas pessoas, a semente da desconfiança e da discórdia. Eu fiz essas pessoas inalarem o meu cheiro por dias e dias e o seu cavaleiro não está fora desse grupo. — Fez uma pausa. – Quem você acha que sussurrou no ouvido daquela deusa? Quem você acha que a induziu a mandar Saga, Shaka e o telepata juntos pra bem longe daqui? Quem você que colocou a violência no coração deles daquela forma? Você?! Lógico que não ou você achou mesmo que aquelas pessoas acreditaram em você porque é muito convincente?! Hahaha...faça-me rir humana, eles só acreditaram em você porque EU deixei! Eu quis assim. Se não fosse por mim o seu Saga já estaria na cama com a Kyoko a muito tempo.
—O Saga nunca iria para cama com um...monstro feito ela. – Eva trincou os dentes, ditando aquelas palavras com toda a firmeza que podia.
Naomi gargalhou sensualmente.
— Hahahah...você é tão ingênua. Não existe humano na terra que resista aos encantos de uma Kitsune, meu amor, de uma youkai e Saga é...um...homem humano. – Fez uma pausa.— Mesmo que não um homem comum, mas isso não muda. Com ou sem armadura ele...sempre...será... humano. – Sussurrou. — Você devia parar de se iludir com suas ideias de amor e me agradecer porque se aqueles três estivessem aqui, seria você agora naquela prisão enquanto “seu” Saga estaria trepando com a Kyoko há essa hora como um cão no cio, então sugiro que meça suas palavras.
Eva ficou em silêncio enquanto pensava naquelas palavras. Não dava mais para negar que Naomi estava certa. Saga já se mostrava indeciso desde que havia pisado no santuário, tirando o fato de que se tivesse atrasado um minuto ele teria provados dos lábios de Kyoko naquele dia. Não! Isso não era justo, será que ele não via que ela o estava enfeitiçando? Será que não entendia que aquela youkai não passava de uma manipuladora? Um monstro?
— E se eu aparecesse estragaria tudo. – Naomi trouxe a morena de volta a realidade. — Eu sabia que aqueles cavaleirinhos impulsivos jamais deixariam a Kyoko tocar em você mesmo que eles tivessem certeza que foi você que tentou matar o menino. Eles são justos demais para deixar alguém ser dilacerado pelas garras de uma youkai. — Naomi aproximou-se de Eva e tocando singelamente em seu queixo. – Agora se isso te consola você não tem mais que se preocupar com a Kyoko. Já que aqueles dois imbecis não foram homens suficientes para dar cabo dela, eu terei que resolver. Deixe o resto comigo. Farei tudo daqui para frente e você...delicie-se com aquele pedaço de mal caminho. Ele vai precisar de muito, mas muito colo e carinho quando voltar.
Eva ficou observando Naomi caminhar e sumir na escuridão. Em seu íntimo uma voz sussurrava que nem tudo seria tão fácil. Não sabia dizer se aquela sensação era por ter ouvido as verdades que Naomi a fez engolir, ódio de Kyoko ou por saber que Saga sofreria com a morte do menino.
Mas porque se sentir assim agora? Tudo já tinha sido feito e não teria como voltar atrás e também não queria, até porque por Saga aquele sacrifício era um mero grão de areia em meio a imensidão do deserto.
oOo♊ oOo
— Ela não me parece perigosa só...bem fedida e estranha. — Disse Mu de Áries observando com curiosidade.
Numa caverna na ilha de Creta, uma esfera verde brilhava intensamente, emanando um cheiro pútrido e uma energia diferente. Alguns insetos rodeavam a mesma, como uma lâmpada a chamar mariposas.
Shaka mesmo de olhos fechados, meneou a cabeça sentindo olhos a lhe observar.
—Ei, eu vi esse mesmo pássaro quando encontrei a outra esfera. – Ditou o ariano. Shaka manteve o silêncio, concentrado na ave que os mirava como se tivesse fome.
O corvo bateu suas asas e quanto alçou voo Saga não permitiu, atacando a ave e a deixando morta no chão.
— Eu pensei que era só eu que estava incomodado com ela. – Virgem se pronunciou com toda sua calma.
— Já estou de saco cheio dela me observando. — Saga disse se aproximando.
— Está pensando o mesmo que eu? – Shaka perguntou virando o rosto bonito na direção de Saga.
—Alguém está tentando nos manipular e seja lá quem for parece estar tentando nos afastar do santuário. — Saga respondeu sério.
O corpo da ave começou a se esfumaçar, soltando bolhas fétidas que fez Mu se afastar para não vomitar. Shaka levou uma das mãos ao rosto para se proteger enquanto Saga voltou para a esfera.
Era a mesma energia que sentiu lhe incomodar assim que pôs os pés fora do santuário.
— Eu pensei que só eu tinha sentido isso. Não sei porque, mas já faz uns dias que venho sentindo um cheiro estranho pelo santuário. — Expôs Mu.
—Alguém está tentando nos confundir. – Fez uma pausa. — Nos...separar.
“Ou...me separar.”
Saga caminhou para a entrada da caverna observando a majestosa lua no céu. Seu coração disparou dentro do peito e o cheiro das frutinhas invadiu suas narinas como cocaína. Sacudiu a cabeça com ar de repugnância ao sentir as narinas arderem ao em vez de se agradarem com o odor. Um som fantasmagórico soprou em seus ouvidos, como o vento a chamar seu nome. Virou rápido, mas nada viu. Olhou em volta exacerbado, e Shaka e Mu ficaram surpresos.
—Sentiram isso? Esse...cheiro? – perguntou confuso. Shaka e Mu se entreolharam e deram de ombros ainda sem entender.
O mais velho começou a caminhar aleatoriamente quando seu cérebro pareceu ser engolido por uma enxurrada de sensações e imagens que ele não sabia identificar.
— Saga! — Ambos gritaram vendo-o cair de joelhos mantendo as duas mãos na cabeça e os olhos arregalados.
A esfera brilhou mais forte e em seguida apagou, murchando como uma bexiga.
Na mente de Saga um filme de terror parecia correr em câmera lenta. Pessoas desesperadas, sangue e pedaços de corpos estavam espalhados pelo chão do santuário. Ele gritava, mas sua voz não saía, tentava andar, mas não conseguia e no meio da multidão a imagem de Kyoko surgiu de pé. Os olhos dourados miraram os seus e como um guia voltou-se para os céus. Saga seguiu seus movimentos e viu o que ela parecia querer lhe mostrar.
Um buraco gigantesco e negro parecia vir do espaço, mas não vinha. Uma dimensão paralela talvez ou um portal, onde milhares de monstros saiam como vermes de uma ferida, atacando e matando todos pela frente. No chão o corpo despedaçado de Mu era devorado enquanto os olhos verdes miravam o vazio, um pouco mais afastado Camus acabava de ser golpeado no pescoço e em seguida mais dois monstros pularam em cima dele, arrancando seus braços e dilacerando seu abdômen, fazendo jogar sangue de sua boca. Milo gritava de dor observando suas pernas amputadas ser devoradas também. Kanon, Aldebaran e até mesmo Shaka também sofriam até a morte.
Saga ficou em choque com as cenas diante de seus olhos. Ele tentava se mexer, mas não conseguia, seu corpo tremia de desespero em ver seus amigos serem estraçalhados enquanto o buraco no céu expelia mais e mais monstros como pus de uma ferida inflamada.
Seus olhos assustados novamente voltaram para Kyoko e esta já não estava mais lá. Seu coração doeu ainda mais. Será que ela também havia sido pega? E o que era tudo aquilo?
Deu um passo para frente, mas não um passo simples e sim pesado como se bolas de ferro estivessem presa em seus tornozelos. Olhou aturdido ao constatar que não era amarras e sim... sangue.
O mar de sangue estava novamente sob seus pés. Por instinto deu um novo passo, mas dessa vez para trás e foi nessa hora que a cabeça de Atena emergiu bem ali entre suas pernas. Sua respiração trancou na garganta. Mãos frias agarraram seu rosto por trás, tapando seu nariz e sua boca de uma só vez e como se várias vozes sussurrarem em seu ouvido Saga sentiu suas pernas fraquejar:
—Vocês todos vão morrer. – A dona da voz sinistra puxou o cavaleiro para baixo, submergindo com ele naquele mar de sangue e corpos.
Saga começou a se bater, enquanto aquele ser o prendia mais e mais. Sangue invadiu sua boca quando finalmente com uma cotovelada ele conseguiu se libertar. Nadou mais rápido para cima, emergindo desesperado por ar.
No mundo real, Shaka e Mu levaram um susto quando Saga pareceu despertar de um pesadelo, puxando o ar com força e tentando se segurar em algo que não existia. Shaka correu na tentativa de manter o mais velho em pé, mas esse era mais alto e mais pesado, e por conta do desespero ele parecia ainda mais forte, agarrando o virginiano pelos ombros e o puxando para baixo também.
Saga estava se afogando...dentro de uma ilusão. Mu tentou entrar em sua mente para ver se assim trazia o amigo de volta, mas algo o repeliu tão forte que o ariano foi lançado contra uma rocha, batendo as costas e quase desmaiando.
— MU!- berrou Shaka.
O mais velho puxava o ar com força, se batendo desesperado até novamente ser tragado em uma nova onda de imagens, assim quando em sua mente foi puxado novamente para baixo.
—Saga! — Shaka gritou tentando fazer o geminiano voltar a si.
Quando foi submergido novamente Saga abriu os olhos e finalmente se acalmando. Como um borrão a imagem de Kyoko começou a surgir e lágrimas começaram a cair dos olhos bicolores em formas de pedras brilhosas, enfeitando o chão sujo e molhado como gotas de orvalho em algum lugar frio e escuro.
Gêmeos assustou-se com a aparição de Aiolia disparando seus raios e Aiolos suas flechas. Milo tentava segurar alguém que Saga não conseguiu identificar. Em uma nova sequência ele disparava suas agulhas. Um vórtex sugou as imagens tornando uma só: A imagem de um guarda com uma espada, pulando de uma mesa e atacando alguém. Esse alguém abriu os olhos de uma só vez e foi como se Saga sentisse aquele ataque em sua própria carne fazendo seu sangue gelar nas veias, o trazendo de volta a realidade com mais força ainda.
— KYOKO.- Gritou abrindo os olhos assustados e perdidos. Shaka ficou sem saber o que fazer e muito menos o que dizer.
— Saga, o que houve? — Questionou Mu transtornado. O geminiano estava pálido como um defunto, seus olhos arregalados e o rosto molhado de suor.
— Eu...tenho que voltar. – Saga segurou no ombro de Mu puxando o amigo que caiu de joelhos sem entender. — Leva a gente de volta Mu, agora! — Ordenou deixando os dois cavaleiros ali perplexos.
Do fundo da caverna um par de olhos azuis observava o trio desaparecer como mágica, sorrindo de lado ao ter certeza de que sua brincadeira havia sido mais eficaz do que o planejado.
oOo♊oOo
No santuário Shion era amparado por Dohko e Camus. As visões vieram em cascatas, invadindo sua mente e lhe mostrando uma confusão de morte e dor. O ariano respirava profundamente, tentando distinguir o real do imaginário.
— Shion você está bem? — Camus questionou aflito.
— Sim! Finalmente eu consegui.
—E o que você viu? — Agora foi Dohko quem perguntou.
— Morte.
Na sala Keiko chorava em silêncio, abraçada ao próprio corpo e com o olhar perdido. Não dava para acreditar que aquilo estava acontecendo. Kyoko estava tão feliz com tudo; feliz pelas coisas estarem se acertando com Saga, feliz com a festa, feliz por estarem juntas novamente e de repente tudo pareceu desmoronar como o mais frágil castelo de areia. Só podia ser um pesadelo.
— Keiko tente se acalmar. — Pediu Saori sentando ao lado da garota.
— Me acalmar? Como Atena? Minha irmã esta jogada em uma prisão, presa como um animal porque seus cavaleiros acham que ela é perigosa. – Bradou triste.
— Ela só está presa por precaução. – Justificou Aiolos.
—Não! Ela está presa porque é uma youkai. — Rebateu.
—Keiko sua irmã estava descontrolada, atacando pessoas inocentes sem a menor justificativa. – Aiolia interveio com seriedade.
— Ela não estava atacando à toa, a Kyoko nunca faria isso. Ela jamais machucaria uma pessoa sem motivos eu tenho certeza. — Berrou em resposta.
— A única coisa que se pode ter certeza é que sua irmã estava berrando feito uma louca, atacando as pessoas como um animal feroz.
Keiko franziu o cenho e trincou os dentes. Aiolia havia passados dos limites. Agora entendia porque sua irmã e o leonino não se bicavam.
— Seu filho da puta, você a atacou como um covarde. Você e seu irmão. O único animal que eu vejo aqui é você, puto desgraçado! — Keiko avançou para cima do cavaleiro, mas Aldebaran segurou a moça pelos braços.
— Por favor, já chega! — Atena pediu com os olhos marejados.
— Vocês não entendem. Não sabem o que fizeram. — Keiko chorou enterrando o rosto no peito do taurino em busca de apoio.
— Então está na hora de você nos dar explicações e dizer o que está acontecendo. — A voz grave e imponente de Saga surgiu no Grande Salão ao passo que ele, Mu e Shaka chegaram.
Shaka caminhou calmamente para próximo de Atena que parecia transtornada, já o geminiano foi rápido em direção a Keiko que se agarrou mais ainda no taurino.
— O que é que está acontecendo, Keiko? — Saga disse irritado.
Em um canto Afrodite sentia-se cada vez pior com aquilo tudo. Fazia tempos que guardava o segredo de Kyoko e isso era um peso enorme. A raposa não queria que Saga soubesse, tampouco os outros. Ele não conseguia ver lógica naquilo, mas a raposa sempre justificava como sendo um problema dela e que daria conta dele sozinha. Já havia pensado em contar a Saga várias vezes, mas conhecia bem o temperamento do mais velho. Saga jamais deixaria aquilo nas mãos de Kyoko e com certeza a confrontaria. O resultado ela mesmo havia avisado: fugiria para nunca mais ser encontrada. E era só por conta de saber que ela tinha essa capacidade que Afrodite achou melhor ficar de boca fechada. Mais cedo ou mais tarde Saga iria descobrir, pois idiota era a última coisa que ele seria.
— Está acontecendo que os seus amigos mutilaram a Kyoko e sem se darem por satisfeitos a jogaram sozinha e machucada em uma jaula. – Keiko berrava e gesticulava nervosa e ao mesmo tempo aliviada por Saga finalmente ter aparecido, mesmo que fosse um pouco tarde.
Saga sentiu-se afundar no chão com aquelas palavras. As imagens da luta vieram à tona novamente e ele começou a ligar os pontos. Seu sangue pareceu ferver nas veias fazendo seu coração pular na garganta. Não podia acreditar que aquilo fosse real. Aiolos era justo demais e não...permitiria que seu irmão fizesse algo impróprio, ou permitiria?
— Saga foi um acidente. Nós tentamos impedir e o guarda ele...
— Cala a boca, Kanon! — Ordenou furioso e o mais novo achou melhor acatar por hora. — O que foi que vocês fizeram com ela? — Rosnou mirando Aiolia. — Aiolia...o que foi que você fez?
O leonino estufou o peito e franziu o cenho. Não tinha porque temer Saga até porque ele também era um cavaleiro de ouro e sabia o que era correto. Ele não havia feito nada de errado e honrou como ninguém a armadura que vestia. Salvou Atena, o patriarca e as pessoas de Rodório. Não havia do que se envergonhar.
— Kyoko estava fora de controle. Ela teria matado um homem e sua a namorada se eu não tivesse impedido. – Confessou orgulhoso.
— Como é que é?! – Saga franziu a testa com tanta força que suas sobrancelhas quase se tornaram uma só.
— Saga, algumas testemunhas disseram ter visto a Kyoko dar alguma coisa para Luy beber. O menino começou a...vomitar sangue e quase morreu. Dizem que era veneno. – O sagitariano começou a explicar.
Saga sem a menor explicação explodiu em uma gargalhada tão alta e sinistra que faria até seus antepassados tremerem. Era raro aquilo acontecer, mas quando acontecia, eles sempre temiam, pois aquela era a gargalhada clássica de Ares, o “demônio” que usou Saga para tentar matar Atena. O geminiano levou uma mão à testa enquanto seu corpo sacolejava em escárnio.
— Saga...você está bem? – Kanon perguntou receoso.
— Isso só pode ser uma brincadeira, não é?! – Saga perguntou em meio ao riso até ficar sério novamente. —A Kyoko nunca faria um arranhão sequer aquele menino. Ela mataria qualquer um de nós, mas o Luy?! Não! Ele não.
— Saga entenda, nós não estamos afirmando nada e nem dizendo que acreditamos nisso. O problema é que a Kyoko saiu como...uma fera pulando e atacando tudo e a todos. As pessoas ficaram desesperadas, correndo de um lado para o outro com medo. Ela arremessou um homem como se fosse um boneco e tentou matar Eva. Se não fosse Aiolia ela estaria morta agora. — Aiolos explicou.
—Ahhh o Aiolia impediu? Como? – Saga aproximou-se do leonino fitando seus olhos com fúria até suas armaduras tilintarem pelo contato dos peitorais. — Usando o relâmpago de plasma ou cápsula do poder? – Ironizou.
Aiolia não se intimidou estufando o peito também e encarando Saga na mesma proporção: —Fiz o que era necessário para salvar aquelas pessoas.
— Com toda sua impulsividade, eu imagino o quanto você julgou ser necessário. – Saga empurrou o leonino sentindo mais raiva ainda.
— Saga, calma! – Kanon segurou o irmão enquanto Milo e Mu continham a fúria de Aiolia.
— Eu sou um cavaleiro de Atena, era minha obrigação proteger aquelas pessoas e você deveria fazer o mesmo! – Berrou o leão.
— Proteger aquelas pessoas não lhe dá o direito de atacar alguém sem ter certeza de que é realmente culpado! A Kyoko não é um animal! – Saga se soltou de Kanon e partiu para cima de Aiolia sentindo o sangue ferver, mas antes de seu punho acerta o menor, Aldebaran de touro interveio, segurando o mais velho pelos braços e pedindo para que ele se acalmasse.
— Por favor, parem com isso! – Pediu a deusa já quase entrando em parafusos. Será que eles nunca conseguiam se entender?
—Nós fizemos o que era necessário. – Aiolia se sacolejava tentando se libertar de Mu e Milo.
— Vocês?! Ahh sim me esqueci: você, seu irmão e esse idiota do Milo.
Nesse momento Afrodite e Aldebaran trocaram um olhar cúmplice pelas palavras de Saga: Como ele podia saber que Milo também estava envolvido se ele havia acabado de chegar?
— Ei calminha aí, Saga, aquela maluca ia explodir o santuário inteiro. – Milo se justificou, largando o leonino furioso sob os cuidados de Mu.
— Nós tínhamos que proteger a Saori. – Agora foi Aiolos quem se pronunciou, tentando convencer Saga de que o que haviam feito foi a coisa mais sensata.
—A Kyoko nunca nem fez menção em ferir a deusa de vocês, isso não justifica o que fizeram. Eu sei que ela estava descontrolada, mas ela estava tentando proteger a mim e ao Luy de pessoas como vocês! – Keiko apontou. —Aquela desgraçada da Eva, eu tenho certeza que foi ela. Ela deve ter tentado envenenar a Kyoko, mas algo deve ter dado errado e ela tentou inverter a situação. – A garota caiu de joelhos chorando. – Vocês...a mutilaram, arrancaram a cauda dela e a jogaram em uma prisão por...medo de...ela tentar se defender outra vez! Kyoko nunca deveria ter vindo para cá, nunca! Humanos são todos iguais! VOCÊS SÃO TODOS IGUAIS!
Todos ficaram em silêncio. Aiolia abaixou a cabeça e Aiolos e Milo desviaram o olhar. O desespero de Keiko e suas palavras foram como espadas em seus corações.
— Foi um acidente. Não era para isso ter acontecido. – Shion apareceu, caminhando devagar ao lado de Camus e Dohko.
Saga fechou os olhos sentindo uma dor horrível no peito. Ele no fundo não queria ter ido, mas não tinha como negar. Era uma ordem de Atena ao qual ele tinha que acatar mesmo à contragosto o que o deixava ainda pior. Sentia-se culpado por tudo que envolvesse Kyoko e o fato do nome de Eva estar envolvido naquela confusão agravava a situação ainda mais. A raposa tentou avisar, mas errou em não dar ouvidos e agora estava pagando por seus erros.
— Onde ela está? — inquiriu ofegante e aflito.
— Está na prisão. Ela matou dois guardas e feriu mais dois, non queríamos arriscar outro confronto. – Camus disse calmamente.
— Na prisão? Vocês...cavaleiros de ouro, a jogaram numa prisão? Sozinha?!
Saga deu uma risada anasalada olhando desapontado para os amigos. Aproximou-se de Aiolos que o mirou nos olhos com seus orbes verdes carregado de remorso.
— Ela ia matar o Aiolia, eu tinha que fazer alguma coisa. – Justificou-se.
— Eu esperava isso de qualquer um Oros, menos de você.
Saga deu as costas e sem dizer mais nada saiu a passos largos em direção à prisão.
oOo♊oOo
— Ei vê se não demora seu imbecil, eu estou morrendo de sono e já passou da hora de você me render. – Gritou um guarda para seu amigo que deu de ombros saindo da prisão.
O som de uma goteira ecoava pelo extenso corredor. As tochas iluminando parcialmente o caminho enquanto algumas celas vazias estavam escuras e medonhas. No fundo, uma em especial era trancada por um selo de Atena e dentro dela a kitsune em sua atual fragilidade movimentou o rosto devagar ao sentir a gota fria bater em seu rosto dolorido.
O cheiro pútrido e uma névoa arroxeada envolveu o guarda que caiu morto, seco no chão como um cadáver de anos. A mesma névoa arrastou-se silenciosa, arrancando o selo e invadindo o local.
Ela estava tão indefesa que até mesmo um rato seria capaz de matá-la sem o menor esforço. Quem poderia dizer que a grande Kyoko chegaria aquele ponto outra vez. A mulher meneou a cabeça repreendendo aquela situação degradante.
—Pobre Kyoko... – A voz trepida soou bem próximo ao rosto da Kitsune fazendo-a abrir os olhos devagar, sentindo a névoa envolver seu rosto e o virando para encarar os azuis brilhantes de Naomi. —Tão indefesa.
—Na...Naomi?! – Balbuciou.
— Olha o que eles fizeram com você. Ah Kyoko eles maltrataram você outra vez.
Kyoko ficou observando o semblante melancólico da youkai que a acarinhava como uma filha. Sua mente trazendo à tona as lembranças da batalha e em seu corpo dolorido as provas de que tudo foi real. A sensação de traição e covardia tomou seu coração de forma tão avassaladora que Kyoko sentiu o ar lhe faltar. Eles haviam ferido seu corpo e sua alma outra vez, arrancando sua fonte de energia e a deixando a mercê da sorte. Pequenas lágrimas se formaram no canto de seus olhos e escorreram até tocarem o chão como pequenas gotas de orvalho.
— Olha o que eles fizeram com você na primeira oportunidade. – Kyoko sentiu-se ainda pior com aquelas palavras, chorando ainda mais forte. — Kyoko eles nunca verão você com outros olhos a não ser os olhos humanos, sempre verão você como um monstro mesmo quando o monstro não é você. Eles são todos iguais
— Ahhhh não! Luy... – Chorou mais, cobrindo os olhos com as mãos machucadas. — Ela matou o Luy. Eu não consegui...não consegui salva-lo!
— Sim...e eles acreditaram nela e a protegeram. Culparam você novamente sem nem ao menos ter certeza do que aconteceu.
— Saga...
— Ele não está aqui Kyoko, ele deixou você. Deixou você nas mãos dela e deles. Ele não é diferente, todos eles são iguais. – Naomi soltou seu veneno e Kyoko ficou pensativa.
—Não...ele...não tem culpa...ele não estava lá.
— E se estivesse? Você acha que ele acreditaria? Acha que ele protegeria você ou...que permitira que você matasse aquela mulher que feriu o menino por inveja e cobiça? Kyoko...ele protegeu ela tantas vezes, porque acha que seria diferente agora? Ele disse que a mandaria embora e onde ela estava?! – Naomi ergueu o rosto de Kyoko novamente olhando dentro de seus olhos confusos. Ela estava tão frágil como nunca havia visto. — Ela estava aqui. Estava na sua festa, sua! Ele permitiu que ela ficasse. Ele a deixou....aqui.
Os pensamentos voltaram no tempo. No tempo em que implorou para que Saga acreditasse em si, no tempo em que ele se negava a acreditar em tudo que dizia desde que Eva pisou no santuário, no tempo em que ele lhe deu as costas para se deitar com uma humana mentirosa só por ser humana.
Éh...talvez Naomi estivesse com a razão. Mesmo ele não estando ali, ele era tão culpado quanto os outros. Ele permitiu que Eva ficasse quando não acreditou em si e agora Luy havia pagado com a vida. Pagado por algo que ele nem sabia existir. Pagado pela inveja de uma mulher que não sabia perder.
Nada justificava. Nada mais importava. Hiroaki tentou avisar, mas preferiu não ouvir. Eles não prestavam e sempre, sempre fariam a mesma coisa. Foi tola por ter contrariado aquele que lhe estendeu a mão quando estava quase morta e agora, estava sozinha novamente. Nem Keiko estava ali. Eles a confinaram em uma jaula na primeira oportunidade, lhe dando a prova de que todos eram iguais, com armaduras ou sem elas, eles sempre fariam a mesma coisa.
— Por que você está aqui? – Kyoko perguntou em um fio de voz.
— Eu? Porque eu vim levar você para casa.
— Naomi? Você não teve nada haver com isso teve? – A raposa tentou erguer o corpo, mas a dor nas costas e a fraqueza extrema não permitiram.
— E desde quando nós precisamos interferir nos assuntos dos humanos para que eles cometam seus pecados e injustiças? Eu achei que você soubesse disso melhor do que ninguém.
— Mas, Hirokai-sama...ele....ele mandou me matar, Yukio e Yuriko...
— Yukio e Yuriko eram dois insubordinados de merda que queriam seu lugar. Eles fariam qualquer coisa para ser o braço direito de Hiroaki. – A mulher se afastou enquanto gesticulava sensualmente com as mãos. — Até mesmo desobedecê-lo.
A kitsune franziu o cenho sem entender e Naomi tratou logo de explicar:
—Hirokai ficou muito triste pelo que você fez, mas...ele nunca quis que você morresse. Ele ama você e você sabe muito bem disso. Ele ordenou a aqueles gêmeos idiotas que encontrassem e levassem você de volta sã e salva e não sua cabeça. Eles acharam que se te matassem Hiroaki ficaria satisfeito e daria a eles o cargo mais alto dos Kage. Patéticos! – Desdenhou.
— Hiroaki... — Kyoko mal conseguia processar aquelas informações devido à fraqueza e dor. — ...será que ele vai me perdoar?
Arrancar a cauda de uma kitsune era praticamente levá-la a morte. Ela não teria forças para reagir a nada, tampouco para procurar alimento. A raposa já não sabia mais o que pensar. Nunca se sentiu tão fraca quanto agora e mesmo que quisesse não poderia fazer nada contra ninguém e muito menos contra Naomi, caso ela quisesse feri-la, mas o que intrigava era que isso não parecia vir ao caso.
A mulher sorriu vitoriosa com o estado atual de Kyoko e agradeceu mentalmente aos cavaleiros e principalmente ao guarda que tratou de adiantar as coisas sem que precisasse entrar em confronto com algum deles.
Transformou-se em fumaça, rodeando o corpo de Kyoko e segurando seu rosto com as mãos.
— Ahh minha querida, é claro que ele vai. Ele te ama. Mas agora, fiquei queira, você está muito fraca, não se esforce. Vou levar você de volta para casa minha raposinha linda e tudo vai ser como era antes. Não se preocupe ninguém mais vai machucar você.
oOo♊oOo
Saga sentiu o sangue gelar nas veias quando viu o corpo bizarro do guarda caído morto no chão. Se não estivesse úmido, ele diria que estava ali por anos. Passou correndo pelos corredores, olhando cela por cela até finalmente avistar uma em especial. Nela um selo de Athena estava pela metade, indicando que alguém esteve ali. Entrou devagar, atento a qualquer movimento suspeito e principalmente procurando pela kitsune. Olhou tudo ao redor e nenhum sinal dela. Chamou, mas como resposta recebeu o eco de sua própria voz. Caminhou mais pelo recinto atrás de pistas, mas não havia marcas de arrombamento ou de lutas. Voltou para o corredor a passos largos pegando uma das tochas e antes mesmo de pisar na cela novamente algo refletiu o brilho da chama em pequenas faíscas.
Saga apertou os olhos caminhando devagar. Seu rosto refletiu na pequena poça d’água que com a luz da chama revelou a origem das faíscas.
—Uma pérola?! – Sussurrou confuso pegando e observando mais de perto. Não, não era bem uma pérola, mas sim algum tipo de pedra preciosa que ele nunca havia visto.
O cavaleiro ficou pensativo por alguns minutos tentando processar aquelas informações, imaginando como aquela pedra que indicava ter valor poderia ter ido parar ali e...Kyoko? Onde ela estava? Será que aquela pedra poderia ser uma pista? Ou quem sabe ela poderia ter roubado de alguém e deixado cair antes de fugir?! Não! Ela não teria como fugir. Além de estar gravemente ferida, a porta havia sido aberta de fora para dentro e não havia nenhum sinal de luta. Kyoko não poderia ter simplesmente saído dali sem ajuda, até porque a porta estava selada. Alguém a libertou, mas a questão era: Quem?
Apertou os olhos, aguçando seus outros sentidos ao máximo que podia e como um cão captou no ar um cheiro familiar. Saga franziu o cenho; aquele era o mesmo cheiro que a esfera de energia exalava.
A pessoa que havia libertado Kyoko era a mesma que estava utilizando aquelas bolas de energia para confundi-los.
Saga sentiu o coração disparar dentro peito imaginando que a raposa: fraca, cansada e ferida não teria a menor chance nem contra uma formiga imagine contra um inimigo. Ela podia ter sido atacada e ninguém teria visto e muito menos ajudado. O corpo do guarda dava ainda mais ênfase aos pensamentos desesperados do cavaleiro que se mesclava entre as lembranças do sorriso entre as covinhas e a kitsune morta em algum lugar que ele não fazia a menor ideia.
— Kyoko...- Disse em um fio de voz. No rosto másculo a expressão aflita de quem não sabia nem por onde começar.
Saga começou a andar de um lado para o outro pensando em alguma coisa. Ele tinha que se acalmar. Kyoko estava viva, ele sentia isso em seu coração, mas sua razão dizia que algo de ruim também tinha acontecido e isso o deixava cada vez pior.
“Acalme-se Saga, não adianta ficar andando de um lado para o outro que isso não trará a Kyoko de volta. Pensa! Pensa! Tem que ter uma pista, alguma coisa.” pensou.
Os olhos presos em um ponto qualquer refletindo a luz da chama a dançar com o vento ao som de seus assobios, que invadiam os corredores, fazendo os pelos do cavaleiro reagir de imediato a contra gosto. Um movimento mais forte e...bang!
Saga apertou os olhos novamente e vendo um pouco mais afastado dali outra faísca enfeitando o chão. Abaixou rápido pegando a nova pedra. Eram duas no total. Movimentou mais a chama e lá estava mais duas logo abaixo da cama velha que ainda resistia aquele lugar. O cavaleiro levantou exacerbado, jogando a tocha longe, acendendo seu cosmo e ganhando como recompensa a localização exata das pedrinhas.
Não eram duas ou três e sim várias. Saga maravilhou-se com o brilho, como quando era menino e olhava o céu com seu irmão para contar estrelas.
Aquilo era uma pista. Seu coração gritava e ansiava por aquilo. Catou cada uma delas, vasculhando milimetricamente a cela até não restar nenhuma.
oOo♊oOo
No décimo terceiro templo Shion tentava usar de toda sua persuasão para convencer Keiko a dizer o que estava acontecendo. A garota até concordava com os argumentos do ariano, mas mesmo assim só aceitou contar alguma coisa depois que Saga retornasse com Kyoko em segurança. A mais nova não queria ter que revelar nada sobre a irmã, assim como Afrodite que agia como se não soubesse de nada, mas não dava mais para negar que algo ruim estava por um fio de acontecer. Keiko rezava em silêncio para que Saga conseguisse trazer sua irmã, caso contrário, as consequências seriam desastrosas.
Depois de quase uma hora, Saga finalmente retornou... sozinho. Keiko sentiu o coração parecer parar quando viu no semblante sério do cavaleiro o que temia.
— Diz pra mim que você a deixou na sua casa antes de vir para cá? – Pediu Keiko nervosa.
— Não Keiko, alguém chegou antes de mim. – Confessou tentando transmitir uma calma que não tinha.
— Não...- Sussurrou caindo sentada no grande sofá.
Saga apoiou um dos joelhos no chão e assim ficando frente a frente com a irmã de Kyoko.
— Keiko, eu preciso que você me ajude. Eu encontrei isto espalhando no chão da cela onde a Kyoko estava. – Saga tirou um pequeno saquinho improvisado, mostrando a garota o que havia encontrado. Keiko arregalou os olhos em um misto de melancolia e surpresa, tirando uma única pedra daquele meio. Seus olhos marejaram. — Você sabe o que é? Seria Kyoko deixando pistas como...migalhas de pão?
— Não, Saga...isto...- Indicou pondo a pedra de volta no saquinho, segurando a outra mão de Saga e unindo ambas para que segurasse com mais cuidado. — São as lágrimas da Kyoko.
Todos ficaram perplexos com aquela revelação. Se aqueles brilhantes eram as lágrimas da kitsune, então ela havia chorado e muito. Saga nunca pensou que aquilo causaria um efeito tão devastador em si, pois na palma de sua mão a dor de Kyoko estava tão palpável quanto a armadura que vestia.
— Guarda com carinho, tenho certeza que algumas delas foram por você. – Keiko sorriu singela expondo a única semelhança que tinha com a irmã: as covinhas que tanto Saga adorava.
Shion aproximou-se mais, segurando as mãos da garota que pareciam ter saído de um balde de gelo de tão frias. O patriarca sorriu gentil tentando transpassar toda a confiança que podia.
—Keiko eu sei que erramos com vocês, também sei que está com medo e...entendo, mas...eu lhe peço, confie em nós pelo menos mais um vez. Deixe-nos ajudar. Nós não somos inimigos. – Disse Shion olhando dentro dos olhos escarlates de Keiko.
Ela respirou fundo, mirando todos os olhos que agora caíam sobre si, principalmente os verdes de Saga que, por mais que tentasse camuflar sua aflição já não mais estava em seus poderes.
— Okay! – fez uma pausa. – E por onde eu começo?
—Do começo. – disse Saga, sério
— *Fuuuu*... Nosso pai era um ladrão e ele se apaixonou por uma dama das neves. Um amor proibido e abominável aos olhos de muitos, principalmente para os governantes do País de Gelo. Desse amor nasceu a Kyoko. A primogênita, o orgulho do papai. E mesmo que ela odiasse, sabe se lá quem achou que seria divertido colocar na face dela a prova da escolha errada de nossos pais. Mas o papai amava aquilo porque...olhar para ela era como ver a prova viva do amor deles, pois ela carregaria em seu rosto a marca daquela união para o resto de seus dias: O olho azul e as lágrimas preciosas. Nós vivíamos muito bem, mesmo que relativamente escondidos. Eu gostava mesmo sem entender bem o que o papai fazia para dar de tudo por nós. Mas aí, em um belo dia, num roubo ele acabou por ser reconhecido. Os governantes do país de gelo nos encontraram e o papai acabou sendo morto enquanto tentava nos proteger, principalmente a Kyoko. Nossa mãe em um ato desesperado nos jogou no mundo dos humanos antes de ser assassinada também. Eu não lembro muito bem como, mas só lembro que quando acordamos estávamos em uma cama quentinha e confortável. Para nossa sorte um senhor de meia idade, que vivia sozinho nos encontrou perdidas na mata e nos criou como se fôssemos suas filhas, nos escondendo longe de olhares curiosos e inquisidores.
Keiko fez mais uma pausa olhando dentro dos olhos de Saga que se manteve concentrado em cada palavra.
— Qual foi sua reação quando viu a Kyoko pela primeira vez? – A garota questionou sem quebrar o olhar. Saga respirou fundo pensando em com se sentiu quando viu sua paixão pela primeira vez.
—Eu...fiquei realmente impressionado. Eu nunca tinha visto uma kitsune, nem sabia que elas existiam de verdade, então eu fiquei curioso e quando ela olhou para mim a primeira vez eu... fiquei ainda mais maravilhado. Já vi pessoas com heterocromia antes, mas no caso da Kyoko é...como uma marca. – Respondeu.
—Ela é linda, impossível não se impressionar. – Afrodite se pronunciou.
—É...agora, imagine isso a mais ou menos mil anos atrás.
Todos ficaram em silêncio. Mil anos?! Por Atena! Quantos anos aquelas garotas tinham?
— Se a Kyoko impressiona hoje, imagina naquela época. Existem pessoas que possuem...gostos asquerosos ou hobbys mais asquerosos ainda. Homens e mulheres riscos que pagariam milhões só para ver qualquer coisa... sobrenatural de perto. As kitsunes são difíceis de serem encontradas, vistas devido a sua capacidade de se misturar aos humanos, imitando sua aparência com perfeição. – Fez uma pausa. – O que desperta no homem um de seus lados mais cruéis...a ganância.
“As duas meninas corriam amedrontadas pela casa, abrindo e fechando as portas em meio à escuridão. A menor não largava a mão da mais velha ao mesmo tempo em que seus olhinhos marejados não conseguiam deixar de olhar os brutamontes tatuados espancando seu vovô até a morte.
—Vem, Keiko.
—Nee-san, eu to com medo. – Disse a menina entrando em um armário.
Kyoko sorriu escondendo sua irmã como podia.
— Shiii...não sai daí tá, eu vou despistá-los. Se eu não voltar até o amanhecer você foge. – Kyoko orientou.
—Não Kyoko eles vão te pegar. Por favor, não vá. Não me deixe! – A mais nova pediu com os olhos cheios de lágrimas.
— Vai dar tudo certo, eu jamais vou te deixar. Prometo que vou voltar para te buscar. Eu te amo!”
— Eu fiquei um dia e uma noite esperando, mas ela não voltou. Quando tive coragem de sair a casa estava em pedaços. O corpo mutilado do vovô ainda estava lá, coberto por moscas. Ele tentou nos proteger, mas aqueles...monstros o mataram. Eu vaguei sozinha por meses, comendo comida do lixo até finalmente aprender a controlar minha aparência e isso me ajudou a conseguir um lugar para ficar e sobreviver enquanto esperava a Kyoko cumprir sua promessa.
—E a Kyoko? – Perguntou Milo curioso.
— A Kyoko?! Hã...A Kyoko não tinha como dar conta de vinte homens sozinha, então eles a pegaram e a colocaram em exposição na casa de um poderoso colecionador milionário que descobriu que nós vivíamos com um velho decrépito e ordenou que nos roubasse dele para incrementar sua coleção bizarra. Se uma kitsune comum já é raro de se ver...- Keiko esticou as mão para Saga e este abriu a sua mostrando as pedras que havia encontrado na prisão. – ...imagina uma que chora pedras preciosas?!
— Ah! Por todos os deuses! – Aldebaran sussurrou já antevendo o que tinha acontecido.
— Quando eles descobriram as coisas pioraram...demais. Ele passou a não se importar mais com suas exposições já que podia faturar muito mais com as lágrimas da Kyoko. Ela me contou que para eles a imagem dela não valia tanto quanto suas lágrimas e por isso ele a colocou em uma prisão onde comia muito raramente e bebia água de uma goteira quando chovia. Se ficasse muito tempo sem chover ele mandava que um dos empregados levasse um pouco d’água para que ela não morresse, mas sim fraca o suficiente para não ter forças para matar alguém ou tentar fugir. Eles...a torturavam, dia e noite. A espancavam, judiavam dela! A...- Keiko perdeu a voz.
— A?! – Perguntou Kanon já quase roendo as unhas de ansiedade.
— A estupravam... Várias e várias vezes. — Cuspiu as palavras quase sem forças deixando todos os presentes sem chão. Saga cobriu os olhos com a mão como se uma dor de cabeça forte o tivesse atingido como um raio. Aquilo era um pesadelo. —Eles a torturavam com outras coisas como: chicotadas, queimaduras com selos, cortes etc. Mas nada era mais eficiente e prazeroso pra...aqueles vermes do que quando eles...eles a estupravam horas sem parar. Se revezando, disputando entre si para...
—Por que ela não fugiu? — Shion interrompeu indignado.
— Como? Acha que ela sempre foi...poderosa como é hoje? Ela tentou fugir várias e várias vezes, mas não era forte o suficiente e...devido a fome e sede ficava ainda mais difícil, até porque ele usavam selos e os cães para vigiarem dia e noite.
— A Kyoko morre de medo de cachorro. – Saga disse passando a mão nos cabelos azulados.
— As kitsunes tem um medo...crônico de cães, mas...no caso da Kyoko a coisa se agrava mil vezes mais. Ela tem horror a eles por isso. Ela perdeu as contas de quantas vezes foi mordida enquanto tentava fugir. Eles usavam até mesmo os cães para fazê-la chorar.
— Quanto tempo isso durou? – Shaka se pronunciou.
Keiko respirou fundo, sentindo os olhos embaçados pelas lágrimas. Ela nunca havia se perdoado, sentia-se culpada por sua irmã ter sofrido daquela maneira e sozinha. Kyoko havia passado por tudo aquilo para protegê-la e enquanto ela sofria em uma jaula, estava livre por aí.
— Vinte e seis anos. – Keiko praticamente cuspiu as palavras e todos prenderam a respiração. Atena que até então estava em silêncio se jogou nos braços de Camus e chorando sofregamente. Saga levantou sem dizer nada caminhando até uma janela como se buscasse o ar que havia perdido.
— Vinte... e.. seis...anos? – Kanon perguntou novamente sem acreditar que tinha ouvido aquele número mesmo. Keiko confirmou com a cabeça.
— Eu procurei a Kyoko por anos e nunca a encontrei. Sempre me culpei porque ela ficou naquela situação para me proteger. Ela sempre se sacrificou por mim e eu nunca pude retribuir.
—Como ela saiu de lá, Keiko? – Saga perguntou quase sem ar.
— Depois de tentar demais chega uma hora em que você simplesmente desiste e aceita que o que temos é nosso destino. Ela parou de tentar até o filho do colecionador nascer. O menino foi crescendo e por conta da sua curiosidade eles acabaram se aproximando. Os olhos dela e a aparência fizeram o menino se apaixonar. Depois de sete anos de amizade escondida, o menino sem querer presenciou uma sessão de tortura. Kyoko me disse que foi a pior tortura de todas, pois ela não chorou então, eles apelaram para tudo que podiam chegando bem perto de matá-la. O garoto se compadeceu e jurou que a ajudaria assim que tivesse uma chance.
“—Eu vou te ajudar a sair daqui ta bom?
—Você? Fala sério, você só tem sete anos. – Kyoko desdenhou.
— O papai vai ter uma reunião em Tókio daqui a dois dias, se prepara que eu vou tirar você daqui. – O menino disse cheio de coragem e saiu correndo. Kyoko achou graça daquilo, mas nada disse.
Alguns dias depois....
— Vem Kyoko o papai saiu. – Disse o menino arrancando os selos.
— O quê?! Não você...não pode fazer isso, se ele descobrir eu nem quero imaginar o que ele vai fazer. – Ela retrucou. – E tem outra, os cães eles...eles vão me dilacerar e eu não to afim de ser mordida hoje.
— Deixa de ser medrosa. Os cachorros já estão quase mortos eu dei veneno para eles, quando o papai voltar você já vai estar bem longe, agora vamos logo. – O menino segurou a mão da kitsune e saiu com ela pelo casarão, mostrando o caminho até a saída.
Kyoko sentia o coração acelerar mais e mais cada vez que chegava próximo da saída e quando seus pés tocaram a grama do quintal, a raposa sentiu-se nas nuvens. Já não lembrava mais daquela sensação tão...maravilhosa. O cheiro das plantas e o vento tocando sua pele. Estava livre. Depois de tantos anos estava finalmente livre.”
—As coisas nem sempre saem como planejamos e nunca imaginamos que algo dará errado quando é o queremos de todo coração.
Keiko sentia um vazio no peito tão grande que era difícil explicar. Era como se seu coração batesse entre o estômago e o peito, levando toda a melancolia daquelas lembranças pelas veias de seu corpo como uma droga poderosa e alucinógena.
— O colecionador voltou para casa antes do que havia previsto por conta de um documento esquecido. Irritado ao flagrar a traição do próprio filho, ele assassinou o garoto com uma espada bem diante dos olhos da Kyoko. – Keiko fez mais uma pausa olhando para o semblante triste de Shion e dos outros presentes. – Acho que nem quando foi sequestrada ela se sentiu tão mal, mas... graças a aquele ato do menino, por fim ela conseguiu fugir. Ela me contou que caminhou na mata por vários dias, com fome e com sede e a última coisa que lembra foi de cair e bater a cabeça em uma pedra na beira de um riacho.
— Que horror! – Disse Aldebaran com o cenho franzido.
— As pessoas são capazes de qualquer coisa por poder e dinheiro. – Expôs Kanon incomodado. Ele sabia mais do que ninguém como a ganância podia transformar as pessoas.
— E é aí que Hiroaki entra na história. – Todos novamente olharam para Keiko redobrando ainda mais a atenção em cada palavra dita. Saga cruzou os braços dando mais ênfase a sua postura altiva.
— O que eu sei é que...ele costumava ir de um mundo para o outro em busca de conhecimento e treinamento, e foi em um desses dias que ele encontrou a Kyoko na beira do rio. Ele a levou de volta para o Makai e cuidou dela, ensinando a ela tudo sobre a arte da espada e a transformando no que ela é hoje. Um Kage.
— Kage? Que droga é essa? – Milo questionou novamente.
— Eles são mestres na arte do kenjutsu. A Kyoko acabou se tornando o braço direito de Hiroaki e a segunda no comando. Eles são quatro ao todo: Hiroaki é o líder e o mais velho, Naomi e Kyoko vêm logo depois e Yukio que se dividia com a sua irmã gêmea Yuriko. – Fez outra pausa respirando fundo novamente. Bebeu um pouco d’água para enfim continuar. – Bem, contam-se nas histórias que antigamente era muito...fácil passar de um lado para o outro e por isso muitos youkais famintos atravessavam para o mundo de vocês em busca de alimento desenfreadamente. Alguns aproveitavam da desculpa da fome para matar pessoas por mero prazer. Então depois de muito debate e discussão o “mundo superior” e o mundo dos monstros fizeram um acordo onde eles criariam uma barreira protetora que impediria que os humanos caíssem do lado de lá e os youkais viessem para o mundo de cá, só que nada é perfeito e mesmo com todos os esforços ainda sobraram pequenas falha ou fendas onde humanos perdidos acabavam caindo sem querer por elas e youkai famintos se aproveitavam para caçar indevidamente. Então...para tentar controlar essas falhas os Kage foram chamados, ficando responsáveis por tomar conta dessas fendas. Para isso cada um deles ganhou uma espada forjada do único pedaço de metal capaz de cortar a barreira. Esse metal unido de uma pedra do mundo superior chamada Adamantine dá a eles a habilidade especial de cortar o espaço, ou seja, eles podem abrir fendas dimensionais e caminhar de um lado para o outro sem precisarem afetar a barreira. – Keiko gesticulava olhando firme para cada um dos presentes.
— O Saga e Kanon também possuem esse tipo de habilidade. – Camus se pronunciou.
— Eu to ficando confuso, o que tem de tão grave nisso tudo? – Aiolia perguntou coçando a nuca.
— O agravante Aiolia é que..., Pelo que a Kyoko me contou, Hiroaki não quer mais manter o acordo. Ele acha que isso é bobagem e que os youkais tem o direito de ir e vir para buscar alimento no mundo dos humanos sem restrição alguma, incluindo ele mesmo. Hiroaki não faz questão alguma de poupar quem quer seja para ter que deixar de saciar sua fome.
— Então...a Kyoko está tentando impedir esse tal Hiroaki de passar para cá? – Aiolia perguntou novamente.
—Bom...mais o menos. Olha, eu sei que a está Kyoko está...fugindo dele, eu acho. O que eu sei é que o Hiroaki quer usar as quatro espadas e cortar de uma vez por todas a barreira que separa os dois mundos dando acesso total aos youkais ao mundo de vocês. Só que somente cada um pode empunhar suas espadas, tipo: A Kyoko não pode usar a espada de Hiroaki ou vice-versa já para evitar que um mate o outro na tentativa de roubá-las. — Keiko gesticulava.
— Ah se ele precisa das quatro espadas então, não é tão grave assim. É só mantermos a Kyoko por perto e acabar com esse cara quando ele der as caras. – Milo sorriu debochado.
—O problema é que alguém tirou a Kyoko da prisão e tudo indica que foi esse cara. Eu senti um cheiro...pútrido. – Saga confessou pensativo.
—Pútrido?! Ah não, é a Naomi...Ela deve ter se aproveitado do fato da Kyoko está sem energia para levá-la de volta ao Makai.
—Eles vão forçá-la a cortar a barreira! — Atena exclamou nervosa só de pensar naquela possibilidade.
— Força-la a cortar? Não! Hiroaki não vai fazer isso, eu duvido muito. A Kyoko fez um juramento e ele sabe que ela não vai quebrá-lo assim tão facilmente. – Keiko disse desdenhosa. – O problema é que...ele sabe do passado da Kyoko e provavelmente irá usar a atitude precipitada de vocês a seu favor. Minha irmã só jurou manter sua palavra em nome do menino que morreu para salvá-la e não porque se importa com humanos em geral. Para ela vocês são todos iguais, ainda mais depois dessa...confusão toda. Hiroaki queria um motivo e vocês deram um exatamente como ele queria.
—A Kyoko não pode fazer isso, existem pessoas inocentes. – Shaka se pronunciou
— Tem certeza? Depois da morte do Luy ela não tem mais motivo nenhum para manter o acordo. A Kyoko já foi maltratada demais pelos humanos e vocês estão inclusos nesse meio!
— O Luy não está morto. – Shion interrompeu. — Ela conseguiu salvá-lo, mas não sabe disso...ainda.
— A Kyoko non sabe disso e a pessoa que a levou agiu exatamente para que ela continuasse sem saber. Alguém está manipulando as coisas, fazendo com que ela acredite que nós somos os inimigos. — Camus se pronunciou altivo.
— A-há! Até que enfim alguém inteligente aqui. E adivinhem: Vocês fizeram tudo como eles queriam! Levar a Kyoko a força não garante que ela aceitará corta a barreira. Eles simplesmente usaram o trauma dela contra vocês. Eles sabiam que mais cedo ou mais tarde vocês iriam cair no mesmo erro de julgar pelas aparências e foi exatamente isso que vocês fizeram. Kyoko não foi sequestrada, ela foi porque quis ir.
— Mas...nós não sabíamos...- Mu tentou, sem sucesso.
— Ahhh e é claro se vocês soubessem que a Kyoko tem uma responsabilidade tão grande vocês a tratariam diferente, não é?! E lá vem o interesse, segundas intenções... e o que mais?! Vai querer que ela chore para sustentar o santuário de vocês? – Keiko ironizou.
— Ela não queria que soubéssemos porque não queria ser tratada diferente por conta de interesse da nossa parte. – Saga se pronunciou estarrecido.
— Se ela tivesse contado vocês a teriam endeusado como muitos já fizeram e não era isso que ela queria. – Keiko sentou com a expressão melancólica e o olhar perdido. – Ela estava com medo. Medo do que vocês fariam quando descobrissem. Ela só queria que alguém...gostasse dela pelo que ela é de verdade e não...por ser uma kitsune rara ou por ter o poder de manter os dois mundos em equilíbrio.
— Você acha que ela irá cortar a barreira? – Atena se pronunciou, sentando ao lado de Keiko e tomando a mão dela entre as suas.
— Eu não sei. Eu...não sei como ela está. Pela quantidade de lágrimas que o Saga encontrou ela está péssima. Kyoko jurou que nunca mais iria chorar. Eu não vejo uma dessas a anos. – Suspirou. — Depois da Ela me disse que depois de ter se tornado forte retornou ao mundo dos humanos, indo até a casa do colecionador. Ele já estava muito velho, mas mesmo assim ela matou todos eles, dos velhos aos mais novos não deixando nenhum descendente para contar história e jurou sobre o túmulo do garoto que enquanto houvesse...motivos ela faria o possível para proteger pessoas como ele. — Keiko confessou cabisbaixa.
— Existem pessoas boas na terra. — Shaka se pronunciou novamente. — A Kyoko não pode culpar a todos pelo erro de um ou dois.
— O erro não é de um ou dois, é de milhares de vocês. Quanto tempo vocês acham que a Kyoko observa o comportamento humano? Um ano? Vinte? Cinquenta? Não! A Kyoko observa a raça humana a mais tempo do que você e seus ancestrais tem de vida. Ela já viu coisas que talvez nenhum de vocês tenha visto. Antes de seus antecessores nascerem a Kyoko já existia há anos. Que exemplos bons ela tem? Ela passou mais de vinte anos sendo estuprada, machucada, com fome e com sede para que suas lágrimas sustentassem a ganância dos homens chegando ao ponto de ver um pai decapitar o próprio filho. Sei que pode parecer pouco em comparação com a idade dela, mas todo trauma é impossível de esquecer e no caso dela torna ainda mais difícil achar que a vida humana vale a pena. — Keiko olhou para Saori deixando uma lágrima cair.
—Eh...tenho que confessar que isso é bem ruim. — Dohko caminhou até Shion e fitando o ariano com preocupação.
— Nós já passamos por coisas ruins antes. Já enfrentamos duas guerras santas, isso não vai ser tão difícil. — Shion sorriu, tentando transpassar uma calma que não possuía.
— Ruim?! Desculpe Athena pela expressão, mas vocês estão fudidos. O mundo de vocês está para acabar. Se a Kyoko aceitar o que Hioaki quer e ajudar ele a...destruir a barreira, adeus mundo dos homens.
— Nós somos cavaleiros de ouro e possuímos poderes quase de um deus, não deixaremos isso acontecer. – Aiolia vociferou olhando para seus companheiros como quem buscasse algum apoio.
— Eu não disse que vocês são fracos, mas eu acho que você é bem burro, leãozinho. – Keiko ergueu-se novamente, caminhando devagar até o centro da sala, olhando ao redor com certo receio. — Mais cedo foram necessários três cavaleiros para conter a Kyoko. Só... a Kyoko. Agora...imagine isso em uma proporção gigantesca, um mundo de youkais faminto e revoltados por terem sidos presos por todos esses anos, tão fortes quanto ela invadindo o mundo de vocês por um buraco gigantesco. Um exército incalculável nas mãos de um maluco! Vocês são só doze, eles serão milhares.
— Será uma carnificina, muitas pessoas inocentes morrerão. – Saori levou as mãos ao rosto em desespero. — Não podemos permitir que isso aconteça. – A jovem deusa segurou as mãos de Keiko novamente, mirando todo o rosto dela com seus olhos confusos. — Keiko eu sei que magoamos sua irmã, mas nós podemos consertar, podemos aprender com nossos erros.
Saga voltou-se rápido trazendo toda a atenção para si, desviando de Camus e Aldebaran com toda sua imponência e mais sério do que o habitual. Keiko arregalou os olhos vendo seu rosto refletido na armadura dourada daquele homem. Ele nem precisava falar para fazer alguém tremer. Sua pele parecia exalar superioridade, exigindo o devido respeito ao qual ele merecia. Os olhos verdes faiscantes perfurando os seus com tanta autoridade que Keiko desviou o olhar, sucumbindo a ele mesmo sem ouvir uma só palavra.
—Existem youkais vindo para o santuário com frequência mesmo com a proteção da Barreira de Atena. Isso é uma indicação de que há uma dessas fendas aqui e...se existe uma, e você como uma kitsune também, sabe exatamente onde fica.
Keiko arregalou ainda mais os olhos já prevendo o que Saga queria dizer: — Perai, você não está pensando em ir...
— Eu não estou pensando Keiko, eu irei e você vai me levar. – Ordenou. — Se realmente for verdade isso que você nos contou eu irei pessoalmente dar um bom motivo a Kyoko para desistir de compactuar com esse cara.
—Você tá surdo por acaso?! A Kyoko não foi sequestrada, tudo indica que ela quis ir. – Ela disse, cruzando os braços na tentativa inútil de parecer firme. —E se ela não quiser voltar mais?
Saga apertou ainda mais os olhos e aproximando seu rosto do de Keiko em total desafio e autoridade, fazendo a garota baixar a guarda:
— Ahhh ela vai, nem que para isso eu tenha que trazê-la de volta para cá amarrada.
Continua..
Fale com o autor