A professora ficou falando por horas e horas sobre romance.
E falava de como ele era tão importante, eu já estava prestes a tirar um cochilo, quando ela se dirigiu a mim:
-Qual é o seu nome, querida?
-Valentina.
Disse eu, sentindo minha face queimar.
-Ah, que nome bonito! Então Valentina, qual o seu poema, poesia ou soneto favorito?
-Ah... –fiquei pensando por um momento, eu conhecia muitas poesias e gostava muito delas. Mas eram poucas as que realmente me marcavam, a ponto de lembrá-las. Só havia um que eu realmente gostava. E por mais que fosse o mais comum, clichê e conhecido, eu me identificava com ele. Marcava-me profundamente. – Acho que... Soneto de Fidelidade, Vinicius de Moraes.
-Ótimo! Pode citá-la para a turma?
A essa altura, eu tinha certeza de que se eu estivesse em uma rua movimentada, os carros iriam parar, de tão vermelha que meu rosto estava.
-‘’De tudo ao meu amor serei atento. ‘’
Comecei, pigarreando.
-‘’Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento. ’’
Eu tentei não olhar para os alunos, sei que isso iria me deixar mais nervosa ainda.
Mas não resisti.
Observei em volta: alguns olhavam desanimados, outros estavam conversando. Apenas Cass e a primeira garota da fila me olhavam atentos. Alexander estava em uma carteira atrás de Jéssica, a garota ruiva. Eles conversavam e vez ou outra ele piscava para ela. Será que eles são namorados? Argh, enfim... O amigo de Alexander estava tentando não rir.
Droga, porque fui olhar para ele?
Agora eu estava suando frio. Mas tinha que continuar.
-‘’ Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu...
Gaguejei, eu não sei o que me deixava mais nervosa: Bernardo rindo ou aqueles dois. Eu só queria cavar um buraco e enfiar minha cabeça nele.
-‘‘... Contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama. ’’
Disse Daniel.
Eu quase pulei de susto, olhei para ele. E ele sorriu.
— ‘’Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.’’
Finalmente eu havia terminado. Não lembrava que esse soneto era tão longo assim!
Porque Daniel havia continuado o soneto? Será que ele estava querendo me ajudar?
Argh. Não mesmo. Ele é muito prepotente, com certeza fez isso para que eu me assustasse e fizesse algo ridículo na frente de todo mundo. Garoto estúpido.
Fui me sentar, não olhei para ele.
A professora continuou falando sobre o período romântico, e de como aquela época era adorável.
E finalmente o sinal para o recreio soou.
Fui até a cantina, comprei sorvete, uma das minhas sobremesas favoritas.
Cass comprou um sanduíche e refrigerante.
-Amiga?
-Sim?
-Vamos nos enturmar com os mauricinhos e patricinhas?
Pensei nisso um pouco...
-Tentador, porém não.
Disse
Cass gargalhou, e eu também.
Logo o intervalo teve fim, e voltamos para a sala.
Graças a Deus o tempo passou bem rápido, e logo o sinal anunciando o fim de aula soou.
-Liberdade amiga!
Disse Cass
-Liberdade!
Ficamos rindo por um tempo.
Eu fui procurar o celular na mochila, para ver se havia alguma ligação da mamãe.
Enquanto eu procurava, Bernardo passou por nós a toda velocidade e derrubou minha mochila longe.
-Ahh, desculpa garota nova.
Disse ele, tentando soar sincero.
-Não liga para esse idiota, talvez ele estivesse perdendo o rebanho e por isso passou correndo desse jeito.
Só Cass tinha esse dom: fazer-nos sorrir nos piores momentos.
Enquanto recolhíamos as coisas do chão, uma pessoa entregou um livro meu que havia parado longe.
-Aqui está!
Disse a garota, sorrindo.
Ela era baixinha, e tinha cabelos loiros curtos e repicados.
Seus olhos eram grandes e claros, e tinha feições alegres.
Parecia muito simpática.
-Obrigada.
Disse eu.
-Ah, não foi nada. Bem, meu nome é Isabella Grace. Somos da mesma classe, acho que não se lembra de mim... Geralmente, ninguém lembra.
Mas eu prefiro assim. Bem, qual é o seu nome mesmo?
-Meu nome é Valentina Laureate. Se quiser, pode me chamar de Val. E esse é o meu melhor amigo, Castiel.
-Pode me chamar de Cass se quiser.
Disse Castiel, cumprimentando ela.
-Seu livro, Val. Ah... Você gosta de histórias sobre anjos, não é mesmo?
-Sim. –Eu disse, pegando o livro- por quê?
-Ah, Hush Hush. — Ela disse, apontando para a capa. — É um livro bem legal. Enfim, até amanhã.
-Até.
Eu observei enquanto ela saía pelo menos alguém daqui é sociável e legal.
-Ela parece ser legal né amiga?
Disse Cass
-Parece mesmo.
-Bem, eu tenho que ir pra casa. Até amanhã.
-Até!
Eu estava saindo, quando alguém cutuca o meu ombro:
-Sabia que está me devendo um ‘obrigada’, mocinha?
Olhei para ver quem era: Daniel. Argh, garoto insuportável. O que ele queria? Que eu falasse obrigada por ele ter quase sabotado a minha apresentação? Sorte dele que deu tudo certo afinal.
-Como?
Disse eu.
-Ah, eu já devia saber que você tem um defeito. É esquecida, não é mesmo? Sabia. Bem, você é bonita eu te perdôo. Mas da próxima, tenta ser atenta e não esqueça detalhes importantes ok? Até amanhã.
Ele piscou e saiu.
Fiquei tentando digerir o que ele acabou de dizer: bonita? Perdôo? Que garoto mais prepotente.
Tentei ignorar o fato de minhas bochechas estarem ardendo e fui para casa.
Cheguei lá e o almoço estava na mesa.
-Olá sobrevivente, vamos comer?
Disse minha mãe, com um doce sorriso em sua face.
-Claro, estou morrendo de fome. Como foi o seu dia, mamãe?
Disse eu.
-Ah, normal. E o seu?
-Interessante, mas não muito.
Fiquei pensando enquanto comia, era o meu prato favorito: carne assada com purê de batata.
A escola é bem legal.

E tirando as patricinhas, a nerd metida, o garoto que me atropelou e aquele metido do Daniel, era agradável ficar naquele lugar.
-Como estou?
Disse Juliana, minha irmã mais nova.
Voltei minha atenção para ela. Estava com o uniforme da minha escola, e os cabelos soltos. Ela ficava bem ansiosa nos primeiros dias de aula.
-Está uma graça.
Disse minha mãe
-Bem, só falta uma coisa. –disse e me levantei. Fui até meu quarto e peguei uma fivela que eu gostava muito. –Aqui. Espero que goste.
Prendi a fivela em seu cabelo, Juliana correu até o espelho e pareceu satisfeita com o resultado.
-Obrigada mana! Vamos logo! Não quero atrasar em meu primeiro dia de aula.
-Não vai nem almoçar Ju?
-Ela já almoçou querida, e eu também. Já volto, vou deixar a pequena na escola.
-Tudo bem, boa sorte garota.
Disse eu.
Terminei meu almoço e fui para o quarto. Fiquei ouvindo musica por um tempo.
Milhares de pensamentos avulsos percorreram a minha mente.
Como o Alexander era bonito, e como aquela garota ruiva tem sorte por ter ele. Eu queria tanto, mais tanto, saber o que eles são um para o outro...
Depois de um tempo me peguei pensando em Daniel.
Ele é um metido idiota.
Mas o metido idiota com os olhos e sorriso mais lindos desse mundo.
Argh, não. Ele é um idiota, e seus olhos e sorriso não são tão bonitos assim.
Se há algo que eu odeio em mim mesma, é que às vezes me sinto duas pessoas diferentes presas em um único corpo.
Tentei afastar os pensamentos e descansar um pouco.
Eu estava bem cansada, para falar a verdade.
Mas, pelo menos, eu havia sobrevivido ao primeiro dia de aula.

Notas finais
espero que tenham gostado, por favor, comentem :3
bjj anjos :*