Uma estranha no ninho - Vol. I
27 Um estranho e lindo olhar.
Notas iniciais

Tão, tão linda
Perco minha mente enquanto olho pra você
Perco minha mente
Cativado pelo seu olhar
Eu não posso nem virar minha cabeça
Que idiota!
Melancolia, este foi a única descrição dos sentimentos que sentiu ao prender seus olhos aos verdes tristes e aflitos de Saga. Antes eles estavam tão seguros de si e agora nem sequer piscavam por conta do medo. Por mais que Saga tentasse conter sua insegurança em Kyoko dizer “sim” a seu shinobi, lhe dando o aval para sua morte, naquele momento, Saga já não conseguia nem mais conter suas lágrimas de frustração.
Seu psicológico estava um caco. Nunca fora uma pessoa 100% normal em relação a isso. Imaginou várias e várias frases, olhares, situações que poderiam acontecer quando estivesse ali...finalmente perto dela, sozinhos, mas tudo desmoronou em um simples piscar de olhos, em um simples deslize. Receber aquele olhar de desprezo de Kyoko era como ser jogado em um abismo, um poço sem fundo e escuro onde ninguém poderia ajudá-lo a sair. A frieza nos olhos, antes tão convidativos de quem amava tanto era pior do que a morte. O silêncio dela dando a confirmação de que todas as palavras ditas por aquele youkai eram exatamente o que pensava e isso faziam seu coração doer tanto que refletia na própria carne.
“Ele não sabe seu lugar na cadeia alimentar...”
Onde era seu lugar? Pensava ser ao lado dela, mas quem era aquela Kyoko?
Kyoko...
Por que se esqueceu de mim?
O olhar frio não se desgrudava um segundo dos verdes daquele homem. Um verde que nunca havia visto. Lógico, já vira sim olhos verdes, mas como aqueles...eram lindos! E aquele nariz, os lábios, os cabelos desgrenhados esparramados pelo chão como um tapete azul destacava de forma perfeita a beleza do rosto daquele homem.
Empurrou a saliva garganta abaixo e novamente tornou a encarar aqueles olhos...marejados?
Kyoko sentiu um baque, um sacolejão mental por conta da mudança brusca na feição daquele homem e o que antes era medo e uma aversão que nem ela mesma sabia de onde vir mudou como da primeira vez. A cor azul e âmbar tomaram novamente seu lugar e as sobrancelhas tensas, devagar deixaram o semblante dela curioso, triste...
“Por que ele está chorando? Quem é esse homem? Por que me sinto assim, culpada? Não estou fazendo nada de errado! Só estou...me defendendo, mas...de quê? E porquê? ”
Um silêncio repentino tomou conta do quarto de Kyoko e ela não soube dizer porque sentiu vontade de tocá-lo. Tocá-lo só...um pouquinho...
Deu um leve passo em direção a Saga, seus olhos não se desviavam um segundo dos dele, completamente hipnotizada. Sentia os olhos quentes por saber tanto tempo sem pisca-los, mas não queria. Não queria piscar. Mesmo que não admitisse estava receosa de fechar os olhos e quando os abrisse aqueles verdes não estivessem mais lá.
Outro passo a aproximou mais dele. Cheshire estranhou a demora, virando o rosto de leve em direção a Kyoko. Engoliu sem seco. Não! Isso era um absurdo!
— Hime-sama? — chamou, mas ela pareceu não ouvir.
A raposa deu mais um passo e devagar abaixou ao lado do cavaleiro, ignorando o shinobi completamente. O mesmo arregalou os olhos sem conseguir acreditar no que via. Ela estava hipnotizada por Saga, buscando dentro de seu cérebro alguma resposta útil que justificasse toda a curiosidade que sentia por aquele homem. Sabia que Kyoko não assumiria isso para ninguém. Assumir se atrair por um humano era totalmente fora de cogitação, mas naquele momento e mesmo odiando aquilo tudo Cheshire teve de admitir internamente que Saga e Kyoko tinham uma ligação muito além do que qualquer um deles podia compreender.
Kyoko-dono e um homem humano...a união mais absurda que já pensara que poderia ver na vida.
A mão direita de Kyoko tremeu e ela sem perceber começou a levar na direção das lágrimas de Saga.
O cavaleiro de gêmeos engoliu em seco, esquecendo-se completamente da dor e focando-se naquele ato inesperado dela. Por todos os deuses! O amor que ela sentia por ele ainda estava ali, dentro dela tentando sair, tentando mostrá-la o caminho certo a seguir. Podia sentir o calor gostoso da aproximação e do tão ansiado toque, do carinho dela. E naquele momento Saga conseguiu perceber o quanto estava carente, pois nem diante da possível morte ele se importou menos com a necessidade de senti-la outra vez nem que fosse por míseros segundos.
“Não toque nele...”, Kyoko parou o movimento... “Ele é humano...humanos não são confiáveis...”
“Quem é você? Por que está dentro da minha cabeça? ”
“Eles prenderam você, abusaram de você, já se esqueceu disso...Kyoko? ”
“Esquecer? Não, eu...”
“Está com pena dele, não tenha pena dele...”
“Mas...ele está chorando, parece tão...sincero agora. ”
“Sincero? Há! Todos parecem sinceros quando estão com medo de morrer. Acha que ele se importa com você? Acha que ele liga para como você se sente? Quantos desses homens já machucaram você, Kyoko? Quantos desses homens já não a perseguiram? Já a maltrataram? ”
“Os olhos dele me é tão...familiar. É como se eu já tivesse visto em algum lugar, mas...”
“Ele está tentando enganar você! Vai ter o que quer e depois a deixará, ou fará pior. Colocará uma coleira em você e a jogará dentro de uma jaula para...sempre. ”
“....”
“Mate-o!!! Mate-o Kyoko! Mate-o antes que ele mate você. Ordene! Dê a ordem! O que está esperando...”
— Eu...- ela sussurrou.
— Hime-sama...- Cheshire tentou outra vez.
“...mas ele não parece ruim...”
“Acha mesmo? Aquele homem que estuprou você como um animal dentro daquela jaula, aquele mesmo homem que a alimentava e dizia que a ajudaria a fugir também não parecia mau...”
Ao ouvir aquelas palavras Kyoko sentiu toda misericórdia adquirida naquele mísero momento pelo cavaleiro de gêmeos se esvair completamente. Saga empalideceu ao notar a transformação brusca na face da kitsune. Por um segundo achou que Kyoko voltaria atrás, mas depois daquela mudança teve certeza que a situação se agravou mil vezes mais.
Ela então começou a se reerguer, os olhos voltaram a mudar para o dourado e o cenho franzido ainda mais feroz. O desprezo pareceu dobrar no olhar diabólico dela.
Kyoko apertou o cabo de sua katana com tanta força que a mesma rangeu, em seguida e ao mesmo tempo em que erguia a espada uniu também a mão direita, deixando a lâmina na direção do rosto de Saga.
Cheshire sorriu maligno para o maior desespero do geminiano. Aquilo estava se tornando pior do que um pesadelo. Por que Kyoko havia mudado assim tão repentinamente? Por Atena, o que estava havendo com ela?
Tinha que dar um jeito de sair dali, tinha que escapar o mais rápido possível ou seria morto por Kyoko. Não! Isso não! Aquela situação era bizarra demais para seu coração aguentar.
Mas quando tentou sair das garras do shinobis, este terminou de cravar sua espada no abdômen de Saga, fazendo o cavaleiro urrar de dor e cuspir sangue, impossibilitando ele de sair do lugar.
—Relaxe, perder a cabeça nem dói tanto assim. — sorriu zombeteiro.
Nesse momento a cabeça de Cheshire simplesmente se desprendeu do pescoço e ficou flutuando sobre o pescoço como um fantasma. O sorriso enorme não se desfez um segundo se quer.
— Viu? Não dói nadinha. — escarneceu a cabeça flutuante.
Saga tremeu dos pés à cabeça diante daquela aberração.
— Kyoko, por favor, não faz isso! – gemeu.
Kyoko se aproximou um pouco mais; os olhos arregalados e dourados de uma maneira que Saga nunca havia visto antes. Ela estava sinistra, possuída, dominada por algo que fez o cavaleiro tremer ainda mais. Kyoko estava completamente fora de si.
— Eu não vou deixar...- ela sussurrou. — ...não vou deixar nenhum de vocês me machucar...nunca mais.
— Kyoko, eu jamais...jamais faria isso! Eu...
Cheshire irritado com o fato de Saga não parar de falar, lhe deu um soco na boca para logo em seguida tapar a mesma com a mão livre. Estava louco para ver a espada de Kyoko atravessar o pescoço dele e não deixaria os apelos de Saga atrapalhar dessa vez.
♊oOoOo♊
— E esse aqui é o seu quarto. – disse Yamoto a Mu.
O Ariano observou o lugar com curiosidade e apreciação. Era simples, mas lindo. Aliais o lugar inteiro era belíssimo! De muito bom gosto e todo baseado na arquitetura japonesa. O chão de madeira, as paredes de shouji* e fusuma* com pinturas variadas como: tsuru*, pavão, sakuras, etc. Mu teve a ligeira sensação de estar no Japão do sec. VII. Era simples, com poucos móveis, iluminação baixa, mas ainda assim possuía modernidade. A luz era elétrica e os banheiros possuíam banheiras modernas e chuveiros elétricos, as camas imitavam os famosos futons* só que ainda mais confortáveis.
— Aqui é tudo muito bonito. – elogiou o ariano sorrindo.
— Sim! Hiroaki-sama mandou fazer tudo isso exatamente como ela queria, sem tirar nem pôr. Cada grão, cada pedra, cada árvore, tudo!
Yamoto caminhou para dentro do quarto e mostrando ao cavaleiro o banheiro, depois um armário onde suas roupas originais e outras também estavam ali.
— Uma serva passará aqui para lhe trazer toalhas limpas e outras coisas.
— Tudo bem, eu posso esperar. – respondeu Mu observando o pequeno bonsai em cima de uma mesa de canto.
— Seus amigos estão nos quartos ao lado. Vocês podem ir onde quiserem, lógico onde não puderem, não conseguirão passar. O cordão os impedirá sem que ninguém precise bater em algum de vocês de novo para que entendam isso. – debochou caminhando até a porta.
Mu nada disse. Somente observou Yamoto dar um tchauzinho debochado e sair fechando a porta de correr.
Bufou aliviado. Nem ele conseguia entender se aqueles caras estavam realmente do seu lado ou se aquilo tudo não passava de uma grande armadilha para afastar cavaleiros de ouro do santuário, mas também se fosse já não tinha mais volta. Teria que confiar nos amigos, apesar de que já confiava.
Um arrepio fez Mu se encolher. Estava esfriando e rápido. Será que estavam entrando no inverno? E será que ali tinha mesmo isso?
Aproveitou o momento para observar o selo pendurado em seu pescoço; tocou devagar mirando-o com curiosidade e preocupação. Tinha conseguido sentir a entrada de Kyoko no casarão o que deixava óbvio o fato de seus poderes telecinéticos estarem voltando mesmo que bem devagar, assim como seu cosmo. Mesmo que não o suficiente para pelo menos se proteger dos youkais, ainda assim era uma coisa boa. Se ele continuasse a crescer naquele ritmo já estaria totalmente recuperado bem antes do previsto por Naomi.
Duas batidas tiraram o ariano de seus devaneios. Ele se levantou de onde estava e caminhou rápido até a porta e a abrindo de uma vez, com isso assustando a mocinha que carregava duas toalhas, um edredom e alguns sabonetes, deixando tudo cair no chão.
— Oh! Me perdoe eu...
Disse abaixando rápido e ajudando a moça até se dar conta de quem era. Paralisou surpreso. Seus olhos brilharam ao distinguir em meio a adornos e panos uma das flores mais belas que já havia visto na vida. Um sorriso bobo e incontrolável mostrou bem os dentes brancos de Mu e toda sua satisfação com aquele encontro.
— Ume...como as flores. — sussurrou mais do que falou.
A gueixa estancou mirando os olhos verdes e encantadores de Mu. O rosto próximo e sorridente deixou a moça vermelha como um pimentão. Ela não esperava encontrar ali justo o homem que havia banhado algumas horas antes. Era constrangedor demais! Yamoto tinha mesmo que mandar justo ela ali?
— Go...go...menassai (Me perdoe!) — pediu sem jeito. Estava muitíssimo envergonhada.
Mu sorriu ainda mais. Também não esperava ver aquela moça outra vez e muito menos ali, na porta de seu quarto àquela hora da noite. Pelo menos uma coisa de bom tinha ali.
— Não precisa se desculpar, a culpa foi minha. Me perdoe, não quis assustá-la.
Ambos catavam as coisas do chão, mas era o ariano que não conseguia desviar os olhos um segundo sequer daquela mulher tão meiga e bela. As mãos pequenas pareciam tão frágeis que ele sentiu vontade de tocar. Ume mais parecia uma boneca de porcelana do que uma youkai ou até mesmo ser de verdade.
Ume ficou de pé ao terminar de catar todas as coisas que estavam pelo chão, entregando com cuidado ao hóspede.
—Se precisar de mais alguma coisa é só tocar o sino que está na mesinha ao lado da cama. – disse baixinho. Não conseguia esconder sua vergonha, já que sua mente não parava de lembrá-la do corpo nu daquele homem tão...bonito e educado.
E antes de Mu cair em si e pudesse dizer mais alguma coisa, Ume lhe deu as costas depois de fazer uma pequena reverência e saiu caminhando pelo corredor.
Mu ficou parado um tempo e depois sorriu bobo voltando para o quarto. Pensou em ir atrás dela e quem sabe conhecer mais aquela boneca viva, mas ela estava tão envergonhada. Não era inocente, sabia muito bem o que tinha deixado Ume naquele estado e por isso julgou bem deixar que ela fosse, não queria que ficasse ainda mais constrangida. Apesar de que ficava ainda mais bela corada.
Um grito histérico e assustador arrancou Mu de seus devaneios. Era Ume!
Sem pensar, jogou tudo no chão mesmo e saiu correndo feito um louco pelo corredor. Acabou por trombar com Camus e por conseguinte Águia. Todos saíram correndo até a origem dos berros. Dobraram no final e avistando a moça de pé de frente a uma porta com uma mão na boca de tanto pavor.
Mu disparou mais na frente. Algo em seu coração dizia que não era boa coisa e para seu maior desespero acertou em cheio, pois no chão do quarto, Saga estava prestes a ter a cabeça arrancada por Kyoko.
Camus nem sequer parou de correr, entrando no quarto na frente de todos, derrapando no chão e conseguindo chegar bem a tempo de segurar a lâmina da espada a um centímetro do rosto de Saga. Trincou os dentes de dor com a lâmina quase chegar nos ossos de sua mão. Por todos os deuses! O que deu naquela maluca?
— Kyoko-sama!!!! – berrou Águia. Yamoto e Ookami chegaram segundos depois.
A Kitsune pareceu despertar do transe, largando a espada e se afastando de Saga. Cheshire ao notar a hesitação de Kyoko e a presença dos outros shinobis já não via mais importância se manter ali. Sorriu de jocoso, olhando dentro dos olhos azuis de Camus antes de desaparecer em forma de fumaça.
— Saga! Saga! – Camus chamou pelo mais velho a fim de não o deixar desmaiar.
— Kyoko-sama você está bem? O que houve? – Ookami perguntou já próximo dela.
Nem Kyoko sabia descrever o que estava sentindo. A única certeza que achava que tinha naquele momento era que não queria mais ter aquele homem perto de si. Não conseguia entender porque se sentia estranha perto dele. Um amontoado de sensações deixava a raposa ainda mais perturbada do que já estava, os olhos verdes de Saga pareciam tatuados em suas íris, não deixando aquele olhar desvanecer de seus pensamentos.
Por que ele estava chorando? Quem era aquele homem? E porque isso estava sendo tão importante agora?
Saiu caminhando para o engawa*, descendo a pequena escada e parando próximo ao lago. Águia a seguiu preocupado. Era notável que Kyoko não estava nada bem. Arrependeu-se amargamente de ter deixado Saga ficar sozinho com ela. O que será que aquele homem tinha feito para deixá-la tão...perturbada a ponto de tentar matá-lo? Lógico que sabia que ela não aceitaria Saga tão facilmente, mas...tentar matá-lo ainda mais daquele jeito? Cheshire já havia o imobilizado, não tinha motivos para aquela situação toda acontecer.
“Droga! Onde estava com a cabeça para aceitar isso? ”, pensou preocupado.
— Kyoko-sama...
Ela somente ergueu uma das mãos sem olhar para ele, impedindo com o gesto que Águia a questionasse mais. Estava nervosa, aflita e confusa, não sabia bem como reagir àquilo tudo. Enfiou a outra mão na franja deixando toda frustração em seus olhos à vista dele. O que estava acontecendo?
— Águia...tira ele de perto de mim...
Dentro do quarto, sendo amparado por Mu e Ookami, Saga sentiu-se morrer mais uma vez ao ouvir a ordem de Kyoko. A frustração implícita no olhar marejado do cavaleiro era tão grande que todos dentro do quarto compartilharam de seus sentimentos. A mágoa e tristeza, mesmo sabendo que Kyoko não tinha culpa, era algo impossível de controlar naquele momento. Nunca pensou que o encontro pudesse ser tão ruim, tão doloroso. A morte com certeza seria mais suave.
Yamoto notando a piora na situação resolveu tentar apaziguar.
— Kyoko-sama...
— Yamoto-kun, onegai… (Por favor)
O shinobi calou-se, percebendo enfim o quanto Kyoko não estava em condições psicológicas melhores que Saga, mesmo conseguindo esconder melhor do que ele. Não dava para ir contra sua vontade naquela hora e tentar aproximar os dois outra vez até porque Saga estava mal e se não fosse tratado logo poderia morrer. Ele estava sangrando muito e precisava de cuidados.
De certa maneira, era até bom assim. Aquele era o primeiro dia, era melhor que ambos não ficassem no mesmo ambiente pelo menos por enquanto. Julgou-se muito precipitado, era óbvio que aquele encontro não ia dar certo. Saga estava ansioso demais e não conseguiria conter suas emoções com tanta facilidade e ao contrário de Kyoko que queria ele bem longe, o cavaleiro queria a raposa muito perto.
— Hai! (Sim) – ditou firme voltando ao quarto. — Temos de levá-lo a Baa-san antes que sangre até morrer.
— Não! Eu...eu preciso...Kyoko...- gemeu quase perdendo a consciência.
— Saga você está muito ferido. Non pode ficar aqui. – ditou firme o aquariano.
— Camus se eu...não falar com ela...- gruiu de dor já prestes a perder a consciência. — ...não quero...não quero perdê-la...de novo.
— Você non vai meu amigo...- olhou friamente para Kyoko fora do quarto. —...você non vai.
♊oOoOo♊
Com dificuldade e uma baita dor de cabeça, Saga abriu seus olhos muito devagar. A luz vinda de uma fresta da porta também não ajudava muito em deixar o gesto menos desagradável. Gemeu baixo, levando a mão a testa. Sentiu um arrepio quando o vento gélido tocou sua pele aquecida pela grossa pele usada como cobertor. Piscou mais algumas vezes criando coragem para se levantar, mas quando assim tentou fazer, uma nova dor, agora em seu abdômen, o manteve na mesma posição.
Olhou ao redor estranhando de imediato. Aquele não era o quarto de Kyoko.
— Ora, até que enfim acordou.
Saga virou o rosto na direção da voz, não se surpreendendo nem um pouco ao notar quem estava ali.
—Bom dia, Mu.- se remexeu dolorido.
— Bom dia, Saga. É bom vê-lo acordado.
Saga olhou ao redor reparando que o lugar aparentava estar mais simples do que o que tinha visto anteriormente o que deixava obvio não estar mais na mansão de Kyoko.
— Onde estamos?
—Em um chalé na vila ao redor do casarão. Ela nos colocou para fora. — O Ariano sorriu singelo, pegando uma pequena bandeja e a levando até Saga. O mais velho sentou-se no futon aceitando a refeição.
Começou a comer calado. Mu também achou melhor não perguntar ou tocar no assunto. Saga era um homem reservado e fechado, e por isso não quis ser inconveniente. Imaginou como deveria estar confuso e triste por tudo que houve com Kyoko. Antes de saírem do santuário Saga já estava muito mal com toda aquela situação mesmo que não dissesse nada sobre isso, mas agora ainda sem dizer uma só palavra, Saga já não conseguia mais esconder sua decepção.
—Obrigado, Mu. – Disse entregando a bandeja ao mais novo. — Onde estão Camus e Afrodite?
Mu sorriu sem jeito, depositando o objeto na mesinha e trazendo uma xícara de chá ao amigo.
—Trabalhando. – falou.
— Trabalhando?
— Sim! – bufou. — Bom Saga, sei que ainda está triste com o que houve com a Kyoko, mas...seja lá o que você fez a deixou ainda mais irritada do que já estava. – confessou receoso, não queria que Saga interpretasse mal.
— Eu tentei beijá-la. Não foi a força, eu não a agarrei sabe?! Eu jamais tentaria...forçar a Kyoko a fazer algo que ela não quisesse. – gesticulou. — Foi só por um momento. Ela estava lá, tão perto de mim e eu...eu não consegui resisti, entende? São dois anos e meio Mu e agora ela...
— Não precisa se justificar, meu amigo...- interrompeu o ariano calmamente. — ...eu acredito em você e também entendo o quanto ficou ansioso por esse reencontro. É natural que queira se aproximar da Kyoko, vocês se amam, mesmo que ela não saiba disso...ainda.
Saga bufou com pesar, doía demais lembrar do acontecido. E pensar que a primeira reação dela havia sido ruim...É, sempre dava para piorar. Por outro lado, sentia-se mais aliviado com as palavras de Mu, pelo menos ele não pensava que era um tarado.
— Mas então, voltando ao assunto: Como assim Camus e Afrodite estão trabalhando? – sorriu sem conseguir acreditar. Mu sorriu também.
— É...e eu também. Bom Saga, mesmo a Kyoko tendo ficado bem brava ela, por enquanto, não nos expulsou do Sul, mas resolveu, por assim dizer, descontar sua ira em nós, já que você estava quase morto a dois dias atrás.
— A tá! Isso explica muita coisa... – disse se referindo a mudança drástica do tempo.
Abraçou o próprio corpo ficando finalmente de pé. Caminhou devagar até um pequeno banheiro onde fez toda sua higiene. Trincou os dentes e franziu o cenho quando voltou, se dando conta do quão frio realmente estava.
Mu pegou um grande casaco de pele acinzentado e entregou a Saga que aceitou de muito bom grado. O geminiano encostou na entrada do lugar e ficou a observar a neve cobrindo algumas árvores e casas enquanto degustava de um cigarro. Era tudo tão bonito que mal conseguia acreditar que estava realmente no Makai. Naquele mesmo Makai que quase o matara a alguns anos atrás. Nem dava para imaginar que pudesse existir um lugar como aquele ali onde crianças, mesmo possuindo aparência diferente, corriam de um lado para o outro brincando com a neve; idosos caminhavam sorrindo em direção a algum lugar, outros jogavam algum jogo de tabuleiro e tomavam chá, youkais carinhosos, que se despediam de suas esposas e filhos ao saírem para mais uma jornada de trabalho.
— Ela alegou que devíamos nossa salvação a ela e que teríamos que devolver cada centavo em trabalho comunitário. Afrodite está trabalhando na parte de agricultura e floricultura. Eles possuem uma estufa gigantesca e incrível, e é de lá que saem todas as plantas. Bom e Camus... está me ajudando na escola. Somos professores do primário. – confessou rindo de si mesmo.
— Hahaha...eu não iria me surpreender se me dissesse que é um ferreiro. – ironizou o mais velho começando a caminhar com Mu para fora do lugar.
—Olha, está aí uma coisa que eu não tinha pensado. Será que estão precisando de um? Só espero que não coloquem você como ferreiro meu amigo. – gargalhou o ariano.
—Não se preocupe, eu troco com você se isso acontecer.
E assim ambos os cavaleiros caminharam pela rua de pedra. Saga observava tudo com admiração; era tudo tão bonito, tão aconchegante. Continuaram assim até uma casinha simples, mas também muito fofa e bonita onde Baa-san morava. A anciã ordenara Mu para assim que Saga acordasse o levasse de volta a sua casa para que pudesse dar uma olhada na ferida.
— Até que enfim acordou. Você é um homem muito forte, teve sorte em não morrer. — fez uma pausa para pegar alguns objetos para curativos. — Hummm...como aquela escandalosa pôde dispensar um pedaço de mau caminho como esse? Olha esses músculos? – disse apertando um dos peitos de Saga na maior cara de pau. Ele agora estava sentado no tatame sem a parte de cima do kimono.
Saga enrubesceu como um pimentão, mas nada disse fazendo Mu cair na risada. Aquela velhinha era muito divertida e parecia que nada lhe tirava o bom humor, tirando o fato de ser tão cara de pau quanto Kyoko.
— Ahhh aquela imbecil. Não aprendeu nada do que eu ensinei a ela... – Baa-san resmungava enquanto trocava os curativos de Saga. — ...se fosse eu, já tinha te agarrado bonitão. Olha só esse peitoral. – completou apertando o nariz dele.
— Mas como não sou uma oferecida como você, eu jamais iria para cama com...o jantar. – ironizou
Se manter imune a Kyoko era um dom que Saga sabia não possuir e aquela voz e aqueles olhos eram como um imã a seu coração. O mesmo falhou uma batida ao vê-la parada a porta de entrada; linda! Vestida e maquiada como só alguém com tal importância podia estar. Nem dava para acreditar que a Kyoko que encontrou em trapos, ensanguentada num dos becos de Rodório era a mesma diante de seus olhos.
Engoliu em seco, empurrando o coração de volta goela abaixo a fim de se controlar o máximo possível. Não queria cometer outra burrada e afastá-la mais ainda.
— Bom dia pra você também...Vossa Alteza. – ironizou frio.
Ela sorriu de lado, entrando na casa. Caminhou em direção a Saga e antes de passar por ele, abaixou um pouco, já que ele ainda estava sentado tendo Baa-san a mexer em seu ombro cortado, falando próximo a seu ouvido:
— Se diz ohayou gozaimasu*, humano. – continuou até parar próxima a um armário. — Achei que Cheshire tinha conseguido eliminar uma das pragas.
Saga respirou fundo pela milésima vez, pedindo paciência a todos os deuses existentes para não...enforcar aquela Kitsune irritante bem ali. Odiava as ironias dela, sempre odiou e agora com aquele ar ainda mais superior, odiava dez vezes mais.
—Achou errado. Ele vai ter que fazer melhor do que isso. – levantou-se ainda sem camisa.
—Pode ter certeza que eu o instruirei melhor da próxima vez. – rebateu tentando não olhar para o corpo dele.
“Mas que inferno! Será que ele não sente frio? Por que não veste essa porcaria de uma vez? ”
—Acredite Kyoko, não terá uma próxima vez.
— Ahhh eu sinceramente espero que não. – deixou o sorriso jocoso morrer a fim de intimidar Saga. A pose imponente dele a incomodava além de sua compreensão. — Eu não costumo matar homens humanos atoa michê, mas da próxima vez que tentar me tocar vou arrancar sua mão antes que termine de erguê-la.
Saga sorriu de lado e sem se deixar intimidar e muito menos transpassar os efeitos horríveis que aquelas palavras tiveram em seu coração, caminhou até ela parando bem perto e sem pedir permissão ergueu a mão e com o indicador deslizou pelos fios soltos dos cabelos de Kyoko, caídos por sobre os ombros.
— Se está pensando que irá me intimidar ou me deixar com medo, me ameaçando advirto que está perdendo seu tempo. Já vi coisas muito mais assustadoras do que uma raposa branca com as bochechas lindamente coradas por conta do frio.
Os olhos bicolores de Kyoko novamente se perderam nos verdes penetrantes daquele homem, imaginando de onde será que ele vinha e porque suas ações mexiam tanto consigo. Saga mal precisava de meia dúzia de palavras para desarmá-la como ninguém mais conseguia.
Ficaram assim por alguns míseros segundos, mas para ambos era como horas. Kyoko ficou muda. Outra vez ficara muda e desarmada diante daquele olhar maravilhoso, desejando mesmo sem querer mergulhar naquele mar verde que eram os olhos de seu michê.
“Meu...”, pensou. A voz da sua mente soando levemente possessiva, satisfeita e orgulhosa em saber que aquele homem lhe pertencia e lhe desejava, os olhos dele deixavam todo desejo explícito refletir de dentro de seu âmago.
Será que seria algum pecado experimentar? Será que ele era tão perigoso quanto os outros? Se fora Baa-san a lhe dar como presente, então talvez não fosse tão mal assim?
“Não deixe ele enganar você...”, ouviu um sussurro vir bem do fundo de sua mente. “Não se deixe levar pelo humano...”
Sua respiração então começou a mudar, devagar, tão devagar que nem ela mesmo conseguiu perceber. Os olhos presos nos de Saga sem ao menos piscar.
“Ele está mentindo...ele é mentiroso...vai enganar você...não acredite nele...”, dizia a voz.
Mais afastado, Mu de Áries sentiu algo estranho incomodar sua mente. Bem lá no fundo, como o início de uma picada de inseto. Era tão sutil! A única vez que havia sentido aquilo foi de Shaka, mas...
Olhou ao redor com sutileza, mas nada viu. Piscou levando uma das mãos a nuca. Talvez fosse obra de sua imaginação.
“Arranque a mão dele fora! – gruiu a voz – Vê?! Ele não a leva a sério, não respeita você... está mentindo...”
E de repente Saga se afastou, quebrando a troca de olhares e despertando Kyoko daquela hipnose. Ela piscou algumas vezes para logo em seguida franziu o cenho com força, fazendo uma careta de raiva transformar seu rosto completamente.
— Vermes são menos asqueroso!! – rosnou entre os dentes.
Saga sentiu como se uma navalha lhe acertasse bem na garganta. Sabia que Kyoko não tinha culpa, ela não lembrava de si e muito menos do que tinham vivido e das várias juras de amor que fizeram, mas mesmo assim estava sendo difícil não levar aquelas palavras para o coração. Doía demais ouvir aquelas humilhações justo de quem tanto amava.
—Tchau Kyoko! –disse frio, dando as costas para ela e saindo sem olhar para trás.
Kyoko apertou os punhos de ódio. Como queria esganar aquele desgraçado. Como ele se atrevia a falar daquele jeito? A tocá-la outra vez? E porque simplesmente não ignorava aquela voz grave e sexy, e aqueles olhos verdes?
—ISSO TUDO É CULPA SUA BAA-SAN!! – virou como um leão furioso para a velhinha.
—Ora! Veja lá como fala comigo sua maluca...- devolveu Baa-san batendo com a bengala na testa de Kyoko. — ...me respeite.
—Ai! Kusooo(Merda) Quantas vezes preciso repetir que isso dói?
— Mas é pra doer mesmo!! Quantas vezes será que EU preciso repetir que tudo que faço é para o seu bem?
Kyoko calou-se de imediato. Por mais que estivesse odiando aquilo tudo de uma coisa ela não conseguia desconfiar: do amor que Baa-san sentia por ela. A velha podia parecer doida, mas jamais faria algo que a prejudicasse.
—Venha! Está na hora de começar a preparar os medicamentos. – completou Baa-san caminhando mais para dentro da casa.
—Está na hora de preparar os medicamentos. – remedou baixinho. – Velha doida, eu não sei porque eu aturo você. — bufou rendida. Nunca conseguira em toda sua vida contestar as vontades daquela velha maluca, e sabia melhor do que ninguém que não seria agora que esse fato iria mudar.
Na rua Saga e Mu caminhavam lado a lado em silêncio. Alguns youkais olhavam, principalmente para o mais velho com curiosidade, mas nenhum se atrevia a dizer uma só palavra.
— Saga...
— Você também sentiu não foi? – inqueriu frio sem olhar para Mu.
— Sim! O que acha é?
— Não sei Mu, mas eu vou descobrir.
Dito isso Saga encerrou a conversa. Sua tensão e preocupação chegando a níveis alarmantes. Depois da confirmação de Mu tinha certeza de que as coisas estavam bem piores do que ele podia imaginar.
♊oOoOo♊
E para variar Saga estava certíssimo. As coisas com Kyoko conseguiram ficar ainda piores do que se esperava com o passar dos dias e a aflição e tristeza do geminiano não estava ajudando. Por mais que tentasse se aproximar, ser gentil e amigável Kyoko não facilitava em nada a aproximação mesmo não entendendo seu próprio comportamento.
No fundo admitia o quanto Saga era o humano mais belo e gentil que já havia visto na vida. Seus olhos não conseguiam desgrudar dele quando o via. Às vezes se pegava sorrateira, seguindo o cavaleiro pelas sombras só para observá-lo mais detalhadamente. Não conseguia entender porque se sentia tão atraída por aquele olhar sedutor e indômito, mas também triste e melancólico.
Quem era Saga? Quem era aquele humano? E porque não conseguia deixá-lo se aproximar mesmo com toda aquela atração inexplicável?
E mesmo com todo o sentimento que sentia, Kyoko simplesmente não conseguia evitar afastar Saga da pior maneira possível, usando da humilhação a única forma que encontrou de repeli-lo o máximo possível. E isso era o que mais machucava o coração do cavaleiro de Gêmeos. Tentava não se deixar abalar, se focar no fato de Kyoko estar sem memória, mas era impossível. As agressões verbais e as palavras humilhantes estavam piorando no decorrer dos dias. Saga já havia tentado de tudo; das flores ao vinho, do jantar ao passeio, mas nada fazia sua amada baixar a guarda, pelo contrário, só pioravam as coisas. A kitsune já havia até tentado se livrar de Saga inúmeras vezes, mas sempre que dava a ordem Baa-san e Yamoto davam um jeito dele continuar ali.
Saga estava começando a perder as esperanças para o desespero de Yamoto, Ookami e Águia. Se ele desistisse Hiroaki venceria enfim.
Uma semana e meia passou-se arrastada e o cavaleiro já estava um caco. Não aguentava mais toda aquela situação, principalmente por ter sempre o guarda costa de Kyoko a piorar toda a situação – se é que aquilo era possível. Cheshire era o pior dos Shinobis, bem como Yamoto havia dito. Ele não confiava em Saga, julgando o cavaleiro uma ameaça a sua Hime-Sama, não facilitando nem um pouco a aproximação de ambos mesmo sabendo da verdade.
Yamoto e Águia já não sabiam mais o que fazer e nem quais argumentos usar para convencer a Kitsune de que Saga era um bom homem e merecia uma chance. Às vezes ela até parecia querer ceder, mas como num passe de mágica ou dominada por algo sobrenatural suas ações e opiniões mudavam da água para vinho.
— O que vamos fazer? — reclamou Ookami coçando a orelha.
— Eu não sei. — respondeu Yamoto.
De repente Águia ficou de pé em um salto, assustando seus companheiros. Sério, olhou de um para o outro já tendo uma ideia em mente. Se aquilo não funcionasse seria o fim. Saiu correndo às pressas.
— Oh maluco! Onde você vai? — gritou Ookami vendo Águia sumir na escuridão. — Onde será que ele vai?
Yamoto suspirou, bebendo um gole de saquê e depois sorrindo.
—Apelar.
Quando Águia retornou foi direto falar com Kyoko. O shinobi informou a ela que Baa-san precisava que fosse a sua casa para ajudar com a confecção de alguns medicamentos para as crianças. Kyoko não pensou duas vezes, saindo do casarão e indo direto até a anciã...
Para seu desgosto não era somente para isso que a velhinha exigia sua presença em sua humilde casa; ela queria mesmo era falar sobre Saga.
E como Baa-san já esperava a conversar não estava sendo nada agradável. Kyoko não queria admitir nem para sim mesma como aquele homem havia mexido consigo. Sentia-se ainda mais irritada com a insistência de todos e principalmente da velha em querer que aceitasse o humano como um “cavalheiro de companhia” mesmo sabendo de tudo que tinha passado nas mãos daquela raça. Não que fosse contra se divertir antes da união com Hiroaki, achava sim muito justo curtir tudo que pudesse, mas o problema era que todos insistiam que isso fosse feito com aquele homem em especial. Aquele homem lindo, com aquele olhar que fazia algo dentro de si vibrar de uma maneira que não sabia explicar e muito menos entender. Ele estava somente a alguns dias ali e já estava quase tendo um colapso nervoso com toda aquela situação.
— Eu não vou dormir com ele Baa-san, mas que droga!! – saiu pisando duro.
—Você vai se casar com Hiroaki, aquele crápula, vai transar com ele até que a cama se parta ao meio...
—Mais respeito com Ouji-sama, Baa-san!!! – repreendeu a anciã com um berro.
— Que mais respeito o que! É isso mesmo! Tem coragem de rejeitar um homem bom, gostoso, lindo, mas tem coragem de se entregar a um verme que matou pessoas inocentes alegando que é para proteger você!
— Não me interessa o que você acha, Ouji-sama, diferente de vocês mantem os humanos longe de mim porque ele sabe como me sinto! Acha que já esqueci o que essa raça imunda fez comigo? Aquele michê pode até ser um homem bom, mas você já pensou o que Hiroaki-sama vai fazer com vocês quando descobrir? Eu não quero que nada de ruim aconteça com vocês. – Kyoko ajoelhou aos pés da velhinha segurando sua mão. — Hidaka e Kazuia logo voltarão. O que eu farei se eles descobrirem esses homens aqui? Kazuia sentirá o cheiro deles antes de sequer pisar na fronteira do Sul. Ele contará a Hiroaki-sama só por prazer...- levantou gesticulando. —... eu não quero perder vocês também!
Baa-san sorriu maneando a cabeça de um lado para o outro. Kyoko era tão ingênua. Seria bem mais fácil se pudesse lembra de Saga. Tinha vontade de contar a ela, mas...não! Kyoko jamais acreditaria e contar a ela podia piorar a situação ainda mais. Conhecia a raposa tempo suficiente para saber quando queria algo. Via nos olhos da neta que a atração e a curiosidade instigar-lhe de forma avassaladora. Era como se a mente de Kyoko tivesse esquecido de Saga, mas seu corpo e seu coração não. A luta entre a razão e a emoção começou assim que ela o viu no quarto a primeira vez e sempre que o via a batalha ficava cada vez mais acirrada, contudo Kyoko não era de negar seus próprios sentimentos ou vontades seja lá quais fossem. Se ela dizia querer que o humano não a tocasse era porque falava sério. No momento que julgasse apropriado se entregaria a ele, mas a questão era: quando?
Para todos os youkais e principalmente os shinobis, Kyoko estava naquela situação por irresponsabilidade dele. Fora a Saga que ela buscou ajuda e ainda assim ele a deixou morrer. Mas o que podia fazer? Ela amava aquele grego e preferia ver a Kitsune nos braços de um homem humano do que com Hiroaki. Não queria ver sua amada neta postiça sendo usada, manipulada por aquele crápula, assassino! E o pior, sem a Adamantine Kyoko não tinha como fugir do Makai caso desistisse de qualquer coisa referente ao Kage. Baa-san tinha ciência disso, e Hiroaki também.
— Ele matará a todos nós meu anjo assim que tiver de você o que ele quer. – disse Baa-san pesarosa.
— Não vai não! Vocês estão sob minha proteção. Ele não pode quebrar as regras assim.
—E desde quando aquele esterco conhece regras?
Kyoko suspirou cansada. Não adiantava tentar argumentar com Baa-san quando não lhe convinha.
— Ele é a lei, o absoluto. Não pode negar isso, mesmo o odiando. Naomi faz tudo que ele quer, o reino de Yukio serve a ele. – fez uma pausa. — Eu sei que vocês estão tentando ajudar esses homens, mas...eu não quero perder nenhum de vocês.
Baa-san se aproximou, segurou a mão direita de Kyoko e sorriu para ela, ficando assim durantes alguns segundos.
— Mas eu exijo que você dê uma chance a ele e que volte a ficar no seu quarto. – impôs a velha.
— O quê?! Meu Deus! Eu não tô acreditando que você ainda vai insistir com isso depois de tudo que eu disse!
— Vou! E não venha tentar me contrariar ou me enganar. Águia e Yamoto me contarão tudo que estiver fazendo com ele. – confessou com os olhos cerrados e um sorrisinho maligno.
Kyoko bufou passando a mão nos cabelos. Ahhhh porque tinha que ter salvado essa maldita velha há milênios atrás? Ohh se arrependimento matasse...
— Se você não der uma oportunidade a ele nunca saberá se vale a pena ou não, e se você está com tanto medo de nos prejudicar, então sabe que ele tem que ficar no seu quarto porque Kazuia...
— OKAY...velha desgraçada...- rendeu-se entre os dentes. —Mas ele não vai dormir na minha cama, vai dormir no chão e...e...terá um potinho de água e comida...
— Toc...
— Ai!! Droga! Para de bater essa porcaria na minha cabeça. – resmungou com os olhos cheio de lágrima.
— To tentando colocar um pouco de juízo nessa cabeça. – fez uma pausa mirando Kyoko passar a mão na cabeça. —Mande Ookami colocar um futon decente para ele no seu quarto e nem vem com essa história de potinho d’água. Ele não é seu bichinho de estimação! Ele é um homem e vai comer as mesmas refeições que você na hora que você comer e onde você comer. – ordenou a velhinha começando a expulsar a Kitsune de sua casa.
—Maldição! Depois que aqueles dois shinobis passarem por aqui eu juro que vou dar um sumiço naquele michê.
—Vai droga nenhuma!
—Eu odeio você velha, múmia, enrugada...
— Oyasumi(Boa noite), Kyoko-chan*. –empurrou a raposa de qualquer jeito para fora. — Ah! Só não esqueça de me dizer o tamanho do pênis dele quando dormirem juntos. – falou a velhinha zombeteira.
— BAA-SAN!!!!- gritou antes de ter a porta fechada na cara.
Kyoko bufou irritada começando a caminhar. O que será que aquele homem tinha para todos quererem que ficasse com ele? Será que realmente estava exagerando em...espezinha-lo tanto? E se fosse realmente um bom homem, como poderia saber? Será que não era justo ele ter pelo menos uma chance? Baa-san a amava e jamais a colocaria em risco. Então porque não ceder só um pouquinho? Ela era um Kage! Não tinha o que temer.
Mordeu o canto dos lábios pensando em como podia acabar com suas dúvidas. Sorriu, tendo uma ideia brilhante de por onde começar.
♊oOoOo♊
Todos sentados ao redor da mesa levaram um susto ao ouvir o som forte da porta abrir. Os olhos curiosos e assustados miraram de uma só vez a Kitsune finalmente retornar para casa, inclusive Saga. O grego bem que tentava ignorar a amada, assim como ela fazia questão de ignorá-lo, mas isso era uma façanha ao qual Saga estava longe de conseguir.
Os olhos verdes e enigmáticos do homem prenderam-se aos coloridos e curiosos da raposa, já imaginando o que estaria por vir, mas ao contrário do que pensou Kyoko não lhe disse nada. Somente olhou para Yamoto e ordenou que a acompanhasse. Depois de quase vinte minutos, o Shinobi voltou a sala de jantar com um sorrisinho de orelha a orelha estampado no rosto.
— Ihhhh...seja lá o que for dessa vez não quero participar dessa porra! – ditou logo Ookami. Já estava meio bêbedo por conta das garrafas e mais garrafas de saquê.
Yamoto achou por bem ignorar o comentário do amigo até porque conversar com bêbedos não levava a lugar nenhum e não estava afim de perder seu preciosíssimo tempo.
— Saga larga esse prato aí e vem. – ordenou mais do que pediu.
— Eu não terminei de comer. – gruiu. Estava tão irritado com toda aquela situação que não queria pelo menos por hora participar de nenhum joguinho de cupido com daqueles FDP!!
— Você terminará depois, agora levanta.
Saga bufou; tacou o guardanapo na mesa com tanta força que o prato praticamente quicou.
Não disse mais nada, achou melhor não dizer. Se abrisse a boca agora seria somente para matar Yamoto a base das dentadas de tanta raiva.
Caminhou com o outro até o quarto de Kyoko. Um frio de nervosismo embrulhou seu estômago com tanta força que por um segundo achou que iria vomitar ali mesmo. Não estava com cabeça para mais uma sessão das humilhações de Kyoko naquele dia.
— Entre. – ouviu-se depois de Yamoto bater duas vezes na porta.
O shinobi abriu a porta com cuidado, dando espaço para Saga entrar primeiro. O cavaleiro ficou parado, sem entender o que era aquilo tudo. O que será que aquela maluca – linda- queria dessa vez?
— Pedirei para servirem. – disse Yamoto saindo em seguida.
Saga mirou o outro por cima dos ombros e depois voltou a olhar para Kyoko e observar com atenção seus gestos. Ela havia acabado de sair do banho e seus cabelos ainda estavam molhados, vestia um robe de seda azul vinil com o desenho de uma fênix tão longo que formava uma calda a cada passo dado, um cheiro agradável de flores tomava todo o ambiente, provavelmente se desprendendo da pele recém banhada. Lembrou-se dos banhos juntos, dos cabelos dela se mesclando ao seu enquanto se amavam, o cheiro que saia da pele e entorpecia seu juízo...
— Nem preciso preguntar se gosta do que vê...não é?!
Saga voltou a adquirir o olhar sério de antes, deixando toda a raiva e mágoa ser notado em seu semblante.
— Eu estava jantando...- olhou-a dos pés à cabeça agora propositalmente. —...mas ainda estou com fome.
Ela sorriu debochada afim de não deixar transpassar o quanto havia gostado daquele olhar, mesmo não admitindo.
— Suas piadas são tão sem graça que acho melhor morrer do que ter de ouvir isso de novo. – rebateu.
—Isso...é uma coisa que nesse momento sobressai mais do que minha fome.
—Então você quer morrer? – indagou sem perder o tom irônico.
— Não...- Saga deu um passo em direção a ela e parou. Lembrou-se do shinobi que com toda certeza estava ali. Não podia vacilar. Um passo em falso e tudo podia ir por água abaixo de novo. —...na verdade eu gostaria de saber porque me chamou aqui.
O coração de Kyoko falhou uma batida. E agora? Como dizer a ele o que queria sem dar liberdade a ele e principalmente a interpretasse mal? Resolveu, por fim, dizer o que queria da melhor forma que conseguiu.
—Bom...como você sabe, Baa-san e Yamoto “compraram” você para mim. Acredite! Por mim nada disso estaria acontecendo, mas...ela faz questão que eu...usufrua do meu presente antes de manda-lo embora. – Saga crispou o cenho. — Oh! Mas isso não é o que você está pensando. Eu não vou para cama com você, aí sim prefiro morrer antes disso, mas...Baa-san exigiu que eu tratasse você bem e que...tentasse ser agradável.
— Agradável...- sorriu melancólico. —...acho que isso é um feito muito grande para você em relação a mim, não concorda? Afinal você me detesta, deixa isso muito...claro todos os dias com suas humilhações: Vermes são menos asquerosos, lembra? Ou: Prefiro morrer do que você tocar em mim. – Kyoko manteve o silêncio. Não soube dizer porque se arrependeu de ter dito aquilo. — Então...tenho certeza de que não irá querer ficar na presença de alguém tão asqueroso como eu.
— Olha michê...
— Meu nome é Saga!! Eu tenho nome sabia? E eu não sou um puto.
Uma sensação estranha começou a crescer dentro dela. Uma sensação de desespero e medo de algo que não sabia bem o porquê. Lembrou-se de todas as humilhações feitas e arrependeu-se outra vez. Não soube porque dissera aquilo tudo. Só simplesmente...disse.
—Tá...olha Saga, Baa-san faz questão que eu trate você decentemente, e eu sinceramente...
— Ahhh Baa-san?! Claro! Se não fosse por ela então eu continuaria no patamar dos vermes.
Kyoko ficou sem saber o que dizer. Não havia se dado conta do quão ofensivas e humilhantes foram suas palavras, e nem muito menos que agora iria se sentir horrivelmente culpada por agredi-lo assim. Inicialmente fora por Baa-san que resolveu deixar ele ficar ali, mas independente disso não odiava ele. Odiar era uma palavra muito forte, um sentimento muito ruim. Como podia odiar alguém que não conhecia? Alguém que nunca havia visto? E como podia odiar alguém com olhos tão...sinceros?
Por deus! Não era nojo, era só...medo. Medo de desejar alguém que não devia. Medo de...se apaixonar? O que estava havendo consigo? Por que não conseguia parar de admirar aquele tom de verde? Aquele tom que só via nele? E porque estava tão triste em vê-lo triste?
"Está vendo? Bastou algumas palavras para ele mostrar à que veio. E agora? Ainda acha que ele é um bom homem?"
Não conseguiu formular nenhuma resposta óbvia para dar a ele e com o auxílio e a influência daquela bendita voz em sua cabeça reagiu da única forma que conseguiu: Repelindo Saga ainda mais.
—IDIOTA! GROSSO!! – jogou a toalha sobre a mesa e derrubando a garrafa de água. — Você não sabe o seu lugar mesmo, não é?! Sabe quantas pessoas dariam tudo para estar em seu lugar? Sabe quantos pagariam para simplesmente lamber o chão que eu piso?
Yamoto, Ookami e Águia surgiram na porta e ficaram a observar a discussão de olhos arregalados. Acharam melhor estarem ali caso eles resolvessem se atracar outra vez.
—Eu não to nem aí para isso...Vossa Alteza, eu não me incluo nesse número que você acha que sabe.
"Ele não gosta de você, está tentando te enganar..."
—Eu deveria pôr você para dormir com os PORCOS pela sua petulância!!! – berrou irritada.
—Sério?! Tem mais porcos por aqui? Porque sinceramente, eu achava que já estava no meio deles. – berrou cuspindo as palavras de qualquer jeito, mas arrependendo-se amargamente logo em seguida.
Kyoko mal conseguiu processar aquela informação. Seu corpo inteiro tremeu angustiado e triste. Ela não tinha obrigação de acatar as ordens de Baa-san, ela era a lei ali e sinceramente havia aceitado porque achou que devia. Não queria odiar alguém que não conhecia. Sabia o quanto tinha sido grosseira, mas talvez aquela tivesse sido a melhor maneira que consegui de pedir desculpas a alguém que não conhecia.
— Aaai os meus bigodes! – sussurrou Ookami levando ambas as mãos à cabeça já antevendo o que estava por vir. Os outros nem tiveram forças para falar naquele momento.
As servas entraram no local sem saber o que estava acontecendo e devagar começaram a colocar o jantar sobre a mesa no quarto. Dois pratos, hashis e dois barco cheio de comida e doces foi posto ali, tudo da melhor qualidade. Saga engoliu em seco. Mas que merda fizera! Ela estava tentando convidá-lo para um jantar.
— Pelos deuses! Eu...sinto muito. – tentou se aproximar, arrependido até o último fio de cabelo. A tez pálida de tanto remorso.
"Homens humanos não amam nem a si mesmos, não será diferente com você.", sussurrou a voz.
Em um rompante de ódio e arrependimento, Kyoko berrou furiosa jogando todas as coisas da mesa no chão de uma só vez, fazendo Saga por instinto se afastar para não ser atingido. Em seguida e sem dar a menor chance para ele reagir, saiu rápido do quarto, passando pelos shinobis sem olhar para trás.
— Kyoko! Espera! – Saga berrou.
— Não chega perto de mim! – Kyoko berrou de volta dobrando no final do corredor logo em seguida.
Estava tão transtornada e confusa que saiu sem ao menos olhar para trás. Sentia-se idiota e envergonhada demais para ficar ali. Sabia que metade do que tinha acontecido era sua culpa, mas mesmo assim não conseguia evitar se sentir péssima pela rejeição de Saga.
Passou por um novo corredor onde haviam várias portas de correr. Quando passou pela última, abriu a de acesso a saída do casarão, fazendo a luz entra e iluminar o corredor. Sua sombra projetou-se logo atrás de si e em uma velocidade espantosa Kyoko pulou, sozinha...
...pois no último quarto Camus de Aquário aguardava ansioso, agarrando a sombra de Kyoko e o imobilizando com a ajuda de Afrodite. A mesma se debateu loucamente, como um verme ao ser jogado na terra quente.
Tentou se soltar, mas levou um choque forte que o deixou paralisado. As cordas estavam com selos o que impossibilitava o acompanhante mais fiel de Kyoko a se soltar. Ele mirou os dois cavaleiros cheio de fúria, mas o som da porta de correr chamou sua atenção. Dela Mu e Saga surgiram com as feições nada agradáveis.
Os olhos azuis florescentes brilharam ainda mais na parca luz, mas Saga não se intimidou; caminhou imponente – e muito puto — para bem próximo dele, agachando e assim ficando cara a cara.
— Peguei você, desgraçado!
Continua...
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